               O Morro dos Ventos Uivantes [Emily Bronte]





                         A Colina dos Vendavais
                              Traduo de
                            Ana Maria Chaves
_R_B_A -- EDITORES
Ttulo original: * Wuthering Heights *
original: Publicaes Dom Quixote, Lda.
*c* da presente edio: Editores Reunidos, Lda., 1994 e _R_B_A
Editores, _S._A.
ISBN: 972-747-108-6
Depsito legal: 80088/94
Depsito legal: B.1701-95
Fotocomposio: Espao 2 Grfico, Lisboa
Impresso e encadernao: Printer Industria Grfica. _S._A.
(Barcelona)
Printed in Spain - Impresso em Espanha


                  Prefcio de Charlotte Bronte  Nova
            Edio (1850) de ** A Colina dos Vendavais **
                           (Wuthering Heights)

   A leitura atenta de *A Colina dos Vendavais* (_Wuthering
Heights), que acabo de fazer, mostrou-me pela primeira vez com
suficiente clareza os aspectos que lhe so apontados como
defeitos, e que talvez o sejam na realidade, dando-me ao mesmo
tempo uma noo bem definida do que o livro representa para os
outros leitores -- para os leitores estrangeiros que nada
sabiam acerca da autora; para os que esto familiarizados com
os locais onde a histria se desenrola; para aqueles aos
olhos dos quais os habitantes, costumes e a geografia dos
montes e povoados do oeste do Yorkshire so algo de estranho
e desconhecido.
   *_A Colina dos Vendavais* (_Wuthering Heights) surge sem
dvida aos olhos de todos eles como uma obra chocante e rude.
As charnecas inspitas do Norte de Inglaterra no podem
obviamente despertar o seu interesse; a linguagem, as
maneiras, as prprias casas e hbitos domsticos dos
habitantes dispersos pela regio devem ser em grande parte
ininteligveis para tais leitores e, quando inteligveis,
repulsivos. Homens e mulheres que, serenos por natureza,
moderados nos sentimentos e sem traos demasiado vincados de
caracter, tenham, provavelmente, sido educados desde o bero
na observncia das mais recatadas postura e conteno de
linguagem, no sabero como interpretar o linguajar forte e
duro, as paixes desabridas, os dios sem trguas e os
rompantes, de aldees analfabetos e fidalgotes grosseiros
criados sem mais cultura ou educao que a que lhes foi
ministrada por mestres to rudes quanto eles. Como tal, um
aprecivel nmero de leitores sentir-se- agredido pela
introduo nas pginas que se seguem de palavras impressas
com todas as letras, palavras essas que, por tradio,
costumam ser representadas apenas pela primeira e ltima
letras ligadas por um :, travesso. Devo, contudo, e desde j,
afirmar que no  minha inteno pedir desculpa por tal
ocorrncia, uma vez que eu prpria considero judiciosa a
escrita de tais palavras por extenso. A prtica comum de se
dar a entender por letras isoladas todas aquelas imprecaes
com que as pessoas colricas e profanas tm por hbito
ornamentar o seu discurso  afigura-se-me um procedimento
fraco e ftil, embora bem intencionado. No entendo que
benefcios possa trazer, que sentimentos possa poupar, que
horrores possa dissimular.
   Portanto, e no tocante  rusticidade de *_A Colina dos
Vendavais* (_Wuthering Heights), admito a acusao, pois
reconheo-lhe a ndole. A obra  rstica de fio a pavio.
Bravia, spera e nodosa  como a raiz da urze. E nem poderia
ser de outro modo, sendo a sua autora, como , fruto e produto
do urzal. Tivesse a famlia ido parar    cidade, e os seus
escritos, se porventura tivesse chegado a escrever, teriam sem
dvida um caracter bem diferente. Mesmo que, por  acaso ou por
preferncia, tivesse escolhido um assunto semelhante, t-lo-ia
tratado de maneira diversa. Fosse Ellis Bell dama ou
cavalheiro acostumado ao que chamamos a mundanidade, e a sua
imagem de um lugar remoto e abandonado, bem como das suas
gentes, teria sido bem diferente da imagem divulgada pela
rapariga  da provncia. Teria sido sem dvida mais


generalista, mais abrangente. Se isso a teria tornado mais
original ou mais autntica,  difcil de dizer. No tocante aos
lugares e s paisagens, teria forosa-
mente ficado aqum em empatia: as descries de Ellis Bell no
so apenas fruto do prazer de olhar  sua volta; os montes
onde cresceu eram para ela muito mais do que um espectculo;
eram a realidade onde vivia e de que se alimentava, tal como o
eram os pssaros -- os seus moradores -- ou a urze -- o seu
fruto. Assim, as suas descries das paisagens naturais so o
que deviam ser, e tudo aquilo que deviam ser.
   J o mesmo no se passa em relao s suas descries da
natureza humana. Estou pronta a reconhecer que ela tinha pouco
mais experincia das gentes que a rodeavam do que uma freira
ter dos  camponeses que de vez em quando passam  porta do
convento.      A minha irm no era gregria por natureza,
tendo sido as circunstncias que propiciaram e acentuaram a
sua tendncia para a recluso -- excepto para ir  igreja, ou
para dar um passeio pelos brejos,  tu raramente transpunha o
limiar da porta. Embora a sua atitude fosse
benevolente para com os que viviam em redor, nunca procurou :,
relacionar-se com eles, nem, salvo raras excepes, isso
aconteceu. E, no entanto, conhecia-os. Conhecia os seus modos,
o seu linguajar, as suas sagas familiares -- era capaz de
ouvir falar deles com interesse e de falar deles
pormenorizadamente, com mincia, rigor e a propsito, mas,
*com* eles, raramente trocava uma palavra. Da que tudo aquilo
que a sua mente apreendeu da realidade dessas gentes se
tivesse cingido to s aos traos trgicos e terrveis que a
     memria mais facilmente retm das histrias ouvidas sobre
os anais secretos da vizinhana. A sua imaginao, mais
sombria que soalheira, mais recolhida que folgaz, encontrou
nesses traos a matria de onde extraiu um Heathcliff, um
Earnshaw, uma Catherine. Ao dar corpo a tais personagens,
f-lo sem saber o que fazia. Se o destinatrio do seu
trabalho, quando o leu em manuscrito, tivesse estremecido sob
o peso torturante de naturezas to cruis e implacveis, de
almas to perdidas e excomungadas, se se tivesse queixado de
que a mera audio de algumas cenas era o suficiente, pela sua
vividez e ferocidade, para lhe tirar o sono toda a noite e
perturbar a paz de esprito todo o dia, Ellis Bell
interrogar-se-ia sobre o verdadeiro significado de tal atitude
e acusaria o queixoso de pretensiosismo. Tivesse ela vivido
mais tempo, e a sua mente teria crescido forte como uma rvore
mais sublime, mais pujante, mais
frondosa, e os seus frutos amadurecidos teriam atingido uma
maturidade mais plena, um brilho mais resplandecente; porm,
numa mente assim s o tempo e a experincia podiam influir,
impenetrvel que era  influncia de outros
intelectos.
   Tendo reconhecido que de grande parte de *_A Colina dos
Vendavais* (_Wuthering Heights) se desprende o horror das
trevas profundas, que, na sua atmosfera pesada e tempestuosa,
carregada de electricidade, nos sentimos
amide a respirar os prprios raios, deixem-me agora apontar
aquelas passagens em que a claridade, se bem que toldada pelas
nuvens, e um sol algo eclipsado, atestam mesmo assim a sua
presena. Atente-se em Nelly Dean, personagem ilustrativa da
benevolncia sincera e da fidelidade despretensiosa; como
exemplo de constncia e de ternura, atente-se em Edgar Linton.
(_Haver quem pense que estas qualidades no se manifestam
com tanto brilho num homem como se manifestariam numa mulher,


mas Ellis Bell jamais entenderia tal observao: nada a
perturbava mais do que a insinuao de que a fidelidade e a
clemncia, ou a natureza sofredora c afvel, virtudes
consideradas apangio das filhas de Eva, se tornassem
fraquezas nos filhos de Ado. Para :, ela, o perdo e a
misericrdia so os mais divinos atributos do Grande Ser que
fez o homem e a mulher, e aquilo que adorna Deus
na Sua glria no pode lanar em desgraa nenhuma forma de
humana fragilidade). H um certo humor custico e saturnino na
caracterizao do velho Joseph, e a jovem Catherine  animada
por pinceladas de graa e vivacidade. Do mesmo modo, tambm a
primeira herona com esse nome no deixa de ostentar uma
estranha beleza na sua crueldade, nem uma certa honestidade a
par da mais perversa paixo e da mais apaixonada perversidade.
   Na verdade, apenas Heathcliff se revela sem redeno,
trilhando, sem um desvio que seja, a sua rota de perdio,
desde o momento em que a trouxa  desenrolada no cho e
aquela coisa de pele escura e cabelos pretos, to negra como
se o prprio Diabo a tivesse enviado surgiu ali, no meio da
cozinha, at  hora em que Nelly Dean descobre o cadver,
cnzeo e rgido, jazendo de costas na cama de painis, de
olhos esgazeados que pareciam zombar do esforo que ela fazia
para os fechar, e de boca entreaberta e dentadura branca e
afiada arreganhada, igualmente zombeteira.
   Vislumbra-se em Heathcliff um nico, e solitrio,
sentimento humano, e esse *no*  o seu amor por Catherine,
sentimento que se revela cruel e desumano -- paixo capaz de
fervilhar incandescente nas entranhas de qualquer gnio
maligno, fogo que podia ser o mago atormentado, a alma
condenada de um magnate dos infernos -- e que, pela sua
insacivel e incomensurvel fora devastadora, o prende ao
cumprimento da sentena que o condena a transportar consigo o
Inferno para onde quer que v. No, o nico elo que liga
Heathcliff  humana condio  o respeito rude que
confessamente tem por Hareton Earushaw -- o jovem que ele
arruinou; e tambm a sua estima, algo implcita, por Nelly
Dean. Omitidos estes traos solitrios, bem se poderia dizer
que ele era, no um filho de Lascar, no um cigano, mas uma
forma humana animada de sopro demonaco -- um esprito
necrfago, um gnio do mal, um Afrita.
   Se  legtimo, ou aceitvel, criar coisas como um
Heathcliff, isso no sei, e custa-me a crer que seja. Mas isto
eu sei: todo o escritor que alberga em si o dom de criar
possui algo que nem sempre comanda -- algo que, por estranho
que parea, adquire por vezes vontade e iniciativa prprias.
Ele pode at impor-se regras e traar-se princpios,
submeter-se a essas regras e a esses princpios por largos
anos talvez. Nisto, sem aviso, sem um sinal de revolta,
chega :, um momento em que essa fora no mais o deixa seguir
atrs do arado, manter-se ordeiro no trilho, chega um momento
em que essa fora escarnece das multides da cidade, sem se
importar com os gritos do condutor -- um momento em que,
recusando terminantemente continuar a construir castelos de
areia, se vira para a escultura em pedra e nos oferece um
Pluto ou um Jpiter, uma Tisfona ou uma Psyche, uma Sereia
ou uma Madona, segundo mandam os
Fados ou a Inspirao. Seja a obra osbcura ou gloriosa,
sacrlega ou divina, nada mais nos resta que a aceitao
passiva. Quanto a ti -- artista que lhe ds o nome -- o teu
quinho na obra  um trabalho passivo, sob ordens que tu
no deste, nem pudeste questionar -- que no respondiam


ao teu chamado, nem eram anuladas ao sabor dos teus caprichos.
Se o resultado for atraente, o Mundo te louvar, a ti, que
esse louvor no mereces; se repelente, o mesmo Mundo te
condenar, a ti, que to pouco mereces a condenao.
   *_A Colina dos Vendavais* (_Wuthering Heights)  obra
talhada em oficina selvagem, com ferramentas rudimentares, a
partir de materiais caseiros. A escultora encontrou um bloco
de granito numa charneca solitria e, ao pousar nele os olhos,
viu como do penedo se desprendia a cabea -- selvagem, negra,
sinistra; uma forma moldada com, pelo menos, um elemento
grandioso -- o poder. Aplicou-lhe o cinzel, sem outro modelo
que no fosse a viso das suas meditaes. Com tempo e com
trabalho, o penedo adquiriu forma humana, erguendo-se
colossal, negro e carrancudo, meio
esttua, meio rocha; enquanto esttua, terrvel e demonaco;
enquanto rocha, quase belo, nas suas tonalidades esbatidas de
cinzentos, nas suas roupagens de musgo do urzal; e a urze,
desabrochando em flores e balsmicas fragrncias, cresce fiel
aos ps do gigante.
CURRER BELL
[_Charlotte Bront] :,


__captulo I



   1801. -- Acabo de regressar da visita que fiz ao meu
senhorio -- o nico vizinho que poder perturbar o meu
isolamento. Esta regio  sem dvida magnfica! Sei que no
poderia ter encontrado em toda a Inglaterra outro lugar como
este, to retirado, to distante da mundana agitao. Um
paraso perfeito para misantropos: Mr. Heathcliff e eu prprio
formamos a parceria ideal para partilhar esse isolamento. Um
tipo formidvel, este Heathcliff! Mal ele sabia como eu
transbordava de cordialidade quando os seus olhos desconfiados
se esconderam sob os clios, ao ver-me cavalgar na sua
direco, e quando os seus dedos resolutos e ciosos se
acoitaram mais fundo nos bolsos do cole e quando lhe disse o
meu nome.
   -- Estou a falar com Mr. Heathcliff? -- perguntei.
   Aquiesceu com a cabea.
    -- Sou Mr. Lockwood, o seu novo inquilino. Quis ter a
honra de vir visit-lo logo aps a minha chegada, para lhe
apresentar as minhas desculpas e lhe dizer que espero no o
ter importunado demais com a minha insistncia em alugar a
Granja dos Tordos: constou-me ontem que o senhor tinha dito
que...
   -- A Granja dos Tordos  propriedade minha, meu caro senhor
-- atalhou ele, arredio -- e, se puder evit-lo, no permito
que ningum me importune. Entre!
   Este entre foi proferido entre dentes e o sentimento que
exprimia era mais um _V para o Diabo; at a cancela a que
se arrimava se quedou imvel, insensvel ao convite. Convite
que, acho eu, acabei por aceitar movido pelas circunstncias:
acicatava-me a curiosidade este homem que parecia, se
possvel, ainda mais reservado do que eu.
   S quando viu os peitorais do meu cavalo forcarem a
cancela,  :, que tirou a mo do bolso e abriu o cadeado,
subindo depois o trilho lamacento  minha frente, cabisbaixo.
Ao chegarmos ao ptio,
   -- Joseph, leva o cavalo de Mr. Lockwood e traz-nos vinho.
   _A criadagem est reduzida a isto, certamente, pensei eu,
ao ouvir a ordem dupla. _No admira que a erva cresa por
entre o lajedo e as sebes tenham de ser podadas pelo gado.
   Joseph era um homem j de certa idade, melhor dizendo, j
um velho, bastante velho at, se bem que de rija tmpera.
   -- Valha-me Deus! -- resmungou, com voz sumida e enfadada,
quando me segurou o cavalo, ao mesmo tempo que me fitava com
um ar to sofredor que eu, caridosamente, imaginei que ele
devia precisar da ajuda divina para digerir o jantar e que
aquele piedoso arrazoado nada tinha a ver com a minha visita
inesperada.
   Alto dos Vendavais  o nome da propriedade onde Mr.
Heathcliff vive, nome da tradio local, s por si revelador
da inclemncia climatrica a que o lugar est exposto durante
as tempestades. Ar puro e vento revigorante  coisa que no
falta a quem vive l no alto: adivinha-se a fora das nortadas
que varrem as cristas das penedias pela acentuada inclinao
de alguns abetos raquticos que guarnecem as traseiras da
casa e pelo modo como os espinheiros do cercado estendem os
seus braos descarnados todos na mesma direco, como se a


implorarem ao sol a ddiva de uma esmola. Afortunadamente, o
arquitecto teve viso suficiente para construir a casa slida
-- as janelas estreitas foram escavadas fundo na pedra e as
esquinas protegidas por grandes pedras em cunha.
   Antes de transpor a entrada principal, detive-me a admirar
as figuras grotescas que ornamentavam profusamente a fachada,
concentradas sobretudo  volta da porta, sobre a qual,
perdidos num emaranhado de grifos e meninos despudorados,
consegui lobrigar uma data - 1500 -- e um nome -- *_Hareton
Earnshaw*. Bem me apetecia tecer alguns comentrios e pedir ao
sorumbtico proprietrio que me fizesse uma breve histria do
lugar, mas a sua atitude
junto a porta parecia exigir que, das duas uma, ou entrasse
sem detena ou me fosse de vez embora, e longe de mim a ideia
de lhe aumentar a impacincia antes de poder apreciar o
interior.
   Entrmos directamente para uma sala sem passarmos por
nenhum vestbulo ou corredor -- a sala-comum, como aqui lhe
chamem. Inclui geralmente a cozinha e a sala de estar, mas
creio que no Alto dos Vendavais a cozinha teve de ser
transferida para :, outra parte da casa; pelo menos, ouvia-se
l para dentro um grande burburinho de vozes e o bater de
tachos e panelas; tambm no detectei na enorme lareira
quaisquer vestgios de assados ou cozinhados de panela, nem vi
pendurados nas paredes os reluzentes tachos de cobre ou os
passadores de folha. Numa das paredes de topo, a luz e o
calor das labaredas reflectiam-se em todo o seu esplendor nas
grandes bandejas de estanho e nos cangires e pichis de prata
que, em filas alternadas, subiam at s telhas dispostos num
enorme louceiro de carvalho. O telhado no tinha
forro, exibindo-se em toda a sua nudez aos olhares curiosos,
excepto nos locais onde ficava escondido atrs de uma
prateleira suspensa cheia de bolos de aveia, ou atrs de
presuntos fumados, de vitela, carneiro e porco, que pendiam
das traves em fiadas. Por cima da chamin enfileiravam se
velhas escopetas j sem prstimo e um par de pistolas de
aro, e, sobre o rebordo,  guisa de enfeite, trs latas de
ch pintadas de cores garridas. O cho era de lajes brancas e
polidas. As cadeiras eram antigas, de espaldar, pintadas de
verde, havendo tambm um ou dois cadeires negros e
pesados, semi-ocultos na sombra. Num nicho do louceiro estava
deitada uma enorme cadela de caa de plo avermelhado escuro,
rodeada por uma ninhada de cachorrinhos barulhentos, e havia
ainda mais ces instalados noutros recantos.
   A casa e a moblia nada teriam de extraordinrio se
pertencessem a um simples lavrador do Norte de Inglaterra, de
forte compleio e pernas musculosas, cales apertados nos
joelhos e um belo par de polainas. Indivduos desses, sentados
nos seus cadeires, com uma caneca de cerveja a transbordar
de espuma pousada na mesa redonda  sua frente, encontram-se
aos pontaps por estes montes, num raio de cinco ou seis
milhas, se chegarmos na hora certa, ou seja, depois do jantar.
Mr. Heathcliff, porm, contrasta
singularmente com o ambiente que o rodeia e o modo como vive.
 um cigano de pele escura no aspecto e um cavalheiro nos
modos e-no trajar, ou melhor, to cavalheiro como tantos
outros fidalgotes rurais um pouco desmazelado talvez, sem
contudo deixar que essa negligncia o amesquinhe no seu porte
altivo e elegante, se bem que taciturno. Alguns acus-lo-o de
orgulho desmedido, mas   eu tenho um sexto sentido que me diz
que no se trata disso -- instintivamente, sei que a sua


reserva provem de uma averso inata  exteriorizao de
sentimentos e  troca de demonstraes de afecto.  capaz de
amar e de odiar com igual dissimulao e de considerar :,
impertinncia a retribuio desse dio ou desse amor -- Espera
l, estou a ir depressa de mais -- Acho que lhe atribu, com
toda a liberalidade, os meus prprios atributos. Mr.
Heathcliff pode ter razes completamente diferentes das que me
assistem para se
esquivar a apertar a mo a algum que acaba de conhecer. O
defeito  capaz de ser meu -- a minha saudosa me costumava
dizer que eu nunca havia de conhecer o conforto de um lar, e
ainda o Vero passado provei ser perfeitamente indigno de o
possuir.
   Estava eu a saborear um ms de ameno lazer  beira-mar,
quando fui apresentado  mais fascinante das criaturas uma
deusa em carne e osso -- sem que ela, todavia, reparasse em
mim. Nunca lhe confessei abertamente o meu amor, mas, se 
verdade que os olhos falam, at um idiota teria percebido que
eu estava perdidamente apaixonado. Finalmente, ela acabou por
entender e devolveu-me o olhar com o olhar mais terno que se
possa imaginar. E que fiz eu?  vergado ao peso da vergonha
que o confesso: retrai-me timidamente como um caracol,
mostrando-me mais frio e distante a cada olhar seu, at que a
pobre inocente comeou a duvidar do que os
seus olhos lhe diziam e, perante o vexame do erro cometido,
convenceu a me a irem-se embora mais cedo.
   Esta estranha mudana de atitude valeu-me a fama de corao
empedernido, fama essa que s eu sei quo imerecida .
   Sentei-me do lado da lareira oposto quele para onde se
dirigira o meu senhorio e preenchi os momentos de silncio que
se seguiram tentando afagar o plo da cadela que, entretanto,
abandonara a ninhada para se aproximar ameaadoramente das
minhas pernas pela retaguarda, como uma loba, de dentes
arreganhados a escorrer
saliva, vidos por uma dentada.
   A festa que lhe fiz teve como resposta uma rosnadela
gutural e prolongada.
   --  melhor no se meter com ela -- rosnou Mr. Heathcliff
em unssono, dando-lhe um pontap para evitar alguma
demonstrao mais feroz. -- Ela no est acostumada a afagos,
nem  co de estimao.
   Depois dirigiu-se a passos largos para uma porta lateral e
chamou de novo:
   -- Joseph!
   Joseph respondeu qualquer coisa l dos confins da adega,
mas, como no dava sinais de subir, o patro resolveu ir ter
com ele e :, desapareceu pela escada abaixo, deixando-me na
companhia da temvel cadela e de mais dois ces ovelheiros,
de plo hirsuto e ar de poucos amigos, que com ela ciosamente
vigiavam todos os meus movimentos. Sem vontade nenhuma de
entrar em contacto com as suas
presas afiadas, deixei-me ficar sentado, muito quieto.
Achando, porm, que eles no iam entender insultos tcitos,
tive a infeliz ideia de me pr a piscar os olhos e a fazer
caretas ao trio que se postava  minha frente; nisto, algo na
minha fisionomia irritou a *madame* a   tal ponto que, num
acesso de raiva, se atirou a mim. Rechacei-a para longe e
apressei-me a colocar a mesa entre ns dois, expediente que
enfureceu o resto da matilha; meia dzia de adversrios de
quatro patas, de todos os tamanhos e idades, acorreram ao
centro da sala, vindos dos mais variados esconderijos.


Percebendo que os meus tornozelos e as bandas do casaco eram
os seus alvos preferidos, e embora conseguisse, com algum
xito, manter os mais corpulentos  distncia com a ajuda do
atiador, vi-me obrigado a gritar para que algum me viesse
ajudar a restabelecer a ordem.
   Porm, tanto Mr. Heathcliff como o criado subiram as
escadas da adega com humilhante fleuma. No creio que tenham
demorado um segundo menos que o habitual, apesar de se estar
a desencadear  volta da lareira uma verdadeira tempestade de
rosnados e latidos.
   Felizmente algum se mostrou mais lesto na cozinha; uma
mulher de fartas carnes, saia arregaada, braos nus e rosto
afogueado, lanou-se para o meio da confuso de sert em
punho, servindo-se to bem dela e da lngua como armas, que a
tempestade amainou como por magia e, quando o dono da casa
chegou ao p de ns, s ela restava, arfante, como o mar-
depois de um furaco.
   -- Mas que barulho dos diabos vem a ser este? -- perguntou
Mr. Heathcliff, olhando-me de um modo que me era difcil
suportar depois de acolhimento to pouco hospitaleiro.
    -- Dos diabos, diz muito bem! -- ripostei. -- A vara
bblica de porcos endemoninhados no podia estar possuda de
espritos piores que os destes seus animais. Isto  o mesmo
que atirar um visitante para o meio de um bando de
tigres!
   -- Eles no atacam se as pessoas no mexerem em nada
-- retorquiu o dono, pousando a garrafa  minha frente e
voltando a colocar a mesa no seu lugar. -- A obrigao deles 
manterem-se vigilantes. Aceita um copo de
vinho? :,
   -- No, obrigado.
   -- No lhe morderam, pois no?
   -- Se me tivessem mordido, o responsvel levava que contar.
   O semblante de Heathcliff descontraiu-se num sorriso.
   -- V l, Mr. Lockwood! Vejo que est transtornado. Beba um
pouco de vinho. As visitas so to raras nesta casa que, estou
pronto a admiti-lo, eu e os meus ces quase nem sabemos
receb-las. A sua sade!
   Retribu o brinde com um cumprimento, comeando ento a
perceber que seria ridculo mostrar-me ofendido com os
desmandos de meia dzia de cachorros; alm disso, detestava a
ideia de ver o homem continuar a rir-se  minha custa, j que
para a me parecia virado.
   Ele, por seu turno, considerando muito sensatamente que
seria desaconselhvel ofender um bom inquilino, e fugindo um
pouco ao seu estilo lacnico, com omisso de pronomes e verbos
auxiliares, procurou um tema de conversa que a seu ver me
interessasse, e ps-se a discorrer sobre as vantagens e
desvantagens do lugar que eu escolhera para me isolar do
mundo.
   Achei inteligente o modo como abordou os vrios assuntos e,
antes de me vir embora, senti-me encorajado a alvitrar uma
nova visita no dia seguinte.
   Ele, evidentemente, no mostrou vontade nenhuma de que a
minha invaso se repetisse. Mas eu vou, mesmo assim. 
espantoso como, comparado com ele, me sinto socivel. :,
CAPTULO II


   Ontem, a tarde instalou-se fria e brumosa. Era minha
inteno pass-la em casa,  lareira, em vez de arrostar com
lodaais e matos at ao Alto dos Vendavais.
   Porm, quando subi para o meu quarto depois do jantar
(_N._B. Janto entre o meio-dia e a uma hora; a governanta, uma
matrona que me foi legada por acrscimo com a casa, no foi
capaz de compreender, ou no quis, o meu pedido de que o
jantar fosse servido s cinco horas), com esta ideia
preguiosa a germinar-me no esprito, deparei-me ao entrar
com uma criada de joelhos, rodeada de escovas e baldes de
carvo, a atirar pazadas de cinza para apagar as brasas da
lareira e a fazer uma poeirada dos diabos. Este espectculo
fez-me voltar para baixo imediatamente; pus o chapu na
cabea e, ao cabo de quatro milhas de caminhada cheguei 
cancela da propriedade de Heathcliff, mesmo a tempo de escapar
aos primeiros flocos esvoaantes de um
nevo.
   Ali, no alto daquele monte desnudo e desolado, a terra era
dura, coberta de negra geada, e o ar frio fazia-me tremer at
aos ossos. Como no consegui abrir o cadeado que a fechava,
saltei a cancela e, metendo pelo caminho empedrado orlado de
groselheiras mal tratadas, bati em vo para que me abrissem a
porta, at ficar com os dedos dormentes e ouvir os ces a
ladrar cada vez mais.
   -- Malditos! -- pensei Bem merecem ficar eternamente
isolados dos da vossa espcie por tanta falta de
hospitalidade. Eu, pelo menos, nunca manteria as portas
trancadas durante o dia. Quero l saber, vou mas 
entrar! :,
   Meu dito, meu feito -- agarrei a aldraba e toca de a rodar
com veemncia. Joseph, com o seu ar avinagrado, deitou a
cabea de fora de uma das janelas redondas do celeiro.
   -- A qu. que vossemec vem? berrou ele. -- O patro est
p.rs lados do curral. V de roda at l baixo se vossemec
quer falar co. ele.
   -- No h ningum em casa para abrir a porta? gritei, em
resposta.
   -- S a patroa, e essa no lh.abre a porta nem que
vossemec fique p.ra a bater at ser noite.
   -- Essa agora! E voc no lhe pode dizer quem eu sou,
Joseph?
   -- T.arrenego! Eu c no tenho nada a ver com isso --
resmungou a cabea, desaparecendo em seguida.
   A neve caa agora com mais intensidade. Quando agarrei na
aldraba para insistir mais uma vez, surgiu no ptio das
traseiras um rapago em mangas de camisa e de forquilha ao
ombro, que me gritou que fosse com ele; depois de passarmos
pelo lavadouro e por uma zona empedrada onde havia um depsito
de carvo, uma bomba de gua e um pombal, chegmos finalmente
 enorme sala, alegre e aquecida, onde fora recebido da
primeira vez.
   Toda a sala resplandecia agora, copiosamente iluminada e
aquecida por uma grande fogueira de carvo, turfa e lenha, e,
junto  mesa posta para uma abundante refeio de fim do dia,
tive o prazer de ver a patroa, pessoa de cuja existncia eu
nunca antes suspeitara.
   Cumprimentei-a com uma vnia e aguardei, na esperana de
que me convidasse a sentar. Mas ela limitou-se a olhar para
mim, recostando-se ainda mais na cadeira e mantendo-se muda e
queda.
   -- Que tempo este! -- observei -- Receio, Mrs. Heathcliff,


que a sua porta sofra as consequncia; da incria dos criados;
tive um trabalho para que me ouvissem
bater!
   Ela nem abriu a boca. Eu olhava-a fixamente -- ela
olhava-me fixamente. Melhor dizendo, no tirava de mim o seu
olhar frio e distante, assaz embaraoso e desagradvel.
   -- Sente-se -- disse o rapaz com maus modos. -- Ele no
tarda por a.
   Obedeci; pigarreei e chamei pela malvada da Juno que nesta
segunda visita se dignou abanar a cauda, em sinal de
reconheci     mento. :,
   --  um belo animal! -- voltei eu  carga -- A senhora est
a
pensar desfazer-se dos cachorros?
   -- No so meus -- disse a minha afvel anfitri, em tom
ainda mais agressivo do que o prprio Heathcliff teria sido
capaz.
   -- Ah, ento os seus favoritos so estes ? -- continuei,
apontando para uma almofada escura coberta de algo parecido
com gatos.
   -- Estranha escolha a sua... -- observou ela, jocosa.
Infelizmente, tratava-se de um monte de coelhos mortos.
Pigarreei outra vez e cheguei-me mais para a lareira,
renovando os meus comentrios  tarde tempestuosa.
   -- O senhor no devia ter sado de casa -- observou ela,
levantando-se e esticando-se para tirar de cima da chamin
duas das tais latas pintadas.
   At a ela havia-se mantido na sombra, mas agora podia
v-la com toda a nitidez e colher uma imagem perfeita da sua
figura e do seu porte. Era esbelta e ainda quase uma menina.
Um corpo de formas admirveis e o rosto mais delicado que me
fora dado contemplar: traos finos, de grande beleza.
Caracis louros, ou melhor, dourados, caindo soltos sobre a
nuca delicada, e uns olhos que, fossem eles mais doces na
expresso, seriam irresistveis; para o meu corao sensvel,
felizmente, o nico sentimento que deles se desprendia pairava
algures entre o escrnio e um quase desespero, algo de to
singular e anti-natural, que eu jamais esperaria encontrar
ali.
   As latas pareciam fora do seu alcance e fiz por isso meno
de a ajudar; mas ela fuzilou-me com o olhar, qual avarento a
quem algum oferecesse ajuda para contar as moedas.
   -- No preciso de ajuda -- ripostou. -- Sou perfeitamente
capaz de l chegar sozinha.
   -- Peo-lhe que me perdoe -- disse de imediato.
   -- Foi convidado para o ch? -- perguntou, colocando um
avental sobre o vestido preto irrepreensvel e mantendo uma
colher cheia de folhas de ch suspensa sobre o bule.
   -- Aceito uma chvena com muito prazer -- retorqui.
   -- Foi convidado? -- insistiu.
   -- No -- admiti, esboando um sorriso. A senhora  a
pessoa mais indicada para me fazer o convite.
   Deitou o ch de novo para dentro da lata, com colher e
tudo, e voltou a sentar-se, amuada, de sobrolho franzido e
lbio inferior :, descado, a fazer beicinho, prestes a
irromper em lgrimas como uma criana.
   Entretanto, o rapaz tinha ido enfiar um casaco visivelmente
pudo e, todo empertigado junto  lareira, olhava para mim de
soslaio, com desdm, como se existisse entre ns alguma
ofensa mortal ainda no desagravada. Comecei a duvidar de que
fosse mesmo um criado: a indumentria e a linguagem eram pouco


cuidadas, completamente isentas da elevao de Mr. e Mrs.
Heathcliff; o cabelo castanho, espesso e encaracolado, era
spero e sem preparo, as suas avanavam-lhe pelas faces como
barba e as mos estavam
curtidas do sol como as de um qualquer cavador; no entanto, a
sua postura revelava um grande -vontade, dir-se-ia que uma
quase arrogncia, e no dava mostras da diligncia com que um
criado costuma servir a dona da casa.
   Na ausncia de provas concludentes da sua condio, achei
melhor abster-me de tecer comentrios  sua estranha conduta
e, passados cinco minutos, a chegada de Heathcliff veio de
certa forma salvar-me da situao embaraosa em que me
encontrava.
   -- Como v, meu caro senhor, aqui estou, conforme prometi!
-- exclamei, revestindo-me de cordialidade. -- E receio que o
mau tempo me obrigue a ficar mais meia hora, se o senhor puder
dar-me abrigo durante esse tempo.
   -- Meia hora? disse ele, sacudindo os flocos brancos que
lhe salpicavam as roupas. No entendo como se meteu a um nevo
destes para vir at aqui. No sabe que corre o risco de se
perder no meio dos pntanos? At as pessoas que conhecem bem
estas paragens se perdem muitas vezes em dias como este; e
garanto-lhe que o tempo no vai mudar to depressa.
   -- Talvez algum dos seus criados me possa servir de guia, e
depois pernoitar na Granja e voltar amanh; ser que me pode
dispensar um?
   -- No, no posso.
   -- Ah, estou a ver. Bom, ento vou ter de confiar no meu
sentido de orientao.
   -- Pfff!
   -- Vais ou no vais fazer o ch? -- perguntou ele ao rapaz
do casaco pudo, desviando depois o olhar irado de mim para a
jovem senhora.
   -- E *ele* tambm toma? -- perguntou ela, virando-se para
Heathcliff. :,
   -- Despache-se com isso! -- foi a resposta, proferida com
tal violncia que estremeci. O tom em que as palavras haviam
sido ditas revelava um caracter intrinsecamente mau. J no me
sentia nada inclinado a chamar a Heathcliff um tipo
formidvel.
   Quando os preparativos terminaram, ele convidou-me a tomar
ch, com um:
   -- V, meu caro senhor, traga para aqui a cadeira. --
Ento,
todos ns, incluindo o rapaz de aspecto boal, nos sentmos 
volta da mesa, guardando o mais austero silncio enquanto
saborevamos a refeio.
   Foi nessa altura que pensei que, se era eu quem ensombrava
o ambiente, era minha obrigao fazer um esforo para o
desanuviar. No era possvel que todos os dias se sentassem 
mesa to cabis     baixos e taciturnos, e era impossvel, por
mais mal dispostos que estivessem, que aquelas caras de poucos
amigos os acompanhassem diariamente.
   --  estranho -- comecei, aproveitando a pausa entre a
chvena que acabara de beber e a que de novo me serviam -- 
estranho como o hbito consegue moldar os nossos gostos e as
nossas ideias; para muitos seria inconcebvel a existncia de
felicidade numa vida to completamente exilada do mundo como a
que o senhor leva, e, no entanto, atrevo-me a dizer que aqui,
rodeado da sua famlia e com a sua encantadora esposa como
fada reinante no seu lar e no


seu corao...
   -- A minha encantadora esposa! interrompeu ele, com um
sorriso quase diablico -- Onde est ela, essa encantadora
esposa?
   -- Refiro-me a Mrs. Heathcliff,  sua esposa.
   -- Ah, estou a ver. Quer o senhor dizer que o esprito dela
assumiu o papel de anjo protector e velar pelo destino do
Alto dos Vendavais mesmo quando o seu corpo desaparecer. 
isso?
   Dando-me conta do disparate que tinha dito, tentei
corrigi-lo. Devia ter percebido que havia entre eles uma
diferena de idades muito grande para serem marido e mulher:
ele andava pelos quarenta anos, idade em que a maturidade de
esprito raramente deixa os homens ceder  iluso de que as
raparigas mais novas casam com eles por amor, sonho esse que
est reservado aos anos
de declnio e solido; e ela nem dezassete parecia ter.
   Ento fez-se luz: _Espera l, este idiota aqui ao meu
lado, a beber o ch por uma tigela e a comer o po com as mos
todas :, sujas,  bem capaz de ser o marido dela.  o
Heathcliff Junior, claro. Ora aqui est o resultado de se ser
enterrada em vida: ela entregou-se a este labrego por
desconhecer completamente que existem homens melhores! Um d
de alma; tenho de ter cuidado
para no a fazer arrepender-se da escolha.
   Esta ltima reflexo pode parecer presunosa, mas no .
A impresso em mim deixada pelo rapaz sentado ao meu lado
tocava as raias da repulsa, e eu sabia, por experincia, que
era um homem razoavelmente atraente.
   -- Mrs. Heathcliff  minha nora -- explicou Heathcliff,
confirmando as minhas suspeitas, ao mesmo tempo que olhava
para ela de um modo sinistro, com o olhar carregado de dio, a
menos que os seus msculos faciais sejam to perversos que se
recusem, ao contrrio dos das outras pessoas, a interpretar a
linguagem da alma.
   -- Ah, claro, agora percebo;  o senhor o feliz
proprietrio desta fada benfazeja -- corrigi, virando-me para
o rapaz sentado ao meu lado.
   O resultado foi ainda mais desastroso: o rapaz corou
subitamente e cerrou os punhos numa atitude de agresso
iminente. Mas logo se controlou, dissipando a fria numa praga
resmungada entredentes e que me era dirigida, mas a que tive o
cuidado de no responder.
   -- Pouco afortunado nas suas conjecturas, meu caro senhor!
-- observou o meu anfitrio. -- Nenhum de ns tem o privilgio
de ser o dono da sua boa fada; o marido dela morreu. Acabei de
lhe dizer que ela  minha nora, portanto deve ter casado com o
meu filho.
   -- E este jovem ...
   -- Meu filho  que ele no  certamente!
   Heathcliff sorriu de novo, como se tivesse sido ousadia
demais atribuir-lhe a paternidade de um tal brutamontes.
    -- O meu nome  Hareton Earnshaw -- grunhiu o outro -- e
aconselho-o a respeit-lo!
   -- No incorri em desrespeito -- respondi, rindo-me
interiormente da dignidade com que ele se apresentara.
   Os seus olhos fitaram-me longamente, para l do que me era
dado suportar, e desviei o olhar, no fosse eu sentir-me
tentado a dar-lhe um soco ou a dar voz  minha hilariedade.
Comeava a sentir-me indubitavelmente a mais naquele acolhedor
ambiente :, familiar. A atmosfera sinistra pesava-me na alma,


neutralizando por completo o conforto e o aconchego fsico que
me rodeavam, e resolvi pensar duas vezes antes de voltar a
abrigar-me uma terceira sob aquele tecto.
   Acabada a refeio, e como ningum proferisse uma s
palavra para alimentar a conversa, aproximei-me de uma janela
para ver como estava o tempo.
   O que vi foi um espectculo de desolao: a noite prestes a
fechar-se prematuramente e o cu e os montes irmanados no
mesmo turbilho sufocante de neve e vento.
   -- No creio que seja possvel voltar agora para casa sem
um guia -- no pude deixar de exclamar. -- As estradas j
devem estar cobertas de neve, e mesmo que estivessem
desimpedidas, no veria um palmo  frente do nariz.
   -- Hareton, leva aquelas ovelhas para o coberto do celeiro.
Se  passarem a noite no redil, ficam tapadas com a neve; e
coloca uma tbua  frente delas -- ordenou Heathcliff.
   -- E eu, o que  que eu fao? -- insisti, com crescente
irritabilidade.
   A minha pergunta ficou sem resposta; e, olhando em volta,
vi apenas Joseph, a acartar um balde de comida para os ces, e
Mrs. Heathcliff, inclinada sobre o lume, entretida a queimar
um monte de fsforos que tinham cado da chamin quando voltou
a remeter a lata de ch ao seu lugar.
   O primeiro, mal largou a sua carga, esquadrinhou a sala com
ar crtico e matraqueou asperamente, entrecortando as
palavras:
   -- Pasmo como vossemec pode estar aqui ao lume sem fazer
nada, quando toda a gente anda l por fora! Mas vossemec no
presta para nada, e nem vale a pena falar consigo. Vossemec
nunca s.-de emendar; e h-de ir p.r inferno como a sua me!
   Por instantes pensei que esta pea de retrica me fosse
dirigida e, com justificada indignao, avancei para o velho
insolente disposto a corr-lo dali para fora a pontap.
   Porm, a resposta de Mrs. Heathcliff deteve o meu gesto.
-- No passas de um velho hipcrita e desavergonhado! --
exclamou. No tens medo de que o Diabo te venha buscar de cada
vez que pronuncias o seu nome? J te avisei para no me
provocares, seno ainda lhe peo o especial favor de te levar
de vez. Pra com isso, ests a ouvir, Joseph -- prosseguiu
ela, tirando de uma estante um livro comprido de capa preta
Vou mostrar-te os :, progressos que fiz na Magia Negra: em
breve estarei apta a exorcizar esta casa. A vaca rua no
morreu por acaso; e as tuas crises de reumtico no so de
certeza bnos do cu!
   -- Ah, maldita, grande maldita! gemeu o velho. -- Que o
Senhor nos livre de todo o mal!
   -- No, alma danada! Tu  que ests condenado; desaparece,
se no queres ver o que te acontece! Transformo-vos a todos em
bonecos de barro e cera; e o primeiro que passar dos limites
por mim impostos h-de... No, no vou dizer o que lhe vai
acontecer... Logo vers! V desanda, olha que estou de olho
alerta!
   Os belos olhos da bruxazinha cintilaram de malcia e Joseph
saiu apressado, a tremer de genuno pavor, enquanto rezava e
repetia maldita, maldita.
   Pensando que a atitude da jovem no passara de uma
brincadeira, se bem que um tanto sinistra, e uma vez que
tnhamos ficado a ss, procurei partilhar com ela a minha
angstia.
   -- Mrs. Heathcliff -- disse, com todo o respeito, --
peo-lhe


que me perdoe se a incomodo, mas com esse seu rosto, tenho a
certeza que s sabe fazer o bem. Por favor d-me alguns
pontos de referncia que me permitam encontrar o caminho de
casa; sem eles, sou to capaz de l chegar, como a senhora de
chegar a Londres!
   -- Volte pelo caminho que o trouxe -- respondeu ela,
afundando-se num cadeiro, com uma vela acesa ao lado e o tal
livro comprido  sua frente. -- O conselho no servir de
muito, mas  o melhor que tenho para lhe dar.
   -- Mas, depois, quando ouvir dizer que me encontraram morto
num pntano ou atolado de neve num barranco, a sua conscincia
no lhe segredar ao ouvido que parte da culpa  sua?
   -- Minha como? Eu no posso acompanh-lo. Eles no me
deixavam ir nem ao fundo do muro da quinta.
   -- A senhora tem cada uma! Nem eu seria capaz de lhe pedir
que pusesse o p fora de casa numa noite destas por minha
causa  -- exclamei. -- O que eu quero  que me *diga* qual  o
caminho, no que mo *mostre*; ou ento que convena Mr.
Heathcliff a mandar algum
acompanhar-me.
    -- Mas quem? Aqui em casa s estamos: Mr. Heathcliff, o
Earnshaw, a Zillah, o Joseph e eu. Qual de ns prefere?
   -- Ento na quinta no h mais criados?
   -- No, estes so tudo o que temos.
   -- Sendo assim, s me resta pernoitar aqui. :,
   -- Isso  assunto para ser tratado com o dono da casa. No
me diz respeito.
   -- Espero que lhe sirva de lio! -- a voz de Heathcliff
soou
austera na entrada da cozinha. -- Quanto a pernoitar aqui,
devo inform-lo de que no tenho quarto de hspedes; se
quiser, tem de      dormir com o Hareton ou o Joseph.
   -- Posso dormir aqui mesmo na sala, sentado numa cadeira --
retorqui.
   -- No pode, no. Um estranho  sempre um estranho, seja
ele rico ou pobre. No me agrada que ande por a algum 
solta quando eu no estou por perto -- disse o infame,
rudemente.
   Com este insulto, a minha pacincia chegou ao fim.
Articulei um desagravo qualquer e sa porta fora como um
furaco; mas fi-lo com tal impetuosidade que fui esbarrar com
o Earnshaw no meio do ptio. A escurido que me envolvia era
to completa que no conseguia dar com a sada, e, enquanto
andava por ali s voltas, tive oportunidade de ouvir mais uma
conversa elucidativa da delicadeza com que esta gente se
tratava.
   A princpio, o rapaz parecia estar a meu favor.
   -- Vou com ele at ao parque -- alvitrou.
   -- Vais mas  com ele at ao inferno! -- exclamou o patro,
(ou o que quer que ele era ao rapaz) E quem d de comer aos
cavalos, no me dizes?
   -- A vida de um homem  mais importante do que deixar os
cavalos sem rao por uma noite; tem de ir algum com ele
-- murmurou Mrs. Heathcliff, com inesperada
benevolncia.
   -- Eu no obedeo s suas ordens! replicou Hareton. -- Se
ele lhe interessa tanto,  melhor ficar calada.
   -- Pois s espero que a alma dele te persiga; e que Mr.
Heathcliff no arranje mais nenhum inquilino at a Granja
estar a cair aos bocados! exclamou ela com veemncia.
   -- Olha, olha, ela est a rogar-lhes pragas! -- balbuciou


Joseph, em direco ao qual eu me dirigira.
   Estava ali a dois passos, sentado a ordenhar as vacas  luz
de uma lanterna a que eu, sem cerimnias, deitei a mo,
correndo em seguida para a cancela mais prxima, ao mesmo
tempo que gritava que mandaria devolver a lanterna no dia
seguinte.
   -- Patro! Patro! Ele palmou a lanterna! berrou o ancio,
indo no meu encalo. Anda Gnasher! V, co! Eh, Wolf! A ele, a
ele! :,
   Mal deitei mo  cancela, dois monstros peludos saltaram-me
 garganta, atirando-me ao cho e apagando a lanterna, ao
mesmo     tempo que, para cmulo da raiva e da humilhao,
ouvia Heathcliff e Hareton rirem a bom rir.
   Por sorte, os ces pareciam mais interessados em esticar as
patas, abrir as bocarras em longos bocejos e abanar as caudas
do que em devorar-me. Opunham-se, no entanto, a qualquer
tentativa que eu fizesse para me levantar, pelo que no tive
outro remdio seno deixar-me ficar deitado at os malditos
dos donos acharem por bem vir libertar-me. Nessa altura, sem
chapu e tremendo de clera, ordenei aos miserveis que me
deixassem partir, sob pena de lhes acontecer o pior se me
retivessem ali por mais um minuto que fosse, e tudo isto
acompanhado de incoerentes ameaas de retaliao que, em toda
a sua confusa virulncia, pareciam extradas
*d._O Rei Lear*. (1)
   Tamanha exaltao fez-me sangrar copiosamente pelo nariz, o
que tornou ainda mais sonoras as gargalhadas de Heathcliff e
mais veementes as minhas imprecaes. E no sei como tudo isto
iria acabar, se no fosse ter aparecido algum bem mais
racional do que eu e mais benevolente que o meu anfitrio.
Essa pessoa era Zillah, a robusta governanta, que acabou por
vir c fora para saber qual a razo de tanto barulho. Pensando
que alguns deles me tivessem maltratado, e no ousando
admoestar o patro, assestou a sua artilharia verbal contra o
patife mais novo.
   -- Sim senhor, Mr. Earnshaw -- bradou ela, -- sempre quero
ver o que vai fazer a seguir! Agora tambm matamos gente 
nossa porta,? Estou a ver que esta casa no me serve...
Olhe-me p.ro pobre rapaz, quase sufocado! V, v! Isto no
pode continuar... Vamos l para dentro e eu trato de si.
Pronto, agora deixe-se ficar quieto.
   E, dizendo isto, atirou-me  cara um copo de gua gelada
que me escorreu pelo pescoo abaixo, e arrastou-me para a
cozinha. Mr. Heathcliff veio atrs de ns, tendo a sua alegria
acidental dado j lugar  costumeira taciturnidade.
   Eu sentia-me extremamente mal, muito tonto e prestes a :,
\\\
   (1)  Cf. *_O Rei Lear*, Acto II, Cena 4:
As vinganas que vos reservo
Repercutir-se-o pelo mundo -- coisas terrveis farei;
Que coisas sero, no sei; sei apenas que faro
Tremer a terra.
desmaiar, e, como tal, forado pelas circunstncias a aceitar
guarida sob o seu tecto. Ordenou a Zillah que me desse um copo
de aguardente e passou para o quarto interior. Ela,
entretanto, foi-me consolando da triste situao em que me
encontrava e, depois de cumprir a  ordem recebida, o que me
ajudou a reanimar um pouco, levou-me at ao meu quarto.


CAPTULO III


   Enquanto subia a escada  minha frente, Zillah foi-me
dizendo para esconder a vela e no fazer barulho, pois o
patro tinha uma cisma especial pelo quarto onde eu ia
pernoitar e mostrava sempre grande relutncia em alojar l
algum.
   Perguntei qual o motivo.
   No sabia, respondeu; s l trabalhava h um ou dois anos,
e, alm disso, passavam-se coisas to estranhas e eram tantas
as discusses, que ela no podia permitir-se ser curiosa.
Confesso que estava demasiado cansado para grandes
curiosidades. Fechei a porta do quarto e procurei a cama. A
moblia consistia numa cadeira, um roupeiro e uma enorme
armao de madeira de carvalho com aberturas quadradas na
parte superior, semelhantes a janelas de carruagem.
Aproximei-me daquela estranha armao e, espreitando, vi que
se tratava de um leito de outros tempos, extremamente original
e prtico na concepo, estudado para obviar  necessidade de
cada membro da famlia ter um quarto s para si: de facto, a
referida pea formava como que um pequeno cubculo; estava
encostada a uma das janelas, cujo peitoril servia de
escrivaninha.
   Corri os painis laterais, entrei l para dentro, levando a
vela comigo e voltei a fech-los, sentindo-me protegido contra
a intromisso de Heathcliff ou de quem quer que fosse.
   O tal parapeito, onde pousei a minha vela. continha alguns
livros velhos e bolorentos empilhados a um canto e estava
repleto de inscries gravadas na madeira. Essas frases, no
entanto, limitavam-se a um nico nome, escrito e repetido em
vrios caracteres, grandes e pequenos: *_Catherine Earnskaw.
De vez em quando, o nome mudava para Catherine Heathcliff* ou
*_Catherine Linton*. :,
   Dominado por uma preguia indolente, encostei a cabea 
janela e continuei a soletrar aqueles nomes: Catherine
Earnshaw... Heathcliff... Linton..., at que acabei por
adormecer. Porm, no tinham passado ainda cinco minutos
quando, de sbito, vindas do escuro, comearam a surgir letras
brancas, cintilantes, que pairavam no ar como fantasmas. No ar
volteava um enxame de __Catherines... Levantei-me,
gesticulando, para afugentar aquele nome to incomodativo e
reparei que o pavio da vela estava a chamuscar a lombada de um
dos volumes, exalando um odor a pele queimada.
   Tirei o morro da vela e, incomodado pelo frio e nusea
persistentes, sentei-me e abri sobre os joelhos o volume
danificado. Era uma Bblia, impressa em letra miudinha e com
um cheiro intenso a bolor e humidade. A folha introdutria
continha a inscrio __Pertence a Catherine Earnshaw e,
pela data que a acompanhava, percebi que o livro tinha um
quarto de sculo.
   Fechei-o e escolhi outros volumes at que os examinei a
todos. A biblioteca de Catherine era extremamente seleccionada
e, dado o mau estado de conservao dos exemplares, devia ter
tido grande uso, embora nem sempre para uma leitura normal.
Poucos captulos tinham escapado aos comentrios a tinta --
pelo menos era o que parecia -- preenchiam por completo os
espaos em branco do
texto.
   Havia algumas frases soltas; outras, pelo aspecto, pareciam


pginas de um dirio, escritas com uma letra infantil e
bastante irregular. No cimo de uma pgina em branco, por
certo um tesouro para quem a vislumbrasse pela primeira vez,
deparei satisfeito com uma excelente caricatura do meu amigo
Joseph, extraordinariamente fiel, apesar dos traos
grosseiros.
   Desde logo, comecei a sentir uma simpatia especial para com
esta desconhecida de nome Catherine, dedicando-me de imediato
 tentativa de decifrar aqueles hierglifos quase
indecifrveis.
   __Que domingo horrvel! Era assim que comeava o
pargrafo seguinte. __Quem dera que o meu pai voltasse. O
Hindley  um substituto detestvel. O seu comportamento para
com o Heathcliff  atroz. Eu e H. decidimos revoltar-nos. Esta
noite j demos o primeiro passo.
   __Hoje no parou de chover. Como no pudemos ir  missa, o
Joseph decidiu reunir os fiis no sto. Enquanto o Hindley e
a mulher estavam confortavelmente instalados frente  lareira,
fazendo mil e uma coisas excepto ler a Bblia (tenho a certeza
:, absoluta do que digo), eu, o Heathcliff e o pobre do moo
da lavoura recebemos ordens para pegarmos nos nossos livros de
oraes e, subirmos, e l ficmos, sentados em fila sobre os
sacos de milho,
gemendo e tremendo de frio, desejando com toda a fora que o
Joseph tambm sentisse frio e resolvesse abreviar a homilia.
Em vo! A missa durou precisamente trs horas. E, ainda por
cima, o meu irmo teve a desfaatez de exclamar, vendo-nos
descer: -- O qu, j acabou?
   __Antigamente, deixavam-nos brincar aos domingos  tarde,
desde que no fizssemos muito barulho. Agora, uma simples
gargalhada  motivo para nos porem de castigo!
   _-- Esquecem-se de que quem manda aqui sou eu -- diz o
tirano. -- Destruirei o primeiro que se atreva a irritar-me!
Exijo o maior respeito e silncio. O qu? Foste tu, no foste,
meu menino? Frances, querida, se o apanhares a jeito, puxa-lhe
o cabelo. Parece-me que o ouvi estalar os dedos.
   __Frances puxou o cabelo do rapaz com requintada malvadez.
Depois, sentou-se no colo do Hindley e assim ficaram, como
duas crianas tontas, beijando-se e dizendo tolices (frases
to ridculas que teramos vergonha de as repetir).
   __Tentmos aconchegar-nos o melhor que podamos no nicho
do louceiro. Tinha eu acabado de improvisar uma cortina com os
nossos bibes quando, de repente, chegou o Joseph, vindo dos
estbulos. De imediato, destri o meu trabalho e agarra-me
pelas orelhas, grunhindo:
   _-- O patro ainda mal foi enterrado, o sbado ainda nem
terminou e a palavra do Evangelho ainda ecoa nos vossos
ouvidos, mas vs j vos divertis! Que vergonha! Sentai-vos,
midos dum raio! Lede, lede bons livros. Sentai-vos e meditai
sobre as vossas almas!
   __Depois, obrigou-nos a mudar de stio para que, longe da
lareira, apenas pudssemos receber um tnue raio de luz que
iluminasse a montanha de livros que nos atirou.
   __Isto foi demais para mim. Peguei naquele livro todo sujo
pela capa e arremessei-o para o cesto dos ces, gritando que
detestava livros bons.
   __O Heathcliff deu um chuto no livro dele, que foi parar
ao
mesmo stio.
   __Foi o fim do mundo!
   _-- Master Hindley! -- gritou o nosso catequista -- Master


:, Hindley, venha ver! Miss Cathy deu cabo da capa do livro
*_O Escudo dla Salvao* e o Heathcliff deu um pontap no
volume d.*_o Longo Caminho para a Destruio*! No os vai
deixar ficar a rir, pois no? Ah! Se ao menos o velho patro
fosse vivo. Esse  que lhes dava uma boa lio!
   __O Hindley ergueu-se do seu paraso terrestre e,
agarrando-nos, um pela gola e o outro pelo brao, arrastou-nos
para a cozinha onde, segundo as profecias de Joseph, o Diabo
nos iria perseguir e castigar. Ento, aliviados pela ameaa,
procuramos cada um o seu recanto seguro para aguardarmos a sua
chegada.
   __Peguei depois neste livro e num tinteiro que estava na
prateleira, escancarei a porta da sala para ter luz e pus-me
a escrever durante vinte minutos. Porm, o meu companheiro
estava impaciente e props que levssemos o capote da
leiteira para nos abrigarmos e fugssemos para a charneca.
Que ptima ideia. Assim, quando aquele velho rabugento entrar
na cozinha e no nos vir, depressa concluir que a sua
profecia se cumpriu. E, depois,  impossvel ficarmos mais
encharcados ou com mais frio do que j estamos.
   Penso que Catherine conseguiu concretizar o seu plano, dado
que a frase seguinte refere uma situao nova: um rol imenso
de queixas e lamentos.
   __Nunca imaginei que o Hindley me fizesse chorar tanto!,
escreve ela. _Di-me tanto a cabea que mal a consigo deitar
na almofada. Apesar de tudo, no consigo deixar de chorar.
Pobre Heathcliff! O Hindley chama-lhe vagabundo e proibiu-o
de conviver ou fazer as refeies connosco. Alm disso,
proibiu-nos de brincar, ameaando expuls-lo de casa caso
voltasse a desobedecer.
   _Tem andado a culpar o nosso pai (como  possvel!) pelo
tratamento generoso que concedeu a H. E promete que o h-de
colocar no seu devido lugar.
   Comecei a cabecear com sono sobre aquela pgina esbatida. O
meu olhar perdia-se entre o manuscrito e o texto impresso.
Reparei num ttulo, ornamentado a vermelho: *_Setenta Vezes
Sete, e O Primeiro da Septuagsima Primeira. Um piedoso sermo
proferido pelo :, Reverendo Jabes Branderham, na Capela de
Gimmerdem Sough*. E enquanto eu dava voltas  cabea, tentando
adivinhar o teor do sermo de Jabes Branderham, recostei-me
no leito e adormeci.
   Maldito ch e maldito feitio o meu! Que mais poderia ter
estragado a minha noite? Nunca me senti to mal na minha
vida.
   Comecei a sonhar ainda antes de perder a noo do tempo e
do espao. Pensei que j tinha adormecido e que me dirigia
para casa, tendo Joseph como guia. A neve cobria por completo
a estrada e dificultava-nos a caminhada.  medida que
avanvamos a custo, o meu companheiro no parava de me
repreender pelo facto de eu no ter trazido um bordo de
peregrino. Afirmava com insistncia que eu jamais poderia
entrar sem ele e brandia ameaadoramente uma pesada clava,
como me pareceu que ele lhe chamava.
Por momentos, achei que era absurdo precisar de uma arma
daquelas para entrar na minha prpria casa. Foi ento que me
ocorreu uma outra ideia. No era para casa que nos
dirigamos, mas sim para irmos escutar o clebre sermo de
Jabes Branderham, a partir do texto *_Setenta Vezes Sete*. Por
outro lado, era certo e sabido que um de ns, ou eu ou
oJoseph, o catequista, estaramos includos em *_O Primeiro da


Septuagsima Primeira* e iramos ser denunciados e
excomungados publicamente.
   Chegmos a uma capela. De facto, j havia passado por ela
duas ou trs vezes nos meus passeios pelo campo. Fica num vale
elevado, situado entre duas colinas e prximo de um terreno
pantanoso, cuja mistura com a turfa permite, segundo dizem,
embalsamar os corpos a enterrados. O tecto ainda se conserva
intacto. Porm, como este edifcio de duas divises corre o
risco de ficar reduzido a um s compartimento, e tendo em
conta que o estipndio do proco  de apenas vinte libras por
ano, depressa se conclui que nenhum padre querer ser pastor
deste rebanho, sobretudo quando se sabe que os fiis preferem
deix-lo morrer de fome a contriburem com um tosto que seja
dos seus bolsos. No entanto, no meu sonho, Jabes falava para
uma assembleia vasta e atenta que enchia por completo a
igreja. E como ele pregava... Santo Deus, que sermo!
Dividido em *quatrocentas e noventa* partes, cada uma das
quais de durao igual a uma homilia vulgar, versando sobre um
determinado pecado!
   Sinceramente, no sei onde  que ele os fora buscar. Cada
frase era interpretada de forma peculiar, tentando convencer
os presentes de que cada pessoa comete vrios pecados em
simultneo. :,
   Os pecados eram extraordinariamente estranhos.
Transgresses bizarras como eu nunca antes imaginara.
   Ah! Que tdio imenso. Eu dava voltas na cadeira, bocejava e
cabeceava sonolento, tentando em vo manter-me desperto.
Belisquei-me vezes sem conta at fazer doer, para afastar o
sono, esfreguei os olhos, levantei-me, voltei a sentar-me e
chamei a ateno do Joseph para saber quando acabaria aquele
suplcio!
   Estava condenado a ouvir o sermo todo. Por fim, ele chegou
a *_O Primeiro da Septuagsima Primeira*. Ento, assaltou-me
uma sbita inspirao. Levantei-me e denunciei Jabes
Branderham como autor de um pecado que nenhum cristo poder
perdoar.
   -- Reverendssimo -- exclamei -- sentado entre estas quatro
paredes, tentei aguentar e perdoar, dentro dos limites do
humano, as quatrocentas e noventa partes do seu sermo.
Setenta vezes sete vezes estive prestes a pegar no meu chapu
e ir-me embora. Setenta vezes sete vezes Vossa Reverncia teve
o desplante de me obrigar a sentar; mas, agora que chegou 
quadrigentsima nonagsima primeira parte,  demais. Caros
companheiros de suplcio, vamos a ele! Atirem-no ao cho e
faam-no em pedaos, para que _a sua morada jamais o
reconhea (1)
   -- *_Tu s o Homem*! -- gritou Jabes, depois de uma pausa
solene, debruando-se do plpito. Setenta vezes sete vezes te
vi contorcer o rosto em sinal de desdm. Setenta vezes sete
vezes procurei encontrar explicao na minha alma. Vede, este
 um sinal da fraqueza humana e tambm ele ser perdoado! *_O
Primeiro da Septuagsima Primeira* est aqui. Irmos,
executem sobre ele a sentena prevista! Glria aos Santos do
Senhor.
   Ao ouvir estas palavras, a assembleia comeou a cercar-me,
brandindo os seus bordes de peregrinos; eu, indefeso, tentei
desarmar o Joseph, o mais mais prximo e feroz agressor; no
meio da confuso, vrios paus se cruzaram no ar; algumas
pancadas que me eram destinadas atingiram outros. De repente,
a capela transformou-se num cenrio brutal onde ecoavam
golpes e contra-golpes. :,


\\\
   (1) Cf. Job, 7:10, _Nem tornar mais a sua casa, nem o
lugar onde estava o conhecer jamais.

   Cada homem erguia a sua mo contra todos; (2) Branderham
desejoso de entrar em aco, empregava-se a fundo, batendo
violentamente no bordo do plpito e produzindo um som to real
que, para meu sossego, depressa me acordou.
   Afinal, o que teria estado na origem de todo este tumulto?
E quem representara o papel de Jabes nesta luta? Apenas e
simplesmente uma pernada de abeto que, sacudida pela forte
ventania, batia com persistncia na vidraa!
   Pus-me  escuta por instantes. Depois, tendo detectado a
causa do distrbio, voltei-me, adormeci e tive um novo sonho.
Um sonho, se possvel, ainda mais estranho e desagradvel que
o anterior.
   Desta vez, lembro-me de que estava deitado neste
compartimento de carvalho e conseguia ouvir com clareza a
forte ventania e a inclemncia da tempestade de neve. Escutava
ainda as irritantes pancadas dos galhos na janela, tendo
sossegado assim que percebi qual a sua causa. No entanto, o
som era to incomodativo que, dentro do possvel, resolvi
par-lo. No meu sonho, levantava-me e tentava abrir a janela;
o fecho estava soldado ao encaixe da lingueta, algo que eu j
havia notado quando acordara, mas que entretanto esquecera.
   _Tenho de acabar com este barulho d l por onde der!
resmunguei, impaciente. E foi assim que, com um soco, parti o
vidro, esticando em seguida o brao para agarrar o ramo.
Porm, contrariamente ao esperado, agarrei os dedos de uma
mo de criana, pequena e glida!
   Fiquei completamente aterrorizado pela intensidade do
pesadelo. Tentei largar a mo, mas ela agarrou-se ainda com
mais fora. Subitamente, escutei uma voz extremamente
melanclica e triste, soluando.
   _Deixe-me entrar, por favor, deixe-me entrar!
   _Quem s tu? perguntei, lutando desesperadamente para me
libertar da mo que me agarrava.
   _Catherine Linton respondeu a voz, trmula (por que razo
 que me lembrara de *_Linton*? Afinal, tinha deparado mais
vezes com o apelido *Earnshaw* do que Linton). _Voltei,
perdi-me nos brejos!
\\\
   (2) Cf. Genesis, 16:12. _Este ser um homem fero, cuja mo
ser contra todos, e contra o qual tero todos a mo
levantada.
Na escurido, consegui ver um rosto de criana olhando pela
janela. Ento, o meu terror transformou-se em crueldade. Face
 :, impossibilidade de me libertar daquela criatura,
agarrei-lhe o pulso e rocei-o no vidro partido at o sangue
comear a escorrer, acabando por molhar os lenis. Porm, a
estranha viso continuava a gemer _Deixe-me entrar!,
agarrando-se a mim com tal tenacidade que quase me enlouquecia
de pavor.
   _Como...?! disse-lhe ento. _Larga-me, se queres que te


deixe entrar!
   Assim que os seus dedos se soltaram, retirei rapidamente a
minha mo e comecei a empilhar livros e mais livros contra a
janela, tapando os ouvidos para no ouvir mais os seus
lamentos.
   Devo ter permanecido assim por mais de um quarto de hora.
Porm, mal os destapei, logo o choro triste e dolente
recomeou.
   _Vai-te! gritei. _Nunca te deixarei entrar, nem que
implores durante vinte anos.
   _Vinte anos lamentou-se, _H vinte anos que ando a
penar!
   De repente, ouvi um ligeiro rudo no lado de fora e a pilha
de livros mexeu-se, como se tivesse sido empurrada. Tentei
fugir, mas no me consegui mexer. Ento, estarrecido, gritei o
mais alto que podia.
   Envergonhado, descobri que a minha gritaria tinha sido bem
real. Passos apressados dirigiam-se para o meu quarto.
   De sbito, algum abriu a porta com violncia e uma luz
bruxuleante iluminou o tecto da minha cama. Sentei-me ainda a
tremer, e limpei as gotas de suor que me inundavam a testa. O
intruso pareceu hesitar, e depois resmungou qualquer coisa.
   Por fim, perguntou, quase num sussurro, como se no
esperasse uma resposta:
   -- Est a algum?
   Achei conveniente revelar a minha presena, na medida em
que, conhecendo o temperamento de Heathcliff, era certo e
sabido que ele iria continuar as buscas caso eu permanecesse
quieto.
   Assim, voltei-me e corri os painis laterais. Meu Deus, to
cedo no esquecerei a reaco que o meu acto provocou.
   Heathcliff estava perto da porta, de calas e camisa, com a
vela a pingar cera para cima dos seus dedos, e o rosto branco
como a cal. O primeiro rangido da madeira apanhou-o de
surpresa como um choque elctrico. O castial saltou-lhe das
mos e ele, dando mostras de grande nervosismo, quase no
conseguia apanh-lo.
    -- Sou eu, o seu hspede -- gritei, tentando poup-lo 
humilhao de constatar a sua cobardia. -- Infelizmente tive
um :, pesadelo terrvel e devo ter gritado durante o sono.
Peo-lhe perdo se o incomodei.
   -- Que diabo, Mr. Lockwood! Quem me dera que fosse... --
comeou o meu anfitrio, pousando a vela numa cadeira, dado
que no conseguia parar de tremer.
   Quem  que o instalou neste quarto? -- continuou, cravando
as unhas nas palmas das mos e rangendo os dentes para parar
as convulses do maxilar. -- Quem foi? A minha vontade era
expulsar imediatamente o responsvel!
Foi a Zillah, a sua criada respondi, pondo-me de p e
comeando a vestir-me rapidamente. -- No me importaria nada
que o fizesse, Mr. Heathcliff. Ela bem o merecia. Se queria
provar que o quarto  assombrado, ento conseguiu-o. E  minha
custa. Meu Deus, isto est cheio de fantasmas e demnios!
Ainda bem que o mantm fechado. Ningum lhe agradecer tantas
e to malfadadas emoes neste stio infernal!
   Que pretende dizer com isso? -- perguntou Heathcliff. -- E
o que  que est para a a fazer? Deite-se e veja se dorme, j
que est *aqui*. Mas, por amor de Deus, no volte a repetir
esse barulho horrvel! Nada o justifica, a menos que lhe
estivessem a cortar a garganta!


   -- Se aquele diabinho tivesse entrado, ter-me-ia certamente
estrangulado! contestei. -- J estou farto das perseguies
dos seus _simpticos antepassados. Aposto que o Reverendo
Jabes Branderham era seu parente pelo lado da me. E aquela
serigaita da Catherine Linton, ou Earnshaw, ou l como se
chamava, deve ter sido uma boa peste! Disse-me que andava a
vaguear na terra h vinte anos. Ora a est um castigo mais do
que justo para os seus pecados mortais!
   Tinha acabado de proferir estas palavras quando me lembrei
da ligao existente entre Heathcliff e a tal Catherine do
livro, facto que tinha descurado por completo. Corei de
vergonha perante tal desconsiderao e, para disfarar,
apressei-me a acrescentar:
   A verdade, meu caro senhor,  que passei a primeira metade
da noite... -- Mas, detive-me, pois j ia a dizer: a analisar
estes livros velhos -- facto que revelaria, sem dvida, o meu
conhecimento do seu contedo e anotaes. Ento,
corrigindo-me, continuei: -- Lendo vezes sem conta o nome que
se encontra gravado no peitoril da janela. Um passatempo algo
montono, mas eficaz para adormecer, como quem conta carneiros
ou... :,
   -- O que pretende o senhor *insinuar* ao dirigir-se-me
dessa forma? -- trovejou Heathcliff com uma veemncia
irracional. -- Como, repito, como se *atreve* a tal debaixo do
meu tecto? Cus! S pode estar louco para falar comigo dessa
maneira! -- rematou, dando uma palmada na testa, furioso.
   Confesso que no sabia se havia de ficar ofendido com a sua
linguagem, ou se, pelo contrrio, devia continuar com a minha
explicao, mas a verdade  que Heathcliff parecia ter ficado
to abalado que me condo a prossegui com a explicao dos
meus sonhos, afirmando que nunca tinha ouvido falar de
_Catherine Linton. Porm, depois de ter lido o seu nome com
tanta frequncia, este ter-me- criado uma estranha sugesto
que se ter personificado assim que deixei de controlar a
minha imaginao.
    medida que prosseguia na minha explicao, Heathcliff
deixou-se cair aos poucos sobre a cama, acabando mesmo por se
sentar, quase escondido. Pela sua respirao irregular e
ofegante percebi que tentava com dificuldade conter uma forte
emoo.
   Como no pretendia dar-lhe a entender que reparara no seu
estado emocional, continuei a vestir-me ruidosamente, olhei
para o relgio e deixei fugir o seguinte pensamento acerca
daquela noite infindvel:
   -- Ainda nem so trs da manh! Iria jurar que j eram
seis. Aqui o tempo pra. De certeza que se deitam s oito!
     -- No Inverno deitamo-nos s nove e acordamos s quatro
--  disse o meu anfitrio, sufocando um soluo. Pelo movimento
da sombra do seu brao reparei que tentava limpar as lgrimas.
   -- Mr. Lockwood -- acrescentou -- pode ir para o meu
quarto. S vai atrapalhar, indo l para baixo to cedo. Alm
do mais, graas  sua choradeira infantil, perdi por completo
o sono.
   -- E olhe que eu tambm -- respondi. -- Vou passear para o
ptio at que amanhea e depois vou-me embora. E no precisa
de se preocupar mais com as minhas visitas. De momento, estou
perfeitamente curado desta minha mania de cultivar a vida em
sociedade, seja no campo ou na cidade. Um homem
verdadeiramente sensato encontra em si prprio a companhia de
que precisa.
   -- Bela companhia, no haja dvida! -- resmungou


Heathcliff. -- Pegue na vela e v para onde quiser. J vou ter
consigo. E no v para o ptio, pois os ces esto soltos.
Tambm no pode ir para a sala, pois arrisca-se a encontrar a
Juno. Portanto, restam-lhe as :, escadas e os corredores. V,
homem, desande! So s mais dois
minutos!
   Obedeci, pelo menos no tocante a sair do quarto. Porm,
como no conhecia os cantos  casa, parei. Foi nessa altura
que tive oportunidade de testemunhar involuntariamente uma
cena de superstio do meu senhorio nada condizente com a sua
personalidade.
   Dirigiu-se para a cama, abeirou-se da janela e rebentou o
fecho, irrompendo de imediato num choro convulsivo.
   -- Entra! Entra! -- soluava Volta, Cathy, por favor. *_S
mais uma vez*! Oh! Meu amor! Escuta-me ao menos *desta vez*!
Finalmente, Catherine!
   O fantasma reagiu como qualquer fantasma que se preza em
situaes semelhantes, ou seja, no apareceu. Mas o vento e a
nove no se fizeram rogados e, entrando em turbilho, apagaram
a chama da vela que eu transportava.
   Havia uma tal angstia naquela exploso de dor, que acabei
por esquecer a loucura que a movia e sentir compaixo por este
homem, retirando-me, meio zangado comigo mesmo por ter
escutado tudo e envergonhado, ao mesmo tempo, por lhe ter
contado o meu ridculo pesadelo, o responsvel, afinal, por
toda aquela agonia, embora o *porqu* dessa evidncia
estivesse para alm da minha compreenso.
   Desci cautelosamente para o andar inferior e fui dar 
cozinha, onde voltei a acender a vela nas brasas que restavam
na lareira.
   Tudo estava em silncio, exceptuando um gato cinzento
malhado que, saindo do borralho, me saudou com um _miau
lnguido e preguioso.
   A lareira encontrava-se rodeada por dois bancos em
semi-crculo. Deitei-me num deles, enquanto Grimalkin (assim
se chamava o gato) tratou de se acomodar no outro. Ali
ficmos, dormitando confortavelmente, como se fssemos donos e
senhores daquele refgio, quando, nisto, apareceu Joseph,
descendo por uma escada de madeira que se perdia no tecto,
atravs de um alapo que, segundo suponho, devia dar acesso
ao sto.
   Olhou de forma sinistra para o lume que eu havia ateado,
escorraou o gato do banco e, sentando-se, comeou a encher
um pequeno cachimbo com tabaco. A minha presena no seu
santurio era uma profanao demasiado escandalosa para
merecer qualquer comentrio da sua parte. Em silncio, levou
o cachimbo aos lbios, cruzou os braos e soprou o fumo. :,
   Deixei-o saborear o seu vcio em sossego. Por fim, depois
de expelir a ltima baforada, deu um suspiro profundo,
levantou-se e partiu, to solene como chegara.
   Instantes depois, ouviram-se passos bem mais enrgicos. Eu
ia aproveitar a ocasio para dizer _Bom-dia, mas calei-me
imediatamente, dado que no obtivera qualquer resposta. Era
Hareton Earnshaw que rezava as suas oraes em voz baixa,
amaldioando tudo em que tocava, enquanto vasculhava num canto
em busca de uma p ou de uma enxada para abrir caminho atravs
da neve. Olhou de soslaio por cima do banco, expirou
profundamente e deve ter pensado que no valia a pena
cumprimentar-me, a mim ou ao meu companheiro gato.
   Calculei pelos seus movimentos que j se podia sair, pelo
que me levantei daquele estrado duro, pronto para o seguir.


Ele deve ter-se apercebido das minhas intenes, pois deu uma
pancada brusca com a ponta da p numa porta interior,
indicando-me com um grunhido pouco perceptvel que aquele era
o meu destino, caso pretendesse sair.
   A porta dava acesso  sala, onde as mulheres j se
entregavam aos seus afazeres domsticos. Zillah tentava avivar
as brasas com a ajuda de um fole gigantesco. Mrs. Heathcliff,
ajoelhada, lia um livro  luz da lareira.
   Tinha a mo sobre os olhos em forma de pala, para se
proteger do calor do braseiro, e parecia absorta na sua
ocupao. S parava para repreender a criada quando esta lhe
lanava falhas para cima, ou ento para afastar o co, que
teimava em lhe encostar o focinho  cara.
   Fiquei surpreendido por ver Heathcliff. Estava perto do
fogo, de costas para mim, e acabara de repreender
violentamente a pobre Zillah, que de vez em quando suspendia o
seu trabalho para endireitar a ponta do avental e soltar mais
um lamento de indignao.
   -- E a senhora, sua grande intil... -- vociferou quando
entrei, voltando-se para a nora e empregando uma chusma de
palavres to ofensivos que, normalmente por decoro, aparecem
substitudos por travesses.
   -- L est, como sempre, com as suas manias de parasita!
Enquanto os outros trabalham para ganhar o po, a senhora
vive de caridade! A minha caridade! Arrume essas tralhas e
veja se trabalha. H-de pagar pela praga de eu ter de a ver
sempre  minha frente. Ests a ouvir, sua sonsa dum raio? :,
   -- S arrumo as minhas tralhas porque sei que me obrigaria
se eu recusasse -- respondeu a jovem, fechando o livro e
atirando-o para cima de uma cadeira. -- Mas no mexo uma palha
e s farei o que me apetecer, nem que o senhor grite e me
insulte como um doido!
   Heathcliff levantou a mo e a autora de tais afirmaes
fugiu para longe, decerto habituada ao seu peso.
   Como no era meu desejo assistir a uma luta entre co e
gato, atravessei a sala bruscamente, como se estivesse ansioso
por partilhar o calor da lareira, totalmente alheio 
quezlia entretanto interrompida. Cada um dos intervenientes
teve o decoro suficiente para suspender as hostilidades:
Heathcliff, desolado, meteu as mos nos bolsos; Mrs.
Heathcliff fez beicinho e foi sentar-se para longe, onde
cumpriu  risca a sua palavra, ficando parada como uma esttua
durante o resto do tempo que l permaneci, e que foi bem
pouco.
   Recusei tomar o pequeno almoo com eles e, logo que raiaram
os primeiros alvores, escapei-me para o ar livre, agora
lmpido e frio como o gelo.
   Ainda no tinha chegado ao fundo do quintal, quando o meu
senhorio me pediu para parar, oferecendo-se para me acompanhar
no meu passeio pelo brejo. Ainda bem que o fez, pois a encosta
era um imenso e revolto oceano branco, em que as ondulaes
no correspondiam exactamente s do terreno. As depresses
estavam cobertas de neve e os vrios montculos de pedras que
orientavam o percurso tinham sido apagados pela neve,
desaparecendo do mapa que eu mentalmente traara no dia
anterior.
   Lembro-me de que, num dos lados da estrada, de cinco em
cinco ou de seis em seis jardas, havia uma linha de pedras
altas que continuava ao longo de todo o terreno. Estas pedras
haviam sido a colocadas e caiadas para orientar o caminhante
no escuro e ainda, perante neves semelhantes, permitir a


distino entre o caminho seguro e firme e os perigosos e
profundos pauis ali existentes; porm, exceptuando alguns
pequenos pontos escuros perdidos na paisagem. todo e qualquer
vestgio da sua existncia desaparecido, e o meu companheiro
bem precisou de me avisar vrias vezes para eu corrigir a
minha rota, embora eu imaginasse que seguia correctamente o
traado sinuoso do carreiro.
   Pouco falmos durante o trajecto. Chegados  entrada da
alameda principal da Granja, ele parou, dizendo que a partir
dali no havia perigo de me perder. A nossa despedida
limitou-se a uma  :, rpida vnia, aps o que me apressei a
retomar o meu caminho, entregue apenas aos meus prprios
recursos, j que a casa do guarda ainda est desabitada.
   A distncia entre o porto e a casa da Granja  de duas
milhas. Acho que devo ter conseguido transform-las em quatro,
depois dos vrios desvios por entre as rvores e de me ter
enterrado at ao pescoo na neve, algo que s aqueles que
experimentaram essa sensao podero apreciar devidamente.
Seja como for, e apesar das minhas deambulaes, cheguei a
casa quando o relgio batia as doze horas, ou seja, gastei
precisamente uma hora por cada milha no meu trajecto normal
para o Alto dos Vendavais.
   A criada e os seus aclitos correram a receber-me,
exclamando em grande alarido que j tinham perdido as
esperanas de me encontrarem. J me davam como morto durante a
noite e deitavam contas  vida sobre a forma de me procurarem.
   Pedi-lhes para se acalmarem, j que tinha regressado so e
salvo. Em seguida, enregelado at aos ossos, arrastei-me pela
escadas acima e, depois de vestir roupas secas e andar de um
lado para o outro durante trinta ou quarenta minutos para
recuperar o calor do corpo, dirigi-me finalmente para o
escritrio, fraco como um gatinho, incapaz de apreciar o
calor acolhedor da lareira e o caf fumegante que a criada
tinha preparado para me confortar.
__Captulo IV
   Como ns somos imprevisveis! Eu, que decidira manter-me
fora de todo e qualquer contacto social e agradecia aos cus o
facto de ter finalmente encontrado um local remato e isolado
onde tal contacto seria impraticvel, eu, pobre nufrago,
depois de ter travado at ao anoitecer uma luta renhida contra
o desanimo e a solido, via-me finalmente a recuperar as
minhas foras, e, sob o pretexto de obter informaes sobre o
estado da propriedade, pedi a Mrs. Dean, quando esta me trouxe
a ceia, que se sentasse e me fizesse companhia, esperando
sinceramente que ela se revelasse uma excelente conversadora e
que, se no conseguisse animar-me, pelo menos me ajudasse a
adormecer com a sua conversa.
   -- Mrs. Dean, a senhora j vive aqui h algum tempo, no 
verdade? -- comecei. -- H dezasseis anos, segundo me disse?
   -- Dezoito, meu senhor. Vim para c quando a minha antiga
patroa se casou; para a servir. E quando ela morreu, fiquei
como governanta do patro.
   -- Compreendo.
   Houve uma pausa. Temi que ela no fosse a faladora que eu
esperava e preferisse falar dos seus prprios assuntos, o que
no me interessaria tanto.
   No entanto, depois de meditar por uns instantes, com as
palmas das mos fincadas nos joelhos e uma aura de nostalgia


envolvendo-lhe o rosto vermelhusco, principiou:
   -- Ah, como as coisas mudaram desde ento!
   -- De facto -- comentei, -- J deve ter assistido a muitas
mudanas, no  verdade?
   -- Sim senhor. E desgraas tambm -- acrescentou.
   _O melhor  encaminhar a conversa para a famlia do meu :,
senhorio pensei com os meus botes. _Sem dvida um bom tema
para comear. E h tambm aquela jovem viva; muito gostava de
saber a sua histria: se  c da regio, ou se , como parece
mais provvel, uma forasteira que estes indgenas tacanhos se
recusam a aceitar como patrcia.
   Foi com este intuito que perguntei a Mrs. Dean por que
motivo tinha Heathcliff trocado a Granja dos Tordos por uma
situao e uma residncia to inferiores.
   -- Ser que Mr. Heathcliff no  suficientemente rico para
manter esta propriedade? -- questionei.
   -- Rico, meu senhor? -- respondeu ela. -- Tem rios de
dinheiro; ningum sabe ao certo quanto, e parece que a fortuna
aumenta de ano para ano. O seu dinheiro  mais do que
suficiente para morar numa casa at melhor do que esta. O que
ele   um grande unhas de fome. Sabia que ele tencionava
mudar-se para a Granja dos Tordos, mas que assim que ouviu
dizer que havia um bom inquilino que a queria alugar, no
perdeu a oportunidade de meter mais uns cobres ao bolso? 
estranho como pode haver pessoas to gananciosas, sobretudo
estando sozinhas no mundo!
   -- Ele tinha um filho, no tinha?
   -- Tinha, mas morreu.
   -- E aquela jovem, a Mrs. Heathcliff,  a viva, suponho?
   --  sim.
   -- E de onde veio ela?
   -- Essa agora!  a filha do meu falecido patro. O seu nome
de solteira  Catherine Linton. Fui sua ama, coitadinha! Quem
me dera que Mr. Heathcliff se mudasse para c, para podermos
ficar juntas outra vez.
   -- O qu? Catherine Linton! -- exclamei, surpreendido.
Porm, pensando melhor, logo vi que no podia ser o fantasma
de Catherine que me visitara. -- Ento -- continuei -- o nome
do meu antecessor era Linton?
   -- Sim senhor.
   -- E, afinal, quem  esse tal Earnshaw, o Hareton Earnshaw
que vive com Mr. Heathcliff? So parentes?
   -- No. Hareton  sobrinho da falecida Mrs. Linton.
   -- Primo da jovem senhora, se bem entendo?
   -- Sim. E o marido tambm era primo dela. Um pelo lado da
me, o outro pelo lado do pai. No sei se sabe, mas Heathcliff
casou com a irm de Mr. Linton. :,
   -- Reparei que o Alto dos Vendavais tinha o nome
_Earnshaw gravado na porta de entrada. Trata-se sem dvida
de uma famlia com tradies?
   -- Uma famlia muito antiga. Hareton  o seu ltimo
descendente, tal como Miss Cathy o  para a nossa famlia, ou
seja, os Linton. O senhor esteve no Alto dos Vendavais, no 
verdade? Perdoe-me a pergunta, mas eu gostaria de saber
notcias dela.
   -- De Mrs. Heathcliff? Achei-a bastante bem e extremamente
bonita. Porm, pareceu-me que no  feliz.
   -- Pudera, no admira! E o que achou do patro?
   -- Um sujeito spero. Ele  sempre assim, Mrs. Dean?
   -- spero como os dentes de uma serra e duro como pedra!
Quanto menos se der com ele melhor.


   -- Deve ter passado por maus bocados na vida, para ser
assim to azedo. Conhece a histria dele?
   -- Claro que conheo, meu senhor. Sei tudo sobre a vida
dele, excepto, claro, onde nasceu, quem so os seus pais e a
forma como inicialmente enriqueceu. E, no fim, o pobre Hareton
 que foi escorraado como um co vadio. Esse infeliz  o
nico que, nas redondezas, ainda no sabe como foi enganado!
   -- Sabe, Mrs. Dean, far-me-ia um grande favor se me
contasse algo mais sobre os seus vizinhos. Acho que no
conseguirei dormir descansado enquanto no me contar o resto
da histria. Por isso, sente-se e comece a sua narrativa.
   -- Com certeza, meu senhor. Deixe-me ir s buscar a minha
costura e ficarei aqui o tempo que quiser. Mas vejo que o
senhor se constipou. Ainda agora teve um arrepio e decerto
desejar um caldinho quente para o reconfortar.
   A prestimosa mulher afastou-se em alvoroo e eu pus-me de
ccoras em frente  lareira. Sentia a cabea quente e o resto
do corpo tremia de frio. Alm disso, estava demasiado excitado
e com a cabea sobrecarregada dos nervos e das fantasias. Tal
facto provocava em mim uma sensao, no de desconforto, mas
de medo (que ainda sinto), pelas graves consequncias dos
incidentes de ontem e de hoje.
   Ela voltou, atarefadssima, trazendo numa mo uma tigela
fumegante e na outra a cesta da costura. Depois de colocar a
tigela junto ao guarda-fogo, sentou-se, manifestamente
satisfeita por eu me mostrar to socivel.
   -- Antes de eu ter vindo para c trabalhar -- comeou, sem
mais :, delongas, -- j passava muito tempo no Alto dos
Vendavais. A minha me tinha sido ama de leite de Mr. Hindley
Earushaw, pai de Hareton, e eu j estava habituada a brincar
com as crianas. Alm disso, ia aos recados, ajudava na
lavoura e andava sempre pela quinta, pronta para o que fosse
preciso.
   Numa linda manh de Vero (estvamos ento no incio das
colheitas), Mr. Earnshaw, o antigo patro, desceu as escadas
vestido como se fosse viajar. Depois de dar instrues ao
Joseph, voltou-se para Master Hindley,
para Miss Cathy e para mim (sim, porque eu estava na
sala a comer as papas com eles) e disse, dirigindo-se ao
filho:
   -- Meu filho, parto hoje para Liverpool. Queres que te
traga alguma coisa? Escolhe o que quiseres. Tem  de ser uma
coisa pequena, pois vou fazer o caminho a p, e sessenta
milhas para cada lado  uma grande estirada!
Hindley pediu uma rabeca. Depois foi a vez de Miss Cathy pedir
o seu brinquedo. Embora ainda no tivesse seis anos, j
conseguia montar qualquer cavalo, pelo que escolheu um
chicote.
   Mr. Earnshaw no se esqueceu de mim. Era um bom homem, se
bem que s vezes um pouco severo. Prometeu-me uma mancheia de
mas e peras e depois despediu-se das crianas com um beijo.
   Os trs dias em que esteve ausente pareceram-nos uma
eternidade. Miss Cathy, por exemplo, no parava de perguntar
quando  que ele regressava. Mrs. Earnshaw esperava-o para
jantar na noite do terceiro dia, mas, como ele tardasse,
resolveu atrasar o jantar. No havia sinais do seu regresso e
at as crianas se cansaram de correrem para a cancela para
ver se o avistavam. Entretanto escureceu. A me mandou-os
para a cama, mas eles pediram com tanta ansiedade, que ela os
deixou ficar um pouco mais. Ento, por volta das onze horas,
algum abriu o ferrolho devagarinho, e o patro entrou.


Deixou-se cair pesadamente numa cadeira, a rir e a lamentar a
sua sorte, e pediu a todos que se afastassem, pois estava
morto de cansao. Por nada deste mundo seria capaz de voltar a
empreender semelhante caminhada.
   -- Ainda por cima, para mal dos meus pecados! -- disse,
abrindo o enorme casaco que trazia debaixo do brao
embrulhado como uma trouxa. V s isto, mulher. Nunca me senti
to derreado Porm s pode ser uma ddiva do Senhor, apesar
de ser negro como o filho do diabo. :,
   Acercmo-nos todos e foi ento que, espreitando por cima da
cabea de Miss Cathy, deparei com um mido sujo, andrajoso e
maltrapilho, de cabelo escuro e com idade suficiente para
andar e falar. Pelo aspecto, parecia mais velho do que
Catherine. No entanto, quando se ps de p, ficou especado a
olhar a toda a volta, repetindo vezes sem conta uma ladainha
que ningum entendia. Fiquei assustada, e Mrs. Earnshaw
props-se mesmo expuls-lo. Furibunda, perguntou ao marido por
que decidira trazer para casa aquele ciganote, tendo eles os
seus prprios filhos para alimentar e educar. Devia ter
enlouquecido pela certa.
   O patro tentou explicar o que acontecera, mas, como estava
morto de cansao, tudo o que consegui entender durante o
raspanete da senhora, resumia-se a uma histria em que falava
de o ter encontrado faminto e sem abrigo, a vaguear pelas ruas
de Liverpool, tendo-o tomado ao seu cuidado e tentado
encontrar quem o reclamasse. Porm, como ningum sabia a quem
pertencia e o tempo e o dinheiro escasseassem, achou
prefervel traz-lo para casa, para no entrar em despesas
desnecessrias, pois no desejava devolv-lo  situao em que
o encontrara.
   Bom, a senhora l se acalmou por entre protestos. Em
seguida, Mr. Earnshaw pediu-me que desse banho ao garoto, o
vestisse com roupa limpa e o deitasse junto dos filhos.
Hindley e Cathy limitaram-se a olhar e a escutar durante a
discusso. Depois, comearam a remexer nos bolsos do pai 
procura dos presentes prometidos. Hindley tinha na altura
catorze anos. Porm, quando encontrou os cacos daquilo que
restava da rabeca, desatou numa tremenda choradeira. Cathy, ao
saber que o pai tinha perdido o chicote durante o salvamento
de um estranho, patenteou todo o seu desprezo fazendo caretas
e cuspindo sobre aquela coisa estpida, tendo recebido como
paga pelo seu comportamento uma valente bofetada do pai.
   Ambos se recusaram terminantemente a partilhar a cama e at
mesmo o quarto com o recm-chegado, e o melhor que pude fazer
foi coloc-lo no patamar das escadas, rezando para que se
fosse embora na manh seguinte. Por mero acaso, ou porque
ouvira a sua voz, o garoto colocou-se  porta do quarto de Mr.
Earnshaw, tendo sido imediatamente descoberto. O patro quis
logo saber a verdade e eu vi-me obrigada a confessar tudo.
Como recompensa pela minha cobardia e insensibilidade
mandou-me embora. :,
   Esta foi, por assim dizer, a apresentao de Heathcliff 
famlia. Quando regressei, uns dias mais tarde, pois no
considerei a minha expluso definitiva, soube que o tinham
baptizado com o nome de _Heathcliff, que era o nome de um
filho que lhes morrera, e desde ento tem sido este o seu
nome, tanto prprio como apelido.
   Miss Cathy e ele tornaram-se grandes amigos. Hindley, no
entanto, detestava-o, e, para ser sincera, eu tambm. Por
isso, arrelivamo-lo e trovamos dele a toda a hora, dado
que nem eu conseguia avaliar a enorme injustia que cometia,


nem a prpria patroa se preocupava em
defend-lo.
   Parecia uma criana macambzia e demasiado passiva, um
tanto arisca devido aos maus tratos sofridos. Era capaz de
aguentar as tareias de Hindley sem pestanejar e sem verter uma
lgrima, e os meus belisces apenas o faziam dizer _ai e
abrir muito os olhos como se se tivesse magoado por acidente e
ningum fosse culpado.
   Esta situao enfureceu o velho Earnshaw quando descobriu
que o filho batia no pobre rfo, como ele lhe chamava. Mr.
Earnshaw desenvolvera um estranho afecto pelo garoto, ao
ponto de acreditar em tudo o que ele dizia (falava pouco, mas
dizia sempre a verdade) e mimava-o mais do que  Cathy que, na
altura, era demasiado rebelde para ser a sua predilecta.
   Por isso, o garoto gerou desde o incio um mau ambiente
dentro de casa. Na altura da morte de Mr. Earnshaw, dois anos
mais tarde, Hindley j estava habituado a encarar o pai mais
como um inimigo do que propriamente um amigo e, por sua vez,
Heathcliff como usurpador do afecto do seu pai e, como tal,
dos seus prprios privilgios. Assim, foi crescendo cada vez
mais azedo e revoltado, face a tais injustias.
   Devo confessar que, durante um tempo, tambm eu partilhava
destes sentimentos, mas, quando as crianas adoeceram com
sarampo e foi preciso eu tratar deles como uma mulher adulta,
mudei logo de ideias. Heathcliff encontrava-se gravemente
doente e, na pior fase da doena, queria-me sempre ao seu
lado. Penso que se sentia grato pelos meus cuidados e no
tinha o discernimento
suficiente para ver que eu o tratava por mera obrigao. No
entanto, devo confess-lo, foi a criana mais dcil que
tratei. A diferena entre ele e os outros obrigou-me a ser
mais imparcial. Cathy e o irmo arreliavam-me constantemente,
mas *ele* portava-se como um cordeirinho manso. Porm, era a
sua fibra, e no a sua brandura, que o transformava num bom
doente. :,
   Quando se restabeleceu, o mdico atribuiu a cura em parte 
minha interveno, tendo elogiado o meu zelo e dedicao.
Senti-me orgulhosa do meu trabalho e mais compreensiva
relativamente  pessoa que me tinha feito merecer tal elogio.
Hindley perdia, assim, o seu ltimo aliado. Porm, nunca me
afeioei muito a Heathcliff e muitas vezes me perguntava o que
teria o patro visto naquele rapaz intratvel, que nunca, se
bem me recordo, demonstrara qualquer sinal de gratido em
paga da amizade que lhe era votada. No que Heathcliff fosse
insolente para com o seu benfeitor; apenas se mostrava
insensvel. Sabia perfeitamente que detinha um enorme
ascendente sobre o corao do patro e que lhe bastava abrir a
boca para que todos em casa fizessem a sua vontade.
   Veja-se, por exemplo, isto: certo dia, Mr. Earnshaw comprou
dois potros numa feira regional e ofereceu-os aos dois
rapazes. Heathcliff ficou com o mais bonito, mas, quando viu
que este coxeava, voltou-se para Hindley e disse:
   -- Vamos trocar de cavalos. No gosto do meu. Se no
quiseres, vou fazer queixa ao teu pai das trs tareias que me
deste esta semana e ainda lhe mostro o brao, que est todo
negro at ao ombro.
   Hindley deitou-lhe a lngua de fora e deu-lhe um tabefe na
orelha.
   -- Se eu fosse a ti, fazia o que te digo -- insistiu
Heathcliff, correndo para o alpendre (eles estavam no
estbulo). -- Mais cedo ou mais tarde vais ter de o fazer, e


ento, se eu fizer queixa destas pancadas, ainda apanhas a
dobrar.
   -- Para trs, co! -- gritou Hindley, ameaando-o com um
dos pesos da balana que servia para pesar batatas e feno.
   -- Anda, atreve-te -- respondeu Heathcliff, parando. -- Vou
contar tudo o que disseste acerca de me quereres pr na rua
assim que ele morrer. Depois vamos ver quem  que  expulso.
   Hindley atirou-lhe o peso, atingindo Heathcliff no peito. O
rapaz caiu, mas levantou-se imediatamente cambaleando, muito
plido e respirando com dificuldade. Se eu no interviesse,
teria ido logo contar tudo ao patro como vingana,
aproveitando-se do seu dbil estado fsico.
   -- Fica com o meu cavalo, cigano! -- disse o jovem Earnshaw
-- Espero que partas o pescoo. Leva-o e vai para o inferno,
maldito intruso! Andas a ver se tiras tudo ao meu pai, com
graxa e falinhas mansas. O meu pai ainda h-de saber quem tu
s, filho do :, Diabo. E, ento, espero que ele te faa pagar
por todos os teus pecados!
   Heathcliff j tinha ido soltar o potro, transferindo-o para
a sua baia. Na altura em que Heathcliff passava por detrs
dele, Hindley concluiu o seu discurso, dando-lhe um empurro
to violento que o atirou para debaixo das patas do cavalo.
Depois, sem se deter para avaliar as consequncias, fugiu o
mais depressa que pde.
   Fiquei admirada ao ver que Heathcliff se levantou com a
maior das naturalidades e prosseguiu com os seus afazeres,
trocando as selas, etc. Depois, sentou-se num fardo de palha
para recuperar do choque e voltou para casa.
   Pedi-lhe que me deixasse explicar que as suas contuses
tinham sido provocadas pelo potro. Reparei, ento, que no lhe
interessava o tipo de explicao que eu pudesse dar, uma vez
que conseguira os seus intentos. Na verdade, como quase nunca
se queixava destas agresses, aprendi a olhar para ele como
uma pessoa no vingativa. No entanto, enganava-me
redondamente, como ver mais adiante.
CAPTULO V
   Com o tempo, Mr. Earnshaw comeou a decair a olhos vistos.
Ele, que fora sempre uma pessoa activa e saudvel, via agora
as foras abandonarem-no de sbito. E ento quando se viu
preso num canto, junto  lareira, comeou a ficar cada vez
mais irritvel. Tudo o aborrecia e a mais leve suspeita de
perda de autoridade punha-o fora de si. Este facto era ainda
mais notrio quando algum tentava impor-se ou dar ordens ao
seu favorito. No admitia que criticassem ou melindrassem o
seu menino, na sequncia de uma estranha mania que se lhe
havia metido na cabea, segundo a qual, como s ele gostava de
Heathcliff, todos os outros o detestavam e lhe queriam fazer
mal.
   Isto foi prejudicial para o rapaz, dado que ns, para no
aborrecermos o patro, alimentvamos todas as suas vontades e
caprichos. Perante tamanha bajulao, o garoto teve condies
excepcionais para alimentar o seu orgulho e o seu mau-gnio.
Era um mal necessrio. Por duas ou trs vezes, as
manifestaes de escrnio de Hindley para com Heathcliff
junto do pai provocaram a ira deste ltimo. Agarrava na
bengala, mas como no lhe conseguia bater,
tremia de raiva.
   Finalmente, o nosso cura (naquela altura tnhamos um proco
que ganhava a vida a ensinar os filhos do Linton e dos


Earnshaw e a cultivar o seu pedao de terra) aconselhou que
talvez fosse melhor mandar o jovem Hindley para um colgio,
facto que mereceu a concordncia de Mr. Earnshaw, embora com
alguma relutncia. Na realidade dizia:
   -- O Hindley  um incapaz e nunca vencer na vida, nem
aqui, nem em qualquer canto do mundo.
   Eu esperava ansiosa que pudssemos, finalmente, atingir a
to desejada paz. Magoava-me que o patro sofresse pela sua
boa aco. Imaginava que a sua ndole rabugenta, prpria da
idade e da doena, proviesse das desavenas familiares. Na
realidade, os seus males eram apenas a consequncia do seu
prprio declnio.
   Com efeito, poderamos ter vivido de uma forma pacfica,
no fossem duas pessoas, Miss Cathy e Joseph, o criado. Acho
que o senhor j teve oportunidade de o ver ontem. Ele , e
continua provavelmente a ser, o fariseu mais preconceituoso,
puritano e inflexvel, que alguma vez vasculhou a Bblia em
busca de promessas para seu prprio benefcio e de pragas para
lanar ao prximo. Foi a sua capacidade de pregar sermes e
discursos piedosos que contribuiu para influenciar Mr.
Earnshaw. Quanto mais fraco este ficava, maior ascendente o
outro obtinha.
   Nada lhe dava mais prazer do que maar o patro com as suas
teorias sobre a alma e, em particular, sobre a educao severa
das crianas. Foi ele que incentivou o patro a considerar o
Hindley como um devasso. E todas as noites de fiava uma longa
lista de queixas contra Heathcliff e Catherine, explorando as
fraquezas do patro e acabando por culpar sempre mais a
menina.
   Ela tinha, de facto, uma maneira de ser bastante diferente
das outras crianas e dava-nos cabo da pacincia vezes ao dia.
Desde que acordava at se deitar, nunca tinhamos um momento de
sossego, devido ao seu esprito travesso. Andava sempre
esfusiante de alegria e falava como um papagaio, cantando,
rindo ou arreliando quem no participasse nas suas
brincadeiras. Era uma piorrinha bravia e arisca. Porm, tinha
os olhos mais lindos, o sorriso mais doce e o pezinho mais
ligeiro das redondezas. E, para ser sincera, creio que ela no
o fazia por mal. Quando nos punha a chorar de raiva com as
suas diabruras, no sala de junto de ns, pois consolando-nos,
consolava-se tambm a si
prpria.
   Cathy adorava Heathcliff. O maior castigo que lhe podiam
dar era separ-la de Heathcliff. No entanto, por causa dele,
recebia mais repreenses do que qualquer um de ns.
   Nos jogos, queria sempre ser a dona da casa. Gostava de
mandar e de castigar os companheiros. Vrias vezes tentou
transformar-me em alvo do seu mau-gnio, mas eu, como no
estava para me :, sujeitar s suas ordens e agresses,
chamava-lhe frequentemente a ateno.
   Acontece que Mr. Earnshaw no compreendia as brincadeiras
das crianas. A sua educao fora sempre rgida e severa. E
Catherine, por seu lado, no percebia por que  que o pai
estava mais rabugento e menos tolerante com a idade. Os
raspanetes do doente despertavam nela um prazer especial em
provocar a sua clera. Nada lhe dava mais alegria do que
ver-nos todos a ralhar ao mesmo tempo e ela a desafiar-nos com
o seu olhar altivo e descarado e a resposta sempre na ponta da
lngua. Adorava ridicularizar os sermes do Joseph. A mim,
atormentava-me constantemente a pacincia. Quanto ao pai,
fazia aquilo que ele mais detestava, ou seja, demonstrava como


a sua pretensa insolncia (que ele considerava real) tinha
mais poder sobre Heathcliff do que a bondade dele. Isto ,
mostrava que o rapazote lhe fazia todas as vontades, enquanto
os desejos do *dono da casa s* eram satisfeitos quando
Heathcliff bem o entendia.
   s vezes, depois de se portar terrivelmente mal durante
todo o santo dia, vinha procurar o conforto e o afecto do pai
 noitinha e fazer as pazes.
   -- No, Cathy -- dizia o meu antigo patro eu no posso
gostar de ti. s pior do que o teu irmo. Vai, filha, reza as
tuas oraes e pede perdo a Deus. As vezes pergunto-me a mim
mesmo se valeu a pena ter-te criado!
   A princpio, a menina comeava logo a chorar. Depois, ao
ver que o pai a rejeitava constantemente, tornou-se bastante
insensvel, rindo sempre que eu lhe dizia para pedir desculpa
e mostrar-se arrependida das suas asneiras.
   Por fim, chegou o dia em que as consumies de Mr. Earnshaw
terminaram na Terra. Morreu tranquilamente numa noite de
Outubro, sentado no seu cadeiro, junto  lareira.
   Nessa noite o vento soprava com violncia, ecoando na
chamin. Parecia uma noite agreste e tempestuosa, mas, no
entanto, no estava frio. Estvamos todos reunidos na sala. Eu
estava a um canto, afastada da lareira, a costurar, e Joseph
lia a Bblia encostado  mesa (pois era tradio os criados
sentarem-se com os patres findo o servio). Miss Cathy tinha
estado doente e, como tal, estava sossegadinha, com a cabea
encostada aos joelhos do pai. Heathcliff estava deitado no
cho, com a cabea deitada no colo da
menina. :,
   Recordo-me de que, antes de adormecer, o patro tinha
acariciado o seu lindo cabelito (gostava de a ver assim,
sossegada) e dito:
   -- Por que ser que no podes ser sempre assim boazinha,
Cathy?
   Ela olhou para o pai e respondeu, rindo-se:
 -- E por que ser que o pai no pode ser sempre assim
bonzinho?
   Mas, logo que viu que o pai se mostrava novamente
aborrecido, beijou-lhe a mo, prometendo que ia cantar uma
cano para ele adormecer. Comeou ento a cantar muito
baixinho, at que a mo dele descaiu e a cabea lhe tombou
para a frente. Pedi-lhe para parar e no se mexer, no fosse
ele acordar. Ficmos ali, quietos como ratos, durante
meia-hora. De facto, poderamos ter ali ficado tempos
infinitos, se no fosse Joseph, terminado o seu captulo,
ter-se levantado e dito que era preciso acordar o patro para
as suas oraes.
   Abeirou-se dele, chamou-o e bateu-lhe no ombro, mas, como
no obtivesse resposta, pegou na vela e
iluminou-o.
   Vi logo que algo de grave se passava assim que Joseph
baixou a luz. Peguei nas crianas por um brao e pedi-lhes em
voz baixa que subissem devagarinho e rezassem sozinhos, pois o
pai tinha o que fazer naquela noite.
   -- Primeiro o pai tem de me dar as boas-noites -- disse a
Catherine, abraando-o antes que a pudssemos deter.
   Coitadinha, logo que se apercebeu da triste situao,
gritou: Oh, Heathcliff, ele morreu! Est morto!
   Desataram os dois a chorar convulsivamente.
   Tambm eu comecei a chorar, amargurada e triste. Porm,
Joseph apressou-se a perguntar por que motivo estvamos todos


naquele berreiro por uma santa alma que j estava no Cu.
   Mandou-me pegar no casaco e ir buscar o mdico e o padre a
Gimmerton. Confesso que no percebia qual a utilidade de ambos
naquela situao. No entanto, l fui, arrostando com a
tempestade, e voltei com o mdico. O padre, esse, s podia vir
pela manh.
   Deixei Joseph a dar as explicaes e corri para o quarto
das crianas. A porta estava aberta; vi que ainda no se
tinham deitado, embora j passasse da meia-noite. Contudo,
estavam mais calmos e no necessitaram do meu consolo. Aquelas
pobres almas confortavam-se uma  outra com melhores palavras
e pensamentos do que eu alguma vez poderia empregar. Nenhum
padre conseguiria, :, naquele momento, descrever o cu de uma
forma to bela como eles o descreviam. Por isso, fiquei junto
deles, escutando a chorar as suas palavras, e no pude deixar
de desejar que todos ns, um dia, nos vissemos a encontrar
nesse lugar maravilhoso.
CAPITULO VI
   Mr. Hindley regressou a casa para o funeral. E, para
espanto de todos, vizinhana includa, trouxe com ele uma
esposa.
   Ningum sabia ao certo quem ela era, nem de onde vinha.
Rica no era decerto, nem devia vir de famlia distinta, caso
contrrio Mr. Hindley no teria ocultado do pai o seu
casamento.
   No era pessoa que perturbasse a tranquilidade da casa com
o seu feitio. Assim que l entrou pela primeira vez, ficou
imediatamente apaixonada por todo e qualquer objecto que viu.
O mesmo se passava com tudo o que a rodeava, excepto, claro,
os preparativos para o funeral e a presena dos amigos do
defunto.
   Cheguei at a pensar que fosse um pouco pateta, tendo em
conta o seu comportamento naquela ocasio. Correu para o
quarto, e obrigou-me a ir com ela, embora eu tivesse de estar
a vestir as crianas. E, depois, ficou sentada a tremer e a
contorcer as mos, fazendo sempre a mesma pergunta:
   -- J se foram embora?
   Ps-se em seguida a descrever de forma histrica o estado
em que ficava quando via gente de luto; tremia e estremecia e
acabou por cair num pranto. Quando lhe perguntei o que se
passava, respondeu que no sabia, mas que tinha muito medo de
morrer! C para mim, ela tinha to poucas probabilidades de
morrer como eu prpria. Era bastante magra, mas muito nova e
de aspecto saudvel, com uns olhos que reluziam como dois
diamantes. Porm, recordo-me de que, quando subia as escadas a
correr, ficava com a respirao muito alterada, e que bastava
um rudo mais repentino para se descontrolar, outras vezes,
tinha uma tosse esquisita; desconhecia, no entanto, qual a
origem destes sintomas, e no me sentia muito inclinada a ter
pena dela. Sabe, Mr. Lockwood, normalmente :, no nos
costumamos interessar muito por forasteiros, a no ser que
sejam eles os primeiros a mostrar interesse por ns.
   O jovem Earnshaw tinha mudado consideravelmente durante os
seus trs anos de ausncia. Emagrecera, estava plido e falava
e vestia-se de forma diferente. Assim, no preciso dia em que
chegou, chamou-nos, a mim e ao Joseph, e disse que a partir
daquele momento devamos remeter-nos  cozinha e deixar os


cuidados da casa  sua responsabilidade. Preocupado com o
conforto da mulher, chegou mesmo a querer mandar atapetar e
forrar a papel um dos quartos desocupados, para o transformar
numa saleta. Mas ela tinha gostado tanto daquele cho todo
branco, da enorme e acolhedora lareira, dos pratos de
estanho, do lonceiro e da casota do co, e do desafogo desta
sala onde costumavam passar o tempo, que ele acabou por mudar
de ideias e achar desnecessria a tal saleta.
   Ela ficou tambm to radiante por encontrar uma irm na sua
nova famlia que, no incio, andava sempre  volta de
Catherine com conversas tolas, paparicando-a, dando-lhe
beijinhos e oferecendo-lhe imensos presentes. Estes exageros
afectivos depressa desapareceram e comeou a tornar-se
rabugenta, ao mesmo tempo que Hindley se tornava cada vez mais
tirnico. Bastava que ela deixasse fugir alguma crtica
relativa a Heathcliff para fazer despertar em Hindley todo o
seu velho dio contra o rapaz. Comeou por retir-lo da sua
companhia e alojou-o com os criados. Depois, privou-o das
aulas com o cura, argumentando que ele devia trabalhar era no
campo e obrigando-o a tarefas to rduas como qualquer outro
trabalhador da quinta.
   A princpio, Heathcliff aguentou relativamente bem esta
despromoo, uma vez que Cathy continuava a ensinar-lhe as
lies, trabalhando e brincando com ele na quinta.
   As duas crianas tinham prometido crescer como selvagens e,
como o jovem patro descurava totalmente a sua educao,
viviam livres da sua tutela. Nem sequer se preocupava em saber
se iam  missa aos domingos, se no fossem as chamadas de
ateno do Joseph e do cura para a sua negligncia, sempre que
as crianas faltavam s suas obrigaes. S ento se lembrava
de aoitar Heathcliff e mandar Catherine para a cama sem
jantar e sem ceia.
Uma das brincadeiras preferidas dos garotos era escaparem-se
para a charneca de manhzinha, onde permaneciam durante todo o
dia. E, no final, o castigo passou tambm a ser encarado como
mais :, uma brincadeira; o cura bem podia obrigar Catherine a
decorar todos os captulos da Bblia; Joseph bem podia bater
em Heathcliff at lhe doer o brao; no fim, bastava
juntarem-se de novo para voltarem a esquecer tudo, enquanto
engendravam novo plano de vingana. Quantas vezes chorei de
desgosto ao ver como aquelas pobres almas cresciam de dia para
dia cada vez mais irresponsveis! Contudo, no me atrevia a
fazer qualquer comentrio, no fosse perder o pouco poder que
ainda detinha sobre aqueles meninos to mal amados.
   Certo domingo, ao entardecer, foram proibidos de entrar na
sala, devido ao barulho que faziam, ou outra qualquer diabrura
do gnero. Quando chegou a hora da ceia, fui  procura deles,
mas no os consegui encontrar.
   Procurmos por toda a casa, bem como no ptio e nos
estbulos. Nada. Por fim, Hindley, num acesso de clera,
ordenou-nos que trancssemos as portas e no os deixssemos
entrar em casa naquela noite.
   Entretanto, os criados recolheram-se. Eu, no entanto,
estava demasiado preocupada para me ir deitar e, por isso, sem
me importar com a chuva, abri a janela e fiquei  escuta,
decidida a desobedecer  proibio e deix-los entrar.
   De repente, ouvi passos na estrada e vi uma luz tnue a
atravessar a cancela.
   Embrulhei-me no xaile e corri para evitar que batessem 
porta e acordassem Mr. Earnshaw. Era Heathcliff. Fiquei
assustada ao v-lo sozinho.


   -- Onde est Miss Catherine? -- perguntei de chofre. -- No
lhe aconteceu nada, pois no?
   -- Est na Granja dos Tordos -- respondeu. -- E eu tambm
l podia estar, se me tivessem convidado.
   -- Ests bem arranjado! -- disse-lhe eu -- Parece que
gostas de apanhar pancada. Que vos passou pela cabea para
irem para a Granja dos Tordos?
   Deixa-me s tirar estas roupas molhadas e j te conto tudo,
Nelly -- respondeu.
   Pedi-lhe que tivesse cuidado para no acordar o patro e,
enquanto ele trocava de roupa e eu esperava para apagar a
vela, prosseguiu:
 -- Eu e a Cathy fugimos pelo lavadouro e decidimos dar um
passeio em liberdade. Como vimos luz l para os lados da
Granja, :, apeteceu-nos ir ver com os nossos prprios olhos se
os Linton tambm passavam o domingo  noite vagueando pelos
cantos da casa, enquanto os pais comem e bebem  farta,
cantando e rindo junto  lareira. Achas que sim, Nelly? Ou
ento a lerem sermes ou a serem catequizados por um criado
doido; ou ainda a serem obrigados a decorar uma lista de nomes
bblicos, caso no respondam correctamente?
   -- Acho que no. -- respondi. -- So crianas bem
comportadas que no merecem o mesmo tipo de tratamento que os
meninos recebem pelos seus maus modos.
   -- No me venhas com histrias, Nelly disse. -- Que
disparate! Continuando, fizemos uma corrida desde o cimo do
Alto dos Vendavais at ao parque da Granja sem parar. A
Catherine perdeu porque estava descala. A propsito, amanh
tens de procurar os sapatos dela no lodaal. Trepmos por uma
abertura da sebe, subimos pelo carreiro s apalpadelas e
sentamo-nos num pote, por baixo da janela da sala. Era da que
vinha a luz. No tinham fechado as persianas e os reposteiros
estavam entreabertos; como estvamos ao nvel do rs-do-cho,
conseguamos ver l para dentro. Depois, quando nos agarramos
ao peitoril, tivemos uma viso extraordinria: uma sala
lindssima, com carpetes vermelhas no cho, cadeiras e mesas
da mesma cor e um tecto branco como a neve, com um friso
dourado e um lustre ao meio, de onde pendiam gotas de chuva,
presas a correntes de prata, que brilhavam como estrelas. Mr.
e Mrs. Linton no se encontravam na sala. O Edgar e a irm
estavam completamente sozinhos. Como eles deviam estar
felizes! Para mim, era como se estivesse no paraso! Agora,
adivinha o que aqueles dois estavam a fazer? A Isabella, que
deve ter onze anos, ou seja, um ano a menos que a Cathy,
estava a um canto a berrar desalmadamente, como se lhe
estivessem a espetar agulhas em brasa; o Edgar estava ao p da
lareira, a chorar baixinho e, no meio da mesa, havia um
cachorrinho que abanava a pata e gania. Pelas acusaes
mtuas, vimos logo que cada um queria ficar com o co para si.
Que idiotas! Era assim que se divertiam! Primeiro, discutem
por causa de uma bola de plo e depois pem-se a chorar s
porque j no querem o animal. Claro que nos desatmos a rir
perante midos to mimados. Como os desprezvamos! Imagina se
eu ia alguma vez querer aquilo que a Catherine deseja! J
alguma vez nos encontraste a fazer perrices pelos cantos da
casa? Nem que me pagassem, trocaria a minha vida pela do Edgar
Linton da Granja :, dos Tordos. Nem mesmo se me deixassem
atirar o Joseph do alto de uma torre ou pintar a fachada desta
casa com o sangue do Hindley!
   -- Fala mais baixo! -- interrompi. -- Ainda no me disseste
onde pra Miss Cathy.


   -- J te disse que nos fartmos de rir -- respondeu. --
Pois , os Linton ouviram-nos e correram como setas em
direco  porta. Houve um momento de silncio e depois um
grito, _Mam, mam!! Pap! Depressa, venham c. Olhe, papa,
olhe! Era mais ou menos assim que eles guinchavam. Fizemos
uns rudos terrveis para os assustarmos ainda mais, mas como
algum abrisse a porta, largmos imediatamente o peitoril e
preparmo-nos para fugir. Foi ento que, ao agarrar a mo da
Cathy, para a ajudar, ela se estatelou.
   -- Foge Heathcliff, foge! -- sussurrou-me. -- Soltaram o
co e ele agarrou-me!
   -- O raio do bicho tinha-lhe abocanhado o tornozelo, Nelly.
Ouvi-o rosnar, mas ela no gritou, no senhora! Preferia
manter-se calada, nem que fosse trespassada pelos chifres de
um touro. Eu, no entanto, pus-me a rogar tantas pragas que
bastariam para aniquilar todas as almas do Inferno. Peguei
numa pedra e meti-lha entre os queixos, tentando, com toda a
fora que tinha, enfiar-lha pelas goelas abaixo. Finalmente,
apareceu a besta do criado com uma candeia a gritar:
   -- _Agarra Skulker, agarra!
   -- Porm, quando viu o que o co estava a agarrar, mudou
logo de tom. O co foi afastado violentamente pela trela,
quase ficando esganado: a sua grande lngua rosada pendia-lhe
da boca e, dos beios, pingava uma mistura de baba e sangue.
   -- O homem pegou na Cathy, que, entretanto, perdera os
sentidos, no do medo, mas da dor. Levou-a para dentro de
casa. Eu fui atrs dele, gritando tudo o que me vinha  cabea
de insultos e ameaas.
   -- _Ento, Robert, qual  a pressa?, perguntou o Linton
da entrada.
   -- _O Skulker apanhou uma menina respondeu. _E est
tambm aqui um rapaz acrescentou, agarrando-me, que parece
um ladrozeco! Com certeza, os ladres que por a andam
tencionavam met-los dentro de casa para depois lhes abrirem a
porta e nos matarem a todos durante o sono. Cala-te, meu
safado, ou vais parar  forca. No largue a espingarda, Mr.
Linton!
   -- _Est descansado, Robert disse o tonto do velho.
_Estes :, patifes sabiam que ontem era o dia de receber as
rendas e pensavam que me podiam roubar. Entrem, vo ter uma
ptima recepo. John, tranca a porta. E tu, Jenny, d de
beber ao Skulker. Assaltar um magistrado na sua prpria
residncia, e ainda por cima no Dia do Senhor! Onde  que isto
ir parar? Mary, querida, olha-me s para isto! No tenhas
medo,  apenas um garoto. Porm, o rapaz tem c uma cara que
seria um favor para todos enforc-lo imediatamente, antes que
passe das palavras aos actos.
   -- Levou-me para debaixo do lustre. Mrs. Linton ps os
culos e elevou as mos aos cus horrorizada. Os filhos
aproximaram-se cobardemente. Isabella ciciou:
   _Meu Deus, que coisa mais horrvel! Feche-o na cave, pap.
 igualzinho ao filho daquela cigana que roubou o meu faiso
de estimao, no , Edgar?
   -- Enquanto me examinavam, a Cathy recuperou os sentidos,
Tinha ouvido esta ltima frase e riu-se. O Edgar Linton,
depois de a mirar apatetado, l arranjou coragem para
finalmente a reconhecer. Encontramo-nos sempre aos domingos
na igreja. Tirando isso,  raro vermo-nos.
   -- _Mas...  Miss Earnshaw! segredou ele  me. _Olha
como o Skulker a mordeu. O p dela est a sangrar!
   -- _Miss Earnshaw? Que disparate! exclamou a senhora.


aMiss Earnshaw, vagueando pelos campos com um cigano! E
depois, filho, a menina est de luto. Mas...  mesmo ela! E a
pobre menina pode ficar aleijadinha para toda a vida!
   -- _Mas que enorme descuido do irmo! exclamou Mr.
Linton, voltando-se para a Catherine. _O Shielders
(Schielders era o cura) j me tinha contado que ele a educa
como uma perfeita pag. Mas quem  este? Onde  que ela foi
desencantar este companheiro? Ah, j sei! Aposto que  aquela
estranha aquisio que o meu falecido vizinho fez na sua
clebre viagem a Liverpool... Um degredado das ndias, de
Espanha ou das Amricas..
   -- Em qualquer dos casos, um patifrio. comentou a velha
senhora. E imprprio para permanecer numa casa respeitvel
como a nossa! J reparaste na linguagem dele, Linton? Lamento
profundamente que os nossos filhos a tenham ouvido..
   -- Foi ento que recomecei a lanar pragas... no, Nelly,
no te zangues... e o Robert teve de me pr na rua. Afirmei
que no me vinha embora sem a Cathy, mas ele arrastou-me para
o jardim, colocou-me a candeia na mo e garantiu-me que Mr.
Earnshaw iria :, ser informado do meu comportamento. Depois,
mandou-me sair dali imediatamente e fechou a porta.
   -- Os reposteiros estavam ainda entreabertos num dos
cantos, e, por isso, voltei para o meu posto de vigia, para
ver se a Catherine queria vir comigo. Se fosse esse o caso,
juro que partia o vidro aos bocados e no descansava enquanto
no a tirasse dali para fora.
   -- Mas ela estava toda repimpada no sof, muito sossegada.
Mrs. Linton tinha-lhe tirado a capa cinzenta, que tnhamos
roubado  moa da vacaria para trazer no nosso passeio, e
abanava a cabea, repreendendo-a, penso eu. Afinal de contas,
ela era uma menina de famlia e por isso merecia um tratamento
diferente do meu. Mr. Linton foi buscar-lhe uma bebida quente
e a Isabella despejou-lhe um prato de bolos no colo, enquanto
o Edgar a observava de longe, como um perfeito tontinho. Em
seguida, secaram e escovaram o seu lindo cabelo, deram-lhe uns
chinelos enormes e sentaram-na em frente  lareira. Quando a
deixei, parecia muito feliz, partilhando os bolos com o
cachorrinho e com o Skulker, cujo focinho ia apertando,
divertida e ateando uma centelha de alegria nos olhos azuis e
vagos do Linton, um plido reflexo, afinal, do seu rosto
encantador; via-se que estavam os dois embasbacados... Mas
ela  incomensuravelmente superior a todos eles ... ou a
qualquer outra pessoa deste mundo. No achas, Nelly?
   -- Esta histria ainda vai dar que falar -- disse eu,
tapando-o e apagando a vela. -- Parece que nunca mais
aprendes; e Mr. Hindley vai ter de tomar uma atitude drstica,
ai no, se no vai!
   De facto, as minha previses saram mais certas do que eu
imaginava. Esta infeliz aventura enfureceu Earnshaw e, para
culminar, Mr. Linton veio pcssoalmente visitar-nos logo na
manh seguinte, para remediar a situao, e pregou-lhe um tal
sermo sobre o modo como educava a sua famlia, que o obrigou
a reflectir seriamente no assunto.
   Heathcliff no recebeu qualquer castigo, mas ordenaram-lhe
que nunca mais dirigisse a palavra a Miss Catherine, sob pena
de ser expulso. E foi a prpria Mrs. Earnshaw que ficou
responsvel pelo isolamento monstico da cunhada assim que
esta regressasse. Empregando,  claro, a astcia e a
diplomacia, e nunca a fora, ciente de que pela fora nada
conseguiria.


CAPTULO VII

   Cathy ficou cinco semanas na Granja dos Tordos, mais ou
menos at ao Natal. O seu tornozelo j estava completamente
curado e o seu temperamento melhorara substancialmente. A
patroa visitava-a regularmente dando cumprimento a um plano de
reforma em que tentava conquistar a amizade da menina  custa
de roupas caras e muitos mimos, que esta aceitava de bom
grado. De tal forma que, certo dia, em vez daquela criana
selvagem e livre em constante correria pela casa, sempre
pronta a abraar-nos, surgiu dignssima e elegante, montada
num belo potro negro, com os seus lindos caracis castanhos
pendendo soltos sob um chapu de caa, e um trajo de montar,
to comprido que tinha de o erguer com as mos para no o
pisar.
   Hindley ajudou-a a descer do cavalo, exclamando deliciado:
   -- Sim senhora, Cathy, mas que beleza! At tive dificuldade
em te reconhecer. Pareces mesmo uma senhora. A Isabella Linton
nem se lhe compara, pois no Frances?
   -- A Isabella no tem os atributos naturais da Cathy --
respondeu a esposa. -- Mas  importante que ela se porte bem
e no volte a ser uma menina rebelde. Ellen, ajuda Miss
Catherine com as malas. Espera, querida, deixa-me tirar-te o
chapu, senso ainda estragas o penteado.
   Ajudei-a a despir o fato de amazona e vi que trazia calas
brancas e sapatos de verniz por baixo de um vestido de seda
de ampla saia pregueada. E, apesar de os seus olhos brilharem
de alegria ao ver os ces correrem para ela, para lhe darem as
boas-vindas, evitou tocar-lhes, com medo de que lhe sujassem
a sua linda indumentria.
   Beijou-me com cuidado. Como eu estava toda suja de farinha
:, devido aos preparativos para o bolo de Natal, no iria
certamente dar-me um abrao. Depois, foi  procura do
Heathcliff. Mr. e Mrs. Earnshaw esperavam ansiosamente por
este reencontro, dado que, assim, poderiam avaliar em que
medida era possvel terem esperanas na sua
separao.
   Foi-lhe difcil descobrir Heathcliff. Se j antes da
ausncia de Catherine ele era descuidado e rebelde, ento
agora portava-se dez vezes pior.
   S eu  que lhe chamava a ateno para o facto de estar
sujo, mandando-o tomar banho uma vez por semana. E o senhor
bem sabe como as crianas daquela idade gostam de gua e
sabo... Por isso, e j no falando da roupa com que andava h
mais de trs meses por cima da lama e do p, nem da sua farta
cabeleira desgrenhada, a cara e as mos andavam sempre
encardidas. Motivos no lhe faltavam para se esconder atrs de
um banco, ao ver a menina elegante e airosa com que se
deparou, em vez da compincha suja e traquina com quem se
identificava.
   -- Onde est o Heathcliff? -- perguntou Catherine,
descalando as luvas e mostrando umas mos imaculadas, de
quem no trabalha em casa e leva uma vida de lazer.
   -- Heathcliff, podes aparecer -- gritou Mr. Hindley,
exultante com o constrangimento do rapaz e radiante por o
obrigar a aparecer naquele estado humilhante diante da amiga.
-- Aparece e vem dar as boas-vindas a Miss Catherine, com os
outros criados.
   Mas Cathy descobriu logo o amigo e correu para o abraar.
Cobriu-o de beijos, mas logo se deteve e, desatando a rir,


exclamou:
   -- Cus, Heathcliff, como tu ests sujo e maltrapilho! Mas
que engraado e estranho que tu ests! Se calhar  por estar
habituada ao Edgar e  Isabella Linton. Ento, Heathcliff, j
te esqueceste de mim?
   Esta pergunta era propositada, dado que Heathcliff
ostentava uma expressso de orgulho e vergonha que o mantinha
petrificado.
   -- Cumprimenta-a, rapaz! -- disse Mr. Earnshaw,
condescendente. -- Acho que isso, pelo menos,  permitido.
   -- No! -- replicou o rapaz, como se tivesse finalmente
encontrado a lngua. -- No estou para ser gozado, nem o
admitirei!
   E teria mesmo fugido, se no fosse Miss Cathy
segur-lo.
   -- No pretendia rir-me de ti -- disse ela. -- Mas foi mais
forte do que eu. V l, Heathcliff, ao menos d-me um aperto
de mo! Para que ests amuado? Foi s porque te estranhei. Se
lavares a cara :,
e penteares o cabelo, tudo mudar. Mas sempre ests muito
porco! E ficou a olhar, preocupada, para aquela mo toda suja
que estava a apertar e para o vestido, com medo que se tivesse
sujado.
 -- No precisavas de me ter tocado! -- retorquiu ele,
libertando bruscamente a mo, como se tivesse adivinhado o seu
pensamento.  -- Sou porco, gosto de ser porco e serei sempre
porco!
   E, dizendo isto, saiu precipitadamente da sala, perante a
satisfao dos patres e a incredulidade de Catherine, que
no compreendia por que razo os seus comentrios tinham dado
lugar a tamanha manifestao de mau humor.
   Depois de ter feito de aia da menina, depois de ter metido
os bolos no forno e depois de ter enfeitado a casa para a ceia
de Natal, ia poder enfim sentar-me e distrair-me a entoar
algumas canes adequadas  quadra natalcia, apesar de, para
Joseph, as minhas modas no passarem de arremedos de canes.
   Joseph tinha-se retirado para as suas habituais oraes.
Mr. e Mrs. Earnshaw tentavam conquistar a ateno de Miss
Cathy, mostrando-lhe os imensos presentes que tinham comprado
para oferecerem aos meninos Linton, como forma de
agradecimento pela sua amabilidade.
   Estes haviam sido convidados para passarem o dia seguinte
no Alto dos Vendavais, convite que fora aceite com uma
condio: Mrs. Linton pedira por tudo que evitassem o contacto
entre os seus queridos filhos e aquele rapaz rude e
malcriado.
   Nestas circunstncias, fiquei sozinha. Entretive-me a
aspirar o aroma dos petiscos bem condimentados e a admirar
orgulhosa o brilho dos utenslios de cozinha, o relgio
reluzente, decorado com azevinho, e as canecas de prata
alinhadas no tabuleiro, prontas para receberem a cerveja
quente com acar que seria servida  ceia. Agradava-me
sobretudo aquele cho resplandecente, impecavelmente limpo e
esfregado.
   Cada objecto recebia o meu elogio velado, lembrando-me a
forma como o velho Mr. Earnshaw gostava de entrar na cozinha,
limpa e asseada, e me chamava rapariga eficiente, dando-me
um xelim como bnus pelo Natal. Depois, comecei a pensar no
seu afecto por Heathcliff e no seu receio de que o ignorassem
aps a sua morte. Claro que estes pensamentos me levaram a
pensar na actual situao do pobre rapaz e, depois, passei das


canes ao pranto. Mas depressa conclu que era bem mais
sensato tentar :, corrigir alguns dos seus erros do que
verter lgrimas por eles, tendo-me por isso levantado e ido
para o ptio  sua procura.
   No estava longe. Fui dar com ele nos estbulos, a escovar
o plo luzidio do novo potro e a dar de comer aos outros
animais, como costumava fazer.
   -- Despacha-te! -- disse eu. -- Est to quentinho na
cozinha, e o Joseph foi para o quarto. V, deixa-me pr-te
bonito antes que Miss Catherine aparea. Depois, podem
sentar-se os dois  lareira e ficar a conversar at  hora de
ir para a cama.
   Heathcliff continuou com os seus afazeres e nem sequer
olhou para mim.
   -- Ento? Vens ou no vens? -- continuei. -- Fiz um bolo
para os dois... deve estar quase pronto. Alm disso, precisas
bem de meia hora para te arranjares.
   Esperei cinco minutos, mas no obtive resposta.
   Catherine ceou com o irmo e a cunhada. Joseph e eu tivemos
uma refeio deveras atribulada, temperada por crticas e
insultos. Os pedaos de bolo e queijo destinados a Heathcliff
ficaram em cima da mesa durante toda a noite, pois ele,
inventando as desculpas mais descabidas, ficou a trabalhar
at s nove da noite, indo directamente para o quarto, mudo e
triste.
   Cathy ficou a p at tarde. Tendo um monte de coisas para
organizar com vista  recepo dos seus novos amigos, apenas
veio uma vez  cozinha  procura do velho amigo, mas como ele
no estava, apenas perguntou o que se passava com ele e saiu
logo em seguida.
   Na manh seguinte, Heathcliff levantou-se cedo. Como era
dia santo, foi descarregar a m disposio para o brejo,
reaparecendo apenas quando a famlia j tinha ido para a
igreja. O jejum e a reflexo pareciam ter-lhe feito bem:
abraou-me longamente e, depois de ganhar a coragem
necessria, exclamou abruptamente:
   -- Nelly, faz de mim uma pessoa decente. Prometo que me vou
portar bem.
   -- J no era sem tempo, Heathcliff -- disse eu. --
Ofendeste a Catherine, e ela at  capaz de estar arrependida
de ter voltado para casa! At parece que tens inveja de ela
ser o centro das atenes.
   A noo de *ter inveja* de Catherine era incompreensvel
para ele. Porm, a noo de a magoar deixou-o deveras
preocupado.
   -- Ela disse-te que estava ofendida? -- quis saber, muito
srio.
   -- Chorou quando eu lhe disse que tinhas sado novamente
esta manh. :,
   -- Bom, eu tambm chorei a noite passada -- retorquiu. -- E
tinha mais motivos para chorar do que ela.
 -- Sim, imagino o que  ir para a cama com o corao cheio de
orgulho e o estmago vazio -- respondi. -- O orgulho s traz
tristezas. Mas, se ests assim to arrependido da birra que
fizeste, pede-lhe perdo quando ela entrar. Vai ter com ela,
d-lhe um beijo e diz-lhe... Ora, tu sabes melhor do que eu o
que lhe hs-de dizer. Basta que o faas com sinceridade e sem
pensares que ela se transformou numa grande senhora s porque
tem uns vestidos todos bonitos. E agora, embora eu ainda tenha
o jantar para fazer, vou tirar uns minutinhos para tratar de
ti, para que, comparado contigo, o Edgar Linton parea um


mono. Alis, nem  preciso, porque isso j ele . Tu podes
ser mais novo, mas s muito mais alto e espadado do que ele.
Aposto que bastaria um empurro teu para o deitar logo ao
cho, no achas?
   O rosto de Heathcliff iluminou-se por instantes. Depois,
ficou cabisbaixo e suspirou.
   -- Mas, Nelly, ainda que o deitasse ao cho vinte vezes, eu
no ficaria mais bonito do que ele. O que eu queria era ter o
cabelo louro e a pele branca, vestir-me e comportar-me bem e
ter a oportunidade de ser to rico como ele!
   -- E andar sempre a chamar pela mam -- acrescentei, -- e
tremer como varas verdes sempre que algum rapaz das
redondezas ameaa dar-lhe um murro, e ficar fechado em casa
sempre que est a chover... Ento, Heathcliff, que
personalidade  a tua? Vem ver-te ao espelho, que eu
mostro-te aquilo que na realidade deves desejar: j reparaste
nestas duas linhas entre os olhos e nestas sobrancelhas
grossas que, em vez de arqueadas, se afundam ao centro, e
nestes dois diabinhos negros e profundos, que nunca abrem as
janelas afoitamente, mas que atrs delas se escondem, a
brilhar como dois espies do Inferno? Aprende a disfarar
essas rugas, a levantar essas sobrancelhas sem medo e a
transformar esses demnios em anjos inocentes e puros,
deixando de desconfiar e duvidar de tudo e todos e de ver
inimigos nos teus amigos. Deixa essa expresso de co raivoso
que finge aceitar como merecidos maus tratos e pontaps, mas
que afinal odeia o mundo, pelos sofrimentos que passa, tanto
quanto aquele que lhe d os pontaps.
   -- Por outras palavras, devo desejar os grandes olhos azuis
e a testa lisa do Edgar Linton -- respondeu. -- Mas isso  o
que eu desejo, e no me adianta nada! :,
   -- Fica sabendo que um bom corao  capaz de pr uma cara
bonita -- continuei, -- nem que ela seja negra como um tio;
e que um mau corao transforma a cara mais linda em algo mais
feio que a prpria fealdade. Pronto, agora que j estamos
lavados e penteados e menos carrancudos... diz l se no te
achas um belo rapaz? Pois eu digo que sim! Quem no te
conhecesse diria que s um prncipe. Sabe-se l se o teu pai
no era o Imperador da China e a tua me uma rainha indiana,
capazes de comprar, s com o rendimento de uma semana, o Alto
dos Vendavais e a Granja dos Tordos? Podes muito bem ter sido
raptado por piratas malvados e trazido para Inglaterra. Olha,
se eu estivesse no teu lugar, no parava de pensar na minha
nobre ascendncia, para assim ganhar coragem e dignidade
suficientes para suportar a tirania de um simples fidalgote
rural!
   Continuei neste tom, at que, por fim, Heathcliff
desanuviou a face carrancuda, mostrando-se bastante simptico.
A nossa conversa foi, entretanto, interrompida pelo barulho
de rodas a entrar no ptio. Ele correu para a janela e eu para
a porta, a tempo de apreciarmos os dois irmos Linton, que se
apeavam da sua carruagem, abafados nas suas capas de pele, e o
casal Earnshaw, que desmontava dos seus cavalos (no Inverno
iam frequentemente  missa a cavalo). Catherine deu uma mo a
cada um dos seus amigos e levou-os para dentro, indo
sentar-se os trs frente  lareira, o que depressa coloriu a
palidez das suas faces.
   Disse ao meu companheiro para se despachar, fazendo-o
prometer que se iria portar bem, como um menino bem disposto
e bem comportado. Porm, no poderia ter tido mais azar, dado
que, quando abria a porta que dava para a cozinha, Hindley


entrava justamente pela porta do outro lado, tendo ficado os
dois frente a frente. O patro, irritado por ver Heathcliff
to limpo e alegre, ou talvez para cumprir a promessa que
fizera a Mrs. Linton, empurrou-o bruscamente e deu ordens a
Joseph para que no deixasse o mido entrar na sala e que o
fechasse no sto at ao fim do jantar, pois se ficasse com
eles na sala, ia comear a meter os dedos nos bolos e a
roubar a fruta.
   -- No senhor! -- no pude deixar de intervir. --
Garanto-lhe que ele no tocar em nada. E no acha que ele
tambm merece, como todos ns, uma guloseima?
   -- Se o apanho c em baixo antes do anoitecer, quem lhe d
a guloseima sou eu, e pessoalmente. -- bradou Hindley. --
Vai-te :, vagabundo! Com que ento deu-te para andares todo
apinocado? Espera at eu deitar as mos a essas lindas
madeixas! Talvez ainda fiquem maiores!
   -- J esto suficientemente grandes -- comentou Linton,
espreitando pela frincha da porta. No sei como ele ainda
consegue ver com essa juba sobre os olhos!
   Master Linton fizera este comentrio sem qualquer inteno
insultuosa, mas o feitio violento de Heathcliff no estava
preparado para ouvir gracejos vindos de algum que ele j
odiava como seu inimigo mortal. Pegou na primeira coisa que
viu (uma concha de calda de ma a ferver) e atirou-a  cara
do outro, que logo desatou num berreiro, atraindo a ateno de
Isabella e de Catherine, que acorreram  cozinha para saberem
o que se passava.
   Mr. Earnshaw agarrou imediatamente no culpado e levou-o
para o seu quarto, onde, sem dvida, lhe deve ter aplicado um
violento correctivo, para lhe acalmar os mpetos, pois, quando
desceu, vinha vermelho e ofegante. Peguei no pano da loia e,
sem grande vontade, limpei o nariz e a boca de Edgar, dizendo
que era bem feito para aprender a no meter o nariz onde no
era chamado. A irm comeou a chorar e a dizer que queria ir
para casa, e Cathy ficou algo desorientada, corada de
vergonha.
   -- No lhe devias ter dito nada! -- disse a menina,
ralhando com Edgar. Ele estava mal disposto, e agora
estragaste a tua visita. E, ainda por cima, ele vai ser
castigado. Detesto que ele seja castigado! J perdi a vontade
de jantar. Por que te meteste com ele, Edgar?
   -- Mas eu no lhe disse nada -- soluou o rapaz,
libertando-se das minhas mos e acabando de se limpar com o
seu leno de cambraia. -- Prometi  mam que no lhe dirigia
a palavra e assim fiz.
   -- Pronto, no chores! -- replicou Catherine, com desdm.
--  Ningum te matou. Agora deixa-te de fitas. E fica quieto!
O meu irmo vem a! E tu cala-te, Isabella! Algum te fez mal?
   -- Ento, meninos, vamos para a mesa -- gritou Hindley,
irrompendo pela sala como um furaco. -- Aquele bruto ps-me
fora de mim. Da prxima vez, Edgar, aprenda a fazer respeitar
a lei com os seus prprios punhos. Vai ver que lhe d c um
apetite!
   Os convivas recuperaram a calma perante to excelente
repasto. Depois do passeio a cavalo, era natural que
estivessem cheios de fome e, como no lhes acontecera nada de
grave, depressa se consolaram.
   Mr. Earnshaw preparou-lhes apetitosos pratos repletos de :,
iguarias, e a patroa conseguiu anima-los com a sua conversa
alegre e viva. Eu mantinha-me atrs da cadeira dela e fiquei
indignada ao ver que Catherine, de olhos enxutos e olhar


indiferente, cortava calmamente uma asa do ganso que tinha na
sua frente.
   _Que criana mais insensvel pensei para comigo. _Com
que indiferena ela se desliga dos problemas do seu amigo de
infncia. Nunca a imaginara to egosta.
   Preparava-se para levar uma garfada  boca quando, de
repente, pousou o garfo. Corou, e as lgrimas comearam a
rolar. Deixou cair o garfo ao cho e baixou-se para o apanhar
e poder, assim, esconder as lgrimas. Depressa conclu que
tinha formulado um juzo errado a seu respeito, pois
apercebi-me de que aquele dia fora para ela um verdadeiro
purgatrio. Tentara, em vo, encontrar uma oportunidade para
ficar sozinha e poder ir ter com Heathcliff, que o patro
entretanto trancara no sto, como eu prpria tive
oportunidade de constatar, quando  noite tentei levar-lhe 
socapa um prato de comida.
   Ao sero houve baile. Cathy pediu para soltarem Heathcliff,
uma vez que Isabella no tinha par. Como os seus pedidos no
fossem atendidos, coube-me a mim a tarefa de servir de par a
Miss Linton.
   Com o entusiasmo da dana, depressa esquecemos as
tristezas. A festa subiu de tom quando chegou a banda de
Gimmerton, com os seus quinze elementos: trompete, trombone,
clarinetes, fagotes, cornetins e um contrabaixo, para alm dos
cantores. Era tradio percorrerem todas as residncias
respeitveis recolhendo donativos, pelo que todos achmos que
era um privilgio especial escut-los.
   Depois das habituais canes de Natal, pedimos-lhes que
cantassem outras canes a vrias vozes, e, como Mrs.
Earnshaw estava encantada com a msica e com toda aquela
animao, o espectculo durou at altas horas.
   Catherine tambm adorou. Mas disse que se devia ouvir
melhor no cimo das escadas e esgueirou-se no escuro. Fui atrs
dela e, como a sala estava cheia, no deram pela nossa sada e
fecharam a porta. Mas Catherine no se ficou pelo patamar,
continuando em direco ao sto, onde Heathcliff estava
preso. A chegada, chamou-o.
   Durante algum tempo o prisioneiro recusou-se teimosamente a
responder. Mas ela insistiu e, por fim, l conseguiu que ele
falasse com ela atravs da porta.
Coitadinhos! Deixei-os ficar a conversar em sossego, at que,
:, pressentindo que as canes estavam prestes a acabar e que
talvez fosse necessrio dar de beber aos msicos, subi a
escada para a avisar.
   Foi com surpresa que, em vez de a ver do lado de fora,
escutei vozes vindas de dentro do quarto. Aquela macaquinha
travessa tinha sado por uma clarabia, atravessado o telhado
e entrado pela clarabia do sto. Vi-me aflita para a
convencer a sair de l.
   Quando finalmente se decidiu, Heathcliff veio com ela.
Teimou comigo para o levar para a cozinha, uma vez que o meu
colega tinha ido para casa de um vizinho, para fugir quela
chinfrineira do Inferno, como ele costumava dizer. Tentei
explicar-lhe que no pretendia de modo algum ser cmplice das
suas maroteiras, mas, como o prisioneiro no comia desde o dia
anterior, estava disposta, por aquela vez, a deix-lo enganar
Mr. Hindley.
   Descemos os trs. Pus-lhe um banco ao p da lareira e
dei-lhe um monte de coisas boas para comer; mas ele sentia-se
enjoado e pouco comeu, revelando-se infrutferas todas as
minhas tentativas para o animar: fincou os cotovelos nos


joelhos, apoiou o queixo entre as mos assim se deixando
ficar, absorto e meditabundo.
   Quando lhe perguntei em que pensava, respondeu muito srio:
   -- Estou a ver se descubro qual a melhor maneira de me
vingar do Hindley. Pode levar o tempo que for preciso, mas s
descanso quando me vingar. S espero que ele no morra antes!
   -- Que vergonha, Heathcliff! -- ralhei eu. -- S a Deus
cabe punir os maus. Devemos aprender a perdoar.
   -- No, Deus nunca ter a enorme satisfao que eu vou ter
quando concretizar a minha vingana -- respondeu. Quem me dera
descobrir a melhor maneira! Deixa-me ficar sozinho, para que
possa pensar  vontade. Ao menos. enquanto penso na minha
vingana, no sinto a dor.
   Mas, Mr. Lockwood, o melhor  o senhor esquecer estas
histrias que no so nada divertidas.  imperdovel estar
aqui a falar h tanto tempo, e o seu caldo a arrefecer. Olhe,
o senhor at j est a cabecear com sono, mortinho por ir para
a cama! Quando eu penso que lhe podia ter contado a histria
de Heathcliff em meia dzia de palavras...
   Ento, interrompendo o seu discurso, Nelly levantou-se e
comeou a arrumar a sua costura. Porm, eu sentia-me demasiado
mole para deixar a lareira, e totalmente desperto.
   -- Sente-se, Mrs. Dean -- pedi-lhe. Sente-se, fique mais :,
meia-hora! Fez bem em ter contado a histria devagar;  esse
o mtodo que mais me agrada e peo-lhe que o mantenha at ao
fim. Estou interessado em cada uma das personagens a que faz
referncia.
   -- Mas j so onze horas.
   -- No importa, estou habituado a deitar-me tarde. Ficar a
p mais uma ou duas horas no faz diferena a quem se levanta
s dez.
   -- No devia ficar na cama at essa hora. Assim, perde o
amanhecer, ou seja, a melhor parte da manh. Quem no faz
metade do seu trabalho at s dez, arrisca-se a no conseguir
acabar a outra metade.
   -- De qualquer modo, Mrs. Dean, sente-se mais um bocadinho.
Acho at que amanh vou ficar na cama muito mais tempo, pois
parece-me que apanhei uma valente constipao.
   -- Deus queira que no. Bom, deixe-me ento dar um salto de
cerca de trs anos na minha histria. Durante esse tempo, Mr.
Earnshaw...
   -- No, no. De maneira nenhuma! A senhora sabe... quando
s vezes estamos sentados e  nossa frente est uma gata
entretida a lamber as crias, e ns estamos de tal forma
absortos a assistir  operao que, se ela se esquece de uma
orelha que seja, ficamos logo irritados?
   -- Meu Deus, mas que actividade mais ociosa.
   -- Pelo contrrio, uma actividade deveras activa e
cansativa. Neste preciso momento estou a exerc-la e peo-lhe,
por isso, que continue. J reparei que as pessoas desta regio
exercem sobre as pessoas da cidade a mesma atraco que a
aranha de uma priso exerce, em comparao com a aranha de uma
vivenda, sobre os seus ocupantes; e, no entanto, essa profunda
atraco no se deve exclusivamente  situao dos
observadores. As gentes desta terra vivem *de facto* de uma
forma mais autntica, mais ensimesmada, e menos virada para as
mudanas superficiais, para as coisas externas. Sinto-me
capaz de acreditar que aqui seria possvel acontecer um amor
eterno. E logo eu, que no acreditava que o amor pudesse durar
mais de um ano. No primeiro caso,  como se apresentssemos a
um homem esfomeado um nico prato de comida, onde possa


satisfazer o seu apetite at ao fim. No segundo,  como se
pusssemos esse homem diante de uma mesa repleta de iguarias
preparadas por cozinheiros franceses: em comparao com o
primeiro caso, ele poder retirar mais prazer no seu todo;
porm, :,
cada partcula corresponder apenas a um tomo no seu olhar e
memria.
   -- Oh, meu senhor, quando nos conhecer, ver que ns somos
iguais a quaisquer outros -- observou Mrs. Dean, nitidamente
confundida com o meu discurso.
   -- As minhas desculpas -- disse eu. -- A senhora, minha boa
amiga,  a negao desta teoria. Exceptuando alguns traos de
provincianismo de somenos importncia, a senhora no possui
qualquer das caractersticas que estou habituado a considerar
como tpicas da sua classe. Tenho a certeza de que a senhora
reflecte muito mais sobre as coisas do que a maioria dos
criados.  daquelas pessoas que foi obrigada a cultivar a
capacidade de reflexo por falta de oportunidade para
desperdiar o seu tempo com frivolidades.
   Mrs. Dean riu-se.
   --  certo que me considero uma mulher sensata e
equilibrada  -- disse ela -- mas no porque tenha passado a
vida inteira entre estes montes ou porque tenha visto sempre o
mesmo tipo de pessoas ou o mesmo tipo de aces ano aps ano.
 que tive de me submeter a uma disciplina muito rgida e isso
ensinou-me a ser sbia; e, depois, li muito mais do que o
senhor possa imaginar, Mr. Lockwood. No h um nico livro
nesta casa que eu no tenha lido e de onde no tenha tirado
algum ensinamento; a menos,  claro, que seja em grego ou em
latim, ou mesmo em francs... Mas, mesmo assim, sou bem capaz
de os distinguir dos outros, e isso  mais do que se pode
pedir  filha de um homem pobre.
   -- No entanto, se  para contar a minha histria com todos
os pormenores, acho que o melhor  dar-lhe j seguimento; e
ento, em vez de saltar esses trs anos, passo logo para o
Vero seguinte, o Vero de 1778, isto , h vinte e trs anos
atrs.
CAPTULO VIII
   Numa bela manh de Junho, nasceu um lindo beb, o primeiro
de quem fui ama e o ltimo da velha estirpe dos Earnshaw.
   Andvamos atarefados a segar feno num dos campos, quando a
rapariga que normalmente nos trazia a merenda apareceu uma
hora mais cedo que o habitual a correr pelo prado fora e pela
vereda acima, a chamar por mim
 --  um menino! -- gritava, ofegante. -- A criana mais
perfeita que Deus ao mundo deitou! Mas o mdico diz que a
senhora no escapa, pois est tsica h muitos meses... foi o
que eu o ouvi dizer a Mr. Hindley... e que agora j no h
nada que a salve, e morrer provavelmente antes do Inverno.
Vem, Nelly, vem depressa. Tu  que vais cuidar do menino,
dar-lhe leite com acar e olhar por ele dia e noite. Ah,
Nelly, quem me dera estar no teu lugar! Olha que ele vai ficar
 tua guarda assim que a senhora faltar.
   -- Mas ela est assim to mal? -- inquiri, largando o
ancinho e apertando melhor a touca.
   -- Acho que sim. Coitadinha, tem uma coragem to grande --
replicou a rapariga. -- Fala como se fosse viver o suficiente
para ver o filho crescer. Est to alegre que at d gosto
ver! Eu, no lugar dela, tenho a certeza de que no morria;


melhorava logo s de o ver, apesar do que diz o Dr. Kenneth.
Que raiva que me meteu aquele homem! Mrs. Archer trouxe o
anjinho  sala para o mostrar ao pai e, enquanto este o
contemplava cheio de satisfao, eis que surge aquele velho
rabugento a dizer: _Earnshaw,  um milagre a sua mulher ter
sobrevivido tanto tempo para lhe dar este filho. Quando ela
aqui chegou, estava convencido de que no iria durar tanto.
Mas, agora, aviso-o de que ela no passa deste Inverno. E no
se consuma muito, pois  um caso perdido. Sabe que mais, devia
ter tido mais cuidado quando escolheu este vimezinho frgil.
:,
   -- E o que foi que o patro respondeu -- perguntei.
   -- Acho que praguejou. Mas no prestei muita ateno,
porque estava mais interessada no rebento. -- E a rapariga
ps-se de novo a descrev-lo, delirante. Eu, que fiquei to
preocupada quanto ela, corri para casa para ir ver o menino,
embora estivesse cheia de pena de Hindley. No seu corao s
havia espao para dois dolos (a mulher e ele prprio); amava
ambos, mas adorava um s, e eu no conseguia imaginar como 
que ele iria suportar a perda.
   Quando chegmos ao Alto dos Vendavais, o patro estava
especado  porta de casa. Ao passar por ele, perguntei-lhe
como estava o menino.
   -- No tarda j anda, Nelly! -- respondeu, com um sorriso
alegre.
   -- E a senhora? -- aventurei-me a perguntar. -- O mdico
diz que ela...
   -- Raios partam o mdico! -- atalhou, rubro de raiva. -- A
Frances est perfeitamente bem. Para a semana j est boa.
Vais l acima v-la? Diz-lhe por favor que irei para junto
dela, desde que prometa no falar. Tive de sair do quarto
porque no se calava. Diz-lhe que o Dr. Kenneth a mandou estar
muito sossegada.
   Dei o recado a Mrs. EarnsEaw. Ela parecia eufrica e
respondeu alegremente:
   -- Eu mal abri a boca, Nelly, e ele saiu do quarto das duas
vezes a chorar. Diz-lhe que eu prometo no falar, mas que no
posso deixar de me rir dele!
   Pobrezinha! At  semana que antecedeu a sua morte, a boa
disposio nunca a abandonou. Quanto ao marido, insistia
obstinadamente, furiosamente at, em que a sade dela
melhorava de dia para dia. Quando o Dr. Kenneth o informou de
que os medicamentos j no faziam qualquer efeito naquela fase
da doena e de que no precisava de fazer mais despesas com os
seus servios, ele retorquiu:
   -- Eu sei que no preciso! Ela est bem e no precisa mais
de si! Nunca esteve tuberculosa. O que ela teve foi febres.
Mas j passou. A pulsao voltou ao normal e a febre j
baixou.
   Contou a mesma histria  mulher e ela pareceu acreditar
nele. Porm, certa noite em que estava recostada no ombro do
marido e se preparava para dizer que se sentia com foras para
se levantar no dia seguinte, deu-lhe um ataque de tosse muito
leve; ele pegou nela :, ao colo e levantou-a da cama: ela,
ento, abraou-o, a expresso alterou-se-lhe e
expirou.
   Tal como a rapariga tinha previsto, o menino, o Hareton,
ficou inteiramente ao meu cuidado. O pai dava-se por
satisfeito desde que o visse com sade e sem chorar. Ele 
que, de dia para dia, se mostrava mais dilacerado. O seu
desgosto era daqueles que no dava lugar a lamentos. No


chorava, nem rezava. Pelo contrrio, amaldioava tudo e todos,
rogava pragas a Deus e aos homens, e abandonou-se a uma vida
de dissipao.
   Os criados no aguentavam a sua tirania nem a sua maldade.
Eu e Joseph ramos os nicos que o conseguamos aturar. No meu
caso, no podia abandonar o menino que me tinha sido confiado.
Alm disso, Hindley tinha sido meu irmo de leite, de modo que
lhe perdoava tudo com mais facilidade que a um estranho.
   Joseph ficou para atormentar os rendeiros e os
trabalhadores e tambm porque era sua vocao estar onde
houvesse muita maldade para censurar.
   Os maus hbitos e as ms companhias do patro constituam
um pssimo exemplo para Heathcliff e Catherine, e sua conduta
para com o rapaz era de fazer perder a pacincia a um santo.
Para dizer a verdade, durante algum tempo, parecia que
Heathcliff tinha sido possudo pelo demnio: deleitava-se em
contemplar a autodestruio de Hindley, rumo  suprema
redeno. De facto, parecia que a sua crueldade e selvajaria
aumentavam de dia para dia.
No h palavras que descrevam o verdadeiro inferno em que a
casa se tornou. O cura deixou de aparecer e, por ltimo,
nenhuma pessoa decente se atrevia a visitar-nos, se
exceptuarmos as visitas de Edgar Linton a Miss Cathy. Aos
quinze anos, ela j era a rainha da regio. No havia nenhuma
que se lhe igualasse, pelo que se tornou numa criatura
arrogante e caprichosa. Confesso que, com o andar do tempo,
at eu comecei a no gostar dela, e no raras vezes lhe chamei
a ateno para a necessidade de dominar a sua arrogncia. No
entanto, nunca se mostrou melindrada comigo: mantinha uma
extraordinria constncia nas velhas amizades, e o seu afecto
por Heathcliff nunca esmoreceu, a tal ponto que o jovem
Linton, com toda a sua superioridade, se via e desejava para o
igualar.
   Linton foi o meu ltimo patro. Aquele  o seu retrato, por
cima do fogo. Anteriormente, estava pendurado ao lado do
retrato da esposa, mas o quadro dela foi retirado, de modo que
o senhor no pode apreciar como ela era. Consegue v-lo daqui.
:,
   Mrs. Dean ergueu a vela e iluminou um rosto de feies
suaves, extraordinariamente parecido com o da jovem que eu
vira no Alto dos Vendavais, embora com uma expresso mais
triste e mais doce. Dava um lindo quadro. O longo cabelo
loiro, aos caracis, caa em cachos de cada lado da cabea, os
olhos eram grandes e o olhar grave. Fisicamente tinha um
aspecto frgil e gracioso.  difcil imaginar como  que
Catherine Earnshaw conseguiu esquecer o seu amigo de infncia
em prol desta personagem. Tentei dar voltas  cabea para
descobrir como  que algum com um temperamento semelhante ao
seu aspecto fsico podia corresponder de alguma forma  minha
imagem de Catherine Earnshaw.
   -- Um belo retrato, sem dvida. -- comentei. -- Est
parecido?
   -- Est. -- respondeu -- Mas ele tinha melhor aspecto
quando estava feliz. Esse era o seu ar normal do dia a dia.
Faltava-lhe a alegria.
   Catherine tornara-se amiga dos Linton desde que fora sua
hspede durante cinco semanas, e, como no pretendia mostrar
o seu lado mau na presena dos amigos, e tinha o bom senso de
ter vergonha de ser mal educada numa casa onde fora e era
tratada com a maior cortesia, comeou a insinuar-se
melifluamente junto do velho casal atravs de uma estudada


cordialidade, conquistando a admirao de Isabella e o corao
do irmo (trofus que lhe agradaram sobremaneira desde o
incio, pois era muito ambiciosa), adoptando uma duplicidade
de carcter, sem contudo o fazer para enganar algum.
   Quando ouvia chamar Heathcliff de rufia ordinrio e mau
como as cobras, fazia tudo para no se comportar como ele.
Porm, em casa, mostrava pouca inclinao para a delicadeza,
no fossem fazer troa dela, e evitava ser demasiado rebelde
quando isso no lhe trouxesse quaisquer vantagens.
   Mr. Edgar raramente tinha coragem para visitar abertamente
o Alto dos Vendavais. Tinha pavor da reputao de Earnshaw e
tremia de medo sempre que pensava ir encontr-lo, apesar de
receber sempre da nossa parte as melhores provas de
civilidade: at o prprio patro, sabendo ao que ele vinha,
evitava ofend-lo e, se no conseguia ser amvel, ento no
aparecia. Penso que as visitas do rapaz eram sobretudo uma
preocupao para Catherine. No era hipcrita, nem dada a
namoricos, e via-se que detestava juntar os seus dois amigos:
quando Heathcliff fazia troa de Linton  frente dele, ela no
ousava aderir, como fazia na sua ausncia; e quando :, Linton
expressava repulsa e antipatia por Heathcliff, ela no se
atrevia a mostrar indiferena, como se as crticas feitas ao
amigo de infncia no tivessem para ela qualquer importncia.
   Muitas vezes me ri das suas mgoas ocultas e das suas
perplexidades, que ela a todo o custo tentava furtar  minha
chacota. Sei que pode parecer maldade da minha parte, mas era
to orgulhosa que era quase impossvel ter pena dos seus
desaires, at que casse em si e aprendesse a ser mais
humilde.
   Finalmente, decidiu abrir-se comigo e confessar-me tudo.
No havia mais ningum no mundo a quem pudesse recorrer para
sua conselheira.
   Certa tarde, Mr. Hindley ausentou se e Heathcliff resolveu
aproveitar a oportunidade para ter uma folga. Tinha acabado de
fazer os dezasseis anos e, embora no fosse feio de todo, a
verdade  que, contrariamente ao seu aspecto actual, gerava
uma sensao de repulsa fsica e psquica.
   Em primeiro lugar, tinha perdido os benefcios da sua
anterior educao: o trabalho, pesado e contnuo, do raiar ao
pr do sol, havia extinguido a sua curiosidade de outrora, bem
como o seu gosto pelos livros e pelo saber. Esmorecido estava
tambm aquele sentimento de superioridade nele instilado desde
criana pelo manifesto favoritismo do velho Earnshaw. Lutava
desesperadamente por acompanhar Catherine nos estudos, e foi
com recolhida mgoa que os abandonou, mas o certo  que os
abandonou por completo; e assim que compreendeu que jamais
conseguiria atingir a sua posio anterior, desistiu de
qualquer esforo para melhorar. Consequentemente, o aspecto
fsico tornou-se no espelho da sua degradao mental: adoptou
um comportamento desleixado e uma aparncia ignbil; o seu mau
feitio natural deu origem a um excesso, quase demente, de
insociabilidade, sentindo, por isso, um prazer mrbido em
despertar a averso (e no a simpatia) dos poucos que o
rodeavam.
   Catherine e Heathcliff continuavam a ser companheiros
inseparveis durante os intervalos do trabalho. Todavia,
deixou de expressar o seu afecto por ela atravs de palavras e
fugia assustado das suas carcias de menina, como se soubesse
de antemo que no correspondiam  verdade.
   Naquela tarde, estava eu a ajudar Miss Cathy a vestir-se,
quando ele entrou por ali dentro e lhe comunicou a sua deciso


de no :, trabalhar mais naquele dia. Ora ela no contava que
Heathcliff fosse tirar uma folga e pensava que a casa ia ficar
toda por sua conta: a verdade  que tinha conseguido informar
Mr. Edgar da ausncia do irmo e preparava-se para o receber.
   -- Ests ocupada esta tarde, Cathy? -- perguntou. -- Vais a
algum lado?
   -- No. Est a chover. -- respondeu ela.
   -- Ento para que puseste esse vestido ridculo? -- quis
ele saber. -- Espero que no venha c ningum.
   -- Que eu saiba, no -- titubeou a menina. -- Mas no
devias estar a trabalhar no campo, Heathcliff? J acabmos de
jantar h uma hora e at pensei que j tinhas sado.
   -- No  todos os dias que o Hindley nos d o prazer da sua
ausncia -- comentou o rapaz. -- Hoje no trabalho mais.
Resolvi ficar contigo.
   -- Olha que o Joseph vai fazer queixa -- adiantou ela. -- 
melhor ires-te embora!
   -- O Joseph foi carregar cal para l de Pennistow Crag. Tem
com que se entreter at  noite e nunca chegar a saber.
   Terminada a frase, abeirou-se da lareira e sentou-se.
Catherine reflectiu por instantes, de sobrolho carregado, e
achou que era melhor preparar o caminho para a tal visita.
   -- A Isabella e o Edgar Linton disseram que eram capazes de
passar por c esta tarde -- disse, ao cabo de um minuto de
silncio. Como est a chover, se calhar nem vm. Mas pode ser
que ainda apaream. E, se vierem, ouves das boas sem
necessidade.
   -- Cathy, pede  Ellen para dizer que ests ocupada --
insistiu ele. -- No me troques por esses idiotas dos teus
amiguinhos mimados! s vezes apetece-me fazer queixa... mas
no fao.
   -- Queixa de qu? -- exclamou Catherine, encarando-o, de
olhos esbugalhados e expresso preocupada. -- Ai, Nelly! --
acrescentou, petulante, afastando a cabea das minhas mos.
-- J me despenteaste o suficiente! Chega, larga-me! O que 
que queres dizer com isso da queixa, Heathcliff?
   -- Nada, nada. Olha apenas para aquele calendrio --
apontou para uma folha pendurada ao lado da janela e
continuou:
   -- As cruzes significam as tardes que passaste com os
Linton. Os pontos marcam as tardes que passaste comigo. Ests
a ver? Marquei os dias todos. :,
   -- Sim, e depois? Que grande parvoce. Como se eu reparasse
nessas coisas! -- replicou Catherine, irritada. -- E para que
serve isso, no me dirs?
   -- Serve para te mostrar que eu me importo contigo --
respondeu Heathcliff.
   -- E  preciso que eu ande sempre atrs de ti? -- perguntou
ela, furiosa. -- O que  que adianta? Tu no sabes falar de
nada! Sempre que falas ou fazes alguma coisa para me
distraires, pareces um burro mudo ou uma criana pateta.
   -- Nunca me tinhas dito que eu falava pouco, nem que no
gostavas da minha companhia, Cathy -- exclamou Heathcliff,
visivelmente nervoso.
   -- A tua companhia no serve para nada, se no souberes
nada e no disseres nada repontou a menina.
   O seu companheiro levantou-se, mas no teve tempo de
expressar os seus sentimentos, dado que, de repente, ouvimos
no ptio o trotar de cavalos e, logo a seguir, depois de ter
batido  porta levemente, o jovem Linton entrou, esfuziante
de alegria pelo inesperado convite.


   Era notrio o contraste entre os dois amigos, naquele
momento em que se cruzaram, um a entrar e o outro a sair. Era
como comparar uma regio montanhosa, triste e poluda, com um
vale frtil e belo. Por outro lado, o tom de voz e a saudao
de Edgar eram totalmente opostos ao seu aspecto. Tinha uma
maneira de falar suave e delicada e pronunciava as palavras
como o senhor, Mr. Lockwood, isto , com menos rudeza e mais
brandura do que ns.
   -- No vim cedo demais, pois no? -- perguntou, olhando
para mim. (Eu tinha comeado a limpar as pratas e a arrumar as
gavetas do armrio).
   -- No respondeu Catherine. -- E tu, Nelly, o que ests
aqui a fazer?
   -- Estou a trabalhar, menina -- respondi. (_Mr. Hindley
tinha-me dado ordens expressas para no deixar a menina
sozinha caso os Linton aparecessem).
   Ela aproximou-se de mim e segredou-me sorrateiramente:
 --  Desaparece daqui, tu e os teus espanadores! Os criados
no costumam andar a limpar a casa  frente das visitas.
   -- Mas esta  a melhor altura, sobretudo agora que o patro
est ausente -- retorqui em voz alta. -- A menina sabe como
ele detesta :, que eu faa as limpezas na sua presena. Estou
certa de que Master Edgar me perdoar.
   -- Eu tambm no gosto que faas as limpezas  minha frente
_ exclamou a menina com altivez, no dando sequer tempo a que
o seu convidado respondesse. (_Estava com dificuldade em
recuperar a calma depois da pequena discusso com Heahcliff).
   -- Sinto muito, Miss Catherine! -- respondi, continuando a
aplicar-me aos meus afazeres.
   Ela, pensando que Edgar no estivesse a ver, arrancou-me o
pano da mo e deu-me um forte belisco no brao.
   Como j lhe disse, no morria de amores por ela e, de vez
em quando, dava-me um certo prazer p-la em cheque, para mais
agora que me magoara imenso; por isso, levantei-me e dei um
grito.
   -- Oh, Miss Cathy, que maldade! A menina no tinha o
direito de me dar um belisco. No lho admito!
   -- Eu nem te toquei, minha grande mentirosa! -- gritou ela,
com as orelhas rubras de raiva, preparando-se para repetir a
faanha. (_Tinha uma enorme dificuldade em dissimular estes
acessos, durante os quais ficava quase sempre com a cara em
brasa).
   -- Explique-me ento o que  isto? -- ripostei, mostrando a
marca que tinha no brao.
   Ela bateu com o p no cho, hesitou uns segundos e,
impelida pelo seu violento mau-gnio, deu-me uma bofetada com
tanta fora que me vieram as lgrimas aos olhos.
   -- Catherine, querida! Ento? -- interveio Linton,
profundamente chocado com o duplo crime de perjrio e
violncia perpetrado pelo seu dolo.
   -- Sai j da sala, Ellen -- repetiu Catherine, a tremer,
completamente fora de si.
   Mareton, que me seguia para todo o lado e, na altura,
estava sentado no cho perto de mim, desatou a chorar ao ver
as minhas lgrimas, queixando-se entre soluos que a tia
Cathy  m, facto que canalizou a fria dela para cima do
menino. Pegou nele pelos ombros e deu-lhe tantos abanes que a
pobre criana ficou lvida, apesar das tentativas infrutferas
de Edgar para lha arrancar das mos. Porm, no meio da
confuso, uma das mos de Cathy levantou-se e aplicou em
Linton um valente tabefe na orelha, que no deixava dvidas


quanto  intencionalidade do acto.
   Ele recuou, consternado. Eu aproveitei para pegar no menino
e :, fui para a cozinha, deixando a porta aberta, pois tinha
curiosidade em ver de que forma iriam eles resolver aquele
desentendimento.
   O visitante, ofendido, foi para o canto onde tinha pousado
o chapu, plido e com os lbios a tremer.
   _Bem feito! pensei eu. _Vai-te embora, que  para
aprenderes! Ainda bem que tiveste uma pequena amostra do seu
verdadeiro caracter.
   -- Aonde vais? -- perguntou Catherine, correndo para a
porta.
   Ele desviou-se e tentou passar.
   -- No vs! -- exclamou ela, autoritria.
   -- Tenho de ir! -- respondeu Edgar, com a voz sufocada.
   -- No -- insistiu a rapariga, agarrando o fecho da porta.
-- No vs ainda, Edgar Linton! Senta-te. No vais certamente
deixar-me aqui sozinha neste estado? Sentir-me-ia
tremendamente infeliz e eu no quero ficar triste por tua
causa.
   -- Achas que posso ficar, depois de me teres batido? --
perguntou Linton.
   Catherine emudeceu.
   -- Tive medo e vergonha de ti -- continuou Edgar. -- Nunca
mais c volto!
   Os olhos dela comearam a brilhar, pestanejantes.
   -- E ainda por cima, disseste deliberadamente uma mentira!
-- acrescentou ele.
    -- No disse tal! -- contraps ela, recuperando a fala. --
No fiz nada deliberadamente. Mas vai, vai-te embora, se assim
o queres. Desaparece! Vou chorar at adoecer.
Deixou-se cair de joelhos ao p de uma cadeira e irrompeu num
pranto descontrolado.
   Decidido, Edgar saiu para o ptio, mas de repente estacou.
Eu tentei incentivar a sua primeira deciso:
 -- A menina  muito caprichosa, Master Linton -- comentei. --
M como qualquer criana mimada. V-se embora ou ela far de
propsito e fica doente s para nos arreliar.
   O frouxo pareceu hesitar, e olhou para a janela. Tinha
tanta vontade de se ir embora como um gato tem de abandonar
um rato ou um pssaro meio mortos.
   _Ah! pensei, _No tem salvao possvel. Est condenado.
Escolheu o seu prprio destino!
   E assim foi. Voltou para trs subitamente e entrou outra
vez na sala, fechando a porta atrs de si. E? quando eu voltei
a entrar, :, instantes depois, para os informar de que
Earnshaw tinha regressado a cair de bbado e pronto para
deitar a casa abaixo, como sempre acontecia nessas alturas,
verifiquei que a discusso tinha gerado uma maior intimidade
entre eles: derrubara as barreiras da timidez prpria da
adolescncia e permitira que abandonassem o disfarce da
amizade e se declarassem agora namorados.
   A informao da chegada de Mr. Hindley fez Linton correr
apressadamente para o cavalo e Catherine escapulir-se para o
quarto. Eu tratei de ir esconder Hareton e descarregar a
espingarda do patro, porque um dos seus passatempos favoritos
era pr-se a brincar com a arma quando estava embriagado,
pondo em perigo a vida de quem o provocasse ou lhe chamasse a
ateno. Por isso que a tornei inofensiva, para que as
consequncias fossem mnimas, caso ele chegasse ao ponto de
puxar o gatilho.


CAPTULO IX


   Mr. Hindley entrou a vociferar, soltando as mais terrveis
pragas e apanhou-me a esconder o filho no armrio da cozinha.
O Hareton mostrava-se salutarmente apavorado, quer perante os
brutais acessos de ternura do pai, quer perante os seus
colricos ataques de loucura, pois, se no primeiro caso,
corria o risco de morrer sufocado por beijos e abraos, no
segundo, via-se atirado para a lareira ou esmagado de encontro
 parede. Assim sendo, o pobrezinho deixava-se ficar muito
quieto onde quer que eu o metesse.
   -- Ah, finalmente descobri tudo! -- berrou Hindley,
agarrando-me pelo pescoo, como se fosse um co, e puxando-me
para trs. -- Por Deus e pelo Diabo, vocs juraram todos matar
aquela criana! Agora percebo por que razo ela est sempre
fora do meu alcance. Mas com a ajuda de Satans hei-de
fazer-te engolir a faca da cozinha, Nelly! E olha que no 
caso para rir; ainda agora enfiei o Kenneth de cabea para
baixo no pntano de Blackhorse, e quem mata um mata dois.
Hei-de dar cabo de alguns de vocs e no descanso enquanto
no o fizer!
   -- Mas com a faca da cozinha no, Mr. Hindley! --
repliquei, -- Estive a amanhar arenques com ela. Mate-me antes
com um tiro.
   -- Estavas bem era no Inferno! -- bradou. E  para onde
vais direitinha. No h lei em Inglaterra que possa impedir um
homem de manter a decncia em sua casa, e a minha est um
descalabro! Toca a abrir a boca!
   Empunhou a faca e meteu-me a ponta entre os dentes. Eu,
porm, no me deixei intimidar com as suas bravatas: Cuspi e
disse que a faca sabia mal que se fartava e que no a engolia
de maneira nenhuma.
   -- Ah! exclamou, soltando-me por fim. Vejo que aquele
patifrio no  o Hareton... Desculpa, Nell... se for, merece
ser :, esfolado  vivo por no ter vindo a correr
cumprimentar-me e por se ter posto a gritar como se eu fosse o
Diabo. Anda c, bicho desnaturado! Vou ensinar-te a domar um
pai desiludido da vida, mas de corao mole. Ora diz l, Nell,
no achas que o mido ficava melhor com as orelhas cortadas?
Os ces ficam mais bravos, e eu gosto de coisas bravas... D
c a tesoura... Vamos p-lo bravo e bem aparado! Alm disso,
isto de termos tanto orgulho nas nossas orelhas, no passa de
vaidade, de um sentimento diablico. J somos uns bons burros
mesmo sem elas. Caluda, mido! Caluda! Ora c est o meu
menino! V, enxuga as lgrimas! Isso mesmo, lindo menino. D
c um beijo. O qu? Ele no quer? D-me um beijo, Hareton!
Raios te partam, d-me j um beijo! Meu Deus, e ter eu de
criar um monstro destes! Ainda dou cabo deste malvado. To
certo como eu estar aqui.
   O pobre Hareton guinchava e esperneava nos braos do pai
com quanta fora tinha, e os gritos redobraram de intensidade
quando o pai o levou para o cimo da escada e o ergueu por cima
do corrimo. Gritei-lhe que o menino at podia ter um ataque
e corri escada acima para o salvar.
   Quando cheguei ao p deles, um rudo vindo de baixo fez
Hindley debruar-se sem se lembrar do que tinha nas mos.
   -- Quem vem l? -- perguntou, ao ouvir algum ao fundo das
escadas.
   Debrucei-me tambm, com o intuito de fazer sinal a


Heathcliff (cujos passos reconhecera) para no avanar mais.
Nisto, porm, no preciso instante em que desviei os olhos,
Hareton deu um pinote e, libertando-se da mo que o segurava
sem firmeza, precipitou-se.
   Mal tivemos tempo de sentir o arrepio do terror
percorrer-nos a espinha, pois vimos logo que o maroto estava
so e salvo: Heathcliff chegara no momento exacto e, num
reflexo rpido, aparara-lhe a queda; em seguida pousara-o no
cho e olhava agora para cima para ver quem teria sido o autor
da brincadeira.
   Um avarento que se tivesse desfeito de um bilhete premiado
por cinco xelins, e descobrisse no dia seguinte que tinha
perdido cinco mil libras com o negcio, no daria mostras de
maior estupefaco do que a patenteada por ele ao olhar l
para cima, e ver-se cara a cara com Mr. Earnshaw. O seu rosto
expressava, melhor do que quaisquer palavras, o desespero
profundo de ter sido ele prprio o instrumento que
neutralizara a sua prpria vingana. Se j estivesse :,
escuro, no duvido que tivesse tentado remediar o erro
esmagando a cabea de Hareton contra os degraus; mas
tnhamo-lo visto salv-lo e, alm disso, eu j me encontrava
l em baixo com o meu menino bem apertado contra o peito.
   Hindley desceu a seguir, mais devagar, j refeito e
envergonhado.
   -- A culpa  toda tua Ellen! -- exclamou -- Devias t-lo
mantido longe de mim! Devias t-lo arrancado das minhas mos!
Ele est ferido?
   -- Ferido!? -- gritei eu, furiosa. -- Se no morreu, fica
pateta de certeza! Oh! Por que no se levanta a me dele da
sepultura e vem ver como o senhor o trata. O senhor  pior que
os brbaros; tratar a carne da sua carne desta
maneira!
   O pai estendeu a mo para a criana que, ao ver-se nos meus
braos, parara imediatamente de chorar. Porm, mal ele lhe
tocou, o menino desatou a gritar ainda mais e a estrebuchar
como se estivesse acometido de convulses.
   -- No se meta com ele! -- prossegui -- Ele odeia-o...
todos o odeiam... Essa  a verdade! Que bela famlia... E a
que bonito estado o senhor chegou!
   -- E ainda vou chegar a um mais bonito, Nelly! -- disse o
tresloucado a rir, recuperando toda a sua grosseria. -- Para
comear, gira daqui para fora com ele! E tu, Heathcliff, ala!
Pe-te a andar tu tambm para bem longe da minha vista e dos
meus ouvidos. Ainda no vai ser desta que te mato. A menos que
deite fogo  casa... E por que no? Mas isso  conforme me der
na gana.
   Enquanto falava, tirou do aparador uma garrafa de
aguardente, das pequenas, e deitou uma poro num copo.
 -- No beba mais, Mr. Hindley! -- supliquei -- Tenha cuidado.
Pense neste pobre infeliz, j que no pensa em si!
   -- Qualquer outro far mais por ele do que eu -- foi a
resposta.
   -- Tenha piedade da sua alma! -- disse eu, tentando
arrancar-lhe o copo da mo.
   -- No tenho, no! Bem pelo contrrio. Tenho at muito
prazer em mand-la para as profundezas, s para castigar o
criador -- exclamou o blasfemo C vai um  perdio da minha
alma!
   Bebeu de um trago e mandou-nos embora, impaciente,
rematando as ordens com um chorrilho de imprecaes
abominveis, indignas demais para agora as repetir ou s quer


recordar. :,
   --  uma pena ele no morrer da bebedeira -- atalhou
Heathcliff devolvendo-lhe alguns dos palavres quando a porta
se fechou. Ele bem se esfora, mas tem uma sade de ferro. O
Dr. Kenneth at j disse que aposta a gua em como ele h-de
ir ao enterro de toda a gente que vive para c de Gimmerton e
que a sua vez s vai chegar quando for um pecador j muito
velho. A menos que tenha a sorte de lhe acontecer algum
imprevisto.
   Fui para a cozinha e sentei-me com o meu cordeirinho ao
colo at ele adormecer. Tal como eu previa, Heathcliff
dirigiu-se para o celeiro. Descobri mais tarde que afinal no
passara do banco corrido da cozinha, a se deixando ficar
deitado, longe do lume e muito calado.
   Estava eu a embalar o Hareton ao som duma cano que
comeava...
   *_Ia alta a noite, chorava o menino;
   Debaixo do cho escutava o ratinho... (1)
quando Miss Cathy, que do seu quarto ouvira a discusso, veio
espreitar  cozinha e perguntou:
   -- Ests sozinha, Nelly?
   -- Estou sim, menina -- respondi.
   Ela entrou e chegou-se para a lareira. Julgando que me ia
dizer alguma coisa, levantei os olhos e vi que estava
perturbada e ansiosa. Os lbios entreabriram-se-lhe, como se
fosse falar, tomou flego, mas, em vez de palavras,
escapou-se-lhe da boca apenas um suspiro.
   Continuei a cantar, sem esquecer o seu procedimento de h
pouco.
    -- Onde est o Heathcliff? -- perguntou, interrompendo-me.
   -- Est no estbulo, a cumprir as suas obrigaes -- foi a
minha resposta.
   Ele no me desmentiu; talvez tivesse adormecido.
   Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual vi duas lgrimas
rolarem pela face de Catherine e carem nas lajes.
   Ser que est arrependida da maneira vergonhosa como se
comportou ? -- pensei com os meus botes -- Seria para
admirar. Mas ela h-de vir s boas, e no sou eu quem a ajuda!
:,
(1) Primeiro verso da balada escocesa _O Aviso do Fantasma.
   Mas no, nada a perturbava a no ser as suas prprias
preocupaes.
   -- Ai, meu Deus! -- exclamou por fim. -- Como sou infeliz!
   -- Essa agora -- atalhei eu -- a menina sempre  muito
difcil de contentar! Tantos amigos e to poucos cuidados, e
mesmo assim no est contente!
   -- Nelly, s capaz de guardar um segredo? -- continuou,
ajoelhando-se aos meus ps e levantando para mim os seus
lindos olhos, com aquele ar que nos obriga a perdoar, mesmo
quando temos razo de sobra para ficar zangados.
   -- E  segredo que valha a pena? -- inquiri, j mais calma.
 -- , e estou a ficar muito preocupada. Tenho de desabafar!
Preciso de saber o que fazer... Hoje mesmo, o Edgar Linton
pediu-me em casamento e eu dei-lhe uma resposta... Mas agora,
e antes de te dizer se aceitei ou recusei, quero que me digas


qual das respostas devia ter dado.
   -- Francamente, Miss Catherine, como quer que eu saiba?
-- respondi. Depois da cena que a menina fez diante dele esta
tarde, e se o pedido foi feito depois disso, o mais acertado
seria recusar, pois das duas uma, ou ele  completamente
estpido, ou doido varrido.
   -- Se comeas com isso, no te conto mais nada -- ripostou
ela, toda serigaita, pondo-se de p. -- Aceitei, Nelly. V,
diz l. Achas que fiz mal?
   -- A menina aceitou, no aceitou? Ento de que serve
estarmos agora a discutir o assunto? Deu a sua palavra e j
no pode voltar atrs.
   -- Mas diz l se fiz bem... V, diz! -- exclamou ela
irritada, esfregando as mo com nervosismo e franzindo a
testa.
   -- H muitas coisas a ponderar antes de poder responder a
essa pergunta como deve ser -- sentenciei. -- Antes de mais
nada, a menina ama mesmo Mr. Edgar?
   -- E quem no ama? Claro que sim -- respondeu ela.
   Sujeitei-a ento ao seguinte interrogatrio, que no
deixava de vir a propsito para uma rapariga de vinte e dois
anos.
   -- Por que  que o ama, Miss Cathy?
   -- Que disparate de pergunta, amo-o,  tudo.
   -- Isso no chega. Tem de me dizer porqu.
   -- Ora, porque  bonito e gosto de estar com ele.
   -- Isso  grave -- foi o meu comentrio. :,
   E porque  jovem e alegre.
   Continua a ser grave.
   E porque ele me ama.
   Isso no conta. Continue.
   E porque ele vai ficar rico e eu hei-de gostar de ser a
mulher mais importante das redondezas e terei muito orgulho no
marido que arranjei.
   -- Isso  o pior de tudo! E agora diga l como  que o ama.
   Amo-o como toda a gente ama. Que parvoce, Nelly.
   No  parvoce nenhuma. V, responda!
   -- Amo o cho que ele pisa e o ar que ele respira e tudo o
que ele toca e as palavras que ele diz. Amo o seu aspecto, e
os seus actos, amo-o inteiro, integralmente. Ests satisfeita?
   -- E porqu?
   -- Ora, ests a brincar comigo. Isso  maldade! Mas para
mim, isto no  brincadeira nenhuma! -- protestou a jovem,
zangada, virando a cabea e pondo-se a olhar para o
lume.
   -- No estou a brincar, Miss Catherine -- repliquei. -- A
menina ama Mr. Edgar porque ele  bonito, alegre, jovem e
rico, e porque ele a ama a si. No entanto, a ltima razo no
vale nada... A menina, provavelmente, am-lo-ia mesmo sem
isso, e no seria por isso que o amaria, se ele no possusse
tambm as outras quatro qualidades.
   -- No, claro que no. Nesse caso, s podia ter pena dele,
ou at talvez o odiasse, se ele fosse feio e parvalho.
   -- Mas no mundo h mais homens ricos e bonitos; e at mais
ricos e mais bonitos do que ele. Por que no ama ento esses?
   -- Esses, se existem, no esto ao meu alcance. Como o
Edgar nunca encontrei nenhum.
   -- Mas ainda pode encontrar. E ele no vai ser bonito toda
a vida, nem jovem, e at talvez nem rico.
   -- Mas -o agora, e s o presente me interessa. V l se
dizes coisa com coisa.


   -- Bom, isso resolve a questo. Se s lhe interessa o
presente, case com Mr. Linton.
   -- E no preciso da tua permisso... Vou casar com ele,
sim! Afinal, acabaste por no me dizer se fao bem.
   -- Faz muito bem! Se for bom as pessoas casarem s a pensar
no presente. E agora, vamos l a saber por que se sente
infeliz? O seu irmo vai aprovar; os pais dele no vo
levantar objeces, acho eu; vai trocar uma casa desorganizada
e sem conforto por uma :, casa rica e respeitvel; alm disso,
ama o Edgar e o Edgar ama-a a si. Parece correr tudo pelo
melhor. Onde est ento o problema?
   -- *_Aqui*! E *aqui*! -- respondeu Catherine, batendo com
uma mo na testa e a outra no peito -- Nos lugares onde vive a
alma. Sinto na alma e no corao que fao mal!
   -- Isso  muito estranho! No estou a perceber.
   --  esse o meu segredo. Se no te rires de mim, eu
conto-to. No sou capaz de me explicar muito bem, mas vou
dar-te uma ideia do que sinto.
   Voltou a sentar-se ao meu lado. A sua expresso tornou-se
mais triste e mais grave e vi-lhe tremer as mos entrelaadas.
   -- Nelly, nunca tens sonhos esquisitos? -- disparou ela
subitamente, depois de reflectir durante alguns minutos.
   -- De vez em quando -- respondi.
   -- Eu tambm. J tive sonhos que nunca mais me abandonaram
e que me mudaram as ideias; espalharam-se dentro de mim, como
o vinho se espalha na gua, e alteraram a cor dos meus
pensamentos. E este  um deles. Vou contar-to, mas procura
no te rires em nenhum momento.
   -- Por favor, no conte, Miss Catherine! -- exclamei -- J
temos tristezas que cheguem sem ser preciso conjurar espritos
e vises para nos assombrarem. V, v, seja alegre e natural!
Veja o Hareton... esse no sonha com coisas estranhas. Veja
com que doura sorri enquanto dorme!
   -- Sim, e com que doura o pai amaldioa a solido em que
vive! Deves lembrar-te dele, quando ele era assim, do tamanho
deste pequerrucho... to pequenino e inocente como ele. No
entanto, Nelly, vais ter de me ouvir; no demora muito. Esta
noite no consigo estar alegre.
   -- No quero ouvir. No quero! -- repeti eu,
precipitadamente.
   Nessa altura eu era muito supersticiosa quanto a sonhos, e
ainda sou, e Catherine tinha um brilho especial no olhar, algo
que me fazia recear que eu pudesse extrair das suas palavras
alguma profecia e prever alguma terrvel catstrofe.
   Mostrou-se ofendida, mas no continuou. Da a pouco,
fingindo abordar outro assunto, voltou ao mesmo.
   Se eu estivesse no Cu, Nelly, ia sentir-me muito infeliz.
   -- Porque no  l o seu lugar -- retorqui. Todos os
pecadores se sentiriam infelizes no Cu.
   -- No  por isso.  que sonhei que estava l. :,
   -- J lhe disse que no quero saber dos seus sonhos, Miss
Catherine! Vou-me deitar atalhei eu novamente.
   Ela riu-se e agarrou-me quando fiz meno de me levantar da
cadeira. :,
   -- No  nada disso -- exclamou. S ia dizer que o Cu no
parecia ser a minha casa e eu desatei a chorar para voltar
para a terra e os anjos ficaram to zangados que me expulsaram
e me lanaram no meio do urzal, e eu fui cair mesmo no topo do
Alto dos Venda vais, e depois acordei a chorar de alegria.
Este sonho explica o meu segredo to bem como o outro: sou to
feita para ir para o Cu, como para casar com o Edgar Linton;


e se esse monstro que est l dentro no tivesse feito o
Heathcliff descer to baixo, eu nem teria pensado nisto: seria
degradante para mim casar-me agora com Heathcliff; por isso,
ele nunca saber como eu o amo; e no  por ele ser bonito,
Nelly, mas por ser mais parecido comigo do que eu prpria.
Seja qual for a matria de que as nossas almas so feitas, a
minha e a dele so iguais, e a do Linton  to diferente delas
como um raio de lua de um relmpago, ou a geada do fogo.
   Antes de o discurso terminar, apercebi-me da presena de
Heathcliff. Pressentindo um ligeiro movimento, olhei para trs
e vi-o levantar-se do banco e esgueirar-se sorrateiro.
Estivera a escutar toda a nossa conversa at ao momento em que
Catherine disse que seria degradante para ela casar com ele,
e, depois, no quisera ouvir mais nada.
   Do lugar onde se encontrava, sentada no cho e com o
espaldar do banco de permeio, a minha companheira no deu nem
pela presena de Heathcliff, nem pela sua partida. Mas eu
estremeci e fiz-lhe sinal para que se calasse.
   -- Porqu? perguntou ela, olhando nervosamente para todos
os lados.
   -- Vem a o Joseph -- expliquei, ouvindo o rudo oportuno
do rodado da carroa pela estrada acima. -- E o Heathcliff
h-de vir com ele. At  capaz de j estar  porta.
Ora, ele da porta no pode ouvir nada! -- disse ela -- D c o
Hareton e vai tratar da ceia e, quando estiver pronta,
convida-me para cear contigo. Quero enganar a minha
conscincia desassossegada e convencer-me de que o Heathcliff
no entende nada destas coisas. Ele no entende, pois no? No
sabe o que  estar apaixonado, pois no?
   -- No sei por que no h-de saber, e to bem como a menina
:, -- retorqui. -- E se a menina  a sua eleita, ele ser o
ser mais infeliz do mundo! Assim que a menina se tornar Mrs.
Linton, ele vai perder a amiga, a amada, tudo! A menina j
pensou como ir suportar a separao, e como ir ele suportar
ficar completamente sozinho no mundo? Porque, Miss
Catherine...
   -- Ele... completamente sozinho! Ns dois... separados! --
exclamou ela, indignada. -- E quem nos vai separar, no me
dirs? Quem tentar ter o destino de Milo! ~ No enquanto eu
for viva, Ellen... nenhum mortal o conseguir. Mais depressa
se evaporariam da face da terra todos os Linton do que eu
permitiria separar-me do Heathcliff! Oh, no era essa a minha
inteno... no era isso que eu queria dizer! Nunca seria Mrs.
Linton por um tal preo! Ele continuar a ser para mim o que
tem sido toda a vida. E o Edgar ter de pr de lado a
antipatia que sente por ele e, pelo menos, toler-lo. E assim
ser quando conhecer os meus sentimentos por Heathcliff.
Nelly, sei que me vais achar uma tremenda egosta, mas nunca
pensaste que, se eu me casasse com o Heathcliff, acabaramos
os dois a pedir esmola? Ao passo que, se casar com o Linton,
posso ajudar o Heathcliff a erguer a cabea e a sair do jugo
do meu irmo?
   -- Com o dinheiro do seu marido, Miss Catherine? --
perguntei. Ver que ele no  to fcil de convencer como
pensa; alm disso, e sem me querer arvorar em juiz, parece-me
que essa  de todas a pior razo para se tornar esposa do
jovem Linton.
   -- No  nada -- ripostou. --  mas  a melhor de todas! As
outras eram s para satisfazer os meus caprichos, e tambm os
do Edgar... para ele ficar contente. E esta  por uma pessoa
que congrega em si tanto os meus sentimentos pelo Edgar como


os que nutro por mim mesma. No sei como explic-lo, mas
certamente que tu e toda a gente tm a noo de que existe, ou
deveria existir, um outro eu para alm de ns prprios. Para
que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a
isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos
do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o
incio;  ele que me mantm viva. Se tudo o mais perecesse e
*ele* ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se
tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, o universo
tornar-se-ia para mim numa vastido desconhecida, a que eu no
teria a sensao de pertencer. O meu amor pelo Linton  :,
   (1) Atleta grego que, ao tentar rachar uma rvore ao meio,
ficou nela entalado, tendo sido devorado pelos lobos.
como a folhagem dos bosques: transformar-se- com o tempo,
sei-o bem, como as rvores se transformam com o Inverno. Mas
o meu amor por Heathcliff  como as penedias que nos
sustentam: podem no ser um deleite para os olhos, mas so
imprescindveis. Nelly, eu *sou* o Heathcliff. Ele est
sempre, sempre, no meu pensamento. No por prazer, tal como eu
no sou um prazer para mim prpria, mas como parte de mim
mesma, como eu prpria. Portanto, no voltes a falar na nossa
separao, pois  algo de impraticvel,
e...
   Deteve-se, escondendo o rosto nas pregas da minha saia, mas
eu empurrei-a. Tanta loucura fizera-me perder a pacincia!
   -- Se eu for capaz de dar senso a tanto contra-senso --
disse eu -- s servir para me convencer ainda mais da sua
ignorncia dos deveres que ir assumir com o casamento; ou
seja, que a menina  uma pessoa sem corao e sem princpios.
Mas no me importune mais com os seus segredos, pois no
prometo guard-los.
   -- E este, guardas? -- perguntou ela ansiosa.
   -- No. No prometo nada -- repeti.
   Ela ia insistir de novo, quando a entrada de Joseph ps fim
 nossa conversa. Catherine puxou a cadeira para um canto e
pegou no Hareton enquanto eu fazia a ceia.
   Quando a ceia ficou pronta, gerou-se uma altercao entre
mim e o meu colega sobre quem ia levar a comida a Mr. Hindley,
e, quando chegmos a acordo, j a ceia estava quase fria.
Resolvemos ento que o melhor era esperar que ele a pedisse,
quando estivesse com vontade, pois tnhamos muito medo de
perturbar a sua solido.
   -- Com. qu.esse mecatrefe .inda no voltou do campo a uma
hora destas? Qu.andar ele a fazer, o g.anda mandrao? --
perguntou o velho, pondo-se  procura de Heathcliff.
   -- Vou cham-lo -- disse eu. -- Tenho a certeza de que est
no celeiro.
Fui at l, chamei-o, mas no obtive resposta. Quando voltei,
disse baixinho a Catherine que ele devia ter certamente ouvido
uma boa parte do que ela dissera, e contei-lhe como o vi
esgueirar-se da cozinha precisamente no momento em que ela se
queixava da conduta do irmo para com ele.
   Catherine deu um salto, muito nervosa, largou Hareton em
cima do banco e foi a correr  procura do amigo, sem se dar
tempo sequer :, para pensar por que motivo estaria assim to
agitada ou de que maneira a nossa conversa o poderia ter


afectado.
   A demora foi tanta que Joseph props que no esperssemos
mais. Matreiro como era, achava que eles tardavam em aparecer
para escaparem s suas interminveis rezas. Tinham ruindade
de sobra p.ra isso e muito mais, disse ele. E, nessa noite,
acrescentou em sua inteno uma orao especial ao j habitual
quarto de hora de splicas antes do repasto, e teria
acrescentado outra no final da aco de graas, se a nossa
jovem patroa no tivesse entrado na cozinha de rompante,
ordenando-lhe que se fizesse  estrada sem demora e fosse
buscar Heathcliff onde quer que ele estivesse e o trouxesse
imediatamente de volta!
   -- Quero falar com ele. E *tem* de ser antes de eu ir para
o meu quarto -- disse ela. -- A cancela est aberta... ele
deve andar por a e no me ouviu chamar, pois no respondeu,
apesar de eu ter gritado com toda a fora de cima do
curral.
   A princpio, Joseph fez-se rogado. Ela, porm, estava
empenhada demais no assunto para aceitar uma recusa, e ele
acabou por pr o chapu na cabea e sair a resmungar.
Catherine, entretanto, ps-se a andar de um lado para o outro
e a dizer:
   -- Onde ser que ele se meteu? Onde  que *poder* estar? O
que foi que eu disse, Nelly? J no me lembro. Ter ficado
amuado com o meu mau humor desta tarde? Oh, meu Deus, Nelly,
diz-me o que foi que eu disse que o possa ter ofendido! Queria
tanto que ele voltasse. Queria tanto!
   -- Tanto barulho para nada! -- exclamei, embora tambm
bastante contrafeita. -- A menina assusta-se com bem pouco!
No  razo para alarme, se o Heathcliff resolveu ir dar uma
volta pela charneca, ao luar, ou se se foi deitar amuado no
palheiro e no quer responder. Cheira-me que foi l que ele se
escondeu. Vai ver como eu dou com ele!
   Sa para continuar a busca; o resultado foi desanimador, e
as buscas de Joseph acabaram da mesma maneira.
   -- O magano vai de mal a pior! observou o velho criado
quando voltou. Deixou a cancela a bater, e o cavalo da menina
espezinhou dois regos de trigo a caminho do pasto! Amanh vai
ser o bom e o bonito quando o patro souber  bem feito! Muita
pacincia tem ele tido para aturar estes
doidivanas sem prstimo :, nenhum... Tem sido a pacincia em
pessoa! Mas isso no vai durar sempre... vocs vo ver! No o
faam perder a cabea!
   -- Encontraste o Heathcliff, meu cabea de burro? --
interrompeu-o Catherine. -- Foste procur-lo, como eu te
mandei?
   -- Mais valera ir  procura do cavalo -- respingou o velho.
_ Sempre fazia mais sentido. Mas cavalo ou homem  tudo o
mesmo, est uma noite de breu e no d p.ra procurar nada! E o
Heathcliff no  menino p.ra responder ao meu assobio; talvez
seja menos duro de ouvido co. a menina.
   Estava uma noite escura demais para o Vero: as nuvens
ameaavam trovoada e aconselhavam-nos a ficar em casa; a
chuva que se avizinhava ia decerto traz-lo de volta sem mais
complicaes.
   Catherine, no entanto, no se deixava tranquilizar
facilmente. Continuava a andar de um lado para o outro, da
porta para a cancela e da cancela para a porta, num estado de
agitao que no lhe dava descanso. Da a um bocado, foi
postar-se encostada ao muro,  beira da estrada, de onde no
arredou p, apesar das minhas advertncias, e do rugir dos


troves e das pingas grossas que comearam a cair-lhe na
cabea; chamava por ele a espaos, punha-se  escuta e
desatava a chorar. Levava a palma ao Hareton ou a qualquer
outra criana em matria de choradeira.
   Por volta da meia noite, ainda ns estvamos a p, a
tempestade abateu-se com inusitada fora sobre o Alto. As
rajadas de vento eram violentas, tal como os troves, e, ou
uns ou outros, racharam uma rvore de alto a baixo numa das
esquinas da casa; um ramo de grande envergadura foi parar
acima do telhado e derrubou uma parte da chamin do lado
oriental, atirando uma chuva de pedras e fuligem para a
lareira.
   Pensmos que tinha cado um raio no meio da sala, e Joseph
caiu de joelhos, implorando ao Senhor que se lembrasse dos
patriarcas No e Lot, e que, como fizera anteriormente,
poupasse os justos, embora punisse os mpios. Eu tinha a
sensao de que tudo aquilo era a ira divina a abater-se
tambm sobre ns. A meu ver, Jonas era Mr. Earnshaw, e fui a
correr bater  porta do seu quarto, para me certificar de que
ainda estava vivo. Ele respondeu-me de forma bem audvel e com
tais modos, que levou o meu colega a bradar mais
espalhafatosamente do que antes que havia uma grande diferena
entre os santos como ele e os pecadores como o patro. Mas a
trovoada no durou mais de dez minutos e foi-se embora sem
causar mossa, excepto em Catherine, que ficou :, encharcada
at aos ossos, na sua oLstinao em no se abrigar e em ficar
l fora sem o xaile e sem a touca a apanhar a chuva na cabea
e nas roupas que trazia.
   Entrou e deixou-se cair em cima do banco, completamente
ensopada, encostando a cara ao espaldar e escondendo-a entre
as mos.
   -- Ento, menina! -- exclamei, batendo-lhe no ombro. -- No
est interessada em morrer j, pois no? Sabe que horas so?
Meia-noite e meia. Vamos, venha deitar-se. No vale a pena
esperar mais por aquele louco; deve ter ido at Gimmerton e
passa l a noite. Achou que no amos esperar por ele at to
tarde; julgou que s Mr. Hinley  que ia estar acordado, e no
quis que fosse ele a abrir-lhe a porta.
   -- No, no. Em Gimmerton, ele no est! -- assegurou
Joseph.  -- E no me espantava nada s.ele estivesse no fundo
d.algum barranco. Esta punio no veio sem motivo, e eu, se
fosse a menina, tomava cuidado... a prxima pode ser p.ra si.
Deus seja louvado! Tudo o c.o Senhor faz  p.ro bem dos
escolhidos e castigo dos danados! No  o que dizem as
Escrituras?
   E, dizendo isto, ps-se a recitar vrias passagens,
apontando os livros e os versculos onde as podamos
encontrar.
   Eu, por meu lado, depois de ter pedido em vo quela
teimosa que se levantasse do banco e tirasse a roupa molhada,
deixei-os, ele a pregar e ela a tiritar, e tratei de me ir
meter na cama com o Hareton, que tinha adormecido to
depressa como se  volta dele j todos estivessem a dormir.
Durante algum tempo ainda ouvi Joseph entretido com a sua
lengalenga; depois, ouvi-lhe os passos arrastados pela escada
acima e, finalmente, adormeci.
   Quando desci na manh seguinte, um pouco mais tarde que o
habitual, vi, iluminada pelos raios de sol que entravam pelas
frestas das persianas, a silhueta de Miss Catherine, ainda
sentada em frente  lareira. A porta da rua estava
entreaberta, a luz do dia entrava pelo postigo, tambm aberto,


e Hinley, que acabara de se levantar, estava de p junto 
lareira, lvido e ensonado.
   -- Que tens, Cathy? perguntava ele quando entrei -- Ests
mais descorooada que um gato afogado... To plida e to
molhada porqu, rapariga?
   -- Molhei-me toda -- respondeu ela a contra-gosto -- e
estou cheia de frio,  tudo.
   --  uma tonta! -- exclamei, ao perceber que o patro
estava :, razoavelmente sbrio. -- Apanhou aquela chuvada de
ontem, e depois ficou a toda a noite e no houve quem a
tirasse da.
   Mr. Earnshaw olhava para ns boquiaberto. - Toda a noite?
-- repetiu. -- O que  que a fez passar a noite em claro? No
foi certamente medo dos troves. A trovoada acabou muito mais
cedo.
   Nenhuma de ns tinha interesse em mencionar o desapareci
mento de Heathcliff enquanto pudssemos mant-lo em segredo.
Respondi, por isso, que no sabia o que  que lhe teria
passado pela cabea para ficar ali sentada toda a noite. Ela
no disse nada.
   A manh estava fresca e agreste; abri a janela de par em
par e a casa encheu-se dos aromas vindos do jardim. Catherine,
porm, ordenou-me asperamente:
   -- Ellen, fecha a janela. Estou a morrer de frio! E, a
bater o dente, encolheu-se ainda mais em frente s cinzas que
restavam.
   -- Est doente -- disse Hinley, tomando-lhe o pulso -- Deve
ter sido por isso que no quis ir para a cama... C.os diabos!
No quero mais doenas c em casa. O que  que te fez ir l
para fora?
   -- Foi p.ra ir atrs dos rapazes, como sempre! -- atalhou
Joseph, aproveitando a oportunidade e a nossa hesitao para
dar largas  maledicncia.
   -- S.eu fosse a si, patro, fechava-lhes a porta na cara, a
todos eles. Era limpinho! No h um s dia c.o patro no
esteja qu.esse matreiro do Linton no aparea por a com
pezinhos de l. E Miss Nelly tambm me saiu uma boa prenda!
Sempre d.atalaia na cozinha:  o patro a entrar por uma
porta e ele a sair pela outra. E depois a nossa donzela vai
namorar p.ra outro lado! Belo comportamento, no haja dvida!
Andar pelos campos  meia-noite com esse cigano dum raio do
Heathcliff! Eles julgam qu.eu sou cego, mas no sou, no. Nem
nada que se parea! Bem vejo o Linton a entrar e a sair, e
depois *vossemec* (e voltou-se para mim)... sua fingida, sua
bruxa alcoviteira... ir a correr avis-los mal ouve o cavalo
do patro pela ladeira acima.
   -- Cala-te, bisbilhoteiro! -- gritou Catherine. -- No
estou para-aturar as tuas insolncias! O Edgar Linton veio c
ontem por acaso, Hindley: e fui *eu* quem lhe disse para se ir
embora, porque sabia que tu no ias querer v-lo no estado em
que te encontravas.
   -- Est-se mesmo a ver que isso  mentira, Cathy --
replicou o irmo -- e tu s uma parva chapada! Mas esqueamos
o Linton por agora. Ora diz l, estiveste com o Heathcliff
ontem  noite? Diz-me a verdade. No tenhas medo de o meter
em apuros. Apesar de :, o odiar cada vez mais, prestou-me h
pouco tempo um servio que me impede em conscincia de lhe
partir os ossos. E para que isso no venha a acontecer, esta
manh mesmo vou mand-lo tratar da vida dele e, depois de ele
se ir embora, aconselho-os a andarem na linha, pois terei
ainda menos pacincia para vos aturar.


   -- Eu nem vi o Heathcliff ontem  noite -- respondeu
Catherine, por entre soluos. -- E, se o mandares embora, eu
vou com ele. Mas talvez j nem precises de o fazer... Quem
sabe... Ele foi-se embora -- E, ao dizer isto, comeou a
chorar convulsivamente, mal se entendendo o que disse a
seguir.
   Hindley descarregou sobre ela uma torrente de improprios e
mandou-a retirar-se imediatamente para o quarto, se no queria
que ele lhe desse melhores razes para chorar. Obriguei-a a
obedecer, mas nunca esquecerei a cena que fez quando chegmos
ao quarto. Foi assustador. Julguei que ela estava a ficar
louca e pedi a Joseph que fosse depressa chamar o mdico.
   Afinal, era o comeo do delrio. O Dr. Kenneth chegou e mal
olhou para ela disse logo que estava gravemente doente; a
febre era muito alta.
   Depois de lhe fazer uma sangria, recomendou-me que no lhe
desse mais nada a no ser soro de leite e caldos de aveia
muito ralos, e que tomasse cuidado, no fosse ela atirar-se
das escadas ou da janela abaixo. E depois foi-se embora, pois
ainda tinha muito que correr, numa regio onde a distancia
entre cada casa rondava as trs milhas.
   Embora eu reconhea no ser propriamente uma enfermeira
dedicada, e Joseph ou o patro serem ainda piores, e embora a
nossa doente fosse teimosa e exigente como todos os doentes, o
certo  que se curou.
   A velha Mrs. Linton veio visit-la vrias vezes, para ver
como corriam as coisas e, naturalmente, dar as suas sentenas
e fazer-nos andar todos num virote. E, quando Catherine j
estava convalescente, levou-a  fora para a Granja dos
Tordos, gesto que muito lhe agradecemos. A pobre senhora,
porm, bem se deve ter arrependido: ela e o marido apanharam
as febres e morreram com poucos dias de intervalo um do
outro.
   A nossa menina voltou para casa, mais insolente, mais
irascvel e mais altiva do que nunca. No tnhamos voltado a
ouvir falar de Heathcliff desde a noite do temporal, e num dia
em que ela me fez perder a cabea, tive a infeliz ideia de a
responsabilizar pelo seu :, desaparecimento, responsabilidade
que, como ela bem sabia, era inteiramente sua. Passou vrios
meses sem me dirigir a palavra, salvo no que dizia respeito ao
meu servio de criada. Joseph foi igualmente preterido:
*teimava* em dizer o que muito bem entendia e pregava-lhe
grandes sermes como se ela ainda fosse uma criana, ela que
j se julgava uma mulher e dona da casa, e achava que devia
ser alvo de atenes especiais por ter estado doente. Nessa
altura, o mdico tinha dito que no era muito conveniente
irrit-la, que o melhor era fazermos-lhe as vontades. E agora,
se algum se atrevia a contrari-la, era como se a quisessem
matar.
   Quase no falava com Earnshaw ou com os seus companheiros;
quanto ao irmo, industriado pelo mdico e atemorizado pelos
ameaos de ataques de loucura que muitas vezes acompanhavam as
suas frias, satisfazia-lhe todos os caprichos e procurava de
uma maneira geral no lhe espicaar o gnio tempestuoso. Era
at *demasiado* indulgente para com ela, no por afecto, mas
por orgulho. Desejava sinceramente v-la honrar a famlia
atravs de uma aliana com os Linton, e desde que no o
incomodasse, podia tratar-nos  vontade como escravos.
   Edgar Linton, como tantos que o precederam e tantos que se
lhe ho-de seguir, estava pelo beicinho, e sentiu-se o homem
mais feliz do mundo no dia em que a levou ao altar da capela


de Gimmerton, trs anos aps a morte do seu
pai.
   Bem contra minha vontade, acabaram por me convencer a
deixar o Alto dos Vendavais e a vir morar aqui com ela. O
Hareton tinha quase cinco anos, e eu tinha comeado a
ensinar-lhe as primeiras letras. A despedida foi lancinante,
mas as lgrimas de Catherine puderam mais que as nossas:
quando me neguei a ir com ela, e quando descobriu que os seus
rogos no me demoviam, foi queixar-se ao marido e ao irmo. O
primeiro ofereceu-me um ordenado chorudo; o segundo mandou-me
ir fazer as malas: no queria mulheres l em casa, vociferou,
agora que j no havia patroa; e, quanto ao Hareton, o cura se
encarregaria dele a seu tempo. De maneira que s me restava
uma alternativa: fazer o que me mandavam. Obedeci, mas no
sem ter dito ao patro que s se queria ver livre das pessoas
decentes daquela casa para se poder degradar ainda mais
depressa. Dei um beijo ao Hareton, e, a partir da,  como se
fssemos dois estranhos; custa-me diz-lo, mas no tenho
dvidas de que se esqueceu completamente da Ellen Dean e de
que em tempos ele foi para ela tudo na vida, e ela para ele!
:,
   Neste ponto da histria, a governanta olhou para o relgio
que estava em cima da chamin e ficou admirada ao ver o
ponteiro dos minutos marcar a uma e meia. No quis ficar nem
mais um segundo, e a mim, na verdade, tambm me apetecia adiar
o seguimento da narrativa. E agora que ela se recolheu e eu
fiquei ainda a cogitar durante uma ou duas horas, tenho de
arranjar coragem para ir tambm deitar-me, apesar de me sentir
entorpecido e de me doerem a cabea, os braos e as pernas.
CAPTULO X
   Belo comeo para uma vida de ermita! Quatro semanas de
tortura, bolandas e doena! Ah, estas glidas nortadas, e este
clima do Norte, to agreste; e estas estradas intransitveis,
e estes mdicos de provncia sempre to morosos! Oh, sim, e
esta ausncia da humana fisionomia e, pior ainda, a sentena
terrvel do Kenneth de que nem pense em sair de casa antes da
Primavera.
   Heathcliff acaba de me honrar com a sua visita. H cerca de
uma semana mandou-me um par de faises, os ltimos da poca.
Grande velhaco! Sabe bem que no est completamente isento de
culpa nesta minha doena, e era isso mesmo que eu tanto queria
dizer-lhe. Mas, enfim! Como poderia eu maltratar um homem que
teve o gesto caridoso de passar uma hora sentado  minha
cabeceira a falar de outras coisas alm de plulas, tisanas,
emplastros e
sanguessugas?
   Foram momentos agradveis. Estou demasiado fraco para ler,
mas apetece-me fazer qualquer coisa de interessante. Por que
no chamar Mrs. Dean para me acabar de contar a histria? Sou
capaz de me lembrar dos pontos principais at ao momento onde
parou.  isso, lembro-me de que o heri tinha fugido e ningum
mais soubera nada dele durante trs anos. E a herona tinha
casado. Vou tocar a campainha. Ela vai gostar de me ver com
tanta disposio para
conversar.
   Mrs. Dean entrou.
 -- Ainda faltam vinte minutos para o seu remdio -- observou
ela.
  -- Chega de remdios! -- refilei. -- O que eu quero ... --


O senhor doutor disse que  para parar com os ps. :,
  -- Com todo o prazer! Mas no me interrompa. Sente-se aqui
ao p de mim e nem pense em tocar nesse sem fim de frascos e
frasquinhos amargos como o fel. V l, tire a agulha e o
novelo do bolso.. isso mesmo... e agora continue a contar a
histria de Mr. Heathcliff do ponto em que a deixou at aos
nossos dias. Que fez ele? Foi estudar para o Continente e
voltou transformado num cavalheiro? Ou arranjou alguma bolsa
de estudo? Ou fugiu para a Amrica e alcanou a fama  custa
da explorao do pas adoptivo? Ou fez fortuna mais depressa
pelas estradas de Inglaterra?
  -- Sabe, Mr. Lockwood, ele  bem capaz de ter feito um pouco
de tudo isso, mas no o posso asseverar. Como j disse, no
sei como foi que enriqueceu, nem por que meios conseguiu sair
da completa ignorncia em que se encontrava; mas, com sua
licena, vou continuar a contar a histria  minha moda, se
achar que isso o distrai em vez de o aborrecer. Ento,
sente-se melhor esta manh?
  -- Muito melhor.
  -- Ora ainda bem!
      Parti com Miss Catherine para a Granja dos Tordos e,
para grande desiluso minha, ela portou-se infinitamente
melhor do que eu poderia supor. Parecia at dedicada demais a
Mr. Linton e mostrava-se extremamente afectuosa com a irm
dele. Tanto um como o outro no queriam, naturalmente, que
nada lhe faltasse. Pode bem dizer-se que no era o espinheiro
que se inclinava para as madressilvas, mas as madressilvas
que enlaavam o espinheiro. Nada de cedncias de parte a
parte: uma mantinha-se inflexvel; os outros  que cediam. E
quem *pode* ter mau gnio e mau feitio quando no encontra nem
oposio, nem indiferena?
   Reparei que Mr. Edgar morria de medo de a irritar. Tentava
disfarar, mas assim que me ouvia responder-lhe  letra, ou
via algum dos outros criados mostrar m cara perante as suas
ordens desabridas, era bem visvel a sua preocupao pelo
modo carrancudo como nos olhava, o que nunca acontecia quando
o assunto era com ele. Repreendeu-me bastas vezes pela minha
insolncia e chegou a dizer-me que uma punhalada no o faria
sofrer mais do que ver a esposa desrespeitada.
   Para no afligir um patro to bondoso, aprendi a ser menos
melindrosa e, durante seis meses, a plvora mostrou-se to
inofensiva como a areia, pois ningum lhe chegava lume para a
fazer explodir. Catherine passou por fases de tristeza e de
mutismo, que :, o marido respeitava com solidrio silencio,
atribuindo-as a uma mudana de caracter devido  grave doena
que a havia acometido, pois nunca fora dada a depresses. O
regresso da alegria era por ele recebido com igual alegria.
No minto se disser que reinava entre eles uma felicidade
genuna e sempre crescente.
   Mas isso acabou. D por onde der, acabamos sempre por ter
de pensar em ns antes de mais nada. Os mansos e os generosos
apenas so mais justos no seu egosmo do que os prepotentes,
e a felicidade deles chega ao fim quando as circunstancias
lhes mostram que o que mais interessa a um no  a principal
preocupao do outro.
   Foi numa tarde calma de Setembro: eu vinha a chegar do
pomar com um cesto de mas que tinha andado a apanhar;
comeara a escurecer e a lua espreitava j por cima do muro
alto do ptio, anichando sombras indefinidas nos recantos
formados pelas inmeras partes salientes do casaro; pousei a
carga nos degraus,  porta da cozinha, para descansar e


aproveitar ao mesmo tempo para respirar um pouco mais aquela
aragem macia e perfumada; estava de costas para a porta e
olhos postos na lua; e, ento, ouvi uma voz dizer atrs de
mim:
  -- s tu Nelly?
   Era uma voz grave, com sotaque estrangeiro; havia algo, no
entanto, no modo como pronunciara o meu nome que a tornava
familiar. Voltei-me a medo para ver quem tinha falado, pois as
portadas estavam fechadas e no tinha visto ningum enquanto
me encaminhava para os degraus.
   Vi um vulto mover-se no alpendre e, ao aproximar-me,
divisei um homem alto vestido de escuro, de pele e cabelos
muito escuros. Estava encostado  porta, com a mo no
ferrolho, como se tencionasse abri-la. _Quem poder ser?
pensei. _Mr. Earnshaw? No! A voz no se parece nada.
  -- Estou aqui  espera h uma hora -- continuou a voz,
enquanto eu continuava boquiaberta. -- E durante todo esse
tempo reinou um silncio de morte. Nem me atrevi a entrar. No
me reconheces? Olha, no sou nenhum estranho!
Um raio de lua iluminou-lhe o rosto: faces macilentas, meio
cobertas por fartas suas negras; sobrancelhas carregadas,
olhos encovados e um olhar estranho. Recordo-me bem dos olhos!
  -- No pode ser! -- exclamei, levando as mos  cabea, sem
:, saber se estava ou no perante uma alma deste mundo. -- No
pode ser! Ento tu voltaste? E s mesmo tu? s mesmo?
  -- Sim, sou eu, o Heathcliff -- respondeu, desviando a vista
e olhando para as janelas que reflectiam uma mi rade de luas,
mas no projectavam qualquer luz interior. -- Eles esto em
casa? Onde est ela? No pareces contente por me ver, Nelly...
Mas no te aflijas. Ela est aqui? Responde! Quero dar-lhe s
uma palavra  tua senhora. Vai dizer-lhe que est aqui uma
pessoa de Gimmerton que lhe quer falar.
  -- Que ir ela dizer? -- exclamei. -- Que ir ela fazer? Se
eu ainda no me refiz da surpresa, ela ento vai ficar de
cabea perdida! s *mesmo* o Heathcliff, no s? Mas ests
muito mudado! No estou a perceber nada. Acaso te alistaste no
exrcito?
  -- Vai levar-lhe o meu recado -- interrompeu-me ele, com
impacincia. -- No terei sossego enquanto no fores!
   Levantei a aldraba e entrei; mas, quando cheguei  sala
onde os senhores estavam, faltou-me coragem para entrar.
Por fim, l arranjei uma desculpa (perguntar-lhes se queriam
que acendesse as velas) e abri a porta.
   Estavam os dois sentados lado a lado, junto  janela aberta
de par em par, com as portas de tabuinhas encostadas para
trs, a contemplarem o Alto dos Vendavais, que se erguia
altivo acima da neblina prateada, para l das rvores e dos
prados e de todo o vale de Gimmerton, demarcado por uma orla
de bruma (pois logo a seguir  capela, como deve ter reparado,
a regueira que vem dos pntanos desagua num crrego que corre
pelo vale fora); porm, a nossa antiga casa no se via,
construda que est sobre a outra vertente. Toda a cena -- a
sala, os seus ocupantes, a paisagem -- respirava uma tal
tranquilidade, que me estava a custar cumprir a minha misso.
J me vinha embora sem dar o recado, depois de ter perguntado
sobre as velas, quando um rebate me fez retroceder e murmurar:
  -- Est ali um sujeito de Gimmerton que lhe quer falar,
minha senhora.
  -- Que quer ele? -- quis saber Mrs. Linton.
  -- No lhe perguntei -- respondi.
  -- Corre as cortinas, Nelly -- ordenou -- e traz-nos o ch.


j volto.
   Mrs. Linton saiu da sala. Mr. Edgar perguntou quem era, sem
se mostrar muito interessado. :,
  -- Algum por quem a senhora no esperava -- respondi. - O
Heathcliff... O senhor no se lembra? O rapaz que vivia em
casa de Mr. Earnshaw.
  -- O qu? Esse cigano .. esse labrego? -- bradou. -- E por
que no disseste  Catherine que era ele?
  -- Chiu! O senhor no lhe deve chamar esses nomes -- disse
eu. -- A senhora ia ficar toda ofendida se o ouvisse. Ficou
com o corao destroado quando ele fugiu. Acho que este
regresso a vai encher de jbilo.
   Mr. Linton dirigiu-se ao outro lado da sala, a uma das
janelas que dava para o ptio. Abriu-a e debruou-se. Deviam
estar os dois l em baixo, pois apressou-se a exclamar:
  -- No fiques a fora, meu amor! Manda entrar essa pessoa,
se for nossa conhecida.
   Da a pouco ouvi a porta abrir-se e Catherine veio a correr
pela escada acima, ofegante e completamente fora de si, to
excitada que nem parecia estar feliz; a sua cara fazia supor,
pelo contrrio, alguma terrvel calamidade.
  -- Ai, Edgar, Edgar! -- exclamou meio sufocada, lanando-lhe
os braos  volta do pescoo -- Edgar, meu querido! O
Heathcliff voltou... est aqui! -- E apertou ainda mais o
pescoo do marido.
  -- Est bem, est bem -- protestou ele, enfadado. -- Mas no
 razo para me estrangulares! Nunca o achei assim to
importante. No precisas de fazer tanto espalhafato!
  -- Sei que nunca gostaste dele -- retorquiu ela, reprimindo
um pouco a emoo. -- Mas, agora, se gostas de mim, tens de
ser amigo dele. Posso dizer-lhe que suba?
  -- Para aqui? -- estranhou o marido. -- Para a sala?
  -- E para onde havia de ser?
   Mr. Linton, incomodado, sugeriu que a cozinha seria o local
mais apropriado.
   Catherine, perante a sobranceria dele, olhou-o meio
zangada, meio trocista.
  -- No! -- disse por fim -- Para a cozinha eu no vou! Pe
duas mesas aqui, Ellen, uma para o teu patro e para Miss
Isabella, que pertencem  fidalguia, e outra para o Heathcliff
e para mim, que pertencemos  plebe. Achas bem assim,
querido? Ou queres que mande acender uma lareira para ti
noutro lado? Se assim for,  s dizeres. Vou l abaixo
buscar o meu convidado. Nem caibo em mim de tanta felicidade!
:,
   Edgar, porm, impediu-a, quando ela j se preparava para
correr pela escada abaixo.
  -- Vai *tu* dizer-lhe que suba -- ordenou, dirigindo-se a
mim -- e tu, Catherine, podes mostrar-te satisfeita, mas tenta
no seres absurda. No  preciso que toda a gente te veja
receberes um criado que andou fugido como se fosse teu irmo.
   Desci e fui encontrar Heathcliff  espera no alpendre, com
ar de quem naturalmente contava que o mandassem entrar.
Seguiu-me sem dizer palavra e levei-o  presena do senhor e
da senhora, cujas faces ruborescidas eram denunciadoras de
acesa discusso. Porm, era outro o sentimento que ruborizava
as faces da senhora quando o amigo surgiu  porta: correu para
ele, pegou-lhe nas mos e levou-o at Mr. Linton. Depois,
pegou na mo que Linton estendia relutante e apertou os seus
dedos entre os do visitante.
   Agora que a luz da fogueira e dos candelabros lhe batia em


cheio, eu estava boquiaberta com a transformao de
Heathcliff: tinha-se tornado num homem alto, atltico, bem
constitudo, ao lado do qual o meu patro parecia um rapazito
magricela. O seu porte aprumado era indcio de ter servido no
exrcito; a sua expresso era muito mais madura e decidida
que a de Mr. Linton; adivinhava-se nela inteligncia, sem
quaisquer sinais da degradao de outros tempos. Todavia, o
sobrolho carregado retinha ainda uma certa ferocidade
semi-aplacada, e os olhos negros chispavam com um fogo
reprimido; e a postura era de grande dignidade, sem quaisquer
indcios de rudeza, se bem que demasiado austera para se
tornar cativante.
   O meu patro estava tanto ou mais espantado do que eu: teve
um minuto de manifesta hesitao, sem saber como havia de se
dirigir ao labrego, como ele lhe chamara. Heathcliff
retirou a mo esguia de entre as dele e fitou-o com frieza at
ele se resolver a falar.
  -- Tenha a bondade de se sentar -- disse por fim. -- Mrs.
Linton, em nome dos velhos tempos, pediu-me que o recebesse
com cordialidade e eu, naturalmente, fico sempre muito feliz
quando alguma coisa lhe d prazer.
  -- E eu tambm -- replicou Heathcliff. -- Especialmente se
for eu o responsvel. Ficarei uma ou duas horas com muito
prazer.
   Sentou-se frente a Catherine, que no tirava os olhos dele,
como se temesse que ele se evaporasse mal ela desviasse o
olhar. Ele, por seu turno, poucas vezes levantava os olhos:
apenas uma vez por outra, e de fugida, mas era cada vez mais
visvel o deleite que :, sentia nessa troca furtiva de
olhares. A felicidade recproca que os invadia era intensa
demais para dar lugar a constrangimentos; o mesmo no se
passava com Mr. Edgar, que estava lvido de contrariedade
sentimento esse que atingiu o clmax quando a mulher se
levantou e, atravessando a sala, agarrou de novo nas mos de
Heathcliff, rindo s gargalhadas, completamente fora de si.
  -- Amanh vou julgar que tudo isto foi um sonho! -- exclamou
-- No vou acreditar que te vi e te toquei e falei contigo uma
vez mais. E tu foste to cruel, Heathcliff! No merecias esta
recepo. Ficares trs anos ausente e sem dares notcias, e
sem nunca pensares em mim!
  -- Pensei mais em ti do que tu em mim -- segredou-lhe ele
--  Mas pouco depois ouvi dizer que tinhas casado, Cathy.
Enquanto estive  espera l em baixo, no ptio, foi este o
plano que eu tracei: ver o teu rosto de relance uma vez mais,
olhando-me com surpresa e, quem sabe, falso contentamento,
depois, ajustar contas com o Hindley e, finalmente,
antecipar-me ao julgamento e executar eu mesmo a minha prpria
sentena de morte. Mas a tua recepo tirou-me essas ideias da
cabea; livra-te, no entanto, de pores m cara da prxima vez!
No, no desta vez no me vais mandar embora de novo...
Tiveste mesmo pena da outra vez, no tiveste? Sabes, eu tive
as minhas razes. Passei por muitas provaes desde que ouvi a
tua voz pela ltima vez, e tens de perdoar-me, pois lutei
sempre a pensar em ti!
  -- Catherine, a menos que queiras tomar o ch frio, peo-te
o favor de vires para a mesa -- interveio Linton,
esforando-se por manter o seu tom habitual e a delicadeza
possvel. -- Mr. Heathcliff tem uma longa caminhada pela
frente at onde possa pernoitar, e eu estou cheio de sede.
Catherine tomou o seu lugar junto ao bule e Miss Isabella
acorreu  sala, ao chamado da campainha. Quanto a mim,


retirei-me depois de lhes ter chegado as cadeiras para a
frente.
   A refeio no durou nem dez minutos e Catherine nem chegou
a servir-se, incapaz de comer ou beber fosse o que fosse.
Edgar entornou o ch no pires e s bebeu um ou dois goles.
   Naquela tarde a visita de Heathcliff no se prolongou por
mais de uma hora. Perguntei-lhe  sada se ia para Gimmerton.
  -- No. Vou para o Alto dos Vendavais -- respondeu -- Mr.
Earnshaw convidou-me esta manh quando o fui visitar.
Mr. Earnshaw convidara-o! *_Ele* fora visit-lo! Pensei muito
:, nestas frases depois de ele se ir embora. Ter-se-ia
tornado num hipcrita, e voltado agora para a aldeia com
alguma patifaria em mente? Dava que pensar. Tive um
pressentimento: dizia-me o corao que era melhor ele ter
ficado por onde andava.
   A meio da noite, fui despertada do primeiro sono por Mrs.
Linton, que viera sorrateira at ao meu quarto e, sentando-se
na cama, me puxou os cabelos para me acordar.
  -- No consigo dormir, Ellen -- disse,  laia de desculpa.
Quero que algum vivo me faa companhia nestas horas
infelizes! O Edgar est amuado por eu estar feliz com uma
coisa que no lhe interessa; no abre a boca a no ser para me
dizer coisas mesquinhas e idiotas; diz que sou cruel e
egosta por querer conversar quando ele est indisposto e
cheio de sono. Arranja sempre maneira de ficar indisposto 
mnima contrariedade! Teci alguns louvores a Heathcliff, e o
Edgar, ao ouvir-me, desatou a chorar, fosse da enxaqueca ou da
inveja. Ento levantei-me e vim-me embora.
  -- E para que foi a senhora elogiar o Heathcliff ao seu
marido? -- observei. -- Quando eram pequenos no podiam um com
o outro, e aposto que o Heathcliff detestaria tambm ouvi-la
elogiar Mr. Edgar. A natureza humana  assim. No fale mais
dele ao seu marido, a menos que queira entrar em guerra aberta
com ele.
  -- Mas no achas que  sinal de fraqueza? -- prosseguiu. --
Eu c no sou invejosa, nunca me incomodou o brilho do cabelo
louro da Isabella, nem a brancura da sua pele; nem a sua
elegncia, nem a predileco que toda a famlia tem por ela.
At tu, Nelly, quando nos vs a discutir, corres logo em
defesa da Isabella; e eu cedo como uma me babada, comeo a
chamar-lhe minha querida e a afag-la at lhe passar a birra.
O irmo gosta que nos demos bem, e isso agrada-me. So os dois
muito parecidos, uns meninos mimados que acham que o mundo
gira  volta deles; apesar de lhes fazer as vontades, acho que
um castigo bem aplicado s lhes faria bem.
  -- Est enganada, Mrs. Linton -- corrigi-a. -- So eles que
lhe fazem as vontades. Havia de ser o bom e o bonito se no
lhas fizessem! E a senhora bem pode dar-se ao luxo de lhes
satisfazer alguns caprichos, desde que eles se antecipem a
todos os seus desejos. Mas olhe que pode acabar por tropear
nalgum obstculo intransponvel para ambas as partes e, nessa
altura, aqueles a quem chama fracos so bem capazes de se
mostrarem to obstinados como a senhora. :,
  -- E ento trava-se uma luta de morte,  isso que queres
dizer Nelly? -- retorquiu, dando uma gargalhada. -- No. Ouve
bem o que te digo: tenho tanta confiana no amor do Linton que
estou convencida de que se o matasse ele no ia retaliar.
   Aconselhei-a a estim-lo ainda mais por ele a amar tanto.
  -- E estimo -- respondeu. -- Mas no  preciso pr-se a
chorar por uma ninharia.  uma infantilidade; em vez de se
debulhar em lgrimas por eu ter dito que o Heathcliff era


agora digno do respeito de qualquer pessoa e que seria uma
honra para o fidalgo mais importante da regio ser seu amigo,
devia ter sido ele a diz-lo e ter at a amabilidade de se
mostrar satisfeito, atendendo a que o Heathcliff se portou de
forma irrepreensvel, acho eu, apesar das razes que deve ter
contra o Edgar. Vai ter de se habituar ao Heathcliff, e o
melhor  aprender a gostar dele.
  -- Que pensa da ida de Heathcliff para o Alto dos Vendavais?
-- inquiri. -- Aparentemente est muito mudado... um bom
cristo... de mo amiga estendida a todos os seus inimigos!
  -- Ele explicou tudo -- disse Catherine. -- Tambm fiquei
intrigada como tu. Disse que foi l para te pedir notcias
minhas, pois pensava que ainda l moravas, e o Joseph chamou o
Hindley, que veio c fora e lhe comeou a perguntar o que
tinha feito e como  que tinha conseguido levar a vida, at
que acabou por o mandar entrar. Estavam mais pessoas l
dentro, a jogar as cartas, e o Heathcliff juntou-se a eles. O
meu irmo perdeu algum dinheiro a favor dele e, vendo-o to
abonado, convidou-o a voltar l nessa noite, convite que ele
aceitou. O Hindley no  nada cuidadoso a escolher os amigos
e nem se deu ao trabalho de ponderar as razes que poderiam
lev-lo a desconfiar de algum a quem torpemente ofendera.
Mas o Heathcliff garantiu-me que os motivos que o levaram a
reatar relaes com o seu antigo algoz foram o desejo de se
instalar perto da Granja e o apego que sente pela casa onde
vivemos os dois, e tambm a esperana de que eu terei, assim,
mais oportunidades de o visitar do que se ficasse alojado em
Gimmerton. Faz teno de oferecer bom dinheiro ao meu irmo
para ficar a morar no Alto, e a ganncia do Hindley vai sem
dvida lev-lo a aceitar. Sempre foi vido por dinheiro,
embora o que apanha com uma mo logo deite fora com a outra.
  -- Belo lugar para um jovem se fixar! -- disse eu. -- No
receia as consequncias, Mrs. Linton?
  -- O meu amigo no me preocupa -- respondeu de pronto.
-- :, O seu esprito forte mant-lo- longe dos perigos. O
Hindley  que me preocupa um pouco; mas esse j no consegue
descer mais baixo do que est; e, quanto  possibilidade de
violncia fsica, eu saberei estar de permeio. O que se passou
esta noite reconciliou-me com Deus e com os homens! Estava
revoltada com a Divina Providncia. Sofri muito... muito...
Nelly! Se esta criatura com quem vivo soubesse o quanto, teria
vergonha de ensombrar o fim desse sofrimento com a sua
petulncia v. Foi para o poupar que suportei tudo sozinha:
deixasse eu transparecer a agonia em que tantas vezes me
encontrava, e ele teria aprendido a ansiar pelo seu alvio
tanto quanto eu. Mas tudo isso j passou e no guardo
ressentimentos. Sinto-me capaz de suportar seja o que for
daqui em diante! Se a mais perversa das criaturas me
esbofeteasse, no s lhe daria a outra face, como lhe pediria
perdo por a ter provocado. E, para o provar, vou agora mesmo
fazer as pazes com o Edgar. Boas-noites. Sou um anjo! -- E,
nesta lisonjeira convico, se retirou.
   Na manh seguinte era bem patente o xito da resoluo em
boa hora tomada: Mr. Linton no s pusera de lado a
impertinncia (embora o seu esprito parecesse ainda abatido
perante a exuberante vivacidade de Catherine), como no
levantara objeces a que Isabella a acompanhasse nessa tarde
ao Alto dos Vendavais; Catherine retribuiu-lhe a generosidade
com tantas e to calorosas manifestaes de afecto e de
carinho, que durante uns dias a casa parecia um paraso, e
todos, patro e criados usufruam dessa perptua felicidade.


   Heathcliff, ou melhor, Mr. Heathcliff, como passaria a
trat-lo, tomou a liberdade de comear por fazer algumas
visitas cautelosas  Granja dos Tordos: parecia querer avaliar
at que ponto o dono da casa suportaria a sua intruso.
Catherine, por seu turno, achou por bem moderar as
demonstraes de alegria com que o recebia. Assim, e a pouco e
pouco, ele foi conquistando o direito de ver a sua visita ser
esperada com naturalidade.
   Conservara muito da reserva que o caracterizava na
adolescncia e que to til se revelava ao ajud-lo a reprimir
qualquer manifestao mais exuberante dos seus sentimentos. A
desconfiana do meu patro conheceu uma acalmia, a ponto de,
levado por certos acontecimentos, a ter canalizado durante
algum tempo noutra direco.
   Esta nova fonte de preocupaes surgiu com a inesperada
fatalidade de Isabella Linton, ao sentir-se sbita e
irresistivelmente atrada pelo visitante que Mr. Edgar to a
contra-gosto tolerava. Ela :, era nessa altura uma encantadora
jovem de dezoito anos; infantil nas atitudes, mas senhora de
um esprito e sentimentos igualmente vivos, e de um
temperamento vivo at demais quando a irritavam. O irmo, que
a amava com grande ternura, ficou apavorado com esta
inclinao to absurda. Alm da degradao social proveniente
da unio com um homem sem nome, e da possibilidade de todos os
seus bens, por falta de um herdeiro homem, poderem vir parar
s mos de Heathcliff, Edgar era suficientemente inteligente
para se aperceber das intenes de Heathcliff, para saber que,
apesar de exteriormente to mudado, a sua mente sempre fora, e
permaneceria, inaltervel. E como temia essa mente! Provocava
nele sentimentos de revolta, e todo ele se retraa s de
pensar em entregar Isabella  guarda de um tal homem.
   Mais se retrairia ainda, se soubesse que a afeio dela
nascera sem ser solicitada e no despertava no objecto amado
reciprocidade de sentimentos;  que, no momento em que
descobriu a sua existncia, logo atribuiu as culpas  m f
de Heathcliff.
   J todos havamos reparado h algum tempo que Miss Linton
andava a remoer alguma. Mostrava-se irritada e enfadada, e
passava a vida a implicar com Catherine, com o risco iminente
de lhe esgotar a pacincia, j de si to limitada. Comemos
por desculp-la, atribuindo o seu comportamento  falta de
sade, pois mirrava e definhava dia a dia. At que um dia a
sua impertinncia atingiu
os limites: recusou-se a tomar o pequeno almoo, queixando-se
de que os criados no faziam nada do que ela mandava, a
senhora a tratava como se ela no existisse e Edgar a
ignorava, apontando ainda que tinha apanhado uma constipao
por termos deixado as portas abertas e o lume apagado s para
a humilharmos, e mais uma centena de outras faltas igualmente
frvolas; foi ento que Mrs. Linton, peremptria, insistiu
para que se metesse na cama e, ralhando-lhe, ameaou que ia
mandar chamar o mdico. Mal ouviu o nome do Dr. Kenneth,
afirmou sem demora que estava de perfeita sade, e que era
apenas a rispidez de Catherine que a punha triste e
mal-humorada.
  -- Como podes tu dizer que eu sou rspida, minha marota?  --
exclamou a senhora, perplexa com esta afirmao to pouco
razovel. -- Ests decerto a perder a razo. V, diz l
quando  que fui rspida?
  -- Ontem -- soluou Isabella. -- E agora tambm! :,
  -- Ontem! ? -- admirou-se a cunhada. -- Em que ocasio?


  -- Durante o nosso passeio pela charneca; mandaste-me ir dar
uma volta por onde me apetecesse, enquanto tu andaste a
passear com Mr. Heathcliff!
  -- E  a isso que chamas ser rspida? -- disse Catherine a
rir. -- No o fiz com a inteno de me ver livre de ti; tanto
me fazia estares ali como no; apenas achei que a minha
conversa com o Heathcliff no tinha nada que te pudesse
interessar.
  -- No foi nada disso -- choramingou a jovem. --
Mandaste-me embora porque sabias que eu queria ficar!
  -- Ela estar boa da cabea? -- exclamou Mrs. Linton,
voltando-se para mim. -- Vou repetir-te a nossa conversa
palavra por palavra, Isabella, e tu me dirs que encanto
poderia ter para ti.
  -- Quero l saber da conversa -- replicou Isabella. -- O que
eu queria era estar com...
  -- Ento? -- disse Catherine, ao v-la hesitar.
  -- Com ele. E no vou deixar que me mandes embora outra vez!
-- prosseguiu, exaltadssima. -- Pareces um co a comer um
osso, Cathy; s tu  que podes ser amada, mais ningum!
  -- Mas que grande atrevimento, minha serigaita! -- exclamou
Mrs. Linton, boquiaberta. -- Nem quero acreditar num disparate
destes! No  possvel que queiras atrair as atenes do
Heathcliff, que o possas considerar uma pessoa simptica!
Espero bem ter percebido mal, Isabella.
  -- No, no percebeste mal -- asseverou a jovem, toldada
pela paixo -- Amo-o mais do que tu alguma vez amaste o Edgar;
e ele poderia vir a amar-me, se tu o deixasses!
  -- Nesse caso, no queria estar no teu lugar nem por um
reino! -- declarou Catherine, com grande nfase (e parecia
sincera). -- Nelly, ajuda-me a fazer-lhe ver que isto  uma
loucura. Diz-lhe que espcie de homem  o Heathcliff: um
enjeitado, sem educao, sem cultura; uma charneca rida, de
tojo e pedras! Mais depressa soltaria aquele canrio no
parque num dia de Inverno do que aconselhar-te a entregares o
corao ao Heathcliff! Isso s prova que  o teu deplorvel
desconhecimento do seu carcter que te meteu esse sonho
impossvel na cabea, nada mais. Sim, no penses que ele
oculta rios de benevolncia e afeio sob toda aquela dureza
exterior! Ele no  nenhum diamante em bruto, nenhuma ostra
grosseira onde se esconde uma prola;  um homem terrvel,
feroz, desapiedado. Nunca lhe digo deixa este ou aquele
inimigo em paz, :,
porque seria mesquinho ou cruel prejudica-los, o que lhe digo
 _Deixa-os em paz, porque *eu* detestaria v-los
maltratados. E ele, Isabella, seria capaz de te esmagar como
um ovo de passarinho se te tornasses num fardo demasiado
incomodativo. Sei que seria incapaz de amar uma Linton, embora
o ache bem capaz de casar com a tua fortuna e a tua condio.
A avareza est cada vez mais enraizada nele. Pronto, aqui tens
o seu retrato, e feito por algum que  amiga dele; to amiga
que, se o visse seriar lente interessado em te apanhar at
talvez me calasse e te deixasse cair na armadilha.
   Miss Linton fitava a cunhada, a transbordar de indignao.
  --  vergonhoso! Vergonhoso! -- repetia, furiosa. -- s pior
do que vinte inimigos, a tua amizade s destila veneno!
  -- Ah, com que ento no me acreditas ? -- replicou
Catherine. -- Pensas que falo por despeito?
  -- Sei que o fazes -- retorquiu Isabella. -- E horroriza-me
esse  teu procedimento.
  -- Tanto melhor! -- gritou a outra; -- Faz como bem


quiseres. Foi o que eu fiz e, agora, perante tanta insolncia,
dou o assunto por encerrado.
  -- E eu que sofra com o egosmo dela! -- disse Isabella a
soluar quando Mrs. Linton saiu do quarto. -- Todos, esto
todos contra mim; ela destruiu a minha nica consolao. Mas
s disse mentiras, no foi? Mr. Heathcliff no  nosso
inimigo;  um homem honrado, honesto; seno, como ia ele
lembrar-se dela?
  -- Tire-o dos seus pensamentos, Miss Isabella -- pedi eu. --
Aquilo  ave de mau agoiro, no  para si. Mrs. Linton foi
muito dura, mas no posso contradiz-la. Ela conhece o corao
dele melhor do que eu ou qualquer outra pessoa; e nunca o
faria parecer pior do que . As pessoas honestas no escondem
os seus actos. O que tem ele feito para viver? Como fez
fortuna? Por que razo veio morar para o Alto dos Vendavais,
para a casa de um homem que ele odeia? Ouvi dizer que Mr.
Earnshaw est cada vez pior desde que ele chegou. Passam a
noite inteira a jogar; e Hindley j hipotecou a propriedade;
no faz mais nada seno comer e jogar, foi o que ouvi dizer a
semana passada; quem me disse foi o Joseph, quando o encontrei
em Gimmerton.
  -- Nelly -- disse ele -- vamos ter a polcia l em casa a
fazer investigaes por causa das brigas. Houve um que ficou
quase sem dedos e outro que sangrava que nem um vitelo. Sabes
que mais? :,
   Quem devia ir preso era o patro. Mas esse tem tanto medo
do banco dos rus ou dos juzes, como de Pedro, Paulo, Joo,
Mateus, ou outro qualquer! Parece at que gosta, que faz por
isso. Aquele Heathcliff saiu-me um bom espertalho! Capaz de
rir como ningum de uma boa piada... Quando vai  Granja, ele
no vos conta a vidinha regalada que leva entre ns ? Ora
escuta: levanta-se ao sol-pr e, da p.r frente,  s jogar
dados e beber, de janelas fechadas e velas acesas at ao
meio-dia do outro dia; s ento o tresloucado do patro sobe
p.r quarto a gritar e a praguejar de tal sorte que as pessoas
decentes tm de tapar os ouvid >s, envergonhadas; e o magano
l fica, a contar os ganhos e a comer e a dormir e .inda se
vai pr  conversa com a mulher do vizinho. E est-se mesmo a
ver que conta a Miss Catherine como o dinheiro do pai dela vai
passando p.r bolso dele, e como o irmo dela s.afunda cada
vez mais, enquanto ele lhe vai dando uma ajuda... -- Sabe,
menina, o Joseph  um velho rabugento, mas no  nenhum
mentiroso; e se o que ele diz do Heathcliff  verdade, a
menina no ia querer um marido assim, pois no?
 -- Ests de conluio com eles, Ellen! -- replicou Isabella. --
No vou dar ouvidos s tuas calnias. Deve ser bem grande a
tua malevolncia, para me quereres convencer de que no
existe felicidade neste mundo!
   Se ela se teria curado sozinha desta fantasia, ou se
teimaria em dar-lhe continuidade, isso eu no sei, pois teve
bem pouco tempo para pensar no assunto. No dia seguinte ouve
um julgamento na cidade mais prxima, e o meu patro teve de
comparecer. Sabendo da sua ausncia, Mr. Heathcliff veio mais
cedo que o costume.
   Catherine e Isabella estavam as duas na biblioteca, ainda
zangadas uma com a outra, mas em silncio. Esta ltima,
preocupada com a sua recente indiscrio ao revelar num fugaz
acesso de paixo os seus sentimentos mais secretos; a
primeira, depois de muito pensar no sucedido, deveras ofendida
com a sua companheira e, se agora lhe dava vontade de rir
tanta petulncia, no queria dar essa impresso  outra.


   Riu-se, de facto, mas foi quando viu Heathcliff passar
junto  janela. Eu andava a varrer a lareira e reparei no
sorriso malicioso que lhe aflorou aos lbios. Isabella,
absorta nos seus pensamentos, ou na leitura, no se mexeu at
a porta se abrir, quando j era tarde demais para tentar
escapar, o que de bom grado teria feito, se tivesse tido a
oportunidade. :,
  -- Entra; ora ainda bem que vieste! -- exclamou a senhora
alegremente, puxando uma cadeira para junto da fogueira. --
Ora aqui esto duas almas muito tristes  espera de uma
terceira que venha derreter o gelo entre elas; e tu s
precisamente quem ns escolheramos. Sabes, Heathcliff, vou
ter a honra de te apresentar algum que te estima ainda mais
do que eu prpria. Espero que te sintas lisonjeado. No, no 
a Nelly, no olhes para ela!  a minha pobre cunhadinha, que
est de corao despedaado s pela mera contemplao da tua
beleza fsica e moral. Est nas tuas mos tornares-te irmo
do Edgar! No, Isabella, no fujas -- prosseguiu, agarrando,
com pretenso ar de brincadeira, a rapariga que atordoada se
levantara indignada. -- Esgatanhmo-nos como duas gatas por
tua causa, Heathcliff, e eu fiquei a perder em protestos de
devoo e admirao; e, ainda por cima, fui informada de que,
se eu tivesse a delicadeza de me manter afastada, a minha
rival, como ela se considera, desfecharia uma seta direita ao
teu corao, que te prenderia para sempre e lanaria a minha
lembrana no eterno esquecimento!
  -- Catherine! -- disse Isabella, recuperando a dignidade,
sem tentar defender-se da mo que lhe apertava o brao. --
Agradeo que respeites a verdade e no me calunies, nem mesmo
a brincar! Mr. Heathcliff, tenha a bondade de pedir  sua
amiga que me solte. Ela esquece-se de que o senhor e eu no
somos amigos ntimos e que o que a diverte a ela  para mim
indizivelmente penoso.
   Como o visitante no respondesse e se fosse sentar,
mostrando-se indiferente aos sentimentos que ela pudesse
nutrir por ele, Isabella voltou-se para a sua torturadora e
implorou-lhe, num sussurro, que a libertasse.
  -- Nem pensar! -- gritou Mrs. Linton. -- Nunca mais vais
dizer que sou como um co agarrado a um osso. Ficas aqui, sim
senhora. Ento, Heathcliff, no te mostras satisfeito com a
bela novidade que te dei? A Isabella jura que o amor do Edgar
por mim no  nada comparado com o que sente por ti. Tenho a
certeza de que foi mais ou menos isso que ela disse, no foi,
Ellen? E no come nada desde o nosso passeio de anteontem, de
desgosto e raiva por eu a ter privado da tua companhia por
achar que no lhe interessava.
  -- Deves estar enganada... -- disse Heathcliff, rodando a
cadeira e colocando-se de frente para elas. -- Seja como for,
neste momento s deseja estar longe de mim! -- E fitou
demoradamente o objecto do seu discurso, como se se tratasse
de algum bicho :, estranho e nojento, uma centopeia das
ndias, por exemplo, que a curiosidade nos leva a fixar,
apesar da averso que provoca.
   A pobrezinha no aguentou mais: as suas faces empalideceram
e ruborizaram-se sucessivamente e, com as pestanas orladas de
lgrimas, usou toda a fora dos seus dedos frgeis para se
libertar das garras de Catherine; percebendo, porm, que mal
afastava um dedo do brao, logo outro se cravava, e que no
era capaz de os soltar a todos ao mesmo tempo, comeou a usar
as unhas que, afiadas como eram, no tardaram a ornamentar a
opressora com profundos verges vermelhos semi-circulares.


  -- Mas ela  uma fera! -- exclamou Mrs. Linton, soltando-a e
sacudindo a mo dorida. -- Desaparece daqui por amor de Deus,
e que eu no torne a ver essa tua cara de vbora! Que tolice
mostrares-lhe as tuas garras. No vs a que concluso ele vai
chegar? Cuidado, Heathcliff! Olha que so armas mortferas...
cuidado com os teus olhos!
  -- Arrancava-lhas dos dedos, se alguma vez me ameaasse --
foi a sua resposta brutal, quando a porta se fechou atrs de
Isabella. -- Mas por que irritaste a criatura desta maneira,
Cathy? No estavas a dizer a verdade, pois no?
  -- Claro que estava -- asseverou ela. -- H semanas que anda
perdida de amores por ti; e as cenas que ela fez esta manh...
e os improprios que me disse... e tudo porque lhe apresentei
claramente os teus defeitos a fim de moderar tanta adorao.
Mas deixemos isso. S a quis castigar pela sua petulncia,
foi tudo. Quero-lhe bem demais, meu querido Heathcliff, para
permitir que lhe deites a mo e a devores por completo.
  -- E eu bem de menos para sequer tentar -- contraps ele.
--  A menos que seja  maneira dos vampiros. Havias de ouvir
falar de coisas muito estranhas, se eu vivesse sozinho com
essa deslavada dessa boneca de cera; a menos estranha seria
pintar-lhe sobre a pele branca as cores do arco-ris e pr-lhe
aqueles olhos azuis todos pretos dia sim-dia no; parecem-se
detestavelmente com os do Edgar.
  -- Deliciosamente, queres tu dizer -- observou Catherine. --
So uns olhos de pomba, uns olhos de anjo!
  -- Ela  herdeira do irmo, no ? -- perguntou ele aps um
breve silncio.
  -- Devia custar-me admitir tal coisa -- respondeu Catherine.
-- Meia dzia de sobrinhos ho-de dar-lhe cabo do ttulo, se
Deus :, quiser! Esquece esse assunto por agora... ests a
mostrar-te demasiado interessado na fortuna do teu vizinho.
Lembra-te de que a fortuna *desse* vizinho  minha.
  -- Se fosse minha, tambm no deixaria de o ser -- atalhou
Heathcliff. -- No entanto, a Isabella Linton pode ser parva,
mas no  louca; em resumo, o melhor  esquecermos o assunto,
como sugeriste.
  E foi o que fizeram, pelo menos nas palavras: no tocante a
Catherine, provavelmente tambm no pensamento; quanto ao
outro, estou certa de que pensou nisso muitas vezes ao longo
da tarde. Via-o sorrir interiormente -- um sorriso que mais se
assemelhava a um esgar -- e mergulhar em ominosa meditao
sempre que Mrs. Linton se ausentava da sala.
   Tomei a deciso de vigiar todos os seus movimentos. O meu
corao pendia invariavelmente mais para o lado do patro do
que de Catherine; e com razo, pensava eu, pois ele era
bondoso, digno de confiana e honrado, ao passo que ela, bem,
no se pode dizer que ela fosse o *oposto*, mas parecia
permitir-se tantas liberdades que eu confiava muito pouco nos
seus princpios, e simpatizava ainda menos com o seu feitio. O
meu maior desejo era que acontecesse alguma coisa que
libertasse pacificamente tanto o Alto dos Vendavais como a
Granja das garras de Mr. Heathcliff, e tudo voltasse a ser
como era antes. As suas visitas eram para mim um constante
pesadelo; e, desconfio, tambm para o meu patro. A presena
dele no Alto era uma afronta inconcebvel. Parecia que Deus
tinha abandonado a ovelha tresmalhada aos seus prprios
erros, e eu via uma fera  solta, interpondo-se entre a ovelha
e o redil,  espera de uma oportunidade para a atacar e
destruir.


CAPTULO XI

   s vezes, enquanto meditava sozinha em tudo isto,
levantava-me, tomada de sbito terror, punha a touca e ia ver
como estavam as coisas no Alto dos Vendavais. Estava
convencida de que era meu dever avisar Mr. Earnshaw do que
diziam do seu comportamento, mas lembrava-me dos seus
indiscutveis maus hbitos e, sem esperana de o ajudar,
desistia de entrar de novo naquela casa lgubre, duvidando que
me desse ouvido .
   Uma vez, ao desviar-me do meu caminho habitual para
Gimmerton, passei junto  velha cancela. Foi mais ou menos na
altura em que se passou o que lhe acabei de contar. Era uma
tarde agreste, mas soalheira; a terra estava despida de
vegetao e a estrada poeirenta e dura.
   A certa altura, cheguei junto de uma pedra colocada no
stio onde, virando  esquerda, a estrada segue para o brejo.
Era um tosco marco de arenito, com as letras _A._V. gravadas
no lado virado a Norte, a letra G. virada a leste e as letras
_G._T. a sudoeste. Servia de poste de orientao para a Granja
dos Tordos, o Alto dos Vendavais e a vila.
   O sol dourava o marco escuro e triste, relembrando o Vero.
No sei explicar porqu, mas, de repente, o meu corao
encheu-se de recordaes de infncia. Hindley e eu havamos
tido ali um esconderijo vinte anos atrs. Contemplei
longamente o bloco gasto pelo tempo e, inclinando-me, reparei
num buraco rente  base, ainda cheio de cascas dos caracis e
seixos que gostvamos de armazenar juntamente com outras
coisas perecveis. E, com uma incrvel realidade, imaginei o
meu companheiro de outros tempos sentado na relva seca, com
aquela sua grande cabea castanha inclinada para a frente e a
mozita a escavar a terra com um pedao de ardsia.
  -- Pobre Hindley! -- exclamei involuntariamente.
   E ento apanhei um susto: os meus olhos corpreos
fizeram-me crer, por momentos, que a criana levantava a
cabea e me fitava. Mas tudo terminou num piscar de olhos,
pois logo senti uma vontade irresistvel de ir ao Alto. A
superstio obrigou-me a ceder a este impulso. _Ser que j
morreu?, pensei, ou estar a morrer? Seria isto um
pressgio de morte?
    medida que me aproximava da casa sentia-me cada vez mais
perturbada, e, quando a avistei, estremeci. A apario
precedera-me. L estava ele, a olhar para mim por trs da
cancela; foi o que me ocorreu ao ver um rapazito de olhos
castanhos e cabelos encaracolados com o rosto rosado
encostado s grades. Reflecti melhor e cheguei  concluso de
que devia ser Hareton, o meu Hareton. No estava muito
diferente de quando o deixara, h dez meses atrs.
  -- Deus o abenoe, meu filho! -- gritei, esquecendo por
momentos os meus estpidos receios. -- Hareton, sou a Nelly.
A sua Nelly, a sua ama!
   Mas ele afastou-se para longe dos meus braos e pegou numa
grande pedra.
  -- Vim ver o seu pai, Hareton. -- Acrescentei, adivinhando
pela sua atitude que, se ainda se lembrava da Nelly, no a
reconhecia na minha pessoa.
   Levantou a pedra para me agredir. Encetei ento um longo
discurso para o acalmar, que no surtiu qualquer efeito. A
pedra acertou-me na touca e dos lbios titubeantes do menino
jorrou um chorrilho de palavres que, entendesse-os ele ou
no, eram proferidos com um nfase perfeito, e o seu rosto de


criana exibia uma agressividade que chocava.
   Acredite, Mr. Lockwood, que me senti mais magoada que
ofendida.
   Quase a chorar, tirei uma laranja do bolso para o acalmar.
   Hesitou, mas arrancou-ma da mo como que se pensasse que eu
s o queria enganar e no lha quisesse dar.
   Mostrei-lhe ento outra que mantive longe do seu alcance.
  -- Quem lhe ensinou essas palavras, meu menino? -- perguntei
-- Foi o senhor cura?
  -- Rai.s te partam a ti mais  cura! D-me isso! --
retorquiu.
  -- Diga l quem lhe ensinou essas palavras e eu dou-lhe a
laranja
  -- Disse eu. -- Quem  o seu professor?
  --  o diabo do meu pai -- foi a resposta. :,
  -- E que lhe ensina o seu pai? -- prossegui.
   Tentou agarrar a laranja, mas eu levantei-a mais alto. --
Que lhe ensina ele? -- repeti.
  -- Nada -- respondeu. -- S que no lhe aparea  frente.
      No gosta de mim porque lhe rogo pragas.
  -- Ah! Ento  o diabo quem lhe ensina a rogar pragas
  -- No -- balbuciou.
  -- Quem , ento?
  --  o Heathcliff.
   Perguntei-lhe se gostava de Heathcliff.
  -- Gosto -- replicou.
   Quando lhe perguntei por que razo gostava de Heathcliff,
respondeu -- No sei. Faz ao meu pai o que ele me faz a mim.
Amaldioa o meu pai quando ele me amaldioa a mim. E diz que
eu posso fazer o que muito bem me apetecer.
  -- Ento o senhor cura no o ensina a ler e a escrever? --
continuei.
  -- No. O Heathcliff corta-lhe as goelas se ele se atrever a
entrar por esta cancela. O Heathcliff jurou!
   Dei-lhe a laranja e mandei-o avisar o pai de que uma
rapariga chamada Nelly o esperava na cancela do jardim para
lhe falar.
   O garoto subiu a rampa e entrou em casa, mas quem apareceu
 porta foi Heathcliff em vez de Mr. Hindley. Dei meia volta e
corri pela estrada abaixo o mais depressa que pude, sem parar,
at alcanar o marco de orientao, como se o diabo viesse no
meu encalce.
   Este acontecimento no tem muita relao com o caso de Miss
Isabella, mas estimulou-me para ficar alerta e fazer tudo o
que estivesse ao meu alcance para evitar que tal influncia
se estendesse  Granja, ainda que isso pudesse desencadear
problemas domsticos, uma vez que ia contra os desejos de Mrs.
Linton.
   Na prxima vez que Heathcliff apareceu, Isabella andava a
dar de comer aos pombos no ptio. Durante trs dias no
dirigira a palavra  cunhada, mas deixara-se igualmente de
lamrias, o que para ns era um alvio. No era hbito de
Heathcliff dispensar atenes desnecessrias a Miss Linton.
Porm, desta vez, assim que a avistou, a sua primeira
preocupao foi correr o olhar pela fachada da casa. Eu estava
na janela da cozinha, mas escondi-me. Ele, ento, atravessou o
ptio, foi ter com ela e disse-lhe qualquer coisa que a deixou
aparentemente envergonhada e com vontade de se afastar; mas
Heathcliff agarrou-lhe o brao, impedindo-a de o fazer, e ela
:, desviou a cara. Aparentemente, ele fizera-lhe alguma
pergunta a que ela no fazia teno de responder. Olhou de


novo para a casa e, julgando que ningum o estava a ver, o
patife teve o descaramento de a beijar.
  -- Judas! Traidor! -- bradei. -- Com que ento tambm s um
hipcrita? Um grande fingido!
  -- Quem, Nelly? -- disse a voz de Catherine por trs das
minhas costas. (_Eu estava to distrada a vigiar aqueles
dois, que no dera f da sua entrada).
  -- O seu amiguinho! -- respondi com veemncia. -- Aquele
tratante! Ah, j nos viu. Vem para c! Ser que vai ter o
desplante de arranjar uma desculpa para fazer a corte 
menina, depois de ter dito que a odiava?
   Mrs. Linton viu Isabella libertar-se e correr para o
jardim. Um minuto depois, Heathcliff abriu a porta.
   No consegui esconder a minha indignao; mas Catherine,
zangada, pediu silncio e ameaou pr-me fora da cozinha se
eu tivesse o atrevimento de meter o bedelho onde no era
chamada.
  -- Quem te ouvir, h-de pensar que s a dona da casa. --
Exclamou. -- Pe-te no teu lugar! E tu, Heathcliff, s capaz
de me dizer o que te passou pela cabea? J te disse para
deixares a Isabella em paz! Espero bem que o faas, a menos
que estejas farto de ns e queiras que o Edgar te proba de
pores os ps nesta casa.
  -- Deus o livre de fazer uma coisa dessas! -- ripostou o
vilo, por quem senti dio naquele momento. -- Que Deus o
conserve assim, dcil e manso! Cada dia que passa tenho mais
vontade de o mandar desta para melhor!
  -- Cala-te! -- disse Catherine, fechando a porta. -- No me
afrontes. Por que no fizeste o que te pedi ? Por acaso, foi
ela quem se lanou nos teus braos propositadamente?
  -- Que tens tu com isso? -- resmungou. -- Tenho o direito de
a beijar, se ela quiser, e tu nada podes fazer. No sou teu
marido e, por isso, tu no precisas de ter cimes!
  -- Eu no tenho cimes de ti -- contraps a patroa. -- Tenho
 medo de ti. E no me olhes com esse ar ameaador! Se gostas
assim tanto da Isabella, casa com ela. Mas ser que gostas
mesmo dela? Diz a verdade, Heathcliff! Ah, no respondes.
Decerto no gostas!
  -- E ser que Mr. Linton aprovaria tal casamento? --
perguntei.
  -- Claro que aprovava -- respondeu a senhora com firmeza.
  -- E nem precisava de se dar ao trabalho. -- interveio
Heathcliff :,
  -- A autorizao dele no me interessaria para nada. Quanto
a ti, Catherine, e j que estamos a falar nisso, deixa-me que
te diga uma coisa: fica sabendo que eu *sei* que me tens feito
das boas... das boas! Ouviste bem? E se te iludes a pensar que
eu no sei,  porque s louca... E se pensas que me consolas
com falinhas mansas,  porque s mesmo uma idiota. E se
imaginas que vou sofrer sem me vingar, provar-te-ei o
contrrio muito em breve! Entretanto, obrigado por me
revelares o segredo da tua cunhada. Juro que tirarei dele o
mximo proveito. E no te metas nesse assunto!
  -- Que nova faceta do teu caracter  esta? -- exclamou Mrs.
Linton. Com que ento tenho-te feito a vida num inferno? E
vais vingar-te? Posso saber como, meu grande ingrato? Como
foi que eu te fiz a vida num inferno?
  -- No  em ti que me vou vingar -- retorquiu Heathcliff com
menos veemncia. -- No  esse o plano... O tirano maltrata os
escravos, e estes no se revoltam contra ele; esmagam os que
esto por baixo. Podes torturar-me at  morte, se te


apetecer, mas permite que me divirta tambm um pouco. E tenta
insultar-me o menos possvel. Depois de arrasares o meu
palcio, no penses que podes construir uma cabana, e
vangloriares-te da tua generosidade ao ofereceres-ma para
morar. Se eu pensasse que querias mesmo que eu desposasse a
Isabella, cortava j as goelas.
  -- O que te irrita  eu no ter cimes, no ? -- gritou
Catherine. -- Mas, tambm no voltarei a oferecer-te a
Isabella para esposa.  o mesmo que oferecer uma alma perdida
a Satans. Tal como ele, a tua alegria  ver os outros sofrer.
E provas bem o que digo. O Edgar j recuperou do acesso de
fria que o teu regresso lhe causou, e eu estava a comear de
novo a sentir-me segura e tranquila; mas tu, irritado por nos
saberes em paz, apareceste resolvido a provocar discusses.
Pois ento discute com o Edgar e engana a irm dele, se isso
te d prazer. Se achas que  essa a melhor forma de te
vingares de mim...
   O dilogo ficou por ali. Mrs. Linton sentou-se  lareira,
ruborizada e melanclica. O seu estado de esprito tornava-a
intratvel. No se conseguia dominar. Heathcliff manteve-se de
p, de braos cruzados, entregue aos seus pensamentos
diablicos. Foi assim que os deixei, para ir procurar o
patro, que j estranhava a demora de Catherine.
  -- Ellen -- disse ele quando entrei -- viste a senhora?
  -- Vi. Est na cozinha, Mr. Linton -- respondi. -- Est :,
transtornada com o comportamento de Mr. Heathcliff. Na
verdade julgo que est na hora de pr fim a estas visitas. No
 sensato ser-se benevolente estando as coisas como esto. --
Relatei ento a cena do ptio o melhor que pude e a discusso
que se seguiu. No me pareceu que isso pudesse vir a
prejudicar Mrs. Linton, a menos que ela depois defendesse
Heathcliff.
   Foi evidente a dificuldade que teve em ouvir o meu relato
at ao fim, e as primeiras palavras que proferiu mostravam bem
que no isentava a esposa de qualquer culpa.
  -- Isto  intolervel! -- exclamou. --  uma vergonha que
ela insista em t-lo por amigo e queira obrigar-me a suportar
a sua presena! Ellen, vai l fora chamar dois homens. Que
esperem l em baixo. A Catherine no vai continuar a discutir
com aquele biltre... J fui tolerante de mais com ela.
   Edgar desceu as escadas e ordenou aos criados que
aguardassem no vestbulo. Eu segui-o at  cozinha. L dentro
havia recomeado violenta a discusso; Mrs. Linton, pelo
menos, repreendia Heathcliff vigorosamente; ele tinha-se
afastado para a janela, cabisbaixo, aparentemente envergonhado
com a reprimenda.
   Heathcliff foi o primeiro a ver Edgar e fez sinal a
Catherine para que se calasse, ao que ela obedeceu
imediatamente, apercebendo-se da razo da intimao.
  -- Que vem a ser isto? -- indagou Linton, dirigindo-se a
Catherine -- Que noo tens tu do decoro para permaneceres
aqui depois das palavras que este maldito te dirigiu? Ou l
por ser esse o seu modo habitual de se exprimir, j no achas
mal? Talvez por estares j habituada a essa linguagem
grosseira, penses que me vou tambm habituar!
  -- Edgar, estiveste a escutar  porta? -- perguntou a
senhora, mostrando desprezo e desinteresse pela irritao do
marido, com o propsito evidente de o provocar.
   Heathcliff, que entretanto levantara a cabea enquanto Mr.
Linton falava, deu uma gargalhada de escrnio ao ouvir as
palavras de Catherine, aparentemente destinada a chamar a


ateno de Mr. Linton, no que foi bem sucedido. Mas Edgar no
estava disposto a envolver-se com ele em altercaes.
  -- At ao momento, tenho tido muita pacincia para o aturar
-- disse ele, calmamente. -- No porque ignorasse o seu
caracter miservel e degradado, mas porque achava que o
senhor s em parte era responsvel por ele; e porque a
Catherine quis continuar a dar-se :, consigo e eu consenti.
Que insensato fui! A sua presena  moralmente to pestilenta
que envenena o mais virtuoso dos homens. Por essa razo, e a
fim de evitar mais graves consequncias, probo-o, de hoje em
diante, de pr os ps nesta casa. Aproveito tambm para lhe
ordenar que saia imediatamente. Trs minutos mais tornaro a
sua sada involuntria e ignominiosa!
   Heathcliff mirou-o de alto a baixo com desprezo.
 -- Cathy, o teu cordeirinho est bravo como um touro --
disse. -- Arrisca-se a partir a cabea contra os meus punhos.
Porm, Mr. Linton, lamento muito, mas no o acho digno de tal
honra.
   Mr. Linton olhou para o vestbulo e fez me sinal para
mandar entrar os homens. No arriscava qualquer contacto
fsico.
   Obedeci ao sinal, mas Mrs. Linton, desconfiada, veio atrs
de mim e, quando eu ia cham-los, puxou-me para trs e fechou
a porta  chave.
   -- Lindos mtodos -- disse ela, em resposta ao olhar
surpreso e zangado do marido. Se no tens coragem de o atacar,
pede-lhe desculpa ou, pelo menos, d-te por vencido. Assim,
aprendes a no ostentares qualidades que no possuis. No, vou
mas  engolir a chave antes que ma consigas tirar! Bela
recompensa recebi pela minha bondade para com os dois. Depois
de ter sido indulgente para com a fraqueza de um e a maldade
do outro, recebo como recompensa duas provas da mais estpida
e absurda ingratido! Edgar, eu estava a defender-te, a ti e
aos teus; por isso, agora, gostava que o Heathcliff te desse
uma sova por teres pensado mel de mim!
   No foi precisa sova nenhuma para se obter o mesmo
resultado. Edgar tentou arrancar-lhe a chave, mas Catherine.
arremessou-a com mpeto para a fogueira. Perante isto, Edgar
foi sacudido por um arrepio nervoso, ficando plido como a
morte. Nem que a sua vida disso dependesse, teria sido capaz
de dominar aquele arrepio. Um misto de angstia e humilhao
apoderou-se dele e, apoiando-se ao espaldar de uma cadeira,
tapou a cara.
   -- Oh, meu Deus, noutros tempos ter-te-iam armado
cavaleiro! -- exclamou Mrs. Linton. -- Fomos derrotados! Fomos
derrotados! Se Heathcliff levantasse um dedo contra ti, seria
o mesmo que o Rei lanar os seus exrcitos contra um ninho de
ratos. Anima-te que ningum te faz mal. Tu nem um cordeirinho
s; pareces antes um coelho recm-nascido!
   -- Que esse cobardolas com aguadilha nas veias te faa bom
:, proveito, Cathy! -- disse Heathcliff. -- Dou-te os meus
parabns pelo teu bom gosto. Com que ento, foi por essa coisa
que se baba e no pra de tremer que tu me preteriste! Um
murro no lhe dava, mas deva-lhe um pontap de boa vontade.
Est a chorar ou ser que vai desmaiar de medo?
   O valento aproximou-se e deu um encontro  cadeira a que
Mr. Linton se apoiava. Bem melhor teria sido manter-se 
distancia. O meu patro endireitou-se num repente e
desferiu-lhe na garganta um golpe que o teria prostrado, fosse
ele um homem de compleio mais
fraca.


   O soco deixou-o por momentos sem respirao. E, enquanto
ele se recompunha, Mr. Linton saiu para o ptio pela porta das
traseiras e, dirigiu-se para a entrada
principal.
   -- Pronto! Conseguiste pr fim s visitas -- choramingou
Catherine -- E agora vai-te embora antes que ele regresse com
um par de pistolas e meia-dzia de ajudantes. Se ele realmente
nos ouviu, jamais nos perdoar. Pregaste-me uma linda partida,
Heathcliff! Mas agora vai... no percas tempo! Prefiro ver o
Edgar em maus lenis do que tu.
   -- Julgas porventura que ele me d um soco e no leva o
troco? -- gritou Heathcliff. -- No! Nunca! Antes de sair por
aquele porto meto-lhe dentro as costelas como se ele fosse
uma avel chocha. Se no lhe bato hoje, qualquer dia mato-o.
Por isso, se ds algum valor  sua vida, deixa-me bater-lhe
agora!
   -- Ele no vai voltar -- menti eu. -- L vem o cocheiro e
dois jardineiros. No vai, com certeza, ficar  espera que
eles o escorracem! Vm armados de cacetes e o patro deve
estar a observ-los da janela para ver se cumprem as ordens
recebidas.
   Os jardineiros e o cocheiro estavam de facto ali, mas Mr.
Linton vinha tambm com eles, e j tinham chegado ao ptio.
Heathcliff, aps ponderar um pouco, achou melhor furtar-se a
uma luta com os trs criados; pegou no atiador, partiu a
fechadura da porta de dentro e escapuliu-se enquanto os outros
tentavam entrar.
   Mrs. Linton, muito nervosa, pediu-me que a acompanhasse ao
andar de cima. No desconfiava do meu contributo para o
desenrolar da situao e eu no fazia teno de lhe contar.
   -- Estou s portas da loucura, Nelly! -- exclamou
atirando-se para cima do sof. Sinto a cabea a latejar como
se mil martelos me batessem! Avisa a Isabella para que no me
aparea; todo este rebolio  culpa sua. Se ela, ou mais
algum me irrita, perco a cabea de :, vez. E, se vires o
Edgar ainda esta noite, faz-lhe saber que corro o risco de
adoecer gravemente. Oxal isso acontea! Foi ele quem me ps
neste estado e, por isso, quero assust-lo. Alm disso, ele
era bem capaz de vir at aqui e desatar a recriminar-me ou a
lamuriar-se. Sabe Deus onde isso acabaria. Ds-lhe o meu
recado, minha boa Nelly? Sabes bem que eu no tenho culpa
nenhuma do sucedido. O que o teria levado a escutar  porta? O
Heathcliff foi muito injurioso depois de nos deixares. Mas eu
depressa arranjaria maneira de o afastar da Isabella e o
assunto ficaria por ali. Agora, a situao complicou-se por
causa da mania que alguns tm de escutar o que se diz a seu
respeito. Quando ele abriu a porta com aquele olhar
tresloucado, depois de eu ter aritado com o Heathcliff, para o
defender, at ficar rouca, pouco me importou o que pudessem
vir a fazer um ao outro. Principalmente quando me apercebi de
que, terminasse a discusso como terminasse, ficaramos
separados ningum sabe por quanto tempo. Bem, se o Heathcliff
no pode ser meu amigo, e se o Edgar se vai tornar mau e
ciumento, dilacerar-lhe-ei o corao dilacerando o meu. Ser
a melhor forma de acabar com tudo, se for levada at aos
limites! Mas  algo que apenas farei em ltimo recurso; o
Edgar no ser apanhado de surpresa. At agora no me tem
provocado muito. Tens de lhe mostrar o perigo de abandonar tal
procedimento e lembrares-lhe o meu temperamento impetuoso
que, quando espicaado, toca as ralas do furor. Sabes, Ellen,
gostava que apagasses do rosto essa apatia e te mostrasses um


pouco mais preocupada comigo!
   O ar impassvel com que recebi as suas instrues era sem
dvida exasperante, uma vez que haviam sido dadas com toda a
sinceridade. Pensei, porem, que quem conseguia prever to bem
os seus acessos de fria, conseguiria tambm, exercitando a
vontade, domin-los. E tambm no era minha inteno
assustar Edgar, como ela disse, e aumentar as suas
preocupaes apenas para lhe fazer a vontade.
   Por isso, no comentei nada com o meu patro ao cruzar-me
com ele quando se dirigia para a sala. Contudo, tomei a
liberdade de voltar atrs a fim de saber se recomeariam a
discusso.
   Foi Edgar quem falou primeiro:
   -- Deixa-te ficar onde ests, Catherine -- disse, sem
raiva, mas evidenciando alguma tristeza. -- No me demoro. No
vim para discutir, to pouco para fazer as pazes. Apenas quero
saber se, aps :, os acontecimentos de hoje, ainda pretendes
da, continuidade a essa tua intimidade com...
   -- Oh, por amor de Deus! -- interrompeu a senhora batendo o
p. -- Por amor de Deus, no toquemos mais nesse assunto! O
teu sangue frio no consegue ficar febril; corre-te nas veias
gua gelada, mas nas minhas est o sangue a ferver, e ver
tanta frieza  minha frente deixa-me desvairada.
   -- Se te queres ver livre de mim, tens de responder  minha
pergunta -- insistiu Mr. Linton. -- V responde! E essa tua
violncia no me assusta; descobri que, quando queres,
consegues ser to estica como qualquer outra pessoa. Escolhe:
cortas relaes com o Heathcliff ou comigo? No  possvel
seres amiga dos dois ao mesmo tempo e exijo que me digas qual
dos dois vais escolher.
   -- E eu exijo que me deixes -- exclamou Catherine, furiosa.
-- Exijo-o! No vs que mal me tenho de p? Edgar, vai-te
embora por favor!
   Tocou a campainha com tanta impetuosidade que a quebrou. Eu
acorri, serena. Aqueles ataques de fria eram de fazer perder
a pacincia a um santo! L estava ela a bater com a cabea no
brao do sof e a ranger os dentes com tanta fora que parecia
querer estilhaa-los!
   Mr. Linton fitava-a, tomado de sbito pavor. Mandou-me
buscar gua. Catherine, sem flego, no conseguia
falar.
   Trouxe-lhe um copo cheio e, uma vez que ela no queria
beber, atirei-lhe umas gotas  cara. De repente,
inteiriou-se, revirou os olhos e ficou com as faces lvidas,
cadavricas.
Mr. Linton estava apavorado.
   -- Isto no deve ser nada -- sussurrei. No queria que ele
se preocupasse, embora, para dizer a verdade, eu estivesse um
pouco assustada.
   -- Tem sangue nos lbios -- disse ele estremecendo.
   -- No se preocupe -- respondi. E dei-lhe a conhecer a sua
inteno de simular um ataque de nervos antes da chegada dele.
   Sem querer, fiz este comentrio em voz alta, e ela
ouviu-me, pois parou no mesmo instante, com o cabelo a
cair-lhe pelos ombros, os olhos flamejantes, e os msculos do
pescoo e dos braos inacreditavelmente retesados. Achei que
j no saa dali sem algum osso partido. Porm, ela limitou-se
a olhar a toda a volta, e saiu da sala
a correr.
   O patro fez-me sinal que a seguisse, ao que obedeci, mas
:, fazendo-o apenas at  porta do quarto, pois ela impediu-me


de avanar, fechando-me a porta na
cara.
   Como na manh seguinte Catherine no descesse para o
pequeno almoo, subi para perguntar se queria que lho levasse.
   -- No -- respondeu peremptria.
   Ouvi a mesma resposta ao jantar,  hora do ch e na manh
seguinte.
   Mr. Linton, por seu turno, passava o tempo na biblioteca e
no me fazia quaisquer perguntas sobre as ocupaes da esposa.
Isabella e ele tiveram uma breve troca de palavras, durante a
qual Edgar tentou fazer vir  tona alguns sentimentos de
horror em relao s atitudes de Heathcliff. Mas no
conseguiu saber nada de concreto, pois ela apenas dava
respostas evasivas. Viu-se, assim, obrigado a terminar a
conversa insatisfeito. Contudo, acrescentou que, se ela fosse
louca ao ponto de encorajar aquele pretendente desprezvel,
cortaria todos os laos de parentesco com ela.
__Captulo XII
   Enquanto Miss Linton vagueava pelo parque, sempre em
silncio e quase sempre a chorar, e o irmo se fechava na
biblioteca com livros que nunca abria, na v esperana, julgo
eu, de que Catherine se arrependesse da sua conduta e se
dispusesse a pedir-lhe desculpa e a procurar uma
reconciliao, e Catherine continuava teimosamente a jejuar,
convencida talvez de que Edgar morria de saudades sem a sua
companhia s refeies e de que apenas o orgulho o impedia de
correr a rojar-se aos seus ps, eu continuava na minha lida,
convencida de que a Granja albergava apenas uma nica alma
sensata entre as suas paredes e de que essa alma era a que
habitava o meu corpo.
   No me dava ao trabalho de lastimar a menina, nem de
repreender a minha patroa, nem to-pouco ligava aos suspiros
do meu patro, que ansiava por ouvir o nome da esposa, j que
no podia ouvir a sua voz.
   Decidi que as coisas deveriam seguir o seu rumo sem a minha
interferncia. Apesar de o processo se desenrolar com
enfadonha lentido, comecei a ter uma vaga esperana de que
tudo se resolveria como eu a princpio imaginara.
   Ao terceiro dia, Mrs. Linton abriu a porta. E, como se lhe
acabara a gua no jarro e na garrafa, pediu-me que os
enchesse de novo e pediu tambm uma chvena de caldo, pois
julgava-se s portas da morte. Pensei que s dizia aquilo para
eu ir a correr contar ao marido e, como no acreditei numa s
palavra, no disse nada a Edgar, limitando-me a levar-lhe uma
chvena de ch e uma torrada.
   Comeu e bebeu avidamente. Depois, deixou-se cair de novo na
almofada, gemendo e contorcendo as mos. :,
   -- Ai, que vou morrer! Ningum quer saber de mim! Quem me
dera no ter comido isto! -- exclamou.
   Pouco depois, ouvi-a murmurar: -- No. No vou nada morrer.
Isso queria ele. No me ama e no sentiria a minha falta.
   -- Quer alguma coisa, minha senhora? -- perguntei tentando
manter-me impassvel, apesar do seu aspecto assustador e dos
seus modos estranhos e tresloucados.
   -- O que faz aquele ser pattico? -- indagou afastando da
cara as madeixas emaranhadas. -- Caiu em letargia ou j
morreu?
   -- Nem uma coisa nem outra -- respondi. -- Se se refere a


Mr. Linton, acho que est muito bem, embora as leituras lhe
roubem mais tempo do que deviam. Passa o tempo enfronhado nos
livros j que no tem com quem falar.
   Eu no teria dito aquilo se conhecesse o seu verdadeiro
estado. Mas no conseguia deixar de pensar que parte da sua
loucura era mera representao.
   -- Enfronhado nos livros! -- repetiu, perturbada. -- E eu
s portas da morte! Meu Deus! Tens a certeza de que ele sabe
como estou transtornada? -- continuou, enquanto contemplava o
seu reflexo num espelho pendurado na parede oposta. --  esta
a Catherine Linton? Julgar ele que  s mau-gnio meu? Que
estou a fingir, talvez? No lhe podes dizer que corro perigo,
Nelly? Se no for tarde demais, assim que souber o que ele
sente por mim, escolherei entre morrer de fome, o que apenas
ser castigo se ele tiver corao, e recuperar-me para sair do
pas. Ests mesmo a dizer a verdade? No mintas! Ele  mesmo
assim to indiferente ao que me possa acontecer?
   -- Minha senhora -- respondi -- o patro desconhece o seu
estado e  claro que nem sonha que est a tentar morrer de
fome.
   -- Achas que no? E no lhe podes dizer que o farei? --
continuou. -- Convence-o. Diz-lhe que tens a certeza de que o
farei!
   -- No, Mrs. Linton. Esquece-se de que hoje  tarde j
comeu alguma coisa, e que, por sinal, lhe soube muito bem, e
que amanh sentir os seus bons efeitos.
   -- Se eu soubesse que isso o matava -- interrompeu --
suicidava-me j! No preguei olho estas trs noites e... Ah,
como sofri! Fui perseguida por fantasmas, Nelly! Comeo a
pensar que no gostas de mim.  estranho! Julgava que, apesar
de todos se odiarem e desprezarem uns aos outros, no
conseguiam deixar de gostar de mim. E, em apenas algumas
horas, tornaram-se todos meus inimigos. Isso
:,  que tornaram! *_Todos* os que *aqui* moram. Que triste 
morrer rodeada pelos seus rostos de gelo! A Isabella, com
pavor de entrar neste quarto, pois seria terrvel ver
Catherine morrer. E o Edgar, solenemente  espera de que tudo
acabasse. Depois agradeceria a Deus por ter restitudo a paz 
sua casa e regressaria para o meio dos seus *livros*! No me
dirs, em nome de tudo o que tem sentimentos, para que se vai
ele agarrar aos *livros*, estando eu a morrer?
   Catherine no conseguia compreender a resignao filosfica
do marido. De tal forma se exaltou que agravou o seu estado de
febril loucura e desfez o travesseiro com os dentes. Depois,
levantando-se bruscamente, como se a
cama estivesse em chamas, pediu-me que abrisse a janela.
Estvamos em pleno Inverno e o vento soprava forte de
Nordeste; recusei-me por isso a cumprir a sua
ordem.
   As mltiplas expresses que lhe perpassavam o rosto e as
suas mudanas sbitas de personalidade comearam a
preocupar-me seriamente. Traziam-me  lembrana a sua antiga
doena e as recomendaes do mdico para que no fosse
contrariada.
   Momentos antes estava violenta. Agora, apoiada num dos
braos e sem estar lembrada de que eu a contrariara, parecia
divertir-se como uma criana a tirar as penas pelos rasges
do travesseiro, alinhando-as no lenol segundo as suas
diferentes espcies. A sua mente j no se encontrava ali.
   -- Esta  de peru -- disse, falando sozinha -- e esta de
pato selvagem; e esta de pomba. Ah, com que ento pem penas


de pomba nos travesseiros; no admira que eu no consiga
morrer! Tenho de o atirar para o cho quando me deitar. E aqui
est uma de lagpode; e esta reconhec-la-ia entre mil:  de
pavoncino. Que linda ave! Esvoaando por cima de ns nos
brejos, de regresso ao ninho, pois as nuvens j tocavam os
montes e pressentia a chuva. Esta pena foi apanhada de uma
urze, a ave no foi alvejada. No Inverno, encontrmos o ninho
cheio de esqueletos pequeninos. O Heathcliff montara uma
armadilha por cima dele e os pais no se atreviam a
aproximar-se. Obriguei-o a prometer que, depois daquilo,
nunca mais atiraria sobre um pavoncino e ele obedeceu-me.
Olha! C esto mais! Ele atirou sobre os meus pavoncinos,
Nelly? Alguma delas est vermelha? Ora deixa ver.
   -- Pare com essa criancice! -- interrompi, tirando-lhe o
travesseiro das mos e voltando os rasges para o colcho,
pois ela estava a tirar as penas s mancheias. -- Deite-se e
tente dormir, que est :, a delirar. Que grande confuso! As
penas voam como flocos de neve.
   Apanhei algumas aqui e ali.
   -- Nelly, agora estou a ver-te muito velhinha, de cabelos
brancos e toda curvada -- continuou, como se estivesse a
sonhar. Esta cama  a gruta das fadas, por baixo de Penistone
Crag, e tu ests a juntar setas para matares os nossos
vitelinhos, fingindo, enquanto estou por perto, que so apenas
flocos de l.  no que te vais tornar daqui a cinquenta anos.
Sei que agora no s assim. Enganas-te. No estou a delirar,
caso contrrio acreditaria que eras mesmo a bruxa mirrada e
que eu estava por baixo de Penistone Crag. Estou certa de que
j  noite, e de que h duas velas acesas em cima da mesa que
fazem brilhar como azeviche o armrio negro.
   -- Que armrio negro? -- perguntei. -- Est a sonhar!
 -- Est encostado  parede, como sempre -- respondeu. -- Tem
um aspecto estranho e vejo l uma cara!
   -- No h armrio nenhum no quarto, nem nunca houve --
disse eu, voltando para o meu lugar e levantando as cortinas
da cama para  a poder vigiar.
   -- No vs aquela cara? -- perguntou, olhando fixamente
para o espelho.
   Por mais que eu tentasse no conseguia convenc-la de que
era a sua prpria cara que ela estava a ver, e acabei por
cobrir o espelho com um xaile.
   -- Continua ali escondida! -- prosseguiu inquieta. --
Mexeu-se. Quem ser? Espero que no saia dali quando te fores
embora! Oh! Nelly, o quarto est assombrado! Tenho medo de
ficar sozinha!
   Peguei-lhe na mo e tentei acalm-la pois uma srie de
estremecimentos sacudiram-lhe o corpo e os seus olhos no
paravam de fitar o espelho.
   -- No est l ningum! -- insisti. -- Era a sua imagem
reflectida, Mrs. Linton. J lhe disse.
   -- Era a minha imagem -- murmurou -- e o relgio bate as
doze badaladas! Ento,  verdade.  assustador!
   Os seus dedos arrepanharam o lenol e cobriu os olhos com
ele. Tentei sair sem fazer barulho para ir chamar Mr. Linton,
mas um grito lancinante obrigou-me a voltar para trs.
   O xaile cara do espelho.
   -- Ento, que se passa? -- exclamei. -- Que medricas! Veja
se :, percebe que isso  um espelho e que o que v  o seu
reflexo. E quem l est a seu lado sou eu.
   Trmula e assustada, abraou-se a mim com fora, e o terror
foi-se dissipando a pouco e pouco e a palidez deu lugar a um


rubor de vergonha.
   -- Meu Deus! Pensei que estava em casa -- suspirou. --
Pensei que estava deitada no meu quarto, no Alto dos
Vendavais. Como estou fraca, o meu crebro ficou confuso e
gritei inconscientemente. No digas nada, mas no me deixes.
Tenho medo de dormir por causa dos pesadelos.
   -- Um bom sono s lhe faria bem, minha senhora -- respondi
-- E espero que depois de todo este sofrimento no mais deseje
morrer de fome.
   -- Oh, se eu, pelo menos, estivesse na minha cama na minha
antiga casa! -- continuou amargamente, contorcendo as mos. --
Com o vento a uivar por entre os abetos, rente  janela.
Deixa-me senti-lo, vem direitinho do brejo, deixa-me
respir-lo!
   Entreabri a janela por momentos a fim de a acalmar. Uma
rajada fria invadiu o quarto. Voltei a fechar a janela e
regressei ao meu lugar.
   Agora estava sossegada, com o rosto banhado em lgrimas. O
cansao fsico havia dominado a mente. A nossa impetuosa
Catherine no passava agora de uma criana piegas!
   -- H quanto tempo me fechei aqui? -- perguntou, com uma
energia repentina.
   -- Foi no domingo, ao fim da tarde -- respondi -- E hoje 
quinta-feira, ou melhor, sexta de madrugada.
    -- Como? Da mesma semana? -- exclamou. -- S passou to
pouco tempo?
   -- O suficiente para quem vive apenas de gua fria e mau
humor  -- observei.
   -- Bom, a mim pareceu um nmero de horas infinito --
resmungou, em dvida -- Deve ter passado mais tempo.
Lembro-me de estar na sala de visitas depois da discusso e de
o Edgar me ter provocado cruelmente e eu ter fugido
desesperada para este quarto. Assim que tranquei a porta, uma
escurido total envolveu-me e ca no cho. No conseguiria
explicar a Edgar que me sentia a desfalecer, ou a enlouquecer,
se ele persistisse em me arreliar! No conseguia controlar o
que dizia nem o que pensava e ele talvez no se tenha
apercebido da minha agonia. Tive apenas o bom senso de :,
fugir dele e da sua voz. Quando recuperei a conscincia era j
madrugada. Nelly, vou contar-te o que pensei, e o que me
ocorreu e me obcecou, ao ponto de temer pela minha sanidade
mental. Enquanto estava ali deitada com a cabea encostada 
perna da mesa, e os meus olhos discerniam com dificuldade o
vo escuro da janela, pensei que estava em minha casa, fechada
na minha cama de painis de madeira de carvalho e doa-me o
corao por alguma razo que no conseguia descortinar.
Reflecti e afligi-me na tentativa de arranjar uma explicao
para a angstia que eu sentia e, o que  mais estranho ainda,
os ltimos sete anos da minha vida varreram-se-me da memria.
No me lembrava absolutamente de nada. Era de novo criana. O
meu pai acabara de falecer e a minha dor advinha do facto de o
Hindlty ter ordenado que eu e o Heathcliff nos separssemos.
Via-me s pela primeira vez e, despertando de um sono
sobressaltado aps uma noite de choro, estendi a mo para
desviar os cortinados da cama e toquei na mesa de cabeceira!
Arrastei a mo pelo tapete e, ento, a minha memria
regressou. O meu ltimo sofrimento transformou-se num acesso
de desespero. No sei explicar por que razo me senti to
infeliz. Deve ter sido um acesso momentneo de loucura, uma
vez que no h razo que o justifique. Imaginei que tinha sido
arrancada do Alto aos doze anos, de tudo o que me era querido


naquela altura, como o Heathcliff, para me converter em Mrs.
Linton, a senhora da Granja dos Tordos, esposa de um estranho,
exilada e proscrita desde ento do que fora o meu mundo. Podes
imaginar o abismo em que me afundei! Abana a cabea se
quiseres, Nelly, mas tu contribuste para me pores neste
estado! Devias ter falado com o Edgar, isso  que devias, para
o obrigares a deixar-me em paz! Oh, estou a arder em febre!
Quem me dera estar ao ar livre. Quem me dera ser de novo
aquela criana meio selvagem, audaciosa e livre... e rir-me
das ofensas em vez de me preocupar com elas! Por que estou to
mudada? Por que ferve o meu sangue com tanta facilidade a umas
mseras palavras? Estou certa de que voltaria a ser eu prpria
outra vez entre as urzes daqueles montes... Abre a janela,
escancara-a! Depressa, por que no te mexes?
   -- Porque no a quero ver morrer de frio -- respondi.
   -- No queres  dar-me hipteses de viver, isso sim! --
disse ela obstinada. -- Contudo, ainda no estou incapaz de me
mexer. Eu mesma a abrirei.
   Escorregando da cama, antes que a pudesse impedir,
atravessou :, o quarto a cambalear, abriu a janela e
debruou-se, sem querer saber do vento glido que lhe cortava
o colo, afiado como uma lmina.
   Implorei-lhe que voltasse para a cama e, como a minha
tentativa no surtisse efeito, tentei obrig-la. Mas depressa
descobri que, com o delrio, a sua fora era muito superior 
minha; o delrio apoderara-se dela. As suas aces e
desvarios no me deixavam sobre isso qualquer dvida.
   No havia luar e tudo estava imerso em escurido. No se
via luz em qualquer casa, nem perto, nem longe; todas as luzes
haviam sido apagadas h muito e as do Alto dos Vendavais no
eram visveis... Contudo, Mrs. Linton assegurava que as
conseguia ver brilhar.
   -- Olha! -- disse ela ansiosa. -- L est o meu quarto e as
rvores em frente a balouar; e a outra vela  do soto do
Joseph. O Joseph deita-se sempre muito tarde. Est  minha
espera para ir fechar a cancela. Pois vai ter muito que
esperar. A caminhada  longa e  preciso atravessar o
cemitrio de Gimmerton! Muitas vezes provocamos os fantasmas e
nos desafimos mutuamente a andar a evocar os mortos por entre
as sepulturas. Mas tu, Heathcliff, se te desafiar agora,
ainda ters coragem de o fazer? Se tiveres, ficarei contigo.
No quero jazer ali sozinha. Podem enterrar-me a sete palmos
de fundura e fazer desabar a igreja sobre mim, mas no
descansarei enquanto no estivermos juntos. Jamais!
   Fez uma pausa e prosseguiu, com um sorriso estranho: --
Est a ponderar a questo... Preferia que fosse eu a ir ter
com ele! Pois ento procura um caminho! Mas no pelo meio do
cemitrio... Oh, como s lento! Alegra-te! Afinal, tu sempre
me seguiste!
   Apercebendo-me de que era impossvel argumentar contra a
sua insanidade, procurei uma maneira de lhe pr um agasalho
pelos ombros sem a largar, pois no me atrevia a deix-la
sozinha  janela. Nesse instante, para meu grande pesar, ouvi
rodar a maaneta da porta e Mr. Linton entrou. S agora sara
da biblioteca e, ao passar no corredor, escutara as nossas
vozes e fora atrado pela curiosidade, ou pelo medo, de saber
o que poderia estar a acontecer quelas horas.
   -- Oh, meu senhor! -- gritei eu, antecipando-me 
exclamao que ele soltaria ao deparar com aquele espectculo
e ao sentir a atmosfera glida do quarto.
   -- A pobre senhora est muito mal e faz o que quer de


mim. :, No a consigo controlar. Peo-lhe que a convena a
voltar para a cama. Ponha de lado a sua raiva, pois  difcil
faz-la desistir do que se lhe mete na cabea.
   -- A Catherine est doente? -- disse ele, correndo para
ns. --  Ellen, fecha a janela! Catherine, por que...
   Calou-se. O rosto desfigurado de Mrs. Linton prostrou-o sem
fala. Conseguia apenas olhar para mim, com um esgar de horror
e surpresa.
   -- Est h dias nesta consumio -- prossegui -- Sem comer
quase nada e sem se queixar. S esta noite abriu a porta e,
por isso, no pudemos inform-lo mais cedo do seu estado, uma
vez que ns tambm no o conhecamos. Mas no  nada de grave!
   Avaliando bem a estupidez das minhas afirmaes, Mr. Linton
franziu as sobrancelhas, mostrando desagrado.
   -- Com que ento no  nada de grave, Ellen Dean? --
ripostou. -- Hs-de explicar-me por que no me avisaste do
seu estado! -- Abraou a esposa e olhou-a com ansiedade.
   A princpio, ela parecia no o reconhecer... ele era
invisvel para o seu olhar abstracto. Contudo, o delrio tinha
intermitncias. Gradualmente, desviando os olhos da
escurido, centrou a ateno em Edgar e descobriu quem a
abraava.
   -- Ah, afinal, sempre vieste, Edgar Linton! -- disse ela
com animosidade... -- s daquelas coisas que, quando se
querem nunca aparecem e, quando no se querem... Presumo que
agora vamos ter choradeira... Vejo que sim... Mas nem isso me
pode afastar da minha exgua morada l adiante... O meu lugar
de repouso, para onde partirei antes de a Primavera acabar! L
est ele; mas no ser entre os Linton, sob a abbada da
capela; ser ao ar livre, debaixo de uma lpide. Depois, podes
escolher o que preferires: ficares com eles ou comigo!
   -- Que fizeste, Catherine? -- comeou Edgar. -- Ento, eu
j no significo nada para ti? Amas aquele malvado do Heath...
     -- Cala-te! -- bradou Mrs. Linton. -- Cala-te
imediatamente! Se pronuncias esse nome, acabo j com tudo.
Atiro-me desta janela! O meu corpo pode pertencer-te, mas a
minha alma estar no cimo daqueles montes antes que voltes a
tocar-me. J no te desejo, Edgar. Volta para os teus livros.
Alegra-me que tenhas essa consolao, pois tudo o que de mim
possuas desapareceu para todo o sempre.
   -- Est a delirar, meu senhor -- intervim. -- S tem dito
:, disparates. Mas, se descansar e receber os cuidados
necessrios, depressa se curar. Daqui em diante no a devemos
irritar.
   -- Dispenso os teus conselhos -- respondeu Mr. Linton. --
    Conhecias o temperamento da tua senhora e incitaste-me a
contrari-la. E no me avisaste de como ela tem passado estes
trs dias! Foi uma desumanidade! Nem meses de doena
conseguiriam provocar uma mudana destas!
   Comecei a defender-me, pois achava errado ser censurada por
causa de mais um capricho maldoso!
   -- Eu j sabia que o comportamento de Mrs. Linton era
obstinado e arrogante, mas o que eu no sabia  que o senhor
desejava alimentar o seu gnio feroz! No sabia que, para
agradar  senhora, deveria fechar os olhos ao que Mr.
Heathcliff fez. Procedi como uma criada de confiana ao
avis-lo, e levei a paga de uma criada de confiana! Pois bem,
aprendi que, para a prxima, deverei ter mais cuidado. Para a
prxima, descubra o senhor sozinho o que se passa!
   -- Da prxima vez que me vieres com histrias, Ellen Dean,
ests despedida -- respondeu.


   -- Ento, o senhor prefere ficar na ignorncia, Mr. Linton!
-- disse eu. -- Heathcliff tem a sua permisso para cortejar a
menina, e vir c sempre que o senhor no estiver, para
envenenar a sua relao com a senhora?
   Catherine, apesar de muito confusa, escutava a nossa
conversa.
   -- Ah! Ento a Nelly traiu-me! -- exclamou. --  a Nelly o
meu inimigo misterioso. Sua bruxa! Afinal, sempre  verdade
que procuravas flechas para nos ferires! Larga-me, que eu
fao-a arrepender-se! H-de pagar-mas!
   Nos seus olhos acendeu-se uma fria flamejante e comeou a
debater-se desesperadamente para se livrar dos braos de Mr.
Linton. Achei melhor no me demorar ali mais tempo, e,
resolvida a procurar ajuda mdica por minha conta e risco, sa
do quarto. Ao atravessar o quintal, a caminho da estrada,
passei num stio onde havia uma argola de amarrar cavalos e vi
algo branco a baloiar descompassadamente, impelido por outra
coisa que no o vento. Apesar de estar com pressa, parei para
ver o que era, no fosse eu, depois, ficar com a impresso de
que se tratava de alguma alma do outro
mundo.
   Foi com grande surpresa e perplexidade que descobri, mais
pelo :, tacto do que pela viso, a cadelinha perdigueira da
menina Isabella, a Fanny, enforcada com um leno e quase
sufocada.
   Soltei o animal o mais depressa que pude e deixei-o no
quintal. Eu tinha visto a cadelinha seguir a dona para o
quarto e admirei-me por ir encontr-la ali. No fazia ideia de
quem poderia ter cometido uma malvadez daquelas.
   Enquanto desapertava o n da argola, pareceu-me ouvir ao
longe o galope de cavalos, mas eu tinha j tanto em que pensar
que no lhe dei muita importncia. Na verdade, porm, era
estranho ouvir cavalos naquele sitio s duas da madrugada.
   Por sorte, o Dr. Kenneth preparava-se para sair de casa a
fim de ir ver um doente quando eu subia a rua. Contei-lhe o
que se passava com Catherine e ele veio comigo imediatamente.
   Era um homem simples e rude, e, portanto, no teve qualquer
escrpulo em me dizer que tinha fortes dvidas de que
Catherine escapasse a este segundo ataque, a menos que
seguisse as suas instrues melhor do que fizera at
ento.
   -- Nelly Dean -- comeou ele -- estou certo de que alguma
coisa provocou esta recada. O que foi que se passou na
Granja? Correm certos boatos... Uma rapariga forte como
Catherine no adoece sem mais nem menos. Apenas algo de muito
grave lhe provocaria essa febre. Como  que principiou?
   -- Mr. Edgar lhe dir -- respondi. -- O senhor doutor est
a par do gnio violento dos Earnshaw, e Mrs. Linton excede-os
a todos. Posso adiantar-lhe apenas que tudo comeou com uma
discusso. Foi durante um acesso de clera que ela teve uma
espcie de desmaio. Pelo menos,  o que ela diz, porque no
auge da discusso, trancou-se no quarto. Depois, recusou-se a
comer e agora tem delrios e vive meio a dormir. Conhece as
pessoas, mas tem a mente cheia de pensamentos estranhos e
ilusrios.
   -- Mr. Linton deve estar preocupadssimo!? -- exclamou o
mdico interrogativamente.
   -- Preocupadssimo? Se lhe acontece o pior ele no vai
resistir! -- respondi. -- No o alarme mais do que o
necessrio.
   -- Bom, eu disse-lhe para ter cuidado -- observou. -- Agora


tem de arcar com as consequncias por no me ter levado a
srio! Ele ultimamente no se tem encontrado com Mr.
Heathcliff?
    -- Mr. Heathcliff visita a Granja frequentemente, mas por
ser amigo te infncia da senhora e no porque Mr. Linton preze
a sua companhia. E, agora, essas visitas terminaram, pois Mr.
Heathcliff :, manifestou umas certas pretenses a respeito de
Miss Linton, e julgo que no voltar 
Granja.
   -- E a menina mostrou interesse nele? -- foi a pergunta
seguinte.
   -- Ela no me faz confidncias -- respondi, relutante em
prosseguir a conversa.
   -- Sim, de facto ela  reservada -- e meneou a cabea,
aquiescente. -- Guarda para si as suas opinies! Mas  uma
tontinha! Sei de fonte segura que a noite passada (e que linda
noite esteve!) ela e Mr. Heathcliff andaram a passear os dois
na plantao por trs da vossa casa por mais de duas horas. E
que ele tentou convenc-la a no voltar a casa e a fugir com
ele a cavalo! Disseram-me tambm que ela apenas o conseguiu
dissuadir dando a sua palavra de honra de que estaria
preparada no prximo encontro. Para quando estava marcado esse
encontro, no conseguiram ouvir, mas avisa Mr. Linton para
que tenha cuidado!
   Estas notcias s me vieram apoquentar ainda mais. Passei 
frente do Dr. Kenneth e desatei a correr durante quase todo o
caminho de regresso. A cadelinha continuava a ladrar no
jardim. Abri-lhe o porto, mas, em vez de ir para casa,
comeou a andar de c para l, farejando a relva. Teria fugido
para a estrada se eu no a agarrasse e a levasse comigo.
   Quando subi ao quarto de Miss Isabella, as minhas suspeitas
confirmaram-se. O quarto estava vazio. Se eu tivesse chegado
umas horas mais cedo e lhe tivesse falado da doena de
Catherine, isso t-la-ia impedido de dar aquele passo
insensato. Que poderia fazer eu agora? Tinha ainda uma vaga
esperana de os alcanarmos, se agssemos sem demora. Contudo,
no podia ir no seu encalce e no me atrevia a acordar a
criadagem e pr a casa em polvorosa. Tambm no podia contar
o sucedido a Mr. Edgar, pois j tinha problemas de sobra e o
seu corao no ia aguentar esta nova aflio!
   A nica coisa a fazer era ficar calada e deixar que as
coisas seguissem o seu rumo. Quando o Dr. Kenneth chegou, fui
anunci-lo, ainda com as roupas em desalinho.
   Catherine dormia um sono perturbado. Mr. Linton havia
conseguido acalmar o seu acesso de loucura e debruava-se
agora sobre o travesseiro, observando todas as suas mudanas e
expresses de dor.
   Ao examin-la, o mdico mostrou-se bastante seguro de que
melhoraria, se houvesse  sua volta tranquilidade absoluta. :,
Confidenciou-me que o perigo real que a ameaava no era a
morte, mas sim uma alienao permanente do crebro.
   Nem eu, nem Mr. Linton pregamos olho toda a noite. De
facto, nem chegmos a ir para a cama, e todos os criados se
levantaram muito antes da hora habitual. Andavam pela casa em
bicos de ps e falavam uns com os outros em segredo, enquanto
cumpriam as suas obrigaes. Todos estavam a p, excepto Miss
Isabella, cujo sono profundo comeou a provocar comentrios. O
irmo perguntou-me se ela j se havia levantado, parecendo
inquieto com a sua ausncia e magoado por ela mostrar to
pouco interesse pela
cunhada.


   Eu tremia s de pensar que ele podia mandar-me acord-la.
Mas foi-me poupado o sofrimento de ser eu a anunciar que ela
fugira. Uma das criadas, uma moa irreflectida, que fora bem
cedo a Gimmerton a um recado, subiu as escadas ofegante e
precipitou-se para o quarto a chorar.
   -- Meu Deus, meu Deus! Que mais poder acontecer? Meu
senhor, meu senhor, a menina...
   -- Pouco barulho! -- atalhei eu, irritada com tanto
espalhafato.
   -- Fala mais baixo, Mary! Que se passa? -- perguntou Mr.
Linton. -- Que aconteceu  menina?
   -- Fugiu... Fugiu com o tal Heathcliff! -- disse ofegante.
   -- No pode ser! -- exclamou Mr. Linton, levantando-se
perturbado. -- No pode ser! Onde foste buscar tal ideia?
Ellen Dean, vai procur-la.  impossvel! No pode
ser!
   Enquanto falava, foi com a criada at  porta e
perguntou-lhe outra vez de onde havia ela tirado aquela ideia.
   -- Encontrei na estrada um rapaz que entrega aqui o leite
--  gaguejou -- e que me perguntou se ns no estvamos
preocupados aqui na Granja. Pensei que se referisse  doena
da senhora e, por isso, disse-lhe que sim. E, depois, ele
perguntou-me se foi algum atrs deles. Fiquei espantada. O
rapaz viu logo que eu no sabia do que ele estava a falar e
contou-me ento que vira um cavalheiro e uma senhora no
ferreiro a arranjar a ferradura de um cavalo, a duas milhas de
Gimmerton, pouco depois da meia-noite. A filha do ferreiro
levantou-se para ver quem era e reconheceu-os imediatamente.
Garantiu que era Mr. Heathcliff. Ningum o podia confundir. De
mais a mais, tendo metido na mo do pai dela uma libra como
pagamento. A senhora trazia um manto pela cabea, mas, o manto
cau quando ela estava a beber gua, deixando-lhe a :, cara a
descoberto. Heathcliff agarrou nas duas rdeas e partiram o
mais rpido que a estrada pedregosa permitia. Naquela altura a
rapariga no disse nada ao pai, mas esta manh contou a toda a
gente!
   Corri a ir espreitar ao quarto de Isabella, apenas por
descargo de conscincia, e, quando regressei, confirmei as
declaraes da criada Mr. Linton sentara-se de novo na cama.
Ergueu os olhos quando entrei e adivinhou a verdade na lividez
do meu rosto. Tornou a baixar os olhos, sem proferir palavra.
   -- Devo tomar alguma providncia para o interceptar e
trazer a menina de volta? -- perguntei. -- Que podemos ns
fazer?
   -- Ela foi de sua livre vontade. Estava no seu direito. No
falemos mais no assunto, pois de hoje em diante ela s 
minha irm de nome. No fui eu que a reneguei, foi ela que me
renegou a mim!
   Foi tudo o que disse acerca deste assunto. No voltou a
fazer qualquer pergunta, nem a mencionar o nome da menina,
excepto quando me ordenou que enviasse todos os seus pertences
para a nova morada, logo que se soubesse onde era.
CAPTULO XIII
   Durante dois meses, nada se soube dos fugitivos. E, nesses
dois meses, Mrs. Linton sofreu e venceu o seu pior recontro
com a doena denominada febre cerebral. Nenhuma me teria
cuidado de um filho nico mais extremosamente do que Edgar
cuidou de Catherine. Vigiava-a noite e dia, sofrendo


pacientemente todos os aborrecimentos que os nervos alterados
e uma razo abalada podem causar. Apesar de o mdico o ter
avisado de que o gesto de a salvar da morte apenas teria como
recompensa uma permanente ansiedade no futuro, uma vez que a
sade e as foras tinham de ser sacrificadas  preservao
deste mero farrapo humano, Edgar s descansou e ficou mais
animado quando a soube livre de perigo. Passava horas seguidas
 cabeceira da mulher, acompanhando as suas melhoras fsicas e
acalentando esperanas ilusrias de que Catherine recuperasse
tambm mentalmente, para voltar a ser o
que era.
   A primeira vez que saiu do quarto, estvamos j no
principio de Maro. De manh, Mr. Linton havia colocado uma
mancheia de crocos dourados sobre o travesseiro. Os olhos de
Catherine, indiferentes a qualquer vislumbre de prazer,
brilharam deliciados quando, ao acordar, viram os crocos e
apressou-se a junt-los avidamente.
   -- So as primeiras flores do Alto! -- exclamou. --
Lembram-me a brisa suave e relaxante e o sol ameno e a neve
h pouco derretida. Diz-me, Edgar, o vento no sopra agora do
Sul e a neve no est quase derretida?
   -- A neve j derreteu toda, minha querida -- respondeu
Edgar. -- S consigo lobrigar duas manchas brancas em todo o
brejo. O cu  azul, as cotovias cantam e os arroios correm
cheios. Catherine, na Primavera passada, desejava ter-te
debaixo deste tecto. Agora, :, desejava que pudesses estar no
alto daqueles montes. A brisa sopra to doce que estou certo
de que ficarias curada.
   -- S l voltarei mais uma vez! -- disse a enferma. -- E
ser para sempre. Na prxima Primavera desejars de novo
ter-me debaixo deste tecto, e ento veras como hoje eras
feliz.
   Mr. Linton tratava-a com o maior carinho, tentando
anim-la, mas ela olhava indiferente para as flores, com as
lgrimas a correrem-lhe pelas faces, sem lhes prestar a
mnima ateno.
   Sabamos que estava bastante melhor e achmos, por isso,
que ver-se confinada ao quarto faria aumentar decerto o seu
desanimo, e que poderamos melhorar a situao se ela mudasse
de ambiente.
   Mr. Linton mandou-me acender a lareira e colocar uma
cadeira ao sol, perto da janela, na sala onde h muitas
semanas ningum entrava. Trouxe a senhora para baixo e
sentou-a, para desfrutar do calor do sol e da lareira. Como
era de prever, os objectos  sua volta deram-lhe novo alento.
Apesar de lhe serem familiares, no estavam associados a
lgubres recordaes como os do seu odiado quarto de enferma.
Ao pr do sol, via-se que estava exausta, mas no havia
argumentos que a convencessem a voltar para cima. Por
conseguinte, vi-me obrigada a fazer-lhe a cama no sof da
sala, at se lhe arranjar um outro quarto.
   Para lhe poupar a canseira de subir e descer as escadas,
preparmos este, onde o senhor est agora, no mesmo andar da
sala. Depressa Catherine se sentiu com foras suficientes para
se deslocar de um lado para o outro apoiada ao brao de
Edgar.
   Na minha opinio, a senhora tinha fortes hipteses de se
recuperar, e eu tudo fazia por isso. E tinha duas razes para
desejar que assim fosse, pois da sua vida dependia uma outra;
nutramos a esperana de que, dentro em breve, o corao de
Mr. Linton se alegrasse e de que as suas terras ficassem a


salvo das mos gananciosas de um estranho com o nascimento de
um herdeiro.
   Devo dizer-lhe que cerca de seis semanas aps a fuga,
Isabella enviou um bilhete ao irmo anunciando o seu casamento
com Heathcliff. Era um bilhete seco e frio, mas trazia ao
fundo, escritos a lpis, uma vaga desculpa e um pedido de
reconciliao, caso o seu procedimento o tivesse ofendido.
Assegurava que no pudera evitar fazer o que fizera e que
agora era tarde para voltar atrs.
   Julgo que Mr. Linton no respondeu a esse bilhete. Passados
quinze dias, recebi uma longa carta que achei estranho ter
sido escrita pela pena de uma recm-casada, e logo aps a
lua-de-mel. :, Vou ler-lha, pois ainda a tenho em meu poder.
As relquias dos mortos so para ns preciosas, se os
estimmos em vida.
_Querida Ellen:
   Cheguei ontem ao Alto dos Vendavais e ouvi dizer pela
primeira vez que a Catherine tem estado, e ainda est, muito
doente. Julgo que no lhe devo escrever, e o meu irmo ou est
muito zangado ou muito desgostoso para me responder. Mas eu
tinha de escrever a algum, e tu foste o meu ltimo recurso.
   Diz a Edgar que eu dava tudo para voltar a v-lo, e que o
meu corao regressou  Granja dos Tordos passadas vinte e
quatro horas da minha partida, e que a continua, cheio de
amor por ele e por Catherine!
   No entanto, *no posso fazer o que o meu corao manda*
(estas palavras esto sublinhadas). Escusam, portanto, de
esperar por mim e podem tirar as concluses que quiserem, mas
no julguem que  por falta de vontade ou de afecto.
   O resto da carta  dirigida apenas a ti. Quero fazer-te
duas perguntas. A primeira  a seguinte:
   Como conseguiste preservar os sentimentos prprios da
natureza humana enquanto aqui viveste? Eu no partilho
qualquer sentimento com os que aqui me rodeiam.
   A segunda pergunta interessa-me muito: diz-me, Heathcliff 
mesmo um ser humano? Se , deve ser um louco. Se no , deve
ser um demnio. No te vou dizer por que fao estas perguntas,
mas gostaria que me explicasses, se puderes, como  o homem
com quem casei. Fars isso quando vieres visitar-me. Por
favor, vem visitar-me o mais depressa possvel, Ellen. No
escrevas, vem visitar-me e traz notcias do Edgar!
   E, agora, contar-te-ei como fui recebida no meu novo lar,
isto , no Alto dos Vendavais. Quando me referir  falta de
comodidades, no quer dizer que isso seja o que mais me
preocupa. S me lembro delas quando sinto a sua falta.
Pularia de contente se fosse essa a causa de toda a minha
infelicidade, e tudo o mais no passasse de um sonho bizarro!
   O sol punha-se por detrs da Granja quando virmos em
direco ao brejo. Deviam ser umas seis horas. O meu
companheiro fez uma paragem de cerca de meia-hora para
inspeccionar :, o parque, os jardins e, provavelmente, a
prpria casa. Era, portanto, j de noite quando nos apemos
no ptio. O teu velho colega, o Joseph, veio ao nosso encontro
com uma vela de luz tnue. A cortesia com que me recebeu
confirmou a sua reputao O seu primeiro gesto foi colocar a
vela ao nvel do meu rosto, olhar-me com ar hostil, espetar o
lbio inferior em sinal de desdm e virar-me as costas.
   Depois, levou os dois cavalos para os estbulos. Em seguida
reapareceu a fim de fechar o porto, como que se estivesse


num castelo medieval.
   O Heathcliff ficou a falar com ele e eu entrei para a
cozinha, um buraco imundo e desarrumado. Aposto que no a
reconhecerias. Mudou imenso desde que deixou de ser cuidada
por ti.
    lareira estava um garoto de ar rufio, robusto e mal
vestido. A boca e os olhos pareciam-se imenso com os da
Catherine.
   Pensei que deveria ser o sobrinho de Edgar e, de certa
forma, meu tambm. Tive de o cumprimentar e, claro, dar-lhe um
beijo.  aconselhvel causar boa impresso logo de incio.
   Aproximei-me dele, tentei pegar-lhe na mo e perguntei:
    -- Como ests, meu querido?
   Devolveu-me a saudao com um palavro que no compreendi.
   -- Vamos ser amigos, Hareton? -- disse eu, tentando manter
conversa.
   Praguejou e ameaou aular o co contra mim se eu no me
*pusesse a andar*.
   -- Hey, Throttler! -- chamou o patifrio. E vindo de um
canto qualquer, surgiu um canzarro de aspecto feroz. -- E,
agora, giras ou no giras daqui p.ra fora? -- disse ele, num
tom de voz autoritrio.
   Condescendi por amor  pele. Tornei a sair e esperei que os
outros voltassem. Do Heathcliff nem sombra e o Joseph, a quem
segui at aos estbulos para lhe pedir que me acompanhasse,
olhou-me muito srio e resmungou: -- Qu. que vossemec
disse? Nunc.um cristo ouviu tal linguajar! Vossemec fala
como se tivesse a boca cheia de batatas quentes. Com.  que
quer qu.eu perceba?
   -- Estava eu a dizer que desejava que me acompanhasse at
l dentro! -- gritei, julgando que ele era surdo, e j
bastante ofendida com a sua falta de maneiras.
   -- Eu no! Tenho mais que fazer! -- respondeu enquanto :,
continuava os seus afazeres, andando com a lanterna para cima
e para baixo, de forma a examinar bem o meu vestido e a minha
aparncia (aquele bom demais e esta, sem dvida, to triste
como seria de esperar).
   Contornei o ptio, passei por uma cancela e dei com uma
outra porta,  qual tomei a liberdade de bater, na esperana
de encontrar algum criado mais civilizado.
   Aps um momento de ansiedade, surgiu  porta um homem alto
e esqueltico, sem lao ao pescoo e muito mal arranjado. As
suas feies escondiam-se por trs dos cabelos desgrenhados
que lhe chegavam aos ombros, e os olhos *dele* eram como
espectros dos de Catherine, com toda a sua beleza aniquilada.
   -- O que deseja daqui? -- perguntou com agressividade. --
Quem  a senhora?
   -- O meu nome *era* Isabella Linton -- respondi. -- O
senhor j me viu antes. Casei h pouco com Mr. HeatEcliff e
ele trouxe-me para c, julgo que com o seu consentimento.
   -- Ento j regressaram? -- perguntou o eremita, olhando-me
com olhos penetrantes, qual lobo esfomeado.
 -- Sim, acabmos de chegar -- respondi. -- Mas ele deixou-me
 porta da cozinha e, quando me preparava para entrar, o seu
filho ps-se de sentinela e afugentou-me com a ajuda de um
co.
   -- O maldito sempre cumpriu a promessa! -- rosnou o meu
futuro anfitrio, procurando o Heathcliff por trs de mim, na
escurido. Em seguida deu incio a um solilquio de
imprecaes e ameaas do que tencionava fazer se aquele
demnio o ludibriasse.


   Arrependi-me de ter batido  porta e estive quase a virar
costas antes de ele terminar as blasfmias. Contudo, e antes-
que eu o pudesse fazer, mandou-me entrar e fechou a porta,
trancando-a.
   Na sala ampla havia uma grande lareira, a nica fonte de
luz naquele compartimento. O cho era num tom cinzento
uniforme. Os pratos de estanho, outrora reluzentes e que me
chamavam a ateno quando eu era criana, partilhavam da mesma
obscuridade, todos cobertos de manchas e de
p.
   Perguntei se podia chamar uma criada que me conduzisse ao
quarto, mas Mr. Earnshaw no me respondeu. Ps-se a andar de
c para l, com as mos nos bolsos, e parecia ter esquecido a
minha presena. A sua abstraco era de tal modo profunda, e o
seu :, aspecto to misantropo, que eu tremia s de pensar em
importuna-lo de novo.
   Decerto no te admirars, Ellen, de eu me ter sentido to
infeliz ao ver-me sozinha num lugar to hostil. E pensar que a
quatro milhas estava a minha casa, com as nicas pessoas que
eu amo. Tanto fazia que a separar-nos estivesse o Atlntico ou
estas quatro milhas, pois no me era possvel transp-las!
   Perguntava a mim prpria onde poderia encontrar consolo
(no contes nada disto ao Edgar nem  Catherine) e, alm de
toda esta tristeza, havia ainda o desespero de no ter nenhum
aliado contra o Heathcliff!
   Foi quase contente que procurei abrigo no Alto dos
Vendavais, para no ter de viver sozinha com ele, mas ele
conhecia bem as pessoas que aqui vivem e no temia que elas
se intrometessem.
   Fiquei, pois, sentada sozinha, na companhia dos mais
lgubres pensamentos. O relgio bateu as oito e depois as
nove, e Mr. Earnshaw sempre a andar para trs e para a
frente, cabisbaixo e em silncio. S de quando em vez deixava
escapar um gemido ou uma exclamao
azeda.
   Pus-me  escuta, a ver se detectava alguma voz feminina
dentro daquela casa, enquanto preenchia o tempo com remorsos
amargos e previses sinistras que, por fim, se exprimiram em
lgrimas e soluos.
   S me apercebi de quo alto manifestava o meu sofrimento,
quando Mr. Earnshaw, interrompendo o seu vai-vem compassado,
parou  minha frente e me olhou com surpresa. Aproveitando a
ateno que me dispensava, exclamei: -- Estou exausta da
viagem e desejava deitar-me. Onde posso encontrar uma criada?
Vou procur-la, j que no aparece nenhuma!
   -- No temos criadas -- respondeu. -- Ter de se haver
sozinha!
   -- Ento, diga-me onde posso dormir! -- volvi, entre
soluos. O cansao e a angstia haviam-me feito perder toda a
dignidade.
   -- O Joseph vai lev-la ao quarto do Heathcliff -- disse
ele. --  Abra essa porta. Ele est l dentro.
   Quando me preparava para obedecer, Mr. Earnshaw agarrou-me
o brao bruscamente e acrescentou num tom sinistro: --
Recomendo-lhe que feche a porta  chave e corra as trancas.
No se esquea de o fazer!
   -- Est bem -- disse eu. -- Mas porqu, Mr. Earnshaw? --
No :, me agradava nada a ideia de me fechar deliberadamente
no quarto com o Heathcliff.
   -- Veja isto! -- respondeu, tirando do bolso uma pistola de
formato assaz singular, pois do cano saa uma navalha de


ponta e mola, de dois gumes. -- A tentao  grande demais
para um homem desesperado, no acha? No resisto a ir l acima
todas as noites ver se ele se esqueceu de fechar a porta. Se
isso acontecer,  um homem morto! Fao-o todas as noites; e
ainda que um minuto antes me ocorram mil razes para no o
fazer, tenho aqui no peito um demnio que me aconselha a
mat-lo. Hei-de lutar contra esse demnio enquanto puder, mas,
quando chegar a altura, nem todos os anjos do cu me
conseguiro deter!
   Examinei a arma pormenorizadamente e tive uma ideia
terrvel: como eu seria poderosa se possusse aquele
instrumento! Tirei-lho da mo e toquei na lmina. Ele estava
surpreendido com a expresso que detectou no meu rosto: no
de horror, mas de cobia. Pegou na pistola, cioso, fechou a
navalha e voltou a guard-la no bolso.
   -- No me importo que lhe v contar tudo -- disse ele. --
Ele que se ponha a pau, e a senhora trate de velar por ele.
Pelo que vejo, est a par do que se passa entre ns, pois o
perigo que ele corre no a choca.
   -- Que lhe fez o Heathcliff? -- indaguei. -- Que patifaria
lhe fez ele, para o odiar tanto? No seria melhor obrig-lo a
deixar esta casa?
   -- No! -- trovejou Earnshaw -- Ele que no pense em sair
daqui, ou ser um homem morto. Convena-o a faz-lo, e ser
uma assassina! Terei eu de ficar sem todos os meus bens, e sem
hiptese de os reaver? Ter o Hareton de ser um vagabundo?
Maldio! Hei-de reaver tudo o que  meu e ficarei tambm com
o seu ouro e depois o seu sangue. O diabo que lhe fique com a
alma! O inferno ser dez vezes mais tenebroso com tal hspede!
   Ellen, tu j me tinhas falado dos hbitos do teu antigo
patro. No h dvida de que est a ficar louco. Pelo menos,
ontem  noite, estava. Toda eu tremia s de estar ao p dele,
e achava que, apesar da grosseria do criado, a sua companhia
era bem mais agradvel.
   Earnshaw recomeou o seu vai-vem. Eu abri o ferrolho e
escapuli-me para a cozinha.
   Fui encontrar o Joseph debruado sobre o lume, a espreitar
para :, dentro de uma grande panela balouante. Ao lado,
pousada em cima de um banco, estava uma tigela de madeira
cheia de farinha de aveia. A panela comeou a ferver e o
Joseph voltou-se para meter a mo na tigela. Imaginei que
aquilo fosse a nossa refeio e, uma vez que estava cheia de
fome, decidi tornar a mistela comestvel.
   -- Eu fao as papas! -- propus de chofre, colocando a
tigela fora do alcance do Joseph. Tirei o chapu e a saia de
montar. -- Mr. Earnshaw disse-me para cuidar de mim mesma.
Pois  o que vou fazer. Se estou  espera de que me sirvam,
morrerei de fome -- prossegui.
   -- Deus do cu! -- murmurou ele, sentando-se e cofiando as
meias listradas que lhe chegavam aos joelhos. -- S.eu vou ter
d.andar s ordens duma *patroa*, agora que j estava
acostumado a dois patres, est na hora de me pr a andar
daqui p.ra fora. Nunca pensei ver o dia de abandonar este
buraco, mas vejo qu.esse dia no tarda!
   Sem fazer caso das suas lamrias, meti mo  obra,
suspirando ao relembrar o tempo em que aquilo era para mim uma
alegre brincadeira. Contudo, tentei afugentar o pensamento.
Recordar alegrias passadas afligia-me e, para afastar tais
pensamentos fazia girar cada vez mais depressa o colhero
enquanto lanava para a gua mancheias de farinha.
   O Joseph observava as minhas artes culinrias com crescente


indignao.
   -- Pronto! -- exclamou. -- Ai, Hareton, Hareton, esta noite
num podes comer as papas de to encaroadas qu.ho-de ficar.
Olhem-me s p.ra isto! J agora, por qu. que vossemec no
atira l p.ra dentro a tigela e tudo? Pimba, pimba.  milagre
o fundo .inda num ter cado.
   Devo confessar que as papas no tinham l muito bom aspecto
quando vazadas nos pratos. Enchemos quatro pratos e fomos
buscar um jarro de leite fresco  vacaria. O
Hareton assenhoreou-se logo do jarro e comeou a beber
sofregamente, deixando escorrer o leite pelo
queixo.
   Repreendi-o e disse-lhe que devia ter uma caneca s para
ele, pois no estava disposta a beber o leite depois de
conspurcado. Mas o cnico do velho mostrou-se indignado com
este meu preconceito de higiene e tratou de me dizer que o
catraio era to bom como eu e .inda mais saudvel. Depois
perguntou-me como  que eu podia ser to presunosa. :,
   Entretanto, o malvado do garoto continuou a sorver o leite,
olhando-me com ar de desafio e babando-se para dentro do
jarro.
   -- Vou comer para outro lado -- disse eu. -- No h nenhum
stio a que se possa chamar uma *sala de estar*?
   -- Uma *sala de estar*! -- arremedou-me o Joseph -- Uma
*sala de estar*! No, aqui num h *salas de estar*. Se num
lh.agrada a nossa companhia tem a do patro. E se num gosta da
do patro, tem de se contentar c.a nossa.
   -- Ento vou l para cima -- respondi. -- Leve-me a um
quarto qualquer. Pus o meu prato numa bandeja e fui eu prpria
buscar mais leite. Sempre a resmungar, o Joseph levantou-se e
subiu as escadas  minha frente. Subimos at ao ltimo andar.
De vez em quando, o Joseph abria uma porta e espreitava.
   -- C est um quarto! -- disse, por fim empurrando uma
velha porta desengonada. -- Serve muito bem p.ra vossemec
comer as papas. H um monte de gro j joeirado ali ao canto.
Se tiver medo de sujar as suas roupas de seda, abra um leno e
assente-se.
   *_O quarto* era uma espcie de arrecadao com um forte
cheiro a malte e cereais. Havia sacos empilhados a toda a
volta e um grande espao livre no meio.
   -- Deve estar louco! -- exclamei, olhando furibunda para o
velhaco do velho. -- Isto  l stio onde se durma! Leve-me
para um quarto decente.
   -- *_Um quarto decente* -- arremedou ele, trocista. --
Vossemec j viu todos os *quartos decentes* que temos. Olhe,
este aqui  o meu. -- E mostrou-me um outro compartimento que
s se diferenava do primeiro por ter as paredes mais nuas e
uma cama larga e baixa sem cortinas e com um cobertor azul aos
ps.
   -- Quero l saber do seu quarto? -- retorqui. -- Suponho
que Mr. Heathcliff no durma nas guas-furtadas, ou ser que
dorme?
   -- Ah!  o quarto do patro que vossemec quer? -- gritou
ele, como se tivesse feito uma descoberta. -- No podia ter
dito isso h mais tempo? J lhe teria dito qu.esse  o nico
quarto que num lhe posso mostrar porque est sempre fechado 
chave e s Mr. Heathcliff  que l entra.
 -- Que bela casa esta, Joseph! -- No pude deixar de
exclamar.  -- E que simpticos os seus ocupantes! Eu devia
estar doida varrida no dia em que me liguei a um deles. Mas
isso agora no interessa. Deve haver mais quartos. Por amor de


Deus, d-me um qualquer!
   Ele no respondeu  minha splica. Limitou-se a descer os
:, degraus de madeira e a parar  porta de um quarto que, pela
qualidade superior da moblia, devia ser o melhor da casa.
   Tinha no cho um tapete de boa qualidade, mas o desenho mal
se distinguia por baixo das camadas de poeira; havia tambm
uma lareira orlada com uma cercadura de papel recortado a cair
aos bocados, uma imponente cama de carvalho com amplas
cortinas carmesim de um tecido caro e modelo actual. Mas era
bvio que tinham tido muito uso, pois as sanefas pendiam em
festes, arrancadas das argolas, e o varo de ferro estava
descado para um dos lados, fazendo o tecido arrastar no cho.
As cadeiras estavam tambm muito mal tratadas e as paredes
apresentavam mossas profundas. Preparava-me j para entrar,
quando o palerma do meu guia anunciou: -- Este  o quarto do
patro.
   Nesta altura, a minha refeio tinha j arrefecido, o meu
apetite desaparecera e eu perdera a pacincia. Insisti para
que me mostrasse um lugar qualquer onde eu pudesse repousar.
   -- Deus nos acuda! -- resmungou o velho -- Onde diabo quer
qu.a meta? Sabe qu. muito maadora? J viu tudo menos o
cubculo do Hareton. Num h mais buraco nenhum nesta casa.
   Estava to enervada que atirei com o prato ao cho. Depois,
sentei-me no cimo das escadas, escondi a cara entre as mos e
desatei a chorar.
   -- Bonito servio! -- exclamou o Joseph -- C.ando o patro
vir esta loia quebrada vamos ouvir das boas! Que maldade a
sua! Devia fazer penitncia at  Natal por estragar as
ddivas de Deus Nosso Senhor c.os seus assomos de mau-gnio!
Mas, ou muito me engano, ou vossemec depressa h-de amansar!
Julga que Mr. Heathcliff lhe vai perdoar tais desmandos? S
queria qu.ele a apanhasse nisto... S queria...
   E, depois, foi-se embora para a cozinha, deixando-me na
escurido.
   O perodo de reflexo que se seguiu a esta cena patrica
levou-me a admitir a necessidade de dominar o meu orgulho e a
minha raiva e de fazer desaparecer todos os vestgios do meu
impensado acto de desespero. Uma ajuda inesperada apareceu-me
sob a forma de Throttler, que reconheci como sendo filho do
nosso velho Skulker. Fora criado na Granja e o meu pai
oferecera-o a Mr. Hindley. Creio que me reconheceu. Encostou o
focinho ao meu nariz para me cumprimentar e depois apressou-se
a comer a papa enquanto eu :, apanhava os cacos e limpava as
pingas de leite do corrimo com o meu leno.
   Mal tnhamos terminado a nossa tarefa, ouvi os passos de
Mr. Earnshaw. O meu ajudante meteu o rabo entre as pernas e
chegou-se para a parede. Eu escondi-me no quarto mais
prximo. Os esforos do co para passar despercebido foram
inteis, conforme depreendi pela sua corrida escada abaixo,
depois de umas ganidelas. Eu tive mais sorte. Earnshaw passou,
entrou no quarto dele e fechou a porta. Logo a seguir, o
Joseph subiu com o Hareton para o ir deitar. Eu tinha-me
refugiado no quarto do garoto e o velho, ao ver-me, disse: --
J h lugar p.ra si e p.ro seu orgulho l em baixo. A sala
est vazia. Fica toda p.ra si e p.ro seu orgulho, alm de Deus
Nosso Senhor, que ser o terceiro e muito mal s.h-de sentir
na sua companhia!
   Aceitei a sugesto toda contente. Atirei-me para cima de
uma cadeira perto da lareira e no tardei a adormecer. Foi um
sono profundo e tranquilo, mas de pouca dura. O Heathcliff
acordou-me. Acabara de entrar e perguntou-me com a j


costumeira delicadeza, o que fazia eu ali. Expliquei-lhe a
razo por que estava a p to tarde: ele tinha a chave do
nosso quarto no bolso. O possessivo nosso foi para ele uma
grave ofensa. Jurou que aquele quarto no era, nem nunca
seria, meu e que... No. No me atrevo a repetir as suas
palavras, nem a descrever o seu comportamento habitual. O
Heathcliff  incansvel a fazer crescer o dio que eu sinto
por ele. Por vezes assusta-me de tal maneira que me sufoca de
medo. Garanto-te que um tigre ou uma serpente venenosa no me
assustariam mais. Contou-me da doena
da Catherine e disse que a culpa era do meu irmo e que
se vingaria em mim enquanto no pudesse deitar-lhe a
mo.
   Como eu o odeio! Sou uma desgraada! Que tola que eu fui!
No contes nada disto na Granja. Espero-te a todo o momento.
No me desiludas!
Isabella
CAPTULO XIV
   Assim que acabei de ler esta carta, fui informar o patro
de que a irm chegara ao Alto dos Vendavais e me tinha escrito
uma carta dizendo o quanto lamentava o estado em que se
encontrava Mrs. Linton e que desejava muito v-lo; mostrava-se
ainda esperanada em que ele lhe enviasse por mim, o mais
depressa possvel, um sinal de perdo.
   -- Perdo?! exclamou Linton. -- No tenho nada a
perdoar-lhe, Ellen. Se quiseres, podes ir ainda esta tarde ao
Alto dos Vendavais e diz-lhe que no estou zangado, mas to s
triste por t-la perdido: acima de tudo, porque acho que ela
jamais ser feliz. Ir v-la est, porm, completamente fora de
questo, uma vez que estamos separados para sempre. E, se
quiser realmente fazer-me um favor, que tente persuadir o
patife com quem casou a deixar esta regio.
   -- E o senhor no quer ao menos escrever-lhe um bilhetinho?
-- perguntei, quase implorando.
   -- No. -- respondeu --  desnecessrio. O nosso contacto
com a famlia de Heathcliff dever ser to raro como o da
famlia dele com a minha. No deve existir sequer!
   A frieza de Mr. Edgar deprimiu-me por demais e, no caminho
da Granja para o Alto dos Vendavais, dei voltas  cabea para
descobrir uma maneira de, ao repetir o recado, pr mais
sentimento nas palavras dele e suavizar a sua recusa em
escrever algumas linhas para confortar a irm.
   Era capaz de jurar que estava  minha espera desde manh.
Vi-a espreitar por detrs da janela e acenei-lhe ao atravessar
o jardim, mas ela afastou-se como se receasse estar a ser
observada.
   Entrei sem bater  porta. Nunca tinha visto aquela sala,
outrora to alegre, to sinistra e to sombria! Confesso que,
se estivesse no :, lugar da jovem senhora, teria pelo menos
varrido o cho e espanado o p das mesas. Mas o esprito de
desleixo j se tinha apoderado dela. O seu lindo rosto estava
plido e tinha um ar de indiferena; as madeixas de cabelo
comprido e liso caam-lhe pela cara abaixo, mantendo-se outras
atabalhoadamente enroladas  volta da cabea. Provavelmente,
ainda no tinha mudado de roupa desde que chegara.
   Hindley no estava. Mr. Heathcliff, sentado a uma mesa,


folheava alguns papis. Quando cheguei, levantou-se e
perguntou-me como tinha passado, mostrando-se afvel e
oferecendo-me uma cadeira. Era o nico que tinha um ar
decente; julgo mesmo que nunca o vira com melhor aspecto. As
circunstncias haviam alterado tanto a situao, que um
estranho o tomaria a ele por um cavalheiro de nascimento e
educao e  mulher por uma desleixada. Isabella correu para
mim, para me cumprimentar, de mo estendida para receber a
desejada carta.
   Abanei a cabea negativamente, mas ela no percebeu e foi
atrs de mim at ao louceiro onde pousei a minha touca. E, num
sussurro, pediu-me que lhe desse o bilhete que trouxera.
Heathcliff, apercebendo-se do que se passava, disse: -- Nelly,
se trouxeste alguma coisa para Isabella, entrega-lha. No
precisam de fazer segredo. Entre ns no h segredos.
   -- Lamento, mas no trouxe nada! -- disse, pensando que
seria melhor dizer logo a verdade de uma vez por todas. O meu
patro ordenou-me que dissesse  irm que no esperasse da
parte dele qualquer carta ou visita. Minha senhora, o seu
irmo deseja-lhe as melhores felicidades e perdoa-lhe todo o
sofrimento que a senhora lhe causou, mas acha que, daqui em
diante, o melhor ser cortar as relaes entre as duas
famlias, pois nada de bom da advir se forem mantidas.
   O lbio de Mrs. Heathcliff tremeu ligeiramente e ela voltou
a sentar-se junto da janela. O marido encostou-se ao rebordo
da chamin, perto de mim, e comeou a interrogar-me a respeito
de Catherine. Contei-lhe o que achei que podia contar, factos
relacionados com a origem da sua doena, e culpei-a, como
merecia, por atrair a desgraa sobre si prpria; terminei,
dizendo que esperava que ele seguisse o- exemplo de Mr.
Linton, evitando da em diante futuras intromisses na famlia
dele.
   -- Mrs. Linton est a recuperar, mas nunca mais ser a
mesma. Contudo, a sua vida j no corre perigo. Se realmente
ainda tem :, algum respeito por ela, no ouse
atravessar-se-lhe no caminho Desaparea de vez das redondezas.
No tenha pena de partir. Desde j o aviso de que Catherine
Linton esta to diferente da sua amiga Catherine Earnshaw como
esta  diferente de mim. Se a sua aparncia mudou
radicalmente, mais ainda mudou o seu caracter. E aquele que
por fora da necessidade  seu companheiro s manter o seu
afecto por ela doravante em nome do que ela foi outrora, do
sentido de humanidade e do dever!
   --  possvel. -- Retorquiu Heathcliff, esforando-se por
parecer calmo.  possvel que o teu patro no sinta por ela
mais do que sentido de dever e humanidade; e acaso julgas que
vou deixar Catherine entregue ao sentido da humanidade e do
dever do marido? Achas possvel comparar o que eu sinto por
ela com o que ele sente? Antes de te ires embora desta casa,
preciso que me prometas que vais conseguir arranjar-me um
encontro com ela. Quer ela concorde, quer no, tenho de v-la!
Que dizes, Nelly?
   -- Eu digo que o senhor no deve fazer tal coisa, e muito
menos por meu intermdio. Outro encontro entre o senhor e o
meu patro poder ser fatal para a minha senhora!
   -- Com a tua ajuda, isso poder ser evitado prosseguiu. --
E, se isso acarretar algum perigo, se ele lhe causar mais
preocupaes, ento todos os meus actos extremos estaro
justificados. Quero que me digas, com toda a sinceridade, se
Catherine sofreria muito se o marido morresse. Este  o meu
nico receio e, por isso, me abstenho de qualquer acto: assim


se pode ver a diferena entre os nossos sentimentos. Se eu
estivesse no lugar dele e ele no meu, embora o odeie
profundamente, jamais levantaria um dedo que fosse contra esse
homem. Acredita, se quiseres! Eu nunca o teria banido da vida
dela, se isso fosse contra a sua vontade. No momento em que o
interesse dela acabasse, arrancar-lhe-ia o corao e
beber-lhe-ia o sangue. Mas, por ora... Se no acreditas em
mim  porque no me conheces. Porm, enquanto tal no
acontecer, prefiro morrer a tocar-lhe num s fio de cabelo que
seja!
   -- E, no entanto, -- interrompi-o -- no tem quaisquer
escrpulos em deitar por terra todas as nossas esperanas
numa completa recuperao da senhora, avivando-lhe
recordaes, agora que ela quase o esqueceu, reacendendo
angstias, discrdias e escndalos.
   -- Nelly, achas que a senhora me esqueceu mesmo?
--perguntou ele. -- Sabes bem que no! Sabes to bem como eu
que por cada :, minuto que ela perde a pensar no Linton, gasta
mil a pensar em mim!
   No perodo mais infeliz da minha vida, ou seja, no Vero
passado, tive a sensao de que ela me esquecera, temor que
me perseguiu desde que vim morar para aqui. Porm, somente a
sua confisso me faria admitir esta ideia hedionda. E, se
assim fosse, que importncia teriam Linton, Hindley e todos os
sonhos que constru? S duas palavras poderiam descrever o
meu futuro -- Morte e Inferno. A minha vida depois de a perder
seria um inferno. Todavia, cheguei a pensar que ela desse
mais valor  amizade de Edgar do que  minha. Que loucura! Nem
que ele a amasse com toda a fora da sua vil existncia, seria
capaz de a amar tanto em oitenta anos como eu num s dia.
Catherine tem um corao to profundo como o meu. Seria mais
fcil meter o mar dentro de uma selha, que toda a afeio dela
ser monopolizada por ele. O sentimento que ela nutre pelo
marido  pouco mais intenso que o que ela nutre pelo co ou
pelo cavalo. No faz parte da natureza dele ser amado, como eu
sou. Como pode Catherine amar o que esse homem no possui?
   -- Catherine e Edgar sentem um pelo outro o que qualquer
casal sente! gritou Isabella, inesperadamente. -- Ningum tem
o direito de falar assim do meu irmo, e muito menos na minha
presena, sem que eu me manifeste.
    -- O teu irmo tambm  muito teu amigo, no ? --
observou Heathcliff com desdm. -- Deixou-te sozinha no mundo
com surpreendente desenvoltura.
   -- Ele no sabe o quanto sofro respondeu ela. -- Nunca lho
disse.
   -- Mas deves ter-lhe dito alguma coisa, pois tens-lhe
escrito, no tens?
   -- Escrevi-lhe para lhe comunicar que tinha casado. Tu
viste o bilhete.
   -- E nunca mais lhe escreveste desde ento?
   -- No.
   -- A menina tem um ar mais triste desde que casou
--acrescentei. -- Desconfio que h aqui algum que no a ama
como devia. Claro que sei quem esse algum , mas talvez no
deva diz-lo.
   -- S pode ser ela prpria ripostou Heathcliff. Est a
tornar-se insuportvel! Depressa se cansou de me tentar
agradar. Podes no acreditar, mas na prpria noite de npcias
chorou para :, voltar para casa. Contudo, e no sendo
demasiado bonita, enquadra-se melhor nesta casa modesta, e
tomarei as providncias necessrias para que no me deixe


ficar mal, andando por a na vadiagem.
   -- Bem, o senhor lembre-se de que Mrs. Heathcliff est
habituada a ter criados e foi criada como filha nica, uma
menina a quem todos faziam as vontades. O senhor devia
arranjar-lhe uma criada para lhe manter as coisas arrumadas e
devia trat-la com delicadeza. Seja qual for a sua opinio
sobre Mr. Edgar, no pode por em dvida a capacidade da sua
esposa em alimentar sentimentos profundos. Caso contrrio, no
teria abandonado os amigos e o conforto da sua antiga casa
para se instalar consigo neste ermo de livre vontade.
   -- Abandonou tudo para ir atrs de uma iluso -- respondeu
ele. Fez de mim um heri romanesco, esperando condescendncia
ilimitada da minha devoo e cavalheirismo. No consigo
imagin-la como uma criatura racional, j que to
obstinadamente se agarrou a uma ideia fantasiosa do meu
caracter, agindo de acordo com as falsas imagens em que
acreditava. Mas penso que comea finalmente a conhecer-me. J
no lhe vislumbro os sorrisos idiotas e os trejeitos que, a
princpio, tanto me irritavam; nem a sua insensata
incapacidade para discernir sinceridade nas minhas palavras,
quando lhe dava a minha opinio sobre ela prpria e a sua
paixo doentia. Foi-lhe necessrio um rasgo de perspiccia
para descobrir que eu no a amava. A dada altura, cheguei a
acreditar que nada a faria entender isso; mesmo assim,
aprendeu mal a lio, pois esta manh informou-me, num rasgo
de inteligncia que, finalmente, eu tinha conseguido que ela
me odiasse! Um verdadeiro trabalho de Hrcules, podes crer! Se
conseguir isso, tenho de lhe agradecer. Posso confiar em ti,
Isabella? Tens a certeza de que me odeias? Se eu te deixasse
sozinha por meio dia, no voltarias para mim com suspiros e
lamentos? Bem sei que ela preferia que eu me mostrasse
afectuoso  tua frente; fere-lhe o orgulho ver a verdade assim
exposta. Mas eu no me importo que se saiba que a paixo no 
recproca, e nunca lhe ocultei a verdade. Ela no pode
acusar-me de simular uma falsa gentileza, pois a primeira
coisa que me viu fazer, quando me vim embora da Granja, foi
enforcar a sua cadelinha; e, quando me suplicou que no o
fizesse, as primeiras palavras que proferi foram que desejava
poder enforcar todos os membros da sua famlia, excepto um:
possivelmente, pensou que era ela a :, excepo. Todavia,
nenhuma brutalidade a impressionou. Suponho que possui uma
admirao inata pela brutalidade, desde que ela prpria se
sinta em segurana! No  o cmulo do absurdo e da estupidez
que esta criatura servil e mesquinha pudesse pensar que eu a
amava? Nelly, diz ao teu patro que eu nunca, em toda a minha
vida, conheci uma pessoa to abjecta quanto ela:  a vergonha
do bom nome da famlia Linton; e que, s vezes, s por pura
falta de imaginao, me abstenho de continuar as minhas
experincias para ver at que ponto ela  capaz de suportar
humilhaes e, no obstante, voltar para mim a rastejar com o
rabinho entre as pernas. Diz-lhe tambm que aquiete o seu
corao de irmo e de magistrado, pois eu manter-me-ei dentro
dos limites da lei. At ao momento, tenho evitado dar-lhe
qualquer pretexto para ela poder requerer a separao, e, alm
disso, ela no agradeceria a ningum que viesse separar-nos.
Se ela quiser partir  livre de o fazer. O incmodo da sua
presena  bem maior que o prazer de a poder atormentar!
   -- Mr. Heathcliff -- disse eu -- depois de tudo que me
disse, no posso crer que esteja no seu perfeito juzo, e a
sua esposa, provavelmente, est convencida de que o senhor
est louco. S por essa razo, tem ela suportado tudo


pacientemente; mas agora, que tem autorizao para se ir
embora, sem dvida alguma o far. A senhora no est assim to
enfeitiada ao ponto de ficar com este homem de livre vontade,
ou ser que est?
   -- Cuidado Ellen! respondeu Isabella com os olhos
cintilantes de raiva; pela expresso do seu rosto, no
restavam dvidas do total sucesso do marido em conseguir que
ela o odiasse. No acredites numa s palavra que ele diz. Ele
no  um ser humano.  uma criatura maquiavlica e mentirosa,
um autntico monstro. J me disseram que podia t-lo
deixado h mais tempo; cheguei a tentar, mas no me atrevo a
repetir a experincia! S te peo que me prometas, Ellen, que
no vais contar uma nica palavra desta conversa ao meu irmo
ou  Catherine. Por mais que ele queira esconder as suas
intenes, o que realmente deseja  levar Edgar ao desespero.
Diz que casou comigo s para ter poder sobre ele; mas no o
conseguir, nem que eu morra primeiro! S espero, e rezo, para
que ele descure a sua prudncia diablica e me mate! Os
nicos desejos que eu consigo albergar so morrer ou v-lo
morto!
   -- A est, j chega por agora! -- disse Heathcliff. -- Se
fores chamada a depor em tribunal, lembra-te das palavras
dela, Nelly! E repara bem na expresso do seu rosto.  a mais
adequada para o :, que me convm. No, Isabella, tu no ests
em condies de seres independente; e eu, sendo o teu tutor
legal, tenho de te manter sob a minha custdia, por mais
desagradvel que essa obrigao possa ser. Vai l para cima,
que eu tenho de falar em particular com a Ellen Dean. No 
para a.  l para cima, j te disse! Ento  esse o caminho
para o andar de cima?
   Agarrou-a e empurrou-a para fora da sala, posto o que
regressou a resmungar.
   -- No tenho um pingo de compaixo! No tenho um pingo de
compaixo! Quanto mais os vermes se enroscam, mais me apetece
esmag-los! Dir-se-ia uma dentio moral: quanto mais fora
fao a ranger os dentes, tanto maiores as dores que sinto.
   -- O senhor sabe o significado da palavra compaixo? --
perguntei-lhe, apressando-me a ir buscar a minha touca. --
Alguma vez na vida sentiu compaixo por algum?
   -- Pousa isso outra vez! -- atalhou ele, apercebendo-se da
minha inteno de partir. -- No te vs j embora, Nelly, anda
c. Tenho de persuadir-te a ajudar-me a mim e  Catherine o
mais rapidamente possvel. Juro que no tenho ms intenes.
No quero causar-lhe mais problemas, nem exasperar ou insultar
Mr. Linton. S quero ouvir da boca dela como se sente e por
que razo ficou enferma; e perguntar-lhe se lhe poderei ser
til em alguma coisa. A noite passada estive seis horas no
jardim da Granja. E esta noite vou voltar l. E todas as
noites seguintes, at conseguir entrar. Se me cruzar com o
Edgar Linton, no hesitarei em dar-lhe um murro com toda a
fora, de forma a que ele no me incomode enquanto eu l
estiver. E, se os criados oferecerem resistncia,
mostrar-lhes-ei esta pistola. Mas,
diz l, no seria prefervel evitar o confronto com os criados
e com o patro? Tu poderias consegui-lo facilmente!
Avisar-te-ei quando chegar e tu deixas-me entrar,  socapa,
assim que ela estiver sozinha, e ficas de sentinela at eu me
ir embora. Fica com a conscincia tranquila, pois assim
evitars muitos conflitos.
   Protestei, novamente, recusando desempenhar um papel de
traidora na casa do meu patro, alm de que estaria, com o


meu gesto, a alimentar a sua crueldade e egosmo, deixando-o
perturbar a tranquilidade de Mrs. Linton por mero capricho.
   -- At as coisas mais corriqueiras lhe causam angstia e
sofrimento disse eu. Ela est muito nervosa e tenho a certeza
de que no aguentaria a surpresa. No insista, Mr. Heathcliff!
Seno, :, ver-me-ei obrigada a alertar o meu patro quanto s
suas intenes. E ele tomar as devidas precaues para
proteger a casa e os que l moram de intruses no
autorizadas!
   -- Nesse caso, tomarei tambm as devidas providncias para
me proteger de ti! -- exclamou Heathcliff. -- No sairs daqui
at amanh de manh. A histria que me contaste 
completamente descabida. Com que ento, Catherine no
suportaria ver-me! Como no desejo surpreend-la, deves
prepar-la para o nosso encontro. Pergunta-lhe se posso ir
visit-la. Dizes que nunca menciona o meu nome e que ningum o
profere na sua presena. A quem deveria ela mencion-lo, se eu
sou assunto proibido naquela casa? Ela acha que so todos
espies do marido. E no tenho qualquer dvida de que todos
vs lhe fazeis a vida num inferno! Posso adivinhar pelo seu
silncio o que ela sente. Dizes que est muitas vezes inquieta
e ansiosa...  isso prova de tranquilidade? Falas-me do seu
esprito perturbado... E como raio querias que estivesse, se
vive num isolamento aterrador? E aquela criatura inspida e
mesquinha a tratar dela por dever e humanidade! Por compaixo
e caridade! Mais lhe valia plantar um carvalho num vaso de
flores e esperar que ele crescesse, que imaginar que lhe
podia restituir a vitalidade com os seus carinhos! -- Vamos
combinar tudo muito bem: ficas tu aqui e vou eu bater-me pela
minha Catherine contra Linton e os seus lacaios? Ou continuas
a ser minha amiga, como at agora, e fazes o que te peo? V
decide-te! No h motivo para eu perder nem mais um minuto, se
continuares a ser teimosa!
   Olhe, Mr. Lockwood, eu queixei-me, discuti e recusei
cinquenta vezes o que ele me pedia. Mas, depois de tanto me
negar, acabei por ceder. Comprometi-me a levar uma carta dele
 minha senhora e, se ela consentisse, prometi-lhe que o
avisaria da prxima ausncia de Mr. Linton e de quanto tempo
se demoraria ele por fora, para Heathcliff tentar entrar como
pudesse; Eu no estaria presente e os meus colegas estariam
igualmente fora do caminho. Estaria isto certo ou errado? Eu
temia que estivesse errado, mas era necessrio, pois com a
minha cumplicidade evitavam-se mais conflitos, e poderia
ainda contribuir para uma evoluo favorvel da doena mental
de Catherine. Lembrei-me, ento, da repreenso severa de Mr.
Edgar por eu lhe ter contado certas histrias, e tentei
afastar a inquietao, repetindo a mim mesma frequentemente
que seria esta a ltima vez que eu trairia a sua confiana. :,
   No obstante, o meu regresso foi mais triste do que a ida.
E hesitei muito antes de entregar a carta a Mrs. Linton.
   -- A vem o Dr. Kenneth, Mr. Lockwood. Vou mas  para baixo
dizer-lhe que o senhor melhorou bastante. A minha histria j
vai longa, como se costuma dizer, e o melhor  deixar o resto
para amanh.
   __Longa e triste! pensei eu, enquanto aquela boa alma
descia a escada para receber o mdico; no era exactamente o
tipo de histria que eu escolhesse para me distrair, mas no
importa! Extrairei remdios balsmicos das ervas amargas de
Mrs. Dean. Porm, tenho, antes de mais, de tomar cuidado com o
fascnio que espreita nos olhos cintilantes de Catherine


Heathcliff. Iria meter-me num lindo sarilho, se o meu corao
sucumbisse aos encantos dessa jovem senhora, e a filha se
revelasse a segunda edio da me!

CAPTULO XV
   Outra semana se passara... e eu cada dia mais perto da
sade e da Primavera! J ouvi inteirinha a histria da vida do
meu vizinho, contada em vrias sesses sempre que a governanta
fazia uma pausa noutros afazeres mais importantes. Continuarei
a contar a histria pelas suas prprias palavras, apenas um
pouco mais resumida. Ela  na verdade uma excelente narradora
e eu no sou capaz de melhorar o seu estilo.
   Nessa tarde -- recomeou ela -- na tarde do dia em que fui
ao Alto dos Vendavais, sabia, como se estivesse a v-lo, que
Mr. Heathcliff andava a rondar a casa. Por isso evitei sair,
pois tinha ainda em meu poder a carta que ele me incumbira de
entregar, e no queria ser ameaada de novo.
   Tinha decidido no a dar  senhora enquanto o meu patro
estivesse em casa, uma vez que no podia imaginar qual seria a
reaco dela. Por essa razo, a carta s foi entregue ao fim
de trs dias. O quarto dia era domingo, e s quando j toda a
famlia tinha sado para a missa subi ao quarto da senhora e
lhe entreguei a carta.
   Ficara apenas um criado a guardar a casa comigo e, durante
as horas da missa, era costume mantermos as portas trancadas.
Naquele dia, porm, o tempo estava to ameno e agradvel que
resolvi deix-las abertas para cumprir a minha promessa. E,
para afastar o outro servial, disse-lhe que a senhora
desejava comer laranjas e que era necessrio que ele desse um
salto  vila para as ir comprar e que eu no dia seguinte as
iria l pagar. Assim que ele saiu, subi as
escadas.
   Mrs. Linton estava, como de costume, sentada  janela.
Trazia um vestido branco a cair solto e, sobre os ombros, uma
pequena :, romeira. Quando cara  cama, tinham-lhe cortado
grande parte do cabelo espesso e longo e, agora, penteava-o
com simplicidade, com os caracis a cair soltos sobre as
tmporas e a nuca.
   A aparncia de Catherine, como eu dissera a Heathcliff,
tinha mudado bastante. Todavia, quando estava mais calma,
parecia que dessa mudana irradiava uma beleza sobrenatural.
   O brilho cintilante dos seus olhos dera lugar a um olhar
sonhador e melanclico que dava a impresso, no de fitar os
objectos  sua volta, mas de se fixar alm, muito mais alm,
quem sabe se fora deste mundo. Tambm a palidez do seu rosto,
se bem que j sem os traos escavados da magreza e com as
faces mais compostas, e a expresso prpria do seu estado
mentalmente conturbado, contribuam para acentuar o interesse
comovedor que a sua imagem suscitava, embora revelassem
dolorosamente as suas causas. Eu no tinha quaisquer dvidas,
e penso que qualquer outra pessoa que a visse as no teria, de
que o seu aspecto refutava qualquer prova tangvel de
convalescena e a condenava ao definhamento.
    sua frente, pousado no parapeito da janela, estava um
livro cujas folhas se agitavam  passagem da brisa que corria
quase imperceptvel. Creio ter sido Linton quem ali o deixara,
pois Catherine no se distraa com a leitura nem com qualquer


outra ocupao semelhante; era ele quem passava horas a fio
tentando cativar a sua ateno para assuntos que outrora a
interessavam. Ela tinha conscincia do esforo que ele fazia
e, quando a boa disposio lho permitia, suportava tudo com
serenidade, mostrando apenas a inutilidade de tais esforos
ao suspirar de vez em quando, desmotivando-o, por fim, com
beijos e melanclicos sorrisos. Outras vezes, voltava-lhe as
costas, petulante, e escondia o rosto entre as mos, chegando
mesmo a mand-lo embora. Ele apercebia-se ento de que melhor
seria deix-la sozinha, pois a sua presena de nada lhe valia.
   Os sinos da capela de Gimmerton repicavam ainda e os
murmrios suaves das guas da ribeira, correndo no vale,
chegavam-me aos ouvidos. Eram aprazveis substitutos dos
murmrios musicais da folhagem estival, ainda ausentes, que,
quando as rvores se cobriam de folhas, abafavam os restantes
sons que ecoavam pela Granja. Era a msica das tardes calmas
no Alto dos Vendavais, depois dos grandes degelos ou das
chuvas torrenciais. E era no Alto que Catherine pensava, se 
que pensava ou escutava alguma coisa; tinha aquele ar vago e
distante que no denunciava qualquer :, reconhecimento das
coisas materiais, fosse com os olhos ou com os ouvidos.
   -- Mrs. Linton, tenho uma carta para si -- disse eu --
metendo-lha gentilmente numa das mos, a que estava poisada
no regao. -- Deve l-la imediatamente, pois espera uma
resposta. A senhora deseja que quebre o selo?
   -- Quebra, sim respondeu ela sem desviar o olhar. Abri a
carta. Era muito breve.
   -- Agora, leia-a, por favor! -- insisti.
   -- Ela moveu a mo e deixou cair a carta. Coloquei-lha
novamente no regao e esperei que se dignasse olh-la, mas
demorou tanto a faz-lo que achei por bem insistir.
   -- A senhora quer que lha leia?  de Mr. Heathcliff.
   Ao ouvir este nome, Catherine estremeceu e o seu olhar
brilhante reflectia perturbantes recordaes, e um esforo
evidente para coordenar as ideias. Pegou na carta, percorreu
os olhos pelas esparsas linhas e, quando chegou  assinatura,
suspirou. Contudo, vi que no tinha compreendido o seu
verdadeiro significado, pois quando a instei a dar-me uma
resposta, limitou-se a apontar para o nome, ao mesmo tempo que
me questionava com o olhar triste e
ansioso.
   -- Sabe, ele deseja v-la -- disse eu, reparando na
necessidade de um intrprete. -- Neste momento, j deve estar
no jardim, impaciente,  espera de uma resposta.
   Enquanto falava, reparei que o enorme co deitado ao sol no
relvado arrebitou as orelhas como se fosse ladrar, mas logo
voltou a baix-las, suavemente, anunciando pelo abanar da
cauda que algum conhecido se aproximava.
   Mrs. Linton inclinou-se ligeiramente para a frente,
sustendo a respirao. Dai a instantes, ouvimos passos no
vestbulo. A porta aberta era tentao demasiada para
Heathcliff no entrar. Supusera talvez que eu tinha faltado 
minha palavra e, por essa razo, resolvera confiar na sua
prpria audcia.
   Catherine, no conseguindo conter a ansiedade, fixou o
olhar na porta do quarto. Mr. Heathcliff no encontrou logo o
quarto que procurava e Catherine fez-me sinal pra que o
ajudasse. Contudo, isso no foi necessrio, pois ele logo o
encontrou e, com duas passadas largas, chegou junto dela e
tomou-a nos braos.
   Durante mais de cinco minutos no falou nem afrouxou o


abrao, e atrevo-me a dizer que aproveitou esse tempo para lhe
dar mais :,
beijos do que jamais lhe dera em toda a sua vida. No entanto,
foi a minha patroa quem o beijou primeiro, e era evidente que
enfrentar o olhar dela era para ele uma agonia. Desde o
primeiro momento em que a viu, ficou convicto, tal como eu, de
que no havia qualquer esperana de recuperao e de que ela
estava condenada  morte.
   -- Oh! Cathy! Oh, minha vida! Como posso eu suportar esta
dor? foram as primeiras palavras que proferiu, num tom onde
no realava o desejo de mascarar o desespero.
   Os olhos dele fixavam-na com tanta intensidade que julguei
esse olhar capaz de lhe rasar os olhos de gua. Porm, as
lgrimas nem tempo tiveram para rolar, pois a angustia
secou-as primeiro.
   -- E agora? perguntou Catherine, recostando-se na cadeira e
retribuindo-lhe o olhar com um sbito endurecer da expresso.
O seu humor era como um cata-vento, sempre ao sabor dos
caprichos.
   -- Tu e o Edgar destroaram-me o corao, Heathcliff! E vm
agora lamentar-se ambos junto de mim, como se fossem as
vtimas! No terei compaixo de vs! No eu, a quem os dois
deram a morte. Penso que lucraste com a situao; olha como
estas forte! Quantos anos pensas ainda viver depois de eu
morrer?
   Heathcliff tinha posto um joelho em terra para a abraar,
mas, ao tentar levantar-se, ela agarrou-o pelos cabelos,
obrigando-o a manter-se na mesma posio.
   -- Gostava de poder abraar-te at morrermos os dois! --
prosseguiu ela, amargamente. -- No importa o que sofresses.
No me preocupo com os teus sofrimentos! Por que no hs-de tu
sofrer, se eu sofro tanto! Ser que me vais esquecer? E
ficares muito contente quando eu estiver debaixo da terra? E,
daqui a vinte anos, dirs junto  minha sepultura: -- Aqui jaz
a Catherine Earnshaw. Amei-a h muitos anos e perd-la
dilacerou-me o corao; mas tudo isso so coisas do passado.
Depois dela, j amei outras mulheres... os meus filhos so-me
mais caros do que ela foi, e, quando morrer, no me sentirei
feliz por ir para junto dela; muito pelo contrrio,
lamentar-me-ei por abandonar os meus: filhos. No ser assim
Heathcliff?
   -- No me tortures at eu ficar to louco como tu! --
gritou ele, libertando-se, e rangendo os dentes de raiva.
   Para um espectador imparcial, formavam os dois um quadro :,
bizarro e assustador. Catherine bem podia acreditar que o cu
seria a sua ptria de exlio, mas s se ao perder o corpo ela
perdesse tambm o caracter. O seu rosto empalidecido tinha
agora um ar selvagem e vingativo, com os lbios descorados e
os olhos cintilantes. Mantinha a mo fechada e, por entre os
dedos, espreitavam as madeixas de cabelo que ela lhe tinha
arrancado. Quanto ao companheiro, e enquanto se levantava com
a ajuda de uma mo, com a outra agarrava-a por um brao. A
falta de considerao pelo estado em que ela se encontrava era
tanta que, quando a largou, pude ver quatro marcas vermelhas
na sua pele esmaecida.
   -- Deves estar possuda pelo diabo continuou ele,
desvairadamente, -- para falares comigo nesse tom, atendendo
sobretudo a que ests  beira da morte! J pensaste bem que
todas essas palavras vo ficar gravadas na minha memria,
consumindo-me a alma eternamente depois de tu morreres? Sabes
que mentes quando afirmas que fui eu quem te levou a esse


estado deplorvel. E tu tambm sabes, Catherine, que enquanto
eu viver nunca te esquecerei! No ser suficiente para o teu
egosmo atroz saberes que, enquanto descansas em paz, eu
sofrerei os tormentos do inferno?
   -- No terei paz! gemeu Catherine, debilitada pela fraqueza
fsica, devida ao batimento acelerado e desigual do corao,
visvel e audvel neste acesso de exacerbada agitao.
   Enquanto o paroxismo durou, nada mais disse. Depois,
continuou, mais docilmente.
   -- Heathcliff, eu no te desejo os tormentos que passei. S
quero que nunca mais nos separemos, e, se algum Jia as minhas
palavras te angustiarem, lembra-te de que sentirei a mesma
angstia debaixo da terra. E, pelo que sentes por mim
perdoa-me, por favor! Chega-te perto de mim e ajoelha-te
outra vez! Tu nunca na tua vida me fizeste mal algum. Se algum
rancor ainda guardas, ser pior record-lo que s minhas
palavras speras! Vem, aproxima-te outra
vez.
   Heathcliff colocou-se atrs das costas da cadeira e
inclinou-se para ela, mas de maneira a que Catherine no
pudesse ver-lhe o rosto, plido de emoo. Ela voltou a cabea
para olhar para ele, mas ele no a deixou, afastando-se
bruscamente para junto da lareira,
onde permaneceu em silncio e de costas para ns
duas.
   O olhar de Mrs. Linton seguiu-o com desconfiana; cada
movimento despertava nela um novo sentimento. Aps uma pausa
e um :, prolongado olhar, Catherine prosseguiu, dirigindo-se
agora a mim, num tom de desapontamento e indignao.
   -- Vs, Nelly! Ele no tenta, nem por um momento, salvar-me
da sepultura!  assim que ele me ama! Mas no faz mal. Este
no  o Heathcliff que eu amo. A esse continuo a am-lo e
lev-lo-ei comigo. Esse faz parte da minha alma. E, acima de
tudo -- disse ela, pensativa -- o que me aflige mais  esta
priso. Estou cansada, cansada de estar aqui encarcerada. S
desejo fugir para esse mundo glorioso e no mais de l sair.
No quero v-lo turvado pelas lgrimas, nem desej-lo entre as
paredes de um corao dolorido, mas sim estar com ele, e nele,
na verdadeira acepo das palavras.
   -- Olha, Nelly, tu pensas que tens mais sorte que eu porque
tens sade e foras; e, por isso, tens pena de mim. Mas no
tenhas, pois em breve tudo mudar. Serei eu a ter pena de ti,
pois estarei incomparavelmente muito alm e muito acima de
todos vs. Admira-me que ele no queira estar junto de mim! --
e continuou a falar sozinha. Pensei que era isso que ele
queria. Heathcliff, meu querido, no fiques zangado, vem para
junto de mim!
   Num impulso, Catherine levantou-se, apoiando-se nos braos
da cadeira. Ele voltou-se para ela, em resposta a to resoluto
apelo, com o semblante toldado pelo desespero. Os olhos dela,
desmedidamente abertos e humedecidos pelas lgrimas,
lanaram-lhe, por fim, um olhar ameaador, e o seu peito arfou
em convulses. Nem um segundo eles se mantiveram afastados; de
tal sorte que mal pude observar o reencontro. Catherine deu um
salto e Heathcliff recebeu-a nos braos, enlaando-se os dois
num abrao do qual pensei que a minha senhora jamais se
libertaria com vida. De facto, aos meus olhos, ela parecia
inanimada.
   Ele deixou-se cair no sof mais prximo e, quando me
aproximei para me certificar de que Catherine no tinha
desmaiado, ele rosnava e espumava como um co raivoso,


apertando-a contra o peito, possudo pela avidez e pelo cime.
Senti que esta criatura no pertencia  minha espcie, pois
parecia no me compreender enquanto falava com ele. Por isso,
afastei-me, perplexa, abstendo-me de emitir qualquer opinio.
   Quando Catherine moveu a mo para agarrar o pescoo de
Heathcliff e encostar o seu rosto ao dele, sosseguei um pouco
mais. Entretanto, ele retribua o gesto dela com frenticas
carcias, dizendo furiosamente:
   -- Mostraste-me agora o quo cruel tens sido. Cruel e
falsa!  Por :, que me desprezaste, Cathy? Por que traste o
teu prprio corao? No tenho sequer uma palavra de conforto
para te dar. Tu mereces tudo aquilo por que ests a passar.
Mataste-te a ti prpria. Sim, podes beijar-me e chorar o
quanto quiseres. Arrancar-me beijos e lgrimas. Mas eles
queimar-te-o e sers amaldioada. Se me amavas, por que me
deixaste? Com que direito? Responde-me! Por causa da mera
inclinao que sentias pelo Linton? Pois no foi a misria,
nem a degradao; nem a morte, nem algo que Deus ou Satans
pudessem enviar, que nos separou. Foste tu, de livre vontade,
que o fizeste. No fui eu que te despedacei o corao, foste
tu prpria. E, ao despedaares o teu, despedaaste o meu
tambm. Tanto pior para mim, que sou forte e saudvel. Se eu
desejo continuar a viver? Que vida levarei quando... Oh! Meu
Deus! Gostarias tu de viver com a alma na sepultura?
   -- Deixa-me em paz! Deixa-me... -- suplicou Catherine, a
soluar. Se errei, vou morrer por isso! No achas o
suficiente? Tu tambm me abandonaste, mas eu no te censuro!
Eu perdoo-te. Perdoa-me tu tambm!
   -- No  fcil perdoar, olhar para esses olhos e agarrar
essas mos mirradas respondeu ele. Beija-me e no me deixes
ver os teus olhos! Perdoo-te o mal que me fizeste. Eu amo a
minha assassina. Mas... e  tua, como poderei perdoar-lhe?
   Quedaram-se os dois em silncio, com as faces encostadas,
lavadas pelas mesmas lgrimas. Creio que choravam ambos, pois
Heathcliff s em ocasies como esta choraria.
   Entretanto, a inquietao comeou a atormentar-me: a tarde
escoara-se num instante e o homem que eu havia mandado s
laranjas j tinha regressado e; j se avistava ao longe, 
luz do sol poente que iluminava todo o vale, a multido de
fiis no adro da capela de Gimmerton.
   -- A missa j terminou. -- Anunciei. -- O meu patro estar
de volta em menos de meia-hora.
   Heathcliff resmungou qualquer coisa, apertando contra o
peito uma Catherine, que continuava inerte.
   Pouco tempo depois, reparei num grupo de criados que vinha
estrada acima, a caminho da rea da cozinha. Mr. Linton j no
devia estar longe. Ele prprio abriu o porto e continuou
paulatinamente o seu percurso, como se a saborear aquela
tarde esplendorosa, to semelhante s de Vero.
   -- Ele j chegou! -- exclamei. -- Por amor de Deus, :,
apressem-se! Ainda pode ir-se embora sem se cruzar com
ningum nas escadas. Seja rpido, e deixe-se ficar escondido
entre as rvores at ele entrar.
   -- Tenho de ir, Cathy -- disse Heathcliff, tentando
libertar-se dos braos da companheira. -- Mas, se eu no
morrer, voltarei outra vez antes de tu adormeceres. No me
afastarei mais de cinco jardas da tua janela.
   -- No vs! -- pediu ela, agarrando-se a ele com a
convico que as suas dbeis foras permitiam. Tenho a certeza
de que no devias ir!
   -- E s por uma hora -- suplicou ele.


   -- Nem que fosse por um minuto!
   -- Tenho de ir, no tarda o Linton aparece c em cima
--insistiu o intruso, denunciando alguma preocupao. E
ter-se-ia levantado, se tivesse conseguido libertar-se dos
dedos que o prendiam. Mas Catherine agarrou-o ainda com mais
fora. Podia ver-se pela expresso do rosto dela que tinha
tomado uma deciso irracional.
   No! -- gritou ela. -- Oh! No vs, no vs! Esta  a
ltima vez! Edgar no nos far mal. Se fores, eu morrerei,
Heathcliff!
   -- Maldio! A vem ele! -- gritou Heathcliff, voltando a
sentar-se. -- No digas nada, Catherine, e no te preocupes,
que eu fico aqui contigo. E, se ele me matar, exalarei o
ltimo suspiro com uma beno nos lbios.
   Tornaram a abraar-se. Ouvi o patro subir as escadas.
Suores frios escorriam-me pela fronte; eu estava apavorada.
   O senhor vai dar ouvidos aos desvairos dela? -- perguntei,
indignada. -- Ela no sabe o que diz. Vai arruin-la, s
porque ela no tem capacidade para se ajudar a si prpria!
Levante-se! Ainda est a tempo de fugir. Este  o acto mais
diablico que o senhor cometeu em toda a sua vida. Estamos
todos perdidos... o senhor, a senhora e a criada.
   Eu contorcia as mos e gritava tanto que Mr. Linton estugou
o passo ao ouvir os meus gritos. No meio da minha agitao,
fiquei, apesar de tudo, mais tranquila, quando me apercebi de
que os braos e a cabea de Catherine pendiam inertes.
   Desmaiou ou morreu. Tanto melhor -- pensei. -- Antes morrer
que ser um fardo de infelicidade para quantos a rodeavam.
   Edgar atirou-se ao hspede indesejvel, lvido de raiva e
estupefaco. O que ele se preparava para fazer, isso eu no
sei. Contudo, :, o outro ps fim a quaisquer mpetos,
depondo-lhe nos braos o corpo aparentemente sem vida de
Catherine.
   -- Calma, homem! -- disse ele. -- A no ser que seja um
demnio, trate dela primeiro e depois ajuste contas comigo!
-- e retirou-se para a sala, onde se sentou.
   Mr. Linton chamou-me, e foi com grande dificuldade, e s
aps aturados esforos, que conseguimos reanim-la. Mas ela
delirava, gemia e suspirava, e no reconhecia ningum. Mr.
Edgar, preocupado com o estado dela, esqueceu-se do odiado
hspede. Mas eu no. Na primeira oportunidade, fui avis-lo de
que Catherine j estava melhor e supliquei-lhe que partisse,
prometendo-lhe que na manh seguinte o informaria de como ela
havia passado a noite.
   -- No me recuso a sair por aquela porta -- respondeu ele.
-- Mas no arredarei p do jardim; v l, Nelly, amanh no te
esqueas do que prometeste. Lembra-te de que estarei debaixo
daqueles abetos. Se no apareceres, far-lhe-ei outra visita,
quer o Linton l esteja, quer no.
   Lanou um olhar rpido  porta entreaberta, para se
certificar de que eu dissera a verdade, e livrou a casa da sua
presena nefasta.
CAPTULO XVI
   Naquela noite, por volta da meia-noite, nasceu a Catherine
que o senhor viu no Alto dos Vendavais: uma criaturinha dbil,
prematura de sete meses. E, duas horas mais tarde, a me
morria sem nunca ter recuperado a conscincia o suficiente
para conhecer Miss Heathcliff ou reconhecer Edgar.


   A reaco deste ltimo ao golpe. sofrido foi dolorosa
demais para descrever por palavras. S os efeitos mostraram
quo profunda era a sua dor. E, a meu ver, o que agravou ainda
mais o seu desgosto foi o facto de no ter nascido um herdeiro
varo. Assim que olhei para a frgil orfzinha senti o mesmo
e, em pensamento, censurei o velho Linton pelo que, afinal,
era apenas sintoma de um favoritismo natural e compreensvel:
ter legado a propriedade  sua prpria filha, e no 
descendente do seu filho.
   Pobre criana, que mal acolhida foi! Bem podia ter chorado
at morrer, durante aquelas primeiras horas de existncia, que
ningum se teria importado. Redimimo-nos posteriormente dessa
negligncia, mas a menina foi to mal amada no comeo da sua
vida como provavelmente o ser no fim dos seus dias.
   No dia seguinte, a claridade radiosa da manh, filtrada
pela persiana, invadiu docemente o quarto silencioso,
iluminando o leito e o seu ocupante, com um brilho terno e
jovial. Edgar Linton estava de cabea deitada na almofada e
olhos fechados. As suas feies belas e serenas estavam quase
to imveis e cadavricas como o corpo que jazia  sua frente.
Porm, enquanto a sua quietude era fruto da angstia e da
exausto, a dela era de uma paz absoluta, visvel na fronte
serena e no leve sorriso dos seus lbios. Nenhum anjo no Cu
era to belo como ela. Eu partilhava a infinita tranquilidade
do seu eterno repouso. Nunca o meu esprito experimentara
:,elevao to sagrada como agora, ao contemplar aquela imagem
imperturbada do Divino descanso. Instintivamente, vieram-me ao
pensamento as palavras que ela proferira poucas horas antes de
morrer:
   __Eu estou, incomparavelmente, muito alm e muito acima de
todos vs!. Ainda na terra, ou j no cu, o seu esprito est
com Deus!
   No sei se ser impresso minha, mas, desde que no tenha
de ouvir o pranto das carpideiras, quase me sinto feliz quando
estou a velar um morto. Sinto uma paz de esprito que nem
terra nem inferno podem perturbar; sinto a segurana e a
certeza de que a vida se prolonga sem fim e sem mcula para
alm da morte, at uma eternidade onde a vida no tem limites
para o amor nem para a alegria. E, foi mergulhada nestas
reflexes, que, ao ver como ele se lamentava da abenoada
libertao de Catherine, atentei em quanto egosmo pode haver
at num amor como o de Mr. Linton.
   Para dizer a verdade, poder-se-ia at duvidar, depois da
existncia atribulada que levara, se ela mereceria estar
finalmente em paz no paraso. Poder-se-ia duvidar em momentos
de fria reflexo, mas no naquela altura, e na presena do
cadver. A tranquilidade que dele emanava era uma promessa de
paz silenciosa para o seu antigo
ocupante.
   O senhor acredita que as pessoas sejam felizes no outro
mundo? Eu dava tudo para saber!
   Evitei responder  pergunta de Mrs. Dean, a qual me chocou
pela sua heterodoxia. Ela continuou: Recordando a vida de
Catherine Linton, receio que no tenhamos o direito de pensar
que ela o seja. Mas o Criador dir.
   O patro parecia ter adormecido e, mal o sol nasceu,
esgueirei-me do quarto para ir respirar o ar puro e fresco do
jardim. Os criados julgaram que me tinha vindo refazer da
viglia prolongada, mas na verdade o meu motivo era outro:
encontrar Mr. Heathcliff. Se ele tivesse passado a noite nos
abetos, no teria ouvido nada do tumulto que agitara a Granja,


a no ser, talvez, o galope do mensageiro que envimos a
Gimmerton. Mas, se ele se tivesse
aproximado, ter-se-ia apercebido de que alguma coisa se
passava pelas luzes que corriam de um lado para o outro e pelo
constante abrir e fechar de portas. Queria encontr-lo, mas
temia a sua reaco. Contudo, achei que uma notcia como esta
devia ser dada o mais depressa possvel e o problema era no
saber como. :,
   L estava ele, no parque, a curta distancia da casa,
encostado a um velho freixo, sem chapu, com o cabelo ensopado
pelo orvalho que se depositara nos ramos novos que a brisa
agitava  sua volta. Devia estar h muito
tempo na mesma posio, pois vi um casal de melros passeando
de um lado para o outro a escassas polegadas
dos seus ps, to atarefados na construo do seu ninho que
nem davam importncia  presena daquele homem; era como se
ele fosse apenas mais um tronco. Quando me aproximei, os
pssaros voaram e ele, erguendo os olhos, perguntou:
   -- Ela morreu, no morreu? No preciso que mo digas. E
guarda o leno, que no quero choraminguices  minha frente.
Raios vos partam a todos! Ela no precisa das vossas lgrimas!
   Eu chorava tanto por ele como por ela. Por vezes, sentimos
compaixo por criaturas que no tm pena de si nem dos outros.
Logo que olhei para o rosto dele, apercebi-me de que ia estava
ao corrente da catstrofe e tive a sensao inusitada de que o
seu corao se acalmara e ele estava a rezar, pois os seus
lbios moviam-se e o seus olhos estavam pregados no cho.
   -- Sim, est morta! -- respondi, sufocada pelos soluos e
enxugando as lgrimas.  -- Foi para o Cu, e tenho esperana
de que um dia, um por um, todos nos possamos ir para junto
dela, se nos acautelarmos e nos desviarmos do caminho do mal
para seguir o do bem!
   -- E ela soube acautelar-se? perguntou Heathcliff,
procurando ser sarcstico. -- Como morreu ela? Como uma santa,
no? V conta-me como tudo aconteceu. Como  que a...
   Esforou-se para pronunciar o nome dela, mas no foi capaz
e comprimiu os lbios num combate interior com a agonia,
desafiando ao mesmo tempo a minha compaixo com um olhar
feroz e resoluto.
   -- Como  que ela morreu? -- disse por fim, forado a
procurar apoio, pois, apesar de toda a sua resistncia, este
duelo interior deixara-o a tremer dos ps  cabea.
   -- Pobre diabo! -- pensei -- Tens corao e nervos como os
de toda a gente! Por que desejas tanto ocult-lo? No  esse
teu orgulho que vai iludir Deus! A reagir dessa maneira,
obriga-lo a fazer-te sofrer at que te saibas humilhar!
   -- Teve o fim sereno de um anjo! -- respondi. -- Exalou um
suspiro e espreguiou-se como uma criana que desperta e volta
a :, cair no sono. Cinco minutos mais tarde senti-lhe
estremecer o corao e nada mais!
   -- E alguma vez mencionou o meu nome? perguntou ele
hesitante, como se receasse que a resposta no fosse a que
desejava.
   -- A senhora nunca mais recuperou os sentidos, nem
reconheceu fosse quem fosse depois de o senhor se vir embora
disse eu. -- Jaz com um doce sorriso nos lbios e, certamente,
os seus ltimos pensamentos foram para os dias felizes do
passado. A sua vida acabou como um sonho sereno. Assim ela
possa despertar no outro mundo!
   -- Pois que desperte em tormento! -- bradou ele com
assustadora veemncia, batendo o p e soltando um grito, num


sbito paroxismo de clera incontrolada. -- Por que mentiu ela
at ao fim? Onde est ela? No est aqui, nem no Cu, nem
morta! Onde est ento? Oh! Disseste que no te importavas que
eu sofresse! Pois o que eu te digo agora, repeti-lo-ei at que
a minha lngua paralise:
   -- Catherine Earnshaw, enquanto eu viver no descansars em
paz! Disseste que te matei. Pois ento assombra-me a
existncia! Os assassinados costumam assombrar a vida dos seus
assassinos, e eu tenho a certeza de que os espritos andam
pela terra. Toma a forma que quiseres, mas vem para junto de
mim e enlouquece-me! No me deixes s, neste abismo onde no
te encontro! Oh! Meu Deus!  indescritvel a dor que sinto!
Como posso eu viver sem a minha
vida?! Como posso eu viver sem a minha alma?!
   Bateu com a cabea contra o tronco nodoso e, levantando os
olhos, bramiu, no como um ser humano, mas como um animal
selvagem aguilhoado de morte por lanas e por facas. Reparei
que a casca da rvore tinha alguns salpicos de sangue e que as
mos e a testa dele estavam tambm manchadas. Provavelmente, a
cena que eu presenciei fora a repetio de outras decorridas
durante a noite. No me comovi; estava, isso sim, apavorada,
mas ao mesmo tempo
relutante em abandon-lo naquele estado. Todavia, mal se
recomps o suficiente para dar pela minha presena, ordenou-me
aos berros que me fosse embora, e eu
obedeci. No estava ao meu alcance acalm-lo ou consol-lo!
   O funeral de Mrs. Linton foi marcado para a sexta-feira que
se seguiu ao seu passamento e o caixo permaneceu aberto at
esse dia chegar na maior sala da casa, coberto de flores e
folhas aromticas. Linton passou os dias e as noites junto 
urna, em permanente viglia. Nas mesmas circunstncias,
apenas conhecidas por mim, :, passou Heathcliff as noites ao
relento, desconhecendo o sabor do
repouso. No estive em contacto com ele, mas estava consciente
da sua inteno em entrar logo que fosse possvel. Na
tera-feira, mal o sol se ps, o meu patro, compelido pela
fadiga, retirou-se para repousar algumas horas. Comovida com a
perseverana de Heathcliff, abri uma das janelas para lhe dar
a oportunidade de dizer o seu
ltimo adeus  desvanecida imagem do seu dolo. Ele entrou,
cauteloso, sem fazer o mnimo rudo que pudesse denunciar a
sua presena e priv-lo desta breve e derradeira despedida. Na
verdade, nem eu prpria teria descoberto que ele l estivera,
no fora o rosto da defunta deixado a descoberto e a madeixa
loura amarrada ao fio de prata, a qual, aps minucioso exame,
tive a certeza de ter sido retirada de um medalho que
Catherine trazia ao pescoo. Heathcliff tinha-o aberto e
retirado a madeixa que l estava, substituindo-a por uma
madeixa dos seus cabelos negros. Entrelacei as duas e
fechei-as dentro do medalho.
    claro que Mr. Earnshaw foi convidado para acompanhar os
restos mortais da irm. Todavia, no compareceu, nem
apresentou qualquer desculpa. Assim, para alm do marido,
assistiram apenas ao funeral os caseiros e os criados, j que
Isabella no fora informada.
   Para surpresa das gentes de Gimmerton, a sepultura de
Catherine no ficava, nem junto  capela, no jazigo dos
Linton, nem junto s campas dos seus familiares. Catherine foi
enterrada numa encosta relvada no extremo do cemitrio, onde o
muro era to baixo que as urzes e as silvas da charneca
passaram para dentro, e cobriram a campa, misturando-se com a


relva. O marido jaz agora no mesmo local.  cabeceira de cada
um deles foi colocada uma simples lpide e, no extremo oposto,
um bloco de pedra cnzea, apenas para demarcar as sepulturas.

__Captulo XVII
   Aquela sexta-feira foi o ltimo dia de bom tempo desse ms.
Ao anoitecer, o tempo mudou: o vento comeou a soprar de sul
para nordeste e trouxe consigo a chuva e, depois, granizo e
neve.
   No dia seguinte dificilmente se diria que havamos tido
trs semanas de Vero: as buganvlias e os crocos vergavam-se
agora s ventanias de Inverno; calaram-se as cotovias,
amareleceram e caram as folhas das rvores tempors; fria,
soturna e sombria, a manh arrastava-se preguiosa! O meu
patro no saiu dos seus aposentos. Assenhoreei-me da sala
vazia e transformei-a num quarto de bebs. E ali estava eu,
sentada, com a beb chorona ao colo, embalando-a de um lado
para o outro e contemplando os flocos de neve que no paravam
de cair e se acumulavam no peitoril da janela sem cortinas,
quando a porta se abriu e algum entrou, a rir-se e ofegante.
   Por momentos a minha fria suplantou o meu espanto;
pensando que. fosse uma das criadas, gritei:
   Cala-te! Como te atreves a entrar aqui nesse despropsito?
Que diria Mr. Linton, se te ouvisse?
   -- Desculpa -- respondeu uma voz que eu bem conhecia. --
Mas sei que o Edgar j est recolhido e no me contive.
   Dizendo isto, a minha interlocutora aproximou-se do lume,
ofegante e com a mo fincada na cintura.
   -- Vim a correr desde o Alto dos Vendavais... -- prosseguiu
aps uma pausa -- sem contar com as vezes que tropecei e ca;
foram tantas que at lhes perdi a conta. Di-me o corpo todo!
Mas :,  no te assustes! Vais ter a explicao logo que eu ea
possa dar. Por agora, faz-me o favor te ir l fora mandar
preparar a carruagem para me levar a Gimmerton, e diz a uma
criada que me arrume algumas roupas.
   A intrusa era Mrs. Heathcliff. O seu estado no era para
risos: o cabelo caa-lhe sobre os ombros, desmanchado e a
pingar; trazia o mesmo vestido de rapariga, de sempre, mais
adequado  sua idade do que  sua condio de senhora casada;
era curto e de mangas igualmente curtas; na cabea e no
pescoo no trazia nada. O vestido era de seda leve e
colava-se-lhe ao corpo de to encharcado que estava. Nos ps,
apenas umas chinelas. Um golpe profundo por
baixo de uma orelha, que s o frio impedia de sangrar
profusamente, um rosto empalidecido, arranhado e ferido, e um
corpo que mal se aguentava de p devido ao cansao,
contribuam ainda para o seu aspecto lastimoso. Assim,  fcil
imaginar que o meu susto no tivesse passado por completo
quando tive a oportunidade de a examinar
melhor.
   -- Minha querida menina -- exclamei -- no ir a parte
alguma e no escutarei nada do que me disser antes de ter
trocado de roupa, e nem pense partir ainda esta noite para
Gimmerton. Por isso,  desnecessrio mandar preparar a
carruagem.
   -- Ai isso  que vou! disse ela. -- Nem que seja a p.
Quanto a mudar de roupa, no ponho objeco. Olha, v como o
sangue corre agora;  o calor do lume que o
atia!


   No deixou que lhe tocasse sem primeiro ter cumprido as
suas ordens: s depois de eu ter dado ao cocheiro as devidas
instrues e mandado a criada meter algumas peas de roupa
numa mala,  que me deixou tratar-lhe da ferida e ajud-la a
mudar de vestido.
   -- Agora, Ellen -- disse, quando terminei as minhas
incumbncias e ela j se encontrava sentada num cadeiro
junto  lareira com uma chvena de ch  sua frente -- leva a
filhinha da pobre Catherine l para dentro e vem sentar-te ao
p de mim; no gosto de a ver! No penses que por ter entrado
aqui a rir daquela maneira sou insensvel  morte dela. Eu
tambm chorei, e muito... Sim, mais do que ningum, eu tinha
motivos para chorar. Como deves estar lembrada, separmo-nos
sem nos termos reconciliado, e disso jamais me perdoarei. Mas,
seja como for, no vou ter pena dele... desse bruto! Chega-me
o atiador. Esta  a ltima coisa dele que trago comigo --
Tirou a aliana do dedo e arremessou-a ao cho. -- Hei-de
esmag-la prosseguiu, calcando-a com fria pueril -- e :,
depois queim-la! -- E, pegando na aliana toda amolgada,
atirou-a para a fogueira.
-- Pronto, j est! Agora, se me obrigar a voltar para ele,
tem de me comprar outra. Ele  bem capaz de vir procurar-me
aqui s para irritar o Edgar; no me atrevo a ficar c, no v
aquela mente perversa lembrar-se disso. Por outro lado, o
Edgar no tem sido simptico para comigo, pois no? No quero
pedir-lhe ajuda, nem causar-lhe mais aborrecimentos. Foi a
necessidade que me levou a procurar abrigo aqui em casa;
porm, se no soubesse que ele no estava aqui, teria entrado
apenas na cozinha para lavar a cara, aquecer-me um pouco,
pedir-te que me trouxesses o que precisava e, depois, partiria
imediatamente para bem longe do maldito do meu... desse
demnio incarnado! Ah, como ele estava furioso! Se me tivesse
apanhado...  uma pena que o Earnshaw no tenha a sua
corpulncia! Se assim fosse, eu no teria partido sem
primeiro ver Heathcliff derrotado. Ah! Tivesse o Hindley
fora para tal!
   Est muito bem, menina, mas no fale to depressa --atalhei
-- seno desfaz o n do leno que lhe amarrei ao pescoo e o
golpe volta a sangrar. Beba o seu ch, descanse um pouco e
veja se pra com essa risota. Infelizmente o riso  inoportuno
debaixo deste tecto, e, para mais, na sua situao.
   -- Ora ai est uma verdade inegvel! replicou. -- Ai aquela
criana que no pra de chorar; manda-a para onde eu no a
possa ouvir;  s por uma hora, no me demorarei mais do que
isso.
   -- Toquei a campainha e entreguei a menina aos cuidados de
uma criada; em seguida, perguntei a Miss Isabella o que a
tinha levado a fugir a toda a pressa do Alto dos Vendavais
naquela figura e para onde  que tencionava ir, j que se
recusava a ficar connosco.
   -- Quem me dera ficar aqui -- respondeu -- para consolar o
Edgar e cuidar da criana e tambm porque a Granja  a minha
verdadeira casa. Mas o Heathcliff jamais consentiria. Julgas
que ele ia suportar ver-me feliz? Que, sabendo-nos a levar uma
vida tranquila e regalada, no trataria logo de envenenar a
nossa alegria? Agora posso afirmar com toda a certeza que ele
me odeia ao ponto de no suportar sequer ouvir a minha voz;
quando estou na sua presena, bem vejo como os msculos do seu
rosto se contraem involuntariamente, tornando-lhe dura a
expresso; isto provem, por um lado, do facto de conhecer os
motivos que eu tenho para sentir o que sinto por ele e, por


outro, da sua averso natural por mim. O seu dio  to
intenso que estou certa de que no se poria a calcorrear a
Inglaterra  minha procura, se soubesse que eu tinha planeado
:,
fugir, por isso, devo escapar-me para o mais longe possvel.
J me recuperei do desejo inicial de morrer as suas mos;
agora preferia que fosse ele a morrer as suas prprias mos!
Acabou com todo o meu amor e, portanto, estou tranquila.
Todavia, ainda recordo como o amei, e penso que poderia am-lo
ainda, se... No, no, nem pensar! Mesmo que ele me tivesse
amado loucamente, a sua natureza diablica teria acabado por
se manifestar. A Catherine devia
ter os gostos prevertidos para o tratar com tanto carinho
depois de o conhecer to bem! Monstro! Se ao menos ele pudesse
ser apagado do rol dos vivos e da minha
memria!
   -- Ento, menina, ele  um ser humano como os outros
--disse eu. -- Seja mais benevolente; olhe que os h bem
piores!
   -- Ele no  humano -- retorquiu. -- Nem a minha piedade
ele merece. Entreguei-lhe o meu corao e ele apoderou-se
dele, destroou-o e, depois, devolveu-mo. As pessoas sentem
com o corao, Ellen, e, uma vez que ele destruiu o meu, no
posso sentir nada por ele; e no sentiria, nem que ele mo
suplicasse at  hora da morte ou chorasse lgrimas de sangue
pela Catherine! No, de maneira alguma! Neste momento,
Isabella comeou a chorar; mas logo enxugou as lgrimas e
prosseguiu:
   -- Perguntaste o que me levou a fugir desta maneira? Fui
obrigada a faz-lo porque consegui que a sua raiva
ultrapassasse a sua malvadez. Fazer-lhe explodir os nervos com
tenazes em brasa requer mais sangue-frio do que desferir-lhe
golpes na cabea. A sua fria foi tanta que se esqueceu da
habitual prudncia satnica de que tanto se vangloriava e
passou  violncia homicida. Senti um
prazer desmedido em p-lo completamente fora de si, e foi esse
mesmo prazer que acordou o meu instinto de auto-preservao,
libertando-me das suas garras. Se alguma vez eu voltar a cair
nelas, decerto se vingar de forma memorvel. Ontem, como
sabes, Mr. Earnshaw tinha de ir ao funeral e, como tal,
manteve-se sbrio... Enfim, razoavelmente sbrio; pelo menos,
no foi para a cama s
seis da manh, como de costume, a cair de bbado, nem se
levantou ao meio-dia ainda no mesmo estado. Resultado:
acordou com uma depresso suicida, to apropriada para a
igreja como para ir ao baile, e, em vez de ir ao enterro,
ficou sentado  lareira a encharcar-se em gin e aguardente. O
Heatheliff... estremeo s de pronunciar o seu nome... desde
domingo que  como se no vivesse l em casa; se tm sido os
anjos a aliment-lo ou o seu parente das profundezas, isso no
sei. S sei que j no tomava uma refeio :, connosco h
quase uma semana. Chegava de madrugada e ia directamente para
o quarto, a se trancando, como se algum pudesse cobiar a
sua companhia! E l se deixava ficar, a rezar como um
metodista; porm, a divindade que ele invocava no passava de
p e cinzas, e, quando se dirigia a Deus, confundia-o
curiosamente com o seu pai l dos Infernos. No fim das suas
preciosas preces, que duravam geralmente ate ficar rouco e com
a voz presa na garganta, voltava a sair e vinha direito 
Granja. Admira-me que o Edgar no tenha chamado um policia
para o levar preso! Quanto a mim, triste como estava com a


morte da Catherine, era-me impossvel no aproveitar a ocasio
para me libertar daquela opresso aviltante.
   -- Consegui recuperar o animo suficiente para suportar sem
lgrimas as interminveis arengas do Joseph, e para subir e
descer as escadas daquela casa sem cautelas de ladro, como
anteriormente. No penses que me punha a chorar com tudo o
que o Joseph me dissesse, mas ele e o Hareton so na verdade
uma companhia detestvel; antes ficar ao lado do Hindley a
ouvir os seus improprios do que com o _patrozinho e o seu
guardio, aquele velho horrendo! Quando o Heathcliff se
encontra em casa, sou muitas vezes obrigada a refugiar-me na
cozinha e a conviver com a criadagem para no morrer de frio
l em cima nos quartos hmidos e vazios; mas quando ele no
est, como aconteceu esta semana, coloco uma mesa e uma
cadeira a um canto da lareira e no me interessa saber como
Mr. Earnshaw passa o seu tempo, e ele, por sua vez, tambm no
interfere nas minhas ocupaes: se ningum o provocar, anda
at mais calmo do que antes, mais taciturno e deprimido e
menos irascvel. O Joseph diz que ele se converteu, que o
Senhor tocou o seu corao e o salvou do _fogo eterno. Eu
no consigo descortinar sinais dessa mudana to benfica, mas
isso tambm no me diz respeito. Ontem  noite deixei-me ficar
no meu canto a ler alguns livros velhos at cerca da
meia-noite; era desoladora a perspectiva de ir para cima com
toda aquela neve a rodopiar! l fora e o pensamento
a voar teimosamente para o cemitrio e para a sepultura ainda
fresca! Mal ousava levantar os olhos da pgina
que tinha  minha frente, to lgubres eram as imagens que se
haviam apoderado de mim. O Hindley estava sentado do outro
lado, com a cabea apoiada entre as mos, talvez a meditar no
mesmo; s tinha parado de beber quando j estava completamente
embriagado e assim se mantinha h duas ou trs horas, sem se
:,
mexer e sem falar. Dentro de casa o silncio era total,
cortado apenas pelos gemidos do vento que de vez em quando
fustigava as Janelas, O crepitar amortecido do lume e o
estalido do espevitador, quando eu de tempos a tempos retirava
o morro da vela. O Hareton e o Joseph j deviam ter
adormecido. Estava tudo to soturno que eu lia e suspirava ao
mesmo tempo, pois parecia que toda a alegria se tinha
extinguido da face da terra para sempre. Aquele silncio
arrepiante foi quebrado finalmente pelo barulho do ferrolho da
porta da cozinha: era o Heathcliff que regressava da sua ronda
mais cedo do que o costume, devido, suponho eu,  sbita
tempestade. Mas a porta estava trancada e ouvimo-lo, por isso,
dar a volta ao ptio para entrar pela outra. Levantei-me, sem
conseguir esconder a minha emoo, o que levou o meu
companheiro, que tinha estado a olhar para a porta, a olhar na
minha direco.
   --  __Vou deix-lo ficar l fora cinco minutos comunicou.
__No se importa, pois no?
   -- __Por mim, pode deix-lo l ficar a noite inteira!
respondi. __D a volta  chave e corra o ferrolho. E Mr.
Earnshaw assim fez, antes que o seu hspede alcanasse a porta
da frente; depois, veio para junto de mim e sentou-se numa
cadeira na outra extremidade da mesa onde eu estava,
deitando-se sobre o tampo e procurando encontrar nos meus
olhos um sinal de solidariedade para com o dio que ardia nos
seus; no a encontrou totalmente, j que havia algo de
homicida no seu dio, mas o que viu nos meus foi o
suficiente para se animar a dizer:


   __Tanto eu como a senhora temos contas a ajustar com
aquele homem, e, se nenhum de ns for cobarde, podemos
aliar-nos. Ou ser to fraca como o seu irmo? Quer
resignar-se a sofrer at ao fim, sem tentar ao menos pagar-lhe
na mesma moeda?
   -- __J me chega o que sofri at agora retorqui. __E bem
me agradaria uma retaliao que no recasse sobre mim. Mas a
traio e a violncia so uma faca de dois gumes: ferem mais
os que a elas recorrem do que os seus
inimigos.
   --  __Traio e violncia pagam-se com traio e
violncia! vociferou Hindley. __Peo-lhe somente uma coisa,
Mrs. Heathcliff: que se deixe ficar quieta e calada. Posso
contar consigo? Tenho a certeza de que sentir tanto prazer
como eu em presenciar o fim daquele demnio. Se no se lhe
antecipar, ele ser a *sua* morte... e a *minha* runa.
Maldito seja o patife! Repare... Bate  porta como se j fosse
o dono da casa! Prometa-me que se calar, e antes que o :,
relgio d as prximas badaladas... faltam s trs minutos
para a uma ... estar livre dele para sempre!
   -- Tirou do peito a arma de que te falei na minha carta, e
preparava-se para apagar a vela, mas eu consegui desvi-la,
ao mesmo tempo que lhe agarrava o brao.
   -- __No, no ficarei calada exclamei. _O senhor no lhe
tocar. Deixe a porta fechada e fique onde est.
   -- _No! A minha deciso est tomada e juro por Deus que a
porei em prtica -- bradou a criatura em desespero.
Prestar-lhe-ei um favor, mesmo contra a sua vontade, e farei
justia ao Hareton. E no precisa de se preocupar em
proteger-me; a Catherine morreu... J no resta ningum para
me chorar ou se envergonhar de mim mesmo que eu corte as
goelas neste instante. Est na hora de pr fim a tudo isto.
   -- Era como lutar com um urso ou argumentar com um louco. A
minha nica sada era correr para uma janela e avisar a vtima
da sorte que o esperava.
   -- _ melhor procurares abrigo noutro lugar por esta
noite! gritei-lhe, em tom triunfal. _Mr. Earnshaw est
decidido a dar-te um tiro se teimares em entrar.
   -- _Vai mas  abrir a porta, minha grande... vociferou o
Heathcliff, dirigindo-me palavras to _delicadas que nem me
atrevo a repeti-las.
   -- _No tenho nada com isso repliquei. _Entra e leva um
tiro, se  isso que queres! O meu dever est cumprido.
   -- Dito isto, fechei a janela e voltei para o meu lugar
junto  lareira. Como no sou hipcrita, no fingi ansiedade
perante o perigo que o ameaava. Earnshaw desatou a praguejar
encarniadamente, clamando que eu ainda amava aquele vilo, e
cobriu-me dos piores insultos pela minha manifesta falta de
dignidade. E eu, l no fundo, sem pesos na conscincia,
pensava em como seria bom para ele se o Heathcliff o livrasse
daquela existncia ignbil e como seria bom para mim se ele
despachasse o Heathcliff para onde ele merecia. Enquanto assim
cogitava, o caixilho da janela saltou com uma pancada seca e
caiu ao cho, e o rosto sinistro do Heathcliff assomou-se ao
buraco. Este, porm, era demasiado estreito para lhe dar
passagem; sorri, exultando de alegria por me sentir em
segurana Ele tinha o cabelo e a gola do casaco cobertos de
neve, e os seus dentes aguados de canibal, arreganhados pelo
frio e pela raiva, brilhavam na escurido. :,
   -- _Isabella, deixa-me entrar ou arrepender-te-s! rosnou
ele, como diz o Joseph.


   -- _No quero ser responsvel por um crime! respondi.
_Mr. Hindley est  tua espera com uma navalha e uma pistola
carregada.
   -- _Ento abre-me a porta da cozinha sugeriu.
   -- _O Hindley chega l antes de mim. Bem pouco amor  o
teu que no resiste a um nevo! Enquanto a lua brilhou durante
o Vero, deixaste-nos dormir sossegados, mas assim que chega o
Inverno, corres a procurar abrigo! Se eu estivesse no teu
lugar, Heathcliff, ia deitar-me sobre a campa dela, para a
morrer como um co fiel. O mundo certamente j no tem valor
para ti fizeste questo de deixares bem claro que a Catherine
era toda a tua alegria; nem sei como vais conseguir sobreviver
a sua perda...
   -- _Ele est a, no est? vociferou o meu companheiro,
precipitando-se para a abertura. _Se conseguir enfiar o
brao por esta nesga, sou capaz de o alcanar!
   -- Receio, Ellen, que me consideres cruel, mas tu no sabes
tudo, e, portanto, no me condenes. Longe de mim instigar ou
colaborar num atentado, mesmo que fosse contra a vida *dele*.
Desejar que morresse, isso eu desejei, e, por isso,
to descorooada fiquei, e aterrada tambm, pelas
consequncias do meu sarcasmo, quando o Heathcliff deitou a
mo  arma do Earnshaw e lha arrebatou. A pistola disparou-se
e a navalha, com o impacto, fechou-se sobre o punho do seu
detentor; Heathcliff puxou-a com violncia, dilacerando-lhe a
carne, e meteu-a no bolso ainda a pingar sangue. Em seguida,
pegou numa pedra, quebrou o que restava da janela e saltou
para dentro da sala. O seu adversrio cara inanimado com a
intensidade da dor: de uma artria, ou de uma veia grossa,
jorrava sangue em abundncia.
   -- O malvado espezinhou-o e bateu-lhe repetidamente com a
cabea contra as lajes, enquanto me agarrava com a mo livre,
para me impedir de ir chamar o Joseph.
   -- Deve ter feito um esforo sobre-humano para resistir 
tentao de o aniquilar por completo. Parou, por fim,
exausto, e arrastou o corpo aparentemente sem vida para cima
do banco.
   -- Rasgou ento a manga do casaco de Earnshaw e ligou-lhe a
ferida com tanta energia como a que anteriormente aplicara ao
espanc-lo.
   -- Sentindo-me liberta, no perdi tempo e fui  procura do
velho criado que, acabando por compreender o significado da
minha :, atabalhoada narrativa, se apressou a descer os
degraus dois a dois, em alvoroo.
   -- _Qu. que temos agora? Qu. que temos agora?
   _Temos que o teu patro est doido varado e, se chegar a
durar um ms, meto-o no manicmio! respondeu Heathcliff. _E
que ideia foi essa de trancares as portas enquanto eu andava
l por fora, meu co velho e desdentado? No fiques para a
especado a arengar; vem c, ou queres que seja eu a tratar
dele? Limpa esta sujeira toda, e cuidado com o morro da vela,
olha que o sangue dele, mais de metade  lcool.
   -- _Ento o senhor matou-o? exclamou o Joseph, erguendo
as mos e os olhos ao cu, horrorizado. _Se j se viu
semelhante coisa! Que o Senhor...
   -- O Heathcliff f-lo cair de joelhos com um empurro e
atirou-lhe uma toalha; mas o Joseph, em vez de limpar o cho,
ps-se de mos postas a rezar uma orao que me deu vontade de
rir pela sua estranha fraseologia. Eu estava to insensvel
que j nada me chocava; na verdade, aparentava a indiferena
de alguns malfeitores perante a forca.


   -- _Ah! J me esquecia de ti! disse o tirano. _Tu mesma
vais limpar as lajes. De joelhos! Conspiraste com ele contra
mim, no foi, vbora? Ora a tens um trabalhinho mesmo a
calhar para ti.
   -- Abanou-me com tanta fora que at os dentes me batiam
uns nos outros; depois, empurrou-me para junto do Joseph, que
concluiu imperturbvel as suas preces e, levantando-se,
declarou que iria sem demora  Granja. Mr. Linton era um
magistrado, e, nem que lhe tivessem morrido cinquenta esposas,
havia de averiguar o     sucedido. Era tal a sua obstinao,
que Heathcliff achou melhor fazer-me recapitular tim-tim por
tim-tim tudo o que ali se passara,
sem arredar p do meu lado e com o olhar to carregado de dio
que no pude recusar-me a faz-lo. No foi fcil convencer o
velho de que Heathcliff no tinha sido o agressor, tanto mais
que ele via como as explicaes me eram arrancadas quase 
fora. No entanto, Earnshaw no tardou a convenc-lo de que
ainda estava vivo; Joseph aprestou-se a ministrar-lhe uma boa
dose de aguardente e,
com isso, ele no tardou a recompor-se. Ciente de que Earoshaw
ignorava os maus tratos que recebera enquanto estava sem
sentidos, o Heathcliff insultou-o de bbado e de louco e
disse-lhe que estava preparado para esquecer to atroz
procedimento, mas que o :, aconselhava a ir para a cama. Para
grande alegria minha, o Heathcliff deixou-nos a ss aps to
judicioso conselho, e o Hindley foi estender-se sobre a pedra
da lareira. Eu subi para o meu quarto,
admirada por ter escapado to facilmente  fria do
Heathcliff.
   -- Esta manh, quando desci, por volta das onze e meia,
Mr.  Earnshaw encontrava-se sentado ao p do lume, mais morto
que vivo. O seu gnio do mal, quase to esvado e lvido como
ele, estava de p, encostado  esquina da chamin. Nenhum
deles parecia disposto a vir comer, pelo que eu, depois de
esperar at a comida     j estar fria, resolvi comear
sozinha. No havia nada que me tirasse o apetite e era at com
uma certa sensao de gozo e superioridade
que olhava para os meus companheiros uma vez por outra,
sentindo o conforto de uma conscincia tranquila. Assim que
terminei, tomei a rara liberdade de ir para junto da lareira,
passando por trs da cadeira de Earnshaw e ajoelhando-me ao
seu lado a um cantinho. O Heathcliff nem para mim olhou. Mas
eu, erguendo os olhos, fitei-o demoradamente, quase com tanto
-vontade como se ele se tivesse transformado numa esttua: a
sua fronte, que outrora me parecera to viril e se me
afigurava agora diablica, dir-se-ia
ensombrada por nuvens de tempestade; os seus olhos de
basilisco apresentavam-se mortios, das noites mal dormidas e,
quem sabe, talvez do pranto, pois tinha as pestanas
humedecidas; os seus lbios, sem o sarcasmo e a ferocidade
habituais, comprimiam-se numa expresso de indizvel tristeza.
Fora ele outro, e eu teria tapado os olhos perante tanto
sofrimento; mas, tratando-se de  Heathcliff, regozijei-me, e,
por mais vil que possa parecer humilhar um inimigo em
desvantagem, no podia perder a ocasio para o aferroar;
aquele seu momento de fraqueza era a nica oportunidade que eu
tinha para saborear o prazer de lhe pagar na mesma moeda todo
o sofrimento que me havia causado.
   -- A menina no tem vergonha? -- atalhei. -- At parece
que  nunca abriu uma Bblia na sua vida. No lhe chega que
seja Deus a castigar os seus inimigos?  presuno e malvadez


juntar as suas torturas s d._Ele.
   _     Concordo que geralmente assim seja, Ellen prosseguiu
ela. -- Mas que desgraa acontecida ao Heathcliff me poderia
satisfazer, se eu no tivesse contribudo para ela? At nem
me importava que ele sofresse *menos*, se fosse eu a
provocar-lhe o sofrimento e ele ficasse a *saber* que era eu a
sua causadora. Ah! Quantas ofensas tenho a devolver-lhe! S
com uma condio lhe poderia perdoar: :,
seria olho por olho, dente por dente; retribuir-lhe cada
momento de agonia, faz-lo descer at ao nvel em que me
encontro. E, como ele foi o primeiro a ofender-me, que fosse
ele tambm o primeiro a implorar o meu perdo; e depois bem,
depois, Ellen, talvez eu pudesse ento mostrar alguma
generosidade. , porm, absolutamente impossvel que algum
dia possa sentir-me vingada, e, assim sendo, no posso
perdoar-lhe. Ento, o Hindley pediu gua e eu fui buscar-lhe
um copo e perguntei-lhe como se sentia.
   -- _No to mal quanto desejava respondeu. _Mesmo sem
falar no brao, sinto o corpo todo dorido, como se tivesse
enfrentado uma legio de demnios.
   -- _No  para admirar... observei. _A Catherine
costumava dizer que era ela quem zelava pela sua integridade
fsica: queria ela dizer que certas pessoas, receando
ofend-la, no o agrediam a si. Graas a Deus que os mortos
no se levantam das sepulturas, seno ontem  noite ela teria
presenciado uma cena deveras humilhante.
O senhor, por acaso, no tem o peito e os ombros cheios de
ndoas negras?
   -- _No sei. Mas por que pergunta? Ter-se-ia ele atrevido
a bater-me enquanto eu estava sem sentidos?
   -- _Espezinhou-o, deu-lhe pontaps e bateu-lhe com a
cabea no cho segredei-lhe eu. _At estava com gua na
boca, tal era a vontade de o despedaar com os dentes, porque
s uma metade dele  que  humana, ou talvez nem tanto.
   -- Earnshaw ergueu os olhos, tal como eu, para o rosto do
nosso inimigo, que parecia alheado de tudo o que o rodeava e
absorto na sua angstia, um rosto que reflectia cada vez mais
a negrura que lhe ia na alma.
   -- _Oh, concedesse-me Deus, ainda que somente na hora
derradeira, a fora suficiente para o estrangular, e iria com
todo o gosto para o inferno! gemeu, impaciente,
contorcendo-se e tentando levantar-se, mas caindo de novo para
trs, desesperado e convencido da sua impotncia.
   -- _No, j chega que ele tenha sido a causa da morte de
um dos nossos disse eu, falando bem alto. _Na Granja todos
sabem que, se no fosse ele, a sua irm ainda estaria viva.
Portanto,  prefervel ser-se odiado por ele a ser-se amado.
Quando me lembro de como ramos felizes, de como a Catherine
era alegre antes da sua chegada, no posso deixar de
amaldioar esse dia.
   -- Provavelmente, o Heathcliff atentou mais na veracidade
do :, que era dito do que nas razes de quem o dizia. Reparei
que lhe tnhamos despertado a ateno, pois as lgrimas
rolavam-lhe dos olhos para as cinzas e a, respirao era
entrecortada por sufocantes suspiros. Olhei-o nos olhos e
desatei a rir, trocista; as frestas enevoadas do inferno
relampejaram por um instante, mas o demnio que geralmente
pulava c para fora estava to abatido que no receei
lanar-lhe outra gargalhada de escrnio.
   -- _Levanta-te e desaparece da minha vista ordenou, das
profundezas do desgosto, ou pelo menos foi isso o que eu


entendi, pois falou num tom de voz quase imperceptvel.
   _Como!? retorqui. _Eu tambm gostava muito da Catherine
e o irmo dela precisa de assistncia, que eu, por respeito 
sua memria, lhe concederei. Agora, que est morta, parece que
a revejo em Hindley; os seus olhos so iguais aos dela, olhos
que tu tentaste arrancar, pisando-os e ensanguentando-os. E a
sua...
   -- _Levanta-te, miservel, antes que eu te calque aos
ps! bradou, esboando um movimento ameaador que mereceu
outro da minha parte.
   -- _Mas ento continuei eu, j a postos para fugir, se a
pobre Catherine tivesse confiado em ti e adoptado o nome
ridculo, desprezvel e degradante de Mrs. Heathcliff, no
teria tardado a descer ao estado em que o irmo se encontra
agora. Mas ela no teria suportado em silncio o teu
comportamento abominvel e teria dado voz ao dio e 
repulsa.
   -- O espaldar do banco e o prprio Earnshaw interpunham-se
entre mim e o Heathcliff, pelo que ele, em vez de tentar
agarrar-me, empunhou uma faca que estava em cima da mesa e
arremessou-a contra mim. A faca espetou-se-me mesmo por baixo
da orelha, cortando-me a palavra. Arranquei-a e corri para a
porta, lanando-lhe
 cara uma outra frase que espero o tenha ferido mais fundo do
que o seu projctil.
   -- A ltima coisa de que me apercebi foi da sua arremetida
furiosa, sustida pelo peito do seu anfitrio, e de rolarem os
dois para cima da lareira.
   -- Ao fugir pela cozinha, gritei ao Joseph que corresse a
acudir ao patro, depois, esbarrei com o Hareton, que estava a
brincar na soleira da porta com uma ninhada de cachorrinhos,
tentando encavalit-los nas costas de uma cadeira, e,
finalmente, como uma alma liberta do purgatrio, corri, saltei
e voei pela encosta abaixo. :, Depois, cansada de tanto
serpentear, meti a direito pelo brejo em direco  luz que
brilhava na Granja. Antes ser condenada s penas do Inferno do
que passar mais uma noite que fosse sob aquele tecto, no Alto
dos Vendavais.
   Isabella calou-se e bebeu um golinho de ch. Em seguida,
ps-se de p, pediu-me que a ajudasse a pr a touca e um
grande xaile que eu lhe tinha trazido e, fazendo orelhas
moucas aos meus pedidos insistentes para que se deixasse
ficar por mais uma hora, trepou a uma cadeira, beijou os
retratos de Edgar e de Catherine, honrou-me com idntica
despedida e dirigiu-se para a carruagem, acompanhada pela
Fanny, que no parava de ladrar de satisfao por haver
reencontrado a sua dona. E abalou para no mais voltar. No
entanto, quando as coisas se acalmaram, ela e o meu patro
passaram a corresponder-se com regularidade.
   Creio que se instalou no Sul, perto de Londres. A deu 
luz um filho, poucos meses depois da sua fuga, que foi
baptizado com o nome de Linton e que, desde o inicio, segundo
dizia a me, se revelou uma criana achacada e rabugenta.
   Um dia encontrei Mr. Heathcliff na vila e ele perguntou-me
onde  que ela vivia. Como me recusasse a responder-lhe,
contraps que isso no lhe interessava, mas ela que se
livrasse de vir ter com o irmo. No era com o irmo que ela
devia viver, mas sim com ele.
   Embora eu no lhe tenha dado qualquer informao, o certo 
que acabou por descobrir atravs de algum criado tanto o seu
paradeiro como a existncia da criana. Contudo, no a


importunou, graas, suponho eu, ao dio que lhe votava.
   Pedia notcias do filho sempre que me encontrava e, quando
sonhe que nome lhe haviam dado, comentou com um sorriso
sinistro:
   -- Querem que tambm o odeie, no ?
   -- Acho que o que querem  que o deixe em paz -- respondi.
   -- T-lo-ei quando me aprouver, podem ter a certeza!
--ripostou Heathcliff.
   Felizmente, a me faleceu antes de isso acontecer, cerca de
treze anos aps a morte de Catherine, quando o pequeno Linton
tinha doze anos ou talvez um pouco mais.
   No dia seguinte ao da inesperada visita de Isabella, no
tive oportunidade de falar com o meu patro: esquivava-se a
qualquer conversa e no estava em condies de discutir fosse
o que fosse. Quando, finalmente, consegui que me prestasse
ateno, notei que :, estava satisfeito pela irm ter
abandonado o marido, a quem ele odiava com uma intensidade que
no se julgaria possvel numa natureza to branda como a sua.
To profunda e visceral era essa averso, que evitava
frequentar quaisquer lugares onde pudesse ver, ou ouvir falar
de Heathcliff. O seu desgosto, aliado a este
impedimento, fez dele um perfeito eremita: abdicou das suas
funes de magistrado, deixou at de ir  igreja, evitava o
mais possvel ir  vila e passou a levar uma existncia de
completa recluso entre os muros da sua propriedade. S saa
para dar passeios solitrios pelos campos e para ir visitar a
sepultura da mulher, quase sempre ao cair da noite ou logo ao
raiar da aurora, para no ter de se cruzar com ningum. Mas
ele era bom demais para ser completamente infeliz por muito
tempo. *_Este*, pelo menos, no pedira que a alma de Catherine
o perseguisse o tempo trouxe-lhe a resignao e uma melancolia
mais doce ainda que a alegria. Recordava-a
com um amor terno e ardente, ansiando esperanado pelo momento
de partir para um mundo melhor onde ela sem dvida se
encontrava.
   Alm disso, tinha tambm afeies e consolaes terrenas.
Durante uns dias pouca ateno prestou  pequenina sucessora
da falecida, mas essa frieza derreteu-se como neve em Abril e,
antes mesmo de a criaturinha dar os primeiros passos ou
balbuciar as primeiras palavras, j ela lhe subjugara o
corao com o ceptro do despotismo.
   Chamava-se Catherine, mas ele nunca a tratava pelo nome
completo, tal como nunca havia abreviado o nome da primeira
Catherine, talvez porque Heathcliff tivesse por hbito
faz-lo. Para ele a menina era a Cathy, o que a distinguia da
me ao mesmo tempo que   a associava a ela. O seu amor pela
criana provinha mais dessa ligao que dos laos de sangue
que os uniam.
   Eu costumava compar-lo a Hindley Earnshaw, mas tinha
dificuldade em explicar por que motivo os comportamentos de um
e de outro eram to diferentes em circunstncias to
parecidas. Ambos haviam sido maridos extremosos e eram ambos
dedicados aos filhos. Por isso, no percebia por que no
haviam trilhado um caminho semelhante, fosse ele o do bem ou o
do mal. Hindley, aparentemente o de caracter mais forte,
revelou-se infelizmente o mais degenerado e o mais fraco:
quando o barco encalhou, o capito abandonou o seu posto e a
tripulao, em vez de tentar salvar o infortunado barco,
amotinou-se, gorando quaisquer esperanas de :,
recuperao. Linton, pelo contrrio, mostrou toda a coragem de
a    uma alma com f: acreditou em Deus e Deus confortou-o. Um


e    esperou e o outro desesperou. Cada um escolheu o seu
destino, e condenado a cumpri-lo at ao
fim.
   Mas o senhor, Mr. Loekwood, no h-de querer ficar para
aqui a ouvir-me moralizar. O senhor pode julgar por si, to
bem quanto eu, ou pelo menos acreditar que o faz, o que  a
mesma coisa. A sorte de Earnshaw foi a que era de prever. Em
menos de seis meses foi juntar-se  irm. Na Granja nunca se
soube ao certo qual era o seu estado; tudo o que se soube foi
o que me contaram quando fui chamada para ajudar aos
preparativos do funeral. Foi o Dr. Kenneth quem veio trazer a
notcia ao meu patro.
   -- Ouve, Nelly -- disse ele, entrando a cavalo pelo ptio
dentro certa manh, cedo demais para que eu no adivinhasse
logo ms notcias -- chegou a nossa vez de chorar. Sabes quem
nos deixou agora?
   -- Quem? -- perguntei alvoroada.
   -- V se adivinhas! -- retorquiu, apeando-se do cavalo e
prendendo as rdeas na argola junto  porta. Podes ir pegando
na ponta do avental, pois vais precisar...
   -- Certamente no foi Mr. Heathcliff!? exclamei.
   -- O qu! E tu verterias lgrimas por ele? -- admirou-se o
mdico. -- No, no foi ele. Esse  um jovem vigoroso, vende
sade. Ainda h pouco o vi; acho-o at mais gordo desde que a
cara-metade o deixou.
   -- Quem foi ento, senhor doutor? -- insisti, impaciente.
   -- Foi Hindley Earnshaw, o teu amigo de infncia
--respondeu -- e meu amigo ntimo, se bem que ultimamente
levasse uma vida desregrada demais para o meu gosto. Ora vs?
No te dizia que havias de chorar? Mas consola-te, morreu sem
atraioar a sua natureza: bbado como um lorde. Pobre rapaz!
Tambm me faz pena. Um velho amigo deixa sempre saudades,
mesmo quando era capaz das piores intrujices que se possa
imaginar. E a mim pregou-me bastantes. Parece que andava pelos
vinte e sete anos; a tua idade, Nelly. Quem diria que tu e ele
nasceram no mesmo ano!
   Devo confessar que este golpe foi mais duro do que o choque
causado pela morte de Mrs. Linton. Assaltaram-me velhas
recordaes. Sentei-me a chorar na soleira da porta, como se
da morte de um parente se tratasse, e pedi ao mdico que
chamasse outro criado para o levar  presena do patro. :,
   No conseguia deixar de me pr a seguinte questo: teria a
morte sido natural? Por mais que fizesse, esta ideia no me
saa da cabea; e era de tal modo persistente, que resolvi
pedir licena para ir ao Alto dos Vendavais prestar as ltimas
homenagens ao defunto. Mr. Linton mostrou-se relutante, mas eu
evoquei com eloquncia o abandono a que Mr. Earnshaw devia
estar votado e afirmei que o  meu ex-patro e meu irmo de
leite tinha tanto direito aos meus ser
vios como ele prprio. Alm disso, lembrei-lhe que o filho de
Hindley, o pequeno Hareton, era sobrinho da sua falecida
mulher, e que, na ausncia de parentes mais prximos, era ele
quem deveria cri-lo; deveria tambm, ou melhor, *tinha de*
averiguar tambm em que situao se encontrava a propriedade e
tomar conta dos negcios do cunhado. No se encontrando em
condies de tratar de todos estes assuntos naquela altura,
Mr. Linton encarregou-me de ir falar com o tabelio e acabou
por me deixar partir. Este tabelio era o mesmo de Earnshaw:
fui  vila e pedi-lhe que me acompanhasse. Mas ele abanou a
cabea e aconselhou-me a que deixasse Heathcliff em paz, pois
se se descobrisse toda a verdade, ficar-se-ia a saber que


Hareton estava praticamente na misria.
   -- O pai morreu cheio de dvidas -- declarou. -- A
propriedade est toda hipotecada e a nica esperana do
herdeiro natural  apelar  compaixo e benevolncia do
credor.
   Ao chegar ao Alto, expliquei que estava ali para me
certificar de que estava a ser feito tudo o que era
necessrio. Joseph, que parecia bastante pesaroso, mostrou-se
satisfeito com a minha presena. Quanto a Mr. Heathcliff,
disse que no achava que eu fosse l precisa, mas que, se
quisesse, podia ficar e tratar dos preparativos do enterro.
   -- O que ele merecia era ser enterrado numa encruzilhada,
sem cerimnia religiosa nem nada -- afirmou. -- Ontem deixei-o
sozinho dez minutos e, nesse intervalo, trancou as duas
portas para eu no poder entrar e bebeu durante toda a noite,
no firme propsito de se matar. Hoje de manh tivemos de
arrombar a porta da sala, quando o ouvimos resfolegar como um
cavalo, e fomos dar com ele estirado no banco; podamos t-lo
esfolado ou escalpelado vivo que no daria por nada. Mandei
chamar o Kenneth, mas quando ele chegou j o animal tinha
esticado o pernil: estava morto, rgido e gelado. Hs-de
convir que no valia a pena incomodar-me mais por sua causa!
   Joseph confirmou a descrio, mas resmungou: :,
   -- Antes qu.ria que tivesse sido ele a ir buscar o mdico
eu c ficav.aqui melhor a cuidar do patro   a verdade 
qu.inda num  estava morto c.ando.eu sa de casa!
   Insisti para que Mr. Earoshaw tivesse um enterro digno.
Heathcliff disse-me que fizesse o que entendesse, mas que no
me esquecesse de que era do bolso dele que saa o dinheiro
para as despesas.
   A sua atitude manteve-se fria e distante, sem denotar
alegria nem tristeza; se alguma emoo exprimia, era a
satisfao cruel de haver alcanado uma vitria difcil. Uma
s vez detectei nele um certo ar triunfal: precisamente quando
os cangalheiros iam a sair com o caixo. Ainda teve a
hipocrisia de se vestir de luto; e antes de seguir com o
Hareton para o cemitrio, ergueu a pobre criana at  altura
da mesa e segredou-lhe com refinado prazer:
   -- Agora *s meu*, meu menino! E veremos se uma rvore no
cresce to torta como a outra, quando o mesmo vento a faz
vergar.
   O pobre inocente pareceu contente com a tirada: ps-se a
brincar com as suas e a afagar-lhe o queixo, mas eu,
adivinhando o verdadeiro significado daquelas palavras, disse
sem peias:
   -- O menino tem de ir comigo para a Granja. Ningum no
mundo lhe pertence menos do que ele.
   --  isso O que diz o Linton? -- inquiriu.
   -- Naturalmente que sim. E deu-me ordens para o levar
--repliquei.
   -- Est bem -- disse o canalha. -- No vamos discutir isso
agora. Sempre sonhei educar uma criana. Diz, por isso, ao teu
patro que, se me levar este, quero o meu de volta para
preencher o seu lugar. No me oponho a que o Hareton v
contigo, mas podem estar certos de que mandarei buscar o
outro. No te esqueas de o avisar.
   Esta ameaa era o suficiente para nos deixar de mos
atadas. Quando voltei, dei o recado a Mr. Linton que,
mostrando-se pouco interessado, no mais falou em interferir.
E, ainda que fosse esse o seu desejo, custa-me a crer que
tivesse sido bem sucedido.


   O hspede era agora o dono do Alto dos Vendavais, seu
proprietrio de direito, do que deu provas ao tabelio que,
por sua vez, as deu a Mr. Linton: Mr. Earnshaw havia
hipotecado cada hectare te terra para satisfazer o vcio do
jogo, e o seu credor era Heathcliff. Deste modo, Hareton, que
podia ser agora o maior :, proprietrio das redondezas, ficou
reduzido a um estado de completa
dependncia do inimigo mortal de seu pai e era tratado como um
criado dentro da sua prpria casa, sem salrio e sem poder
reivindicar os seus direitos, desamparado e ignorante da
injustia de que era vtima.
CAPTULO XVIlI
   Os doze anos, que se seguiram quela poca to triste --
prosseguiu Mrs. Dean -- foram os mais felizes da minha vida.
As minhas maiores preocupaes durante esse tempo foram as
maleitas sem importncia da nossa menina, como acontece,
alis, com todas as crianas, ricas ou pobres. De resto, e
passados que foram os primeiros seis meses, ela cresceu a
olhos vistos e aprendeu a andar e a falar, l  sua maneira,
antes que a urze florisse pela segunda vez sobre a campa de
Mrs. Linton. Era o raio de sol mais resplandecente que jamais
brilhara numa casa enlutada: um rostinho lindo, com os belos
olhos dos Earnshaw, mas a pele clara, as feies delicadas e
os cabelos louros e encaracolados dos Linton. Um esprito
vivo, mas sem aspereza, coroado por um corao sensvel e
caloroso at demais nas suas afeies. Nessa sua propenso
para afectos profundos fazia lembrar a me. Todavia, no se
parecia com ela, pois era capaz
de ser terna e meiga como uma pomba, e a voz era
doce e a expresso melanclica; a sua ira nunca era
exacerbada, nem o seu amor devastador, mas antes terno e
profundo.
   H que reconhecer; no entanto, que tinha alguns defeitos a
par destas qualidades: um deles era um certo atrevimento;
outro era a teimosia perversa de que as crianas mimadas
invariavelmente do mostra, tenham elas bom ou mau gnio. Se
algum criado a contrariava, dizia logo: __Vou fazer queixa
ao pap! E, se este a admoestava, nem que fosse s com o
olhar, ficava sentida que s visto; at parecia que lhe tinham
feito mal. E no acredito que ele alguma vez lhe tenha
dirigido alguma palavra mais spera.
   Foi ele que tomou sozinho a educao da filha a seu cargo,
fazendo disso o seu entretenimento: afortunadamente, a sua :,
curiosidade e inteligncia perspicaz faziam dela uma
excelente aluna: aprendia depressa c com vontade, fazendo
justia ao mestre.
   Cathy chegou aos treze anos sem nunca ter transposto
sozinha, uma vez que fosse, os limites da propriedade. Uma vez
por outra, Mr. Linton levava-a a dar um passeio mais longo, de
uma milha ou coisa assim, mas nunca a confiava  guarda de
ningum. Gimmerton no passava para Cathy de um nome sem
qualquer significado, e a capela era o nico lugar onde
entrara para alm da sua prpria casa. O Alto dos Vendavais e
Mr. Heathcliff no existiam para ela. Era uma verdadeira
reclusa, aparentemente satisfeita com o tipo de vida que
levava. s vezes, porm, quando da janela do seu quarto
espraiava os olhos pelas cercanias,
perguntava-me:


   -- Ellen, quando poderei subir ao topo daqueles montes?
Gostava tanto de saber o que se estende para l deles.  o
mar?
   -- No, Miss Cathy -- respondia eu. -- So outros montes
iguais queles.
   -- E como so aquelas escarpas douradas pelo sol, quando
estamos ao p delas? -- perguntou ela uma vez.
   As encostas abruptas de Penistone Crag e dos outros montes
mais altos atraam-lhe particularmente a ateno, em especial
quando a luz do poente banhava os picos mais elevados,
mergulhando na sombra tudo o resto. Expliquei-lhe que eram
simples penedos cuja terra que lhes enchia as fendas
dificilmente daria para alimentar uma rvore raqutica.
 -- E por que continuam iluminados depois de aqui j ter
anoitecido? -- insistia.
   -- Porque esto muito acima do lugar onde moramos
respondi. -- A menina no pode l chegar; so muito altos e
escarpados. No Inverno o gelo cobre-os antes de c chegar e,
mesmo no pino do vero, j cheguei a ver neve naquele cncavo
escuro do lado nordeste.
   -- Ah! J l estiveste! -- exclamou, radiante. -- Ento
tambm l posso ir quando for crescida. E o pap, j l
esteve, Ellen?
   -- O seu pai vai dizer-lhe -- atalhei eu apressadamente que
esses montes no valem a visita. Os brejos por onde a menina
costuma passear com ele so muito mais bonitos, e o nosso
parque  o lugar mais lindo do mundo.
   -- Mas a nossa propriedade j eu conheo e aqueles montes
ainda no -- disse, falando sozinha. -- E gostava tanto de
olhar a :, toda a volta do cume mais alto! Um dia hei-de l ir
com a Minny.
   A Gruta das Fadas, a que uma criada se tinha referido em
conversa, deu-lhe por completo volta  cabea e no descansou
enquanto no concretizou esse sonho: tanto pediu ao pai que
ele lhe prometeu que a levaria l quando fosse mais crescida.
Mas para Cathy a idade contava-se pelos meses e, por isso,
perguntava constantemente: __J posso ir a Penistone Crag?
Mas como uma das ltimas curvas do caminho sinuoso que levava
at l passava muito perto do Alto dos Vendavais, Mr. Edgar,
sem animo para l passar, dava-lhe invariavelmente a mesma
resposta: __No, meu amor, ainda no.
   Como j disse, Mrs. Heathcliff viveu pouco mais de doze
anos depois de se separar do marido. As pessoas da sua famlia
eram de constituio delicada: nem ela nem Edgar tinham os
ares saudveis e corados que se vem por estes stios. J no
sei dizer que doena a levou, mas penso que morreram ambos do
mesmo mal, uma febre; coisa de pouca monta no comeo, mas
incurvel e devastadora para o
fim.
   Escreveu ao irmo a comunicar-lhe o possvel desfecho da
doena que j durava h quatro meses, e pedia-lhe que fosse
visit-la, pois tinha muitas disposies a fazer e queria,
sobretudo, despedir-se dele e confiar o Linton  sua
guarda. A sua grande esperana era que o filho pudesse
ficar com o tio da em diante, tal como at a tinha ficado
com ela, pois estava convencida de que o pai dele no
se mostraria interessado em assumir o seu sustento e
educao.
   O meu patro nem por um momento hesitou em aceder ao pedido
da irm: apesar da sua habitual relutncia em sair de casa,
acorreu prontamente ao seu chamado, mas no sem antes entregar


Cathy durante a sua ausncia  minha exclusiva vigilncia, com
insistentes recomendaes de que ela nso deveria em caso algum
ultrapassar os limites do parque, mesmo acompanhada; no
pensou sequer na hiptese de ela o fazer sozinha.
   Mr. Linton esteve fora trs semanas: a minha pupila passou
os dois primeiros dias sentada a um canto da biblioteca, to
tristonha que no lhe apetecia ler nem brincar. Durante esse
tempo de acalmia neo me deu trabalho nenhum; mas
seguiu-se-lhe um perodo de grande impertinncia e
inquietao. No podendo, com a minha idade e com tudo o que
tinha para fazer, andar de um lado para o outro a entret-la,
magiquei numa maneira de ela se entreter :, sozinha: passei a
mand-la dar passeios pela quinta, ora a p ora a cavalo, e,
quando ela voltava; escutava com toda a ateno as aventuras
reais e imaginrias que tinha para me contar.
   Estvamos no pino do Vero e ela tomou tanto gosto por
estes passeios solitrios, que arranjou sempre maneira de
andar l por fora desde o pequeno-almoo at  hora do ch.
Depois, passava o resto do dia a contar-me as histrias mais
fantsticas que se possa imaginar. Nunca receei que ela se
afastasse para mais longe, porque os portes da quinta estavam
geralmente fechados 
chave e achava que no seria capaz de se aventurar
sozinha pelos matos fora, mesmo que os portes estivessem
abertos.
   Infelizmente, a minha confiana provou ser desmedida.
Catherine veio ter comigo uma manh, s oito horas, e
comunicou-me que nesse dia ela era um mercador rabe que se
preparava para atravessar o deserto com a sua caravana, e que
eu tinha de lhe fornecer os mantimentos necessrios para ela e
para os seus animais; a saber, um cavalo e trs camelos, estes
ltimos personificados por um grande galgo e um casal de
perdigueiros.
   Meti uma boa proviso de guloseimas na cestinha que
pendurei na sela e ela partiu a bom trote, ligeira e folgaz
como uma fada, protegida do sol de Julho por um grande chapu
de aba larga envolto num vu de tule, a rir e a troar dos
meus conselhos para que evitasse grandes cavalgadas e voltasse
cedo para casa.
   Porm,  hora do ch aquela marota ainda no tinha
aparecido. Entretanto, chegou um dos viajantes, o galgo que,
j velho, gostava de sossego. Mas de Catherine, do cavalo e
dos perdigueiros, nem sinal! Enviei criados em todas as
direces e, por fim, fui eu prpria procur-la.
   Num dos extremos da propriedade estava um trabalhador da
quinta a consertar a cerca de uma plantao e perguntei-lhe se
vira a nossa menina.
   -- Vi-a esta manh -- respondeu. -- At me pediu que lhe
fizesse uma chibata com um ramo de aveleira. E depois fez a
montada saltar aquela sebe, alm, na parte mais baixa, e
desapareceu a galope.
   O senhor pode imaginar como eu fiquei com estas notcias.
Mas logo me pareceu que devia ter ido para os Penistone Crags.
   __Que ser que lhe aconteceu? exclamei, passando pela
abertura que o homem estava a consertar e dirigindo-me para a
estrada :, principal. Percorri milhas e milhas como se
quisesse ganhar uma corrinda, at que, ao dar uma curva,
avistei o Alto dos Vendavais; mas de Catherine nem sinais, nem
perto nem longe.
   Os Crags ficam a cerca de milha e meia para l da
propriedade de Mr. Heatheliff, ou seja, a quatro milhas da


Granja, e comecei a recear que a noite casse antes de eu os
aleanar.
   _E se ela escorregou quando andava a trepar pelo meio das
escarpas? pensei eu, _E se morreu ou partiu alguma coisa?
   Era na verdade angustiante; por isso, foi a princpio com
reconfortante alvio que, ao passar pelo Alto dos Vendavais,
vi o Charlie, o mais aguerrido dos dois perdigueiros, deitado
debaixo doma janela, com a cabea inchada e uma orelha a
sangrar. Abri a cancela, corri para a porta e bati com toda a
fora. Veio abri-la uma mulher que eu conhecia de Gimmerton,
mas que agora servia no Alto desde a morte de Mr. Earnshaw.
   -- J sei! -- disse ela -- Vem  procura da sua menina! No
se aflija, que ela est aqui. No lhe aconteceu nada... Ainda
bem que no era o patro.
   -- Ento, ele no est em casa? -- disse eu, ofegante, no
s da caminhada, mas tambm da aflio.
   -- No est, no. Saiu com o Joseph e acho que ainda devem
demorar uma hora ou mais. Entre e descanse um bocadinho.
   Entrei e vi a minha ovelhinha desgarrada a balanar-se
diante da lareira, toda repimpada numa ca leira de baloio que
pertencera  me em pequena. Tinha pendurado o chapu na
parede e parecia perfeitamente  vontade e muito bem disposta,
a rir e a tagarelar com o Hareton, agora um latago de dezoito
anos, que no tirava os olhos dela, num misto de espanto e
curiosidade, sem perceber patavina da interminvel sucesso de
comentrios e interrogaes que ela nso parava de fazer.
   -- Sim senhora! -- exclamei, tentando mascarar a minha
alegria com severidade e conteno. -- Este foi o seu ltimo
passeio a cavalo enquanto o seu pai nso voltar! No pe mais
os ps fora de casa, ouviu, sua grandessssima marota!
   -- Oh, Ellen! -- gritou ela, rejubilante, saltando para o
cho e vindo a correr ter comigo. -- Esta noite  que tenho
uma histria bem bonita para te contar... Como  que deste
comigo? J c tinhas estado alguma
vez?
   -- Ponha o chapu e vamos j para casa! -- ordenei. - Estou
:, muito zangada consigo, Miss Cathy, a menina portou-se muito
mal; e escusa de fazer beicinho e de se pr com choradeiras,
que isso no me poupa a canseira de andar por ai a correr tudo
 sua procura. Quando penso nas recomendaes de Mr. Linton
para no a deixar sair de casa... e a menina desaparecer-me
assim, desta maneira! J vi que  uma raposinha matreira, e
daqui em diante mais ningum vai confiar em
si.
   -- Mas que foi que eu fiz? -- perguntou ela, sentida, a
soluar. -- O pap no recomendou nada disso e no vai ralhar
comigo. Ele no  mau como tu.
   -- Ento, menina! -- disse eu. -- Deixe-me atar-lhe as
fitas do chapu. Onde j se viu tanto atrevimento?! Que
vergonha! Com treze anos e a portar-se como um beb.
   Esta minha ltima exclamao deveu-se a ela ter arrancado o
chapu da cabea e se ter escapado para junto da
chamin.
   -- Deixe l, Mrs. Dean -- interveio a criada. -- No se
zangue com uma menina to linda. A gente  que a atrasou. Ela
queria ir-se logo embora, para no a afligir. Mas o Hareton
ofereceu-se para a ir acompanhar e eu achei que ele fazia
muito bem, porque a estrada do monte  muito traioeira.
   O Hareton manteve-se de mos nos bolsos durante toda a
discusso, com acanhamento de falar, embora no parecesse
nada contente com a minha intromisso.


   -- Quanto tempo ainda a menina quer que eu espere?
--insisti, fazendo orelhas moucas aos pedidos da mulher. --
Daqui a dez minutos  noite. Onde est o cavalo, Miss Cathy? E
onde est o Phenix? Ou a menina se despacha, ou deixo-a aqui
ficar. A menina escolha!
   -- O cavalo est no ptio -- respondeu. -- e o Phenix est
fechado ali dentro... foi mordido... e o Charlie tambm. Eu ia
contar-te tudo, mas como te zangaste comigo, no mereces que
te conte nada.
   Peguei no chapu e tentei pr-lho novamente. Ela, porem,
percebendo que as outras pessoas estavam do seu lado, desatou
a correr  volta da sala; tentei agarr-la, mas ela parecia um
rato, a esgueirar-se por cima e por baixo dos mveis e a
esconder-se atrs deles, tornando ridcula a situao. A
criada e o Hareton riam a bom rir, e ela tambm, cada vez mais
desaustinada, at que lhe gritei, j fora de mim: :,
   -- Se Miss Cathy soubesse de quem  esta casa, queria era
ir-se j embora!
   --  do teu pai, no ? -- perguntou ela, voltando-se para
o Hareton.
   -- No senhora -- respondeu ele, timidamente, ficando muito
corado e baixando os olhos. No conseguia encarar Cathy,
embora os olhos dela fossem iguaizinhos aos
dele.
   -- Ento de quem ? Do teu patro? insistiu ela.
   O Hareton corou ainda mais, agora por outro motivo, e
virou-lhe as costas, remoendo pragas.
   -- Afinal, quem  o patro dele? -- continuou a menina,
impertinente, voltando-se para mim. Ele falava da nossa
casa, dos nossos criados, e eu julguei que fosse filho do
dono... nem me tratou por _Miss Cathy nem nada. Se fosse
mesmo um criado devia faz-lo, no devia?
   Perante tanta tagarelice, o rosto do rapaz fechou-se como o
cu em dia de trovoada. Pela minha parte, dei uns safanes
quela lngua de trapos, para ver se ela se calava, e,
finalmente, consegui apront-la para sair.
   -- Agora vai buscar o meu cavalo -- disse ela ao rapaz que
nem suspeitava ser seu parente, como se se dirigisse a um dos
moos de estrebaria l da Granja. -- E, se quiseres, podes vir
comigo. Quero ver o sitio onde o duende-caador sai do pntano
e ouvir-te falar das fadas... mas tens de te despachar! Ento?
Vais ou no vais buscar o meu cavalo?
   -- Eu no sou seu criado, ouviu? V pr diabo -- praguejou
ele.
   -- Vou para onde? -- perguntou ela, apanhada de surpresa.
   -- Para o diabo, bruxa duma figa! ripostou Hareton.
   -- Est a ver, Miss Cathy? Que bela companhia que a menina
arranjou! -- atalhei. -- Bonitas palavras para se dizerem a
uma menina! Por favor no se ponha a discutir com ele... Venha
comigo, vamos ns mesmas procurar a Minny e sair daqui para
fora.
   -- Ellen! -- exclamou ela, fitando-me boquiaberta -- Como
se atreve ele a falar comigo desta maneira? No  sua
obrigao fazer o que eu lhe peo? Seu grande malcriado! Vou
contar ao pap ... e depois vais ver...
   O Hareton no se mostrou nada preocupado com a ameaa, o
que deixou Catherine com os olhos rasos de lgrimas da raiva
que :, sentia. -- Vai tu buscar o cavalo -- exclamou,
virando-se para a mulher -- e solta imediatamente o meu co!
   -- Calma, menina -- respondeu a sua interlocutora. --No
perde nada em ser bem educada. Mr. Hareton no  filho do


patro; mas  primo da menina e eu no fui contratada para a
servir.
   -- Aquele? Meu primo?! -- exclamou Cathy, com desdm,
soltando uma gargalhada.
   -- Isso mesmo! -- corroborou a outra.
   -- Oh, Ellen! No os deixes dizer uma coisa destas -- disse
ela, confusa. -- O meu primo foi o pap busc-lo a Londres e 
filho de um homem de bem. Agora este... e de atou a chorar,
chocada com a ideia de ser parente de semelhante labrego.
   -- Pronto, pronto! -- disse eu para a consolar -- as
pessoas podem ter muitos primos e de todas as espcies, Miss
Cathy; mas isso no quer dizer nada; se forem ruins ou mal
educados,  s no se darem com eles e pronto.
   -- Ele no pode ser meu primo, Ellen, no pode! -- repetia
Catherine, com renovada indignao,  medida que ponderava a
questo, vindo refugiar-se nos meus braos, como para se
proteger dos seus prprios
pensamentos.
   Eu estava aborrecida com a troca de revelaes havida entre
ela e a criada, pois no tinha dvidas de que Mr. Heathcliff
seria posto ao corrente do regresso de Linton, anunciado pela
primeira, nem de que o primeiro pensamento de Catherine ao
reencontrar o pai seria pedir-lhe explicaes para a afirmao
feita pela segunda sobre o seu parentesco com aquele rstico.
   Hareton, j refeito do desgosto de ter sido tomado por um
servial, pareceu comover-se com o desgosto da menina:
trouxe-lhe o cavalo at  porta e, para lhe agradar, foi
buscar ao canil um lindo cachorrinho *terrier* de pernas
bambas que entregou a Cathy, rogando-lhe que no chorasse
mais, pois no tivera inteno de a ofender.
   Cathy engoliu as lgrimas, mirou-o com um misto de pasmo e
horror e recomeou a choradeira.
   Eu mal pude conter um sorriso perante tamanha antipatia
pelo pobre rapaz, que era por sinal um jovem atltico, bem
constitudo e muito bem parecido, a vender sade, mas vestido
com roupas apropriadas para as suas ocupaes dirias na
quinta e para andar pelos descampados atrs de coelhos e
outras espcies. Pareceu-me, no entanto, entrever-lhe na
fisionomia um esprito dotado de qualidades que o pai dele
jamais possura. Prolas perdidas, decerto, :,
por entre as ervas daninhas que lhe minaram o desenvolvimento;
notava-se, no obstante, que aquele solo era frtil e capaz de
produzir colheitas abundantes em circunstancias mais
favorveis. No creio que Mr. Heathcliff lhe tenha infligido
maus tratos fsicos, graas  sua natureza destemida, que
desaconselhava esse tipo de opresso, e  inexistncia daquela
tmida passividade que, na opinio de Heathcliff, tornaria
gratificantes os maus tratos. A sua malevolncia parecia visar
sobretudo fazer dele um bruto. Hareton nunca aprendera a ler
nem a escrever, nunca fora repreendido pelos seus maus hbitos
desde que o seu tutor no se sentisse incomodado com eles,
nunca lhe haviam ensinado o caminho da virtude nem os mais
simples preceitos para se proteger do vcio. E, pelo que ouvi
dizer, Joseph contribura em muito para o estragar, com aquela
sua mentalidade conservadora que o levara a adul-lo e a
mim-lo em excesso enquanto criana, s pelo facto de ser o
herdeiro da velha famlia. E, tal como fora seu costume
acusar Catherine Earnshaw e Heathcliff, quando eram pequenos,
de esgotarem a pacincia do patro, levando-o com os seus
desmandos, como ele lhes chamava, a procurar refgio na
bebida, tambm agora lanava sobre os ombros do usurpador o


peso das faltas de Hareton. Nunca o repreendia por mais
palavres que ele dissesse ou por pior que se portasse. Joseph
parecia at gostar de o ver ir longe demais. Para ele, o rapaz
estava irremediavelmente perdido, sem vislumbre de salvao
para a sua alma, apesar de, l no fundo, achar que quem devia
pagar por isso tudo era Heathcliff: o sangue de Hareton
recairia sobre ele, e esta ideia enchia-o de consolao.
   Joseph havia incutido no rapaz o orgulho do nome e da
linhagem e teria, se a tal se houvesse atrevido, alimentado
nele o dio pelo actual proprietrio do Alto dos Vendavais;
porm, o medo que tinha de Heathcliff ,tocava as raias da
superstio e limitava-se, por Isso, a expressar os seus
sentimentos atravs de veladas ameaas e insinuaes.
   No pretendo com isto dizer que eu estivesse ao corrente do
que se passava no Alto dos Vendavais, mas era o que constava,
pois pessoalmente pouco presenceie. As pessoas da vila
afirmavam que Mr. Heathcliff era muito avarento e um senhorio
desapiedado para com os seus rendeiros. Contudo, a casa,
governada por mo de mulher, recuperara por dentro o ar
confortvel de outrora, e as cenas desbragadas, tpicas dos
tempos de Hindley, j no tinham assento entre aquelas
paredes. O patro era demasiado taciturno :, para procurar a
companhia de outras pessoas, fossem elas boas ou  mas, e assim
continua a ser...
   Mas nada disto tem a ver com a minha histria. Continuemos,
pois: Cathy no aceitou o cachorrinho e exigiu que soltassem
os seus dois ces, o Phenix e o Charlie, que apareceram a
coxear, de focinho no cho, aps o que tomamos todos o caminho
de casa, bastante mal-humorados, diga-se de passagem. No
consegui arrancar da menina uma s palavra sobre como passara
o dia, excepto que, como j calculava, a meta da sua
peregrinao fora os Penistone Crags e que a viagem decorrera
sem novidade at chegar  cancela da quinta, no preciso
momento em que Hareton vinha a sair com uns ces que se
atiraram aos de Catherine, envolvendo-se todos numa luta
renhida antes que os respectivos donos os conseguissem
separar, e que este incidente funcionara como uma espcie de
apresentao. Catherine disse a Hareton quem era e para onde
ia e pediu-lhe que lhe indicasse o caminho, acabando por
persuadi-lo a acompanh-la. Ele, por seu turno, revelou-lhe
os mistrios da Gruta das Fadas e de muitos outros lugares
assombrosos; no entanto, e como estava ressentida, no me
brindou com a descrio das coisas interessantes que
encontrara.
   Percebi, contudo, que se dera muito bem com o seu guia at
ao momento em que o ofendeu, tratando-o como um criado, e em
que a governanta de Heathcliff a ofendeu, dizendo-lhe que ele
era seu primo.
   Alm disso, sentia-se ainda vexada pela linguagem usada por
Hareton: ela, que na Granja era para toda a gente meu amor,
minha querida, minha princesa e meu anjo, ver-se agora
insultada de forma to chocante por um estranho! Podia l
admitir tal coisa; e bom trabalho me deu faz-la prometer que
no levaria a ofensa ao conhecimento do pai.
   Expliquei-lhe que Mr. Linton se opunha a quaisquer
contactos com todos os que viviam no Alto dos Vendavais e que
ficaria deveras aborrecido quando descobrisse que a filha l
estivera; insisti sobretudo em que, se ela mencionasse a minha
desobedincia s ordens que ele me dera, o pai era capaz de
ficar to zangado que eu teria de me ir embora, ideia essa que
Cathy no podia suportar. Deu-me por isso a sua palavra e


cumpriu-a em nome da amizade que me tinha. Era afinal uma boa
menina.

CAPTULO XIX
   Uma carta tarjada de negro anunciou o dia do regresso do
meu patro. Isabella morrera e ele escreveu-me a pedir que
mandasse fazer vestidos de luto para a filha e preparasse um
quarto e o mais que fosse necessrio para receber o
sobrinho.
   Catherine ficou louca de alegria com a ideia de ter o pai
de volta, e entregou-se s mais esperanadas conjecturas sobre
as inmeras qualidades do seu primo de verdade.
   Chegou enfim o anoitecer, a hora do to desejado regresso.
Ela andara atarefadssima durante todo o dia, desde muito
cedo, a arrumar as suas coisas e agora, para terminar,
apareceu-me muito bem ataviada no seu novo vestido preto
(coitadinha, a morte da tia no era para ela mais que um
sentimento indefinido) e obrigou-me  viva fora a ir com ela
at ao fundo da quinta, ao encontro deles.
   -- O Linton  s seis meses mais novo do que eu --
tagarelava ela enquanto caminhvamos paulatinamente  sombra
das rvores por socalcos e valados cobertos de musgo. -- Como
vai ser bom ter um companheiro para brincar! A tia Isabella
mandou uma vez ao pap um caracol do cabelo dele. Era mais
claro do que o meu... e muito mais fino e sedoso. Tenho-o
muito bem guardado numa caixinha de vidro. Quantas vezes
pensei como gostaria de ver o dono desse cabelo! Estou to
contente... E vou ver tambm o pap, o meu querido pap!
Vamos, Ellen, mais depressa! Corre!
   Correu, voltou para trs e ps-se de novo a correr, vezes e
vezes sem conta, antes que eu, mais lenta, tivesse tempo de
chegar ao porto. Depois, sentou-se no talude relvado  beira
do caminho, :, esforando-se por esperar com toda a
pacincia. Mas era impossvel: no podia estar quieta um s
momento.
   -- Por que demoram tanto?! -- exclamava. -- Ah! Parece-me
que estou a ver poeira no ar ao fundo da estrada... L vm
eles! No... nunca mais chegam! E se ns fssemos at ali mais
 frente? S mais um bocadinho, Ellen. Diz que sim, por favor.
S at quela moita de vidoeiros junto  curva.
   Recusei veementemente. Por fim, a sua ansiedade chegou ao
fim: j se avistava a carruagem. Cathy deu um grito e abriu os
braos assim que viu o rosto do pai emoldurado na janela. Mr.
Linton apeou-se, quase to emocionado como a filha, e s da a
um bocado se lembraram os dois de que estava ali mais algum.
   Enquanto eles trocavam beijos e abraos, espreitei para
dentro da carruagem, para ver Linton. Estava a dormir a um
canto, embrulhado numa capa forrada de pele, como se
estivssemos no Inverno. Era um rapazinho plido, franzino,
efeminado, que bem poderia passar por irmo mais novo do meu
patro, to acentuada era a parecena. Havia, contudo, no seu
aspecto uma impertinncia doentia que Edgar Linton jamais
possura.
   Este ltimo, ao ver-me a espreitar, veio cumprimentar-me e
pediu-me que fechasse a porta da carruagem e no perturbasse o
sono do sobrinho, pois a viagem tinha-o deixado muito
fatigado.
   A Cathy queria por fora ir espreitar, mas o pai disse-lhe
que o acompanhasse e subiram juntos o parque, enquanto eu


corria  frente deles, para avisar os criados.
   -- Presta ateno, meu tesouro disse Mr. Linton  filha
quando pararam junto aos degraus da entrada o teu primo no 
to saudvel nem to vivo como tu, e lembra-te de que perdeu
a me h pouco tempo. Por isso, no esperes que se ponha j a
correr de um lado para o outro e a brincar contigo. E no o
maces muito com as tuas tagarelices; deixa-o sossegado pelo
menos esta tarde, est bem?
   -- Sim, pap respondeu Catherine. -- Mas eu queria tanto
v-lo e ele no veio  janela nem uma s vez!
   A carruagem parou e o dorminhoco, agora j acordado, foi
tirado c para fora com a ajuda do tio.
   -- Linton, esta  a tua prima, a Cathy -- disse o meu
patro, juntando-lhes as mos. Ela gosta muito de ti e espero
que no a desgostes pondo-te a chorar toda noite. V,
anima-te. A viagem terminou e tudo o que tens a fazer 
descansares e distraires-te como achares melhor. :,
   -- Ento deixe-me ir para a cama -- respondeu o rapaz,
furtando-se ao beijo de Catherine e levando as mos aos olhos
para limpar duas lgrimas inconsequentes.
   -- Ento, ento! Um menino to bonito! -- disse eu
brandamente, levando-o para dentro. -- Assim, vai fazer
chorar tambm a sua prima. Veja como ela est triste por sua
causa.
   No sei se era por pena, mas Cathy mostrava-se to
acabrunhada como o primo e voltou para junto do pai. Entraram
os trs e subiram para a biblioteca, onde o ch j estava 
espera deles.
   Tirei o bon e a capa de Linton e sentei-o no seu lugar 
mesa. Porm, mal se sentou, comeou de novo a chorar. O meu
patro perguntou-lhe o que tinha.
   -- No consigo estar sentado na cadeira -- respondeu entre
soluos.
   -- Nesse caso, vai deitar-te no banco e a Ellen leva-te l
o ch -- disse o tio, cheio de pacincia. (_Bem devia ter
precisado dela durante a viagem para aturar aquele
choramingas!)
   Linton arrastou-se vagarosamente at ao banco e estendeu-se
ao comprido. Cathy pegou num banquinho para os ps e na sua
chvena e foi sentar-se junto dele.
   A princpio, manteve-se em silncio, mas claro que isso no
podia durar muito: depressa resolveu transformar o primo em
bichinho de estimao e como tal o comeou a tratar.
Afagava-lhe os caracis, beijava-lhe as faces e dava-lhe ch
pelo pires, como se ele fosse um beb. E ele, que pouco mais
era do que isso, estava a gostar: enxugou as lgrimas e um
breve sorriso iluminou-lhe o rosto.
   -- Ele vai dar-se bem por c -- disse o patro, depois de
os observar durante alguns minutos. -- Vai dar-se at muito
bem... se pudermos ficar com ele, Ellen. A companhia de uma
criana da mesma idade dar-lhe- uma alma nova e,  fora de
querer ser forte, acabar mesmo por s-lo.
   _Tudo isso est muito bem, se pudermos ficar com ele,
pensei comigo mesma; mas tinha um pressentimento de que havia
motivo para no ter muitas esperanas. E, depois, perguntei-me
como poderia aquela criatura to frgil ir viver para o Alto
dos Vendavais, com o pai e o Hareton... Belos companheiros e
belos professores, no havia dvida! :,
   Mas as nossas incertezas cedo desapareceram, bem mais cedo
do que eu esperava. Depois de terminado o ch, levei as
crianas para os quartos, esperei que Linton adormecesse, pois


no me deixara sair antes, e voltei para baixo. Estava eu
junto  mesa do vestbulo a acender uma vela para Mr. Edgar
levar para o quarto, quando da cozinha saiu uma criada a
correr, para me avisar de que       Joseph estava  porta e
desejava falar com o patro.
   Em primeiro lugar, vou ver se ele est pelos ajustes --
disse eu, manifestamente perturbada. -- Isto so l horas de
se vir incomodar uma pessoa, ainda por cima quando ela acaba
de regressar de uma viagem to estafante. No me parece que o
patro o possa receber. Mas, enquanto eu dizia estas
palavras, j Joseph tinha entrado para a cozinha e vindo at
ao vestbulo. Envergava o seu fato domingueiro, exibia a
expresso mais beata e carrancuda que eu j vira, de chapu
numa mo e bengala na outra, e estava ocupado a limpar os ps
ao tapete.
   -- Boa-noite, Joseph -- disse eu com frieza. -- Que o traz
por c a estas horas?
   --  com Mr. Linton qu.eu venho falar retorquiu,
arredando-me para o lado com um gesto de enfado.
   -- Mr. Linton est a preparar-se para ir para cama e tenho
a certeza de que no o vai atender, a menos que tenha alguma
coisa muito importante para lhe dizer. O melhor  sentar-se e
dizer-me o que o traz por c.
   -- Onde fica o quarto dele? -- continuou o velho,
percorrendo com o olhar a correnteza de portas
fechadas.
   Percebendo que ele no estava disposto a aceitar a minha
mediao, foi com relutncia que entrei na biblioteca e
anunciei o inoportuno visitante, mas no sem aconselhar Mr.
Linton a mand-lo voltar no dia seguinte. Ele, porm, nem
tempo teve para me dar essa ordem, pois Joseph viera atrs de
mim e, entrando na sala, foi especar-se no extremo
oposto da mesa, com as mos cravadas no casto da
bengala, e disse, elevando a voz como se j esperasse
oposio:
   -- Mr. Heathcliff mandou-me vir buscar o mido, e eu no me
posso ir daqui sem o levar.
   Edgar Linton manteve-se em silncio por um momento: uma
profunda tristeza toldou-lhe o semblante; o garoto, s por si,
j seria razo suficiente; mas, ao recordar as esperanas e os
receios de :, Isabella, a sua inquietao quanto  sorte do
filho e as recomendaes que lhe fizera ao confi-lo  sua
guarda, era com grande amargura que encarava a sua partida,
procurando com afinco um meio de a evitar. Mas no encontrava
soluo: a simples manifestao do desejo de manter o sobrinho
junto de si mais fora daria s pretenses do pai do rapaz, e
no lhe restava outra soluo seno resignar-se a deix-lo
partir. Ops-se contudo a ir acordar o garoto.
   -- Diz a Mr. Heathcliff -- respondeu, falando calmamente
--que o filho dele estar amanh no Alto dos Vendavais. Neste
momento, est a dormir e demasiado cansado para empreender
nova viagem. Podes dizer-lhe tambm que a me do Linton
desejava que ele ficasse  minha guarda, e que a sua sade 
actualmente muito precria.
   -- No senhor! -- exclamou Joseph, afivelando um ar
autoritrio e batendo com a bengala no cho. No senhor! Isso
no interessa. Mr. Heathcliff quer l saber do qu.a me disse
ou do qu.o senhor disse. O qu.ele quer  o mido e eu tenho
d.o levar, est a perceber?
   -- Mas no esta noite -- replicou Edgar Linton,
peremptrio. -- Pe-te daqui para fora imediatamente e repete


ao teu patro o que acabei de dizer. Leva-o daqui, Ellen. V!
   E, agarrando o velho tratante pelo brao, expulsou-o da
sala e fechou a porta  chave.
   -- Pois muito bem! -- berrou Joseph, enquanto se afastava
-- Amanh h-de vir ele em pessoa e odespois veremos se o
senhor se atreve a correr com *ele*!
__Captulo XX
   Para evitar que a ameaa se concretizasse, Mr. Linton
encarregou-me de levar o garoto a casa do pai logo pela manh
no cavalo de Catherine, recomendando:
   -- Como de agora em diante no teremos qualquer influncia
sobre o seu destino, seja ela boa ou m, no digas  minha
filha para onde ele foi. J que a convivncia entre ambos
deixou de ser possvel,  prefervel ocultar-lhe a sua
proximidade, pois, caso contrrio, ela no descansar enquanto
no for ao Alto dos Vendavais. Diz-lhe apenas que o pai o
mandou buscar inesperadamente e que, por isso, ele teve de nos
deixar.
   Linton mostrou-se muito relutante em sair da cama s cinco
da manh e ficou boquiaberto quando lhe disseram que se
preparasse para nova viagem. Mas l consegui acalm-lo,
dizendo-lhe que iria passar algum tempo com o pai, Mr.
Heathcliff, que estava to ansioso por conhec-lo que no
podia protelar esse prazer at que ele se recompusesse da
viagem do dia anterior.
   O meu pai?! -- exclamou, perplexo. -- A mam nunca me disse
que eu tinha um pai. E onde  que ele vive? Preferia ficar
aqui com o meu tio.
   -- Vive a pouca distncia da Granja -- respondi. -- Logo
por detrs daqueles montes... no  muito longe, e o menino
pode vir a pe ate c quando estiver mais fortezinho. At devia
estar contente por ir para a sua casa e conhecer o seu pai.
Procure gostar dele como gostava da sua me, e ver como ele
tambm vai gostar de si.
   -- Mas por que no me falaram dele h mais tempo?
--perguntou Linton. -- Por que  que ele e a mam no viviam
juntos, como toda a gente? :,
   -- Porque os negcios o retinham no Norte e a sade da sua
me a obrigava a viver no Sul -- expliquei.
   -- Mas por que razo  que a mam no falava nele? --
insistiu o garoto. -- No tio, ela falava muitas vezes, e eu
habituei-me a gostar dele h muito tempo. Como  que hei-de
gostar do meu pai, se nem o conheo?
   -- Ora essa, como todos os filhos gostam dos seus pais --
disse eu. -- Talvez a sua me pensasse que, se lhe falasse
nele muitas vezes, o menino quisesse vir viver com ele. V l,
temos de nos apressar! Um passeio a cavalo numa manh bonita
como esta vale bem uma hora de sono.
   -- E ela tambm vem connosco?   -- perguntou. -- Aquela
menina que eu vi ontem?
   -- No, hoje no vem. -- retorqui.
   -- E o meu tio? -- continuou.
   -- Tambm no. Quem o vai levar sou eu.
   Linton afundou-se de novo na almofada, com cara de poucos
amigos.
   -- Sem o meu tio, no vou. -- disse, amuado. -- Nem sei
para onde me leva!
   Tentei convenc-lo de que era uma tolice mostrar-se to


relutante em ir ver o pai. Mas ele resistia com tal
obstinao, que tive de ir chamar o meu patro para o vir
arrancar da cama.
   Por fim, o pobrezinho l partiu, convencido de que a sua
ausncia seria curta, de que Mr. Edgar e a prima o iriam
visitar e de que se cumpririam outras promessas que eu fui
inventando ao longo de todo o caminho.
   O ar puro e perfumado pela urze, o sol radioso e o trotar
suave da Minny no tardaram a anim-lo. Comeou ento a fazer
perguntas sobre o seu novo lar e os que l moravam, cheio da
mais viva curiosidade.
   --  to bom viver no Alto dos Vendavais como na Granja dos
Tordos? -- perguntou, enquanto se voltava e lanava um ltimo
olhar ao vale, de onde se elevava uma fina neblina que vestia
de branco vu o horizonte anilado.
   -- A casa do Alto no tem tantas rvores  volta, nem  to
grande como a da Granja, mas de l avista-se tudo em redor, 
uma beleza! -- disse eu. -- E os ares so mais saudveis para
o menino, mais frescos e mais secos. Talvez no incio ache a
casa velha e escura, mas  uma casa cheia de tradies, a
segunda melhor das :, redondezas. E que belos passeios que o
menino vai poder dar pelos brejos. O Hareton Earnshaw, o outro
primo de Miss Cathy e, de certa forma, seu tambm, h-de
lev-lo aos lugares mais bonitos que j viu, e quando estiver
bom tempo, o menino pode ir sentar-se a ler um livro naquele
vale to verdinho e to agradvel, e talvez uma vez por outra
o seu tio lhe faa companhia, pois ele costuma vir muitas
vezes passear por estes montes.
   -- Como  que  o meu pai?  assim novo e bonito como o meu
tio? -- perguntou, curioso.
   --  to novo como ele, mas o cabelo e os olhos so pretos
e a cara  mais severa;  tambm mais alto e mais entroncado.
A princpio, no o vai achar to gentil, nem to bondoso,
porque no  esse o seu feitio, mas trate de se mostrar franco
e cordial, e ele ser certamente mais carinhoso consigo do que
qualquer tio, pois o menino e c o seu sangue.
   -- Cabelos e olhos pretos! -- repetiu Linton, pensativo --
No consigo imagin-lo. Isso quer dizer que no sou parecido
com ele, pois no?
   -- No  l muito -- concordei. _Nem um bocadinho, pensei
eu, penalizada, enquanto observava, saudosa, o rosto plido e
o corpo franzino do meu pequeno companheiro; os olhos grandes
e languidos, iguaizinhos aos da me, mas com uma nica
diferena: a menos que uma sbita morbidez os animasse num
lampejo, no se vislumbravam neles quaisquer vestgios da
inteligncia borbulhante de Isabella.
   --  to estranho que ele nunca tenha ido visitar-nos, a
mim e  minha me! disse, a meia voz. Ele j me viu alguma
vez? Se viu, eu devia ser ainda muito pequeno, porque no me
lembro de nada!
   -- Sabe, Master Linton, trezentas milhas  uma grande
distncia, e dez anos parecem muito menos tempo a um adulto do
que ao menino.  bem possvel que Mr. Heathcliff fosse adiando
a sua visita de um Vero para o outro, sem nunca ter
encontrado o momento oportuno para a fazer; e agora  tarde
demais. Mas no o importune com demasiadas perguntas sobre
este assunto, pois iria aborrec-lo escusadamente.
   O garoto passou o resto do trajecto entregue s suas
cogitaes, at que nos detivemos frente  cancela. No pude
deixar de observar a sua reaco: mirava e remirava a casa, a
frontaria trabalhada e :, as janelas de vidrinhos, salientes,


as groselheiras descarnadas e os abetos alquebrados, e abanava
a cabea, em total desaprovao da aparncia exterior da casa.
Teve no entanto o bom senso de deixar as queixas para depois;
talvez o interior da casa contrabalanasse o exterior.
   Antes de ele desmontar, fui abrir a porta. Eram seis e meia
e tinham acabado de tomar o pequeno-almoo: a criada andava a
levantar a mesa, Joseph, de p por detrs da cadeira do
patro, contava uma historieta qualquer acerca de um cavalo
manco, e Hareton preparava-se para ir segar
feno.
   Bons olhos te vejam, Nelly! -- exclamou Mr. Heathcliff
assim que me viu. Estava a ver que tinha de ir eu mesmo buscar
o que me pertence. Trouxeste-o, no  verdade? Vamos l ver
que tal !
Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Hareton e Joseph
seguiram-nos, cheios de curiosidade. O pobrezinho do Linton
olhava assustado para aqueles trs cares.
   -- Ai, patro, qu.o outro enganou-o disse Joseph ao cabo de
aturado exame. Mandou-lhe mas foi a rapariga!
   Heathcliff, depois de olhar prolongadamente para o filho
com manifesta perplexidade, soltou uma gargalhada escarninha.
   Meu Deus! Mas que beleza! Que criatura adorvel e
encantadora! -- exclamou. Deve ter sido alimentado a caracis
e leite azedo, no achas, Nelly? Diabos me levem.  bem pior
do que eu esperava. E olha que no esperava grande coisa. O
diabo que o diga.
   O garoto tremia, assustado e confuso. Disse-lhe que
desmontasse e entrasse. No tinha entendido nada das palavras
do pai, nem que lhe eram dirigidas. Na verdade, no estava
ainda bem certo de que aquele desconhecido sarcstico e mal
encarado fosse o seu pai. Agarrou-se a mim cheio de medo, a
tremer cada vez mais, e, quando Mr. Heathcliff se sentou e lhe
disse vem c, o pequeno escondeu o rosto no meu pescoo e
desatou a chorar.
   -- Pra com isso! ordenou Heathcliff, agarrando-o e
puxando-o bruscamente, prendendo-o entre as pernas, ao mesmo
tempo que lhe segurava no queixo para lhe manter a cabea
levantada. -- Deixa-te de tolices! Ningum te faz mal,
Linton.  assim que te chamas, no ? s mesmo igualzinhc 
tua me! Onde  que est a *minha* contribuio, no me dizes,
o franganote?
   Tirou o bon ao garoto, puxou-lhe para trs os densos
caracis :, loiros e, a seguir, apalpou-lhe os braos
magrinhos e os dedos esguios. Enquanto decorreu a inspeco,
Linton conteve as lgrimas e at ergueu os seus lindos olhos
azuis para, por sua vez, examinar o
examinador.
   -- Sabes quem eu sou? -- perguntou Heathcliff, depois de se
certificar de que todos os membros inspeccionados eram
igualmente frgeis e delicados.
   -- No! -- respondeu Linton, olhando-o receoso.
   -- Mas j ouviste falar de mim?
   -- Tambm no! -- replicou.
   -- Ah, no? Que vergonha a tua me nunca ter despertado em
ti o amor filial! Pois fica sabendo que s meu filho e que a
tua me procedeu como uma megera ao deixar-te na ignorncia de
quem era o teu pai. V, pra l de tremer, e no  preciso
corares! Pelo menos j no  mau de todo saber que o teu
sangue no  branco. Porta-te bem e nada te faltar! E tu,
Nelly, se ests cansada, podes sentar-te; caso contrrio,
volta para casa. Deves estar com pressa de voltar para a


Granja e contar ao idiota do teu patro o que aqui viste e
ouviste. Alm disso, este rapaz aqui no sossega enquanto c
estiveres.
   -- Bem -- disse eu -- espero que trate o menino como deve
ser, Mr. Heathcliff, seno no ficar com ele por muito tempo;
e lembre-se de que ele  tudo o que o senhor tem no mundo.
   -- Serei *muito bom* para ele, no te aflijas disse
Heathcliff a rir. S que mais ningum poder ser bom para ele;
sou muito ciumento e tenciono monopolizar o seu afecto. E vou
comear agora mesmo: Joseph, traz o pequeno-almoo ao rapaz. E
tu, Hareton, meu asno endemoninhado, j para o teu trabalho!
-- Pois , Nell -- acrescentou, depois de os outros terem
sado o meu filho  o futuro dono do stio onde tu moras e eu
no quero que ele morra antes de me fazer seu herdeiro. Alm
do mais.  *meu filho*, e quero ter o prazer de ver o meu
descendente dono das terras deles e os filhos deles a
trabalharem para o meu como assalariados nas terras dos
prprios pais. Essa  a nica razo que me faz aturar o rapaz.
Por ele no sinto seno desprezo, e odeio-o pelas recordaes
que acorda em mim! Mas essa razo  suficiente; comigo, ele
est to seguro e trat-lo-ei to bem como o teu patro trata
a filha. Tenho l em cima um quarto mobilado a preceito para o
receber, contratei um professor a vinte milhas daqui, para
vir trs vezes por semana ensinar-lhe o que ele quiser
aprender, e dei ordens ao Hareton para :,
lhe obedecer. Em suma, preparei tudo para que ele se torne num
cavalheiro, com uma educao superior a todos os que o
rodeiam. Lamento, no entanto, que ele seja to pouco merecedor
do trabalho que me d. Se alguma graa eu desejava neste
mundo, era ver nele um motivo de orgulho; mas estou mesmo
desiludido com este sonso
choramingas!
   Enquanto Heathcliff falava, Joseph voltou com uma tigela de
papas de aveia e colocou-a diante de Linton. Este, porm,
empurrou a mistela para longe com ar enojado e disse que no
podia comer *aquilo*. Apercebi-me de que o velho servidor
partilhava com o patro o mesmo desprezo trocista pelo garoto,
embora fosse obrigado a esconder os seus sentimentos, pois
Heathcliff deixara bem claro que os seus subordinados deviam
respeitar o filho.
   -- Num pode comer? -- repetiu o criado a meia voz, no
fosse o patro ouvi-lo, chegando-se mais para Linton e
fitando-o de perto. -- Pois olhe que Master Hareton nunca
comeu d.outra coisa cand.era cachopo, e s.era bom p.ra ele,
tambm h-de ser bom p.ra si.  o qu.eu acho!
   -- No como e no como! -- ripostou Linton de chofre.
--Tira-me isto da frente!
   Joseph pegou na tigela todo agastado e veio mostrar-nos.
   -- Oh, patro, diga-me c s.estas papas tm defeito?
--perguntou, metendo a bandeja debaixo do nariz de
Heathcliff.
   -- Que defeito? -- disse ele.
   -- Ora! -- retorquiu Joseph -- O niquento do seu menino diz
que num pode com-las! Tambm no m admira, j a me assim
era: achava-nos a todos muito sujos p.ra semear o po qu.ela
comia.
   -- No me fales na me dele! -- exclamou o patro-irritado.
Arranja-lhe outra coisa para comer e no se fala mais nisso. O
que  que ele costuma comer, Nelly?
   Sugeri leite fervido, ou ch, e a governanta recebeu ordens
nesse sentido. Afinal, pensei eu, o egosmo do pai  bem capaz


de contribuir para o conforto do filho. J se apercebeu da
sua constituio frgil e da necessidade de o tratar com
pacincia. Para consolar Mr. Edgar, vou dar-lhe conta desta
mudana de humor de Heathcliff.
   Sem pretexto para ficar por mais tempo, sa pela calada
enquanto Linton estava ocupado a repelir timidamente as
demonstraes de afecto de um simptico co-ovelheiro, mas de
sentidos bem alerta para no se deixar enganar: mal fechei a
porta, ouvi-o dar um grito e repetir em desesperado frenesim:
:,
   -- No me abandones! No quero aqui ficar! No quero aqui
ficar!
   Logo seguir, a aldraba fo1 levantada, mas caiu de novo:
eles no tinham deixado que Linton sasse c para fora.
Montei na Minny e meti-a a trote pela estrada fora. E assim
chegou ao fim o meu breve papel de guardi.
CAPTULO XXI
   Naquele dia tivemos trabalhos dobrados com a Cathy:
levantou-se toda entusiasmada, ansiosa por ir ter com o primo;
porm, quando sonhe da sua partida, foi tal o pranto que o
prprio Mr. Edgar se viu obrigado a acalm-la, prometendo-lhe
que Linton em breve estaria de volta, mas no sem acrescentar
se isso estiver na minha mo, o
que no deixava grandes esperanas de tal vir a
acontecer.
   A promessa no a acalmou, mas o tempo tudo apaga, e apesar
de ela continuar a perguntar ao pai, de vez em quando, se
ainda faltava muito para o primo voltar, os traos dele
apagaram-se-lhe de tal modo da lembrana, que no o reconheceu
no dia em que tornou a encontr-lo.
   Quando eu, por acaso, encontrava a outra governanta nas
nossas andanas por Gimmerton, costumava perguntar-lhe pelo
menino, pois levando ele uma vida to isolada como a da
prpria Catherine, ningum lhe punha a vista em cima. Pelas
palavras da mulher percebia que a sade dele continuava
periclitante, e que dava muito trabalho a toda a gente. Dizia
ela que Mr. Heathcliff parecia gostar cada vez menos dele,
embora se esforasse por ocultar tais sentimentos. No
suportava ouvir a sua voz, e no conseguia ficar sentado com
ele na mesma sala mais do que uns escassos minutos.
   Raramente conversavam um com o outro: Linton passava as
tardes a estudar as suas lies numa pequena diviso a que
chamavam *a saleta* ou ento deixava-se ficar na cama o dia
todo, pois andava constantemente constipado, com tosse, dores
e todo o tipo de achaques. :,
   -- Nunca vi criatura mais pieges! -- acrescentava a mulher.
-- Nem ningum mais preocupado com a sua sade. Se deixo a
janela aberta at mais tarde, pe-se logo a protestar. Meu
Deus! Como se a aragem da noite o matasse! E o fogo tem de
estar aceso todo o dia mesmo no pino do Vero, e o cachimbo do
Joseph  para ele pior do que veneno. E tem de ter sempre 
mo guloseimas e leite; leite e mais leite. Esquece-se de que
no Inverno h muito pouco e no chega para todos. Quem o
quiser ver  sentado ao borralho a beber gua, ou outro
lquido qualquer, que pe a aquecer ao lado da lareira. E se o


Hareton, condodo, tenta distra-lo (o Hareton no  mau
rapaz, mas  bruto que se farta) no tarda que se separem, um
a praguejar e o onero a chorar. Acho que, se ele no fosse seu
filho, o patro at gostava que o Earnshaw lhe desse uns
cascudos, e estou certa de que o poria porta fora se soubesse
de metade dos paparicos de que ele se rodeia. Mas assim no se
tenta a faz-lo, pois nunca entra na saleta, e quando o
Linton se pe com parvoces  sua frente, manda-o
imediatamente para o quarto.
   Deduzi de todas estas conversas que a falta de carinho
transformara o pequeno Heathcliff num ser egosta e
antiptico, se  que no era j esse o seu feitio. Isto,
porm, fez diminuir o meu interesse pelo garoto, embora
continuasse a ter pena de ele no ter ficado connosco.
   Mr. Edgar insistia para que eu obtivesse mais informaes;
c para mim, estava sempre com o sobrinho no pensamento, e
estou certa de que estaria at disposto a correr riscos para o
ver. Uma vez, chegou a mandar-me perguntar  governanta se ele
costumava ir  vila.
   Ela disse que ele s l fora duas vezes, a cavalo e na
companhia do pai, e que de ambas as vezes passara trs ou
quatro dias a queixar-se de ter ficado todo derreado.
   Se a memria me no falha, essa tal governanta foi-se
embora dois anos aps a chegada de Linton e foi substituda
por outra que eu no conhecia e que ainda l est.
   Na Granja, o tempo foi correndo placidamente na forma do
costume, at Miss Cathy completar dezasseis anos. O seu
aniversrio nunca era acompanhado de manifestaes de alegria,
por coincidir com o aniversrio da morte da minha antiga
patroa. O pai passava invariavelmente esse dia fechado na
biblioteca e, ao anoitecer, ia at ao cemitrio de Gimmerton,
onde se demorava geralmente at :, depois da meia-noite. Por
conseguinte, Catherine tinha de festejar sozinha.
   Nesse ano, o dia vinte de Maro estava radioso, um
verdadeiro dia de Primavera, e, quando o pai se retirou, a
minha jovem patroa desceu do quarto preparada para sair,
dizendo que lhe tinha pedido licena para ir comigo dar um
passeio pela orla do brejo e que Mr. Linton tinha consentido,
mas s na condio de no nos afastarmos muito e de voltarmos
da a uma hora.
   -- Apressa-te Ellen! -- gritou ela entusiasmada -- Sei
muito bem onde quero ir,  ao lugar onde se instalaram uns
lagpodes; quero ir ver se j fizeram ninho.
   -- Mas isso deve ficar muito longe! -- disse eu. -- Essas
aves no procriam na orla do brejo.
   -- No fica nada -- argumentou ela. -- Estive l uma vez
com o pap e era muito perto.
   Pus a touca na cabea e sa, sem pensar mais no assunto. A
menina saltitava  minha frente, voltava a correr para ao p
de mim e fugia de novo, como um pequeno galgo. A princpio,
distra-me a ouvir as cotovias, ora longe, ora perto, a
saborear o calor ameno do sol, e a vigiar a minha querida
menina, com os seus caracis loiros a cair soltos, as faces
coradinhas, puras e macias como rosas bravas, e os olhos
irradiantes de descuidados prazeres. Nesses tempos ela era
feliz como um anjo. Pena  que isso no lhe tenha
bastado.
   -- Ento, onde esto os seus lagpodes, Miss Cathy? --
disse eu. -- J os devamos ter encontrado. Olhe que j nos
afastmos muito da Granja.
   --  j ali adiante,  j ali adiante, Ellen! -- repetia a


menina. --  s subir aquele monte, passar para l daquele
talude e, quando chegares ao outro lado, j eu terei feito
levantar as aves.
   No entanto, eram tantas os montes e os taludes que tnhamos
de subir e de passar, que comecei a ficar cansada. Achei, por
isso, que o melhor era ficarmos por ali e  voltarmos para
trs.
   Como ela j ia longe, gritei o mais que podia, mas ela ou
no ouviu ou no fez caso, pois continuou a saltitar por ali
fora, obrigando-me a ir atrs. Finalmente, desceu a pique em
direco ao vale, desaparecendo por detrs de um, e, quando
tornei a avist-la, j ela estava umas duas milhas mais perto
do Alto dos Vendavais do que da sua prpria casa. Foi nessa
altura que vi duas pessoas agarrarem-na, uma das quais eu
estava convencida de se tratar do prprio Mr. Heathcliff. :,
   Cathy tinha sido apanhada a roubar ovos ou, pelo menos, a
rondar os ninhos. Aqueles montes eram propriedade de
Heathcliff, que naquele momento repreendia a caadora furtiva.
   -- No roubei nada, nem mexi em nada! -- asseverava Cathy
enquanto eu me aproximava, mostrando as mos para provar o que
dizia. -- No tinha a inteno de os apanhar, mas o pap disse
que havia muitos por aqui e eu s queria ver os ovos.
   Heathcliff olhou para mim com um sorriso sarcstico,
mostrando saber de quem se tratava, e perguntou  menina quem
era o *pap* dela.
   --  Mr. Linton, da Granja dos Tordos -- foi a resposta.
--Pensei que no me tivesse reconhecido, seno no falaria
comigo nesse tom.
   -- Julga ento que o seu pai  muito estimado e respeitado?
-- disse ele, trocista.
   -- E o senhor quem ? -- inquiriu Catherine, observando
atentamente o seu interlocutor. Aquele j eu vi uma vez; 
seu filho? e apontou para Hareton, o segundo indivduo, que
agora, dois anos mais velho, nada mais ganhara durante esse
tempo a no ser fora e corpulncia, j que continuava o mesmo
brutamontes desajeitado de sempre.
   -- Miss Cathy -- intervim -- vai fazer trs horas, e no
uma, que andamos por fora. Temas de regressar!
   -- No, aquele no  meu filho -- respondeu Heathcliff,
empurrando-me para o lado. -- Mas eu tenho um filho e a
menina j o viu. E, embora a sua ama esteja cheia de pressa,
acho que era melhor descansarem as duas um bocadinho. No quer
vir at minha casa?  j ali, por detrs daquele urzal. O
regresso custar-lhe- muito menos depois de descansar, e ter
 sua espera uma calorosa recepo.
   Segredei a Catherine que de forma alguma deveria aceitar o
convite. Nem pensar nisso era bom.
   -- Porqu ? perguntou ela em voz alta -- Estou cansada de
vir a correr e o cho est todo molhado... No me posso
sentar. Vamos, Ellen! Alm disso, ele diz que eu j conheo o
filho; est enganado com certeza. Mas eu acho que sei onde ele
mora... deve ser naquela casa onde entrei quando vinha de
Penistone Crags.  a que o senhor mora, no ?
   --  sim. E tu, Nelly, fica calada e vem dai! Ela h-de
gostar de :, nos fazer uma visita. Hareton, tu vais  frente
com a menina. E tu, Nelly, vens comigo.
   -- No senhor, ela no vai a lado nenhum -- exclamei,
tentando libertar o brao que ele me agarrava. Cathy, porm,
tinha contornado a encosta em louca correria e j ia a chegar
aos degraus do alpendre. Quanto ao seu acompanhante, nem se
deu ao trabalho de fingir que o era: meteu por um atalho e


desapareceu.
   -- Mr. Heathcliff, isto no pode ser! -- insisti -- O
senhor sabe to bem como eu quais so as suas intenes: ela
vai encontrar Master Linton e depois conta tudo ao pai quando
chegar a casa, e quem fica com as culpas sou eu.
   -- Mas eu quero que ela se encontre com o Linton!
--retorquiu Heathcliff. -- Ele tem andado com melhor aspecto
nestes ltimos dias e olha que isso s muito raramente
acontece. E ns j a vamos convencer a manter a visita em
segredo. Que mal h nisso, no me dirs?
   -- O mal  que o pai ficaria furioso comigo se descobrisse
que eu a deixara entrar em sua casa. Alm disso, estou
convencida de que no a convidou com boas intenes.
   -- As minhas intenes so as melhores, e vou j
revelar-tas sem subterfgios -- disse ele. -- Espero que os
dois primos se enamorem e se casem. E olha que estou a ser
at muito generoso para com o teu patro. A descendente dele
no tem futuro nenhum, mas, se satisfizer os meus desejos,
ter desde j a garantia de vir a ser minha herdeira, com o
Linton.
   -- Ento, se o Linton morresse, -- repliquei sim, -- porque
a sua sade  muito instvel, a Catherine seria a nica
herdeira.
   -- No, isso  que ela no seria! -- contraps. No existe
nenhuma clusula no testamento que o determine. Os bens dele
reverteriam a meu favor. Mas... Acabemos com a discusso...
Quero que esta unio se d e estou disposto a consegui-lo.
   E eu estou disposta a nunca mais a deixar aproximar-se da
sua casa enquanto estiver comigo -- ripostei, quando j amos
a chegar  cancela onde Miss Cathy se encontrava  nossa
espera.
   Heathcliff mandou-me ficar calada e foi  frente abrir a
porta.
   A minha jovem patroa no tirava os olhos dele, como se no
soubesse bem o que pensar. Ele, porm, sorria-lhe quando os
seus olhos se cruzavam e amaciava a voz quando falava com ela,
e eu fui suficientemente tola para pensar que a memria da me
dela pudesse dissuadi-lo de lhe querer mal. :,
   Linton estava de p junto  lareira. Via-se que tinha
andado a passear, pois conservava ainda o bon na cabea e
chamava pelo Joseph, para que lhe trouxesse um par de sapatos
enxutos.
   Era muito alto para a idade, pois s da a alguns meses
completaria os dezasseis anos. As feies mantinham-se ainda
muito bonitas, e os olhos e a pele eram mais brilhantes do
que eu me lembrava, embora esse brilho talvez fosse apenas
temporrio, conseguido  custa de bons ares e luz do sol.
   -- Sabe quem  este? perguntou Heathcliff, virando-se para
Cathy --  capaz de adivinhar?
   -- O seu filho? -- alvitrou ela, em dvida, olhando ora
para um, ora para o outro.
   -- Sim sim,  o meu filho. Ento, foi esta a nica vez que
o viu? Pense bem! Ai, mas que memria to fraca. E tu, Linton,
lembras-te da tua prima? O que tu nos fizeste passar para te
deixarmos ir visit-la!
   -- Es mesmo tu, Linton? -- exclamou Cathy, saltando de
espanto e de alegria ao ouvir pronunciar o nome dele. -- 
mesmo o Linton? Est mais alto do que eu. s mesmo tu, Linton?
   O jovem aproximou-se e confirmou que era de facto o Linton.
Cathy beijou-o com fervor e ambos contemplaram admirados as
mudanas que o tempo operara em cada um. Catherine j havia


crescido tudo o que tinha a crescer: o seu corpo era rolio,
mas elegante, flexvel como o ao, e irradiava sade e
vivacidade. A expresso e os modos de Linton eram muito
languidos, e o seu corpo excessivamente magro; havia, no
entanto, nos seus gestos uma graciosidade que compensava os
defeitos e o tornava at uma pessoa agradvel.
   Depois de terem trocado amplas manifestaes de afecto, a
prima foi ter com Mr. Heathcliff que, entre portas, dividia a
ateno entre o que se passava c dentro e o que se passava
l fora, isto , fingia observar o exterior para melhor se
concentrar no interior.
   -- Ento o senhor  meu tio?! -- exclamou Cathy,
esticando-se para o beijar. -- Bem me parecia que simpatizava
consigo, apesar de a princpio se mostrar muito zangado. --
Por que no vai visitar-nos  Granja com o Linton?  muito
estranho sermos vizinhos h tantos anos e nunca ter ido
visitar-nos. Por que no foi?
   -- Fui a sua casa uma ou duas vezes, antes de a Cathy ter
nascido -- disse ele. -- Pare, menina! Se tem assim tantos
beijos para dar, d-os ao Linton, no os desperdice em
mim. :,
   -- Oh, Ellen! -- disse Catherine, atirando-se a mim e
cobrindo-me de beijos -- Com que ento, minha marota, querias
impedir-me de entrar aqui! De futuro darei este passeio todas
as manhs. Posso, tio? E de vez em quando trago o pap comigo.
O tio vai gostar de o ver, no
vai?
   -- Claro que sim! -- respondeu o tio, procurando, em vo,
disfarar um esgar de repulsa. -- Mas, espera l... Pensando
bem, acho melhor dizer-lhe uma coisa: Mr. Linton no gosta de
mim. Uma vez envolvemo-nos numa discusso encarniada com uma
violncia bem pouco crist e, se lhe disser que veio c a
casa, tenho a certeza de que ele por fim s suas visitas.
Ser portanto melhor no lhe contar nada, a menos que prefira
no voltar a ver o seu primo. Pode vir sempre que quiser, Miss
Linton, mas no diga nada ao seu pai.
   -- E por que  que discutiram? -- perguntou Cathy, muito
pesarosa.
   -- Ele achava-me demasiado pobre para casar com arma --
respondeu Heathcliff -- e no se conformou quando eu casei
com ela; feri-lhe o orgulho e ele jamais me perdoar.
   -- Mas isso no est certo! -- exclamou Catherine. -- Um
dia destes ainda lho digo. Eu e o Linton no temos culpa das
vossas desavenas. Nesse caso, em vez de vir c eu, vai o
Linton a minha casa.
   --  muito longe para mim! -- queixou-se Linton. -- Uma
caminhada de quatro milhas dava cabo de mim. No, tem de vir
c a menina, Miss Catherine! Mas no precisa de ser todas as
manhs, basta duas vezes por semana.
   O pai lanou-lhe um olhar de amargo desprezo.
   -- Parece que vou perder o meu tempo, Nelly -- voltou a
segredar Heathcliff -- *_Miss* Catherine, como o sonsinho lhe
chama, depressa descobrir o que ele vale e h-de mand-lo
para o diabo. Ai, se fosse o Hareton! Sabes que o invejo mais
de vinte vezes ao dia, apesar de toda a sua brutalidade? Era
at capaz de gostar dele, se ele fosse outro qualquer; mas
acho que do amor dela est ele livre. Hei-de faz-lo medir
foras com aquela criatura desprezvel, a menos que o Linton
se resolva a sair da letargia em que tem vivido. Parece-me bem
que j nem chega aos dezoito anos. Raios partam tanta
sensaboria! Ele ali todo entretido  espera de que os ps lhe


sequem, e nem se digna olhar para ela. Oh, Linton!
   -- Sim, pai -- respondeu o rapaz.
   -- No h nada que queiras ir mostrar  tua prima? Nem ao
:, menos um coelho ou uma toca de doninhas? Leva-a at ao
quintal antes de trocares de sapatos. E vai ao estbulo
mostrar-lhe o teu cavalo.
   -- No acha melhor ficarmos aqui? -- perguntou Linton a
Catherine, num tom que denunciava bem a sua relutncia em
voltar a sair.
   No sei... -- respondeu ela, deitando um olhar esperanado
para a porta, cheia de vontade de ir fazer qualquer
coisa.
   Ele, porm, chegou-se ainda mais para o lume, todo
encolhido.
   Heathcliff levantou-se e passou para a cozinha e da para o
ptio, pondo-se a chamar pelo Hareton. O rapaz acorreu ao
chamado e voltaram ambos para a sala. Hareton acabara de se
lavar, como era visvel pelas faces lustrosas e o cabelo
molhado.
   -- Tio, tenho de lhe fazer uma pergunta -- disparou Cathy,
lembrando-se da informao da governanta. -- Esse a no 
meu primo, pois no?
   --  sim.  sobrinho da tua me. Porqu? No gostas dele?
   Catherine ficou embaraada.
   -- No o achas um belo rapaz? -- continuou ele.
   A atrevida ps-se em bicos de ps e segredou qualquer coisa
ao ouvido do tio.
   Heathcliff deu uma gargalhada e Hareton baixou a cabea.
Percebi que o rapaz era muito sensvel  mais pequena
desconsiderao e que tinha, obviamente, uma noo muito vaga
da sua inferioridade. Mas o patro, ou o tutor, depressa o
animou, dizendo:
   -- Tu sers de entre todos ns o preferido, Hareton! Ela
diz que tu s... como ? Bem, qualquer coisa muito lisonjeira.
Olha, vai tu dar uma volta com ela pela quinta. Mas, v l,
porta-te como um cavalheiro! Nada de palavres nem de te pores
embasbacado a olhar para a tua prima quando ela no estiver a
olhar para ti, e prepara-te para baixares os olhos quando
estiver; e, quando falares, articula as palavras devagar e no
fales com as mos nos bolsos. E, agora, vai e distrai-a o
melhor que puderes.
   Heathcliff ficou a ver o par passar debaixo da janela. A
expresso de Earnshaw era completamente diferente da sua
companheira: parecia observar aquela paisagem to sua
conhecida com a ateno de um estranho ou de um
artista.
   Catherine olhou-o de soslaio, com bem pouca admirao. Mas
logo desviou a ateno, pondo-se  procura de coisas que a :,
distrassem, continuando alegremente o seu passeio
e trauteando uma cantiga para suprir a falta de assunto.
   -- Pronto, cortei-lhe a lngua! -- comentou Heathcliff. --
Agora  que ele no se atreve a dizer uma palavra! Nelly, tu,
que te lembras de mim com esta idade... com esta idade,
no... at uns anos mais novo, ora diz l a verdade: alguma
vez fui assim to estpido, to bronco, como o Joseph
costuma dizer?
   -- Era muito pior! -- respondi eu -- Porque andava sempre
mal encarado.
   -- Tenho um certo orgulho nele -- disse, continuando a
pensar em voz alta. -- Satisfez todas as minhas expectativas.
Se j tivesse nascido idiota, no lhe acharia nem metade da


graa; mas de idiota ele no tem nada, e eu sou capaz de
compreender todos os seus sentimentos, porque j os
experimentei; avalio, por exemplo, muito bem o que ele est a
passar neste momento. Claro que isto  s uma amostra do que
ele h-de vir a sofrer mais tarde; nunca ser capaz de se
libertar das garras da grosseria e da ignorncia. Tenho-o mais
bem preso do que o velhaco do pai dele me tinha a mim, e mais
degradado, pois este tem orgulho na sua brutalidade. Ensinei-o
a desprezar tudo o que no seja grosseiro como sinal de
fraqueza e pieguice. No te parece que o Hindley se orgulharia
do filho, se o visse agora? Quase tanto como eu me orgulho do
meu. H, no entanto, uma diferena: um  ouro usado para
pavimentar o cho e o outro  lata polida a imitar prata. O
*meu* no vale nada, mas eu terei o mrito de o ajudar a
chegar to longe quanto pode ir um sujeito sem prstimo. O
*dele* possua excelentes qualidades que se perderam, que eu
soube tornar piores do que se ele j fosse destitudo de
valor. Eu no tenho nada a lamentar; ele sim, e s eu sei o
quanto. A ironia mxima  que o Hareton  doido por mim. Tens
de reconhecer que neste ponto levei a palma ao Hindley: se o
patife pudesse erguer-se da sepultura para me insultar pelo
mal que causei ao filho, eu teria a satisfao de ver esse
filho recambi-lo para a cova, indignado por o pai se atrever
a injuriar o nico amigo que ele tem no mundo.
   Heathcliff soltou uma gargalhada. No respondi, pois
percebi que neo esperava resposta.
   Entretanto, o nosso jovem companheiro, que estava algo
distante para nos ouvir, comeou a dar sinais de inquietao,
provavelmente arrependido de se ter privado da agradvel
companhia de Catherine s por medo de se fatigar. :,
   O pai, reparando nos olhares ansiosos que ele deitava 
janela e na mo hesitante que estendia para o bon, interveio:
   -- Mexe-te, preguioso! -- gritou-lhe, com afectado
entusiasmo.  -- Vai atrs deles. Ainda s vo a chegar 
esquina, junto aos cortios.
   Linton fez das fraquezas foras e deixou a lareira para
trs. A janela estava aberta e, quando ele ia a sair, ouvi
Cathy perguntar ao seu lacnico companheiro qual o significado
da inscrio gravada por cima da porta. Hareton ergueu os
olhos, embasbacado, e coou a cabea como um verdadeiro
labrego;
   -- Que letras to esquisitas! murmurou. No consigo ler
nada.
   -- No consegues ler? -- exclamou Catherine. Ler consigo
eu, pois se est escrito em ingls... O que eu quero  saber
por que l esto.
   Linton deixou escapar uma risadinha -- a sua primeira
manifestao de alegria.
   -- Pois se ele nem o nome sabe ler! -- disse, virando-se
para a prima. -- Alguma vez imaginou que pudesse existir um
burro assim?
   -- Ele tem o juzo todo, ou  um pouco simplrio e no bate
l muito certo? -- perguntou Cathy, muito sria -- J lhe fiz
duas perguntas e, de cada vez, ele fez c uma cara de
estpido... at parece que no percebe o que eu digo. Palavra
que no o entendo!
   Linton riu-se de novo e deitou um olhar furtivo a Hareton
que no parecia estar a entender nada do que se passava.
   -- Isso  tudo preguia, no  verdade, Earnshaw? A minha
prima julga que s um idiota. Ora a tens no que d dizeres
que letras so tretas... J reparou, Catherine, no horroroso


sotaque do Yorkshire que ele tem.
   -- P.ra que diabo prestam as letras? -- resmungou Hareton,
agora disposto a dar troco ao companheiro. E no teria ficado
por ali, se os outros dois no tivessem desatado a fazer
troa: a tonta da minha menina estava radiante por descobrir
que se podia divertir  custa do palavreado dele.
   -- Que tem o diabo a ver com o que disseste? -- perguntou
Linton. -- O meu pai j te avisou para no dizeres asneiras e
tu, mal abres a boca, atiras logo uma c para fora. V l!
Tenta portar-te como um cavalheiro! :,
   -- Se no fosses mais rapariga que rapaz, rachava-te j de
alto a baixo, meu xoninhas! -- respondeu o brutamontes, fora
de si, afastando-se com a cara a escaldar de raiva e
humilhao, pois sabia que tinha sofrido uma agresso, mas no
sabia como defender-se.
   Mr. Heathcliff, que, tal como eu, ouvira a discusso,
sorriu ao v-lo afastar-se, mas, logo a seguir, lanou um
olhar de refinado dio ao parzinho petulante que ficara a
tagarelar  porta: o rapaz, todo feliz, a apontar os defeitos
e as limitaes de Hareton e a contar anedotas acerca dele, e
a menina a saborear toda aquela maledicncia, sem pensar na
m ndole que isso revelava. E eu, nessa altura, comecei a
sentir por Linton menos compaixo e mais antipatia, dando at
certo ponto razo ao pai para o desprezar.
   Fomo-nos deixando ficar at  tarde, pois no consegui
arrancar Miss Cathy de l mais cedo. Por sorte, o meu patro
no tinha sado dos seus aposentos e, assim sendo, no deu
pela nossa prolongada ausncia.
   No regresso, tentei elucidar Cathy sobre o caracter das
pessoas com quem tnhamos estado, mas ela havia metido na
cabea que eu tinha m vontade contra elas.
   -- Ai, ai, Ellen! Tomaste o partido do pap! Tenho a
certeza. Se no, porque me enganarias tu durante tantos anos,
fazendo-me crer que o Linton vivia muito longe daqui? Estou
muito zangada contigo, mas estou tambm to contente que no
consigo mostr-lo. E v l como falas do meu tio. No te
esqueas de que ele  meu tio. Hei-de tambm ralhar ao pap
por ter cortado relaes com ele.
E continuou a arengar, at eu desistir de a convencer de que
estava a cometer um erro.
   Nessa noite no falou ao pai na visita porque no o chegou
a ver. Mas no dia seguinte, para mal dos meus pecados, ps
tudo em pratos limpos. Por um lado, no achei mal, pois
cabia-lhe mais a ele do que a mim a tarefa de prevenir e
aconselhar a filha. Mr. Linton, porm, mostrou-se muito
titubeante a apresentar as razes que o levavam a no querer
que a filha se desse com os vizinhos do Alto dos Vendavais, e
ela queria conhecer sempre os motivos de tudo o que lhe
cerceasse os seus caprichos de menina mimada.
   -- Pap -- comeou Catherine depois de o cumprimentar pela
manh -- adivinhe quem eu encontrei ontem no meu passeio pela
Charneca? Oh, pap, o senhor estremeceu! No procedeu nada
bem, sabia? Eu que o diga... Mas escute-me e j vai ficar a
saber como eu descobri tudo... e que a Ellen tambm era sua
aliada, :, fingindo ter muita pena de mim, quando eu, sem
grandes esperanas, lhe perguntava quando voltava o Linton.
   A menina fez um relato pormenorizado do passeio e o mais
que se seguiu, e o meu patro, embora me dirigisse por mais de
uma vez olhares de censura, no abriu a boca at ela terminar.
Chegada ao fim, puxou-a para si e perguntou-lhe se conhecia a
razo pela qual ele lhe ocultara a existncia de tais


vizinhos. Ou julgaria ela que fora apenas para a privar de um
prazer de que ela pudesse ter disfrutado sem inconvenientes?
   -- Foi por o pai no gostar de Mr. Heathcliff -- disse ela.
   -- Ento tu pensas que prezo mais os meus sentimentos do
que os teus, Cathy? No, no foi por isso, mas sim porque Mr.
Heathcliff no gosta de mim e  uma criatura diablica, que
se compraz em desgraar os que ele odeia, mal eles lhe do a
mais pequena oportunidade. Sabia que no podias conviver com o
teu primo sem acabares por encontrar o pai dele, o qual, por
minha causa, iria detestar-te. Assim, e somente para teu bem,
tomei as precaues necessrias para que no tornasses a ver o
Linton. Fazia teno de te contar tudo um dia mais tarde,
quando fosses mais crescida, mas agora lamento t-lo protelado
tanto!
   -- Mas, pap, Mr. Heathcliff foi at muito cordial
contraps Cathy, pouco convencida. -- E no levantou qualquer
objeco a que nos encontrssemos outra vez. Disse-me que
podia ir l a casa sempre que quisesse, mas que no lhe
contasse nada, porque o senhor estava zangado com ele e no
lhe perdoava por ele se ter casado com a tia Isabella; e est
visto que no lhe perdoou. Quem deve ser censurado  o pap;
ele, pelo menos, consente que eu e o Linton sejamos amigos, e
o senhor no.
   O meu patro, ao aperceber-se de que a filha no acreditava
no que ele lhe havia dito sobre as ms intenes do tio,
descreveu-lhe em traos largos a conduta de Heathcliff para
com Isabella e o modo como o Alto dos Vendavais viera
parar-lhe s mos. Era-lhe penoso alongar-se muito sobre este
assunto, pois embora s
raramente o aflorasse, continuava a sentir pelo seu
arqui-inimigo o mesmo horror e o mesmo dio que lhe haviam
inundado o corao desde a morte de Mrs. Linton. _Se no
fosse ele, ela ainda podia estar viva!: esta era a sua
constante e amarga obsesso; a seus olhos, Heathcliff era um
assassino.
   Miss Cathy que, no tocante a ms aces s possua a
experincia :, das suas prprias desobedincias, injustias e
arrebatamentos, motivados pelo seu temperamento fogoso e
irreflectido, e dos quais se arrependia logo no mesmo dia,
estava abismada com uma tal caliginosidade de esprito, capaz
de ruminar vinganas durante anos a fio, seguindo
deliberadamente um plano estabelecido, sem sombra de remorso.
Ficou de tal maneira chocada e impressionada com esta nova
faceta da natureza humana, to fora at a das suas
cogitaes, que Mr. Edgar achou melhor no insistir na
questo, limitando-se a acrescentar:
   -- Agora, minha querida, j ficaste a saber a razo pela
qual desejo que te mantenhas afastada da casa dele e da
famlia dele. Volta para as tuas ocupaes e para as tuas
brincadeiras e no penses mais naquela gente!
   Catherine deu um beijo ao pai e passou horas entregue s
suas lies, como de costume. Depois, foi dar um passeio com o
pai pela propriedade, e o dia decorreu como qualquer outro.
Quando  noite, porm, se retirou para o quarto e a fui ajudar
a despir-se, dei com ela a chorar ajoelhada aos ps da cama.
   -- Que vergonha! No seja tontinha! -- exclamei. -- Se
soubesse o que  ter um desgosto, no gastava lgrimas por
to pouco; a menina nunca teve nada que se parecesse com um
desgosto. Imagine que eu e o seu pai morramos e a menina
ficava sozinha no mundo; como  que se ia sentir nessa altura?
Compare o que se passou agora com uma aflio dessas e d


graas a Deus pelos amigos que tem, em vez de querer sempre
mais e mais.
   -- No  por mim que choro, Ellen -- respondeu. --  por
ele; ele est  minha espera amanh, l em casa, e vai ter uma
desiluso; vai ficar  espera e eu no apareo!
   -- Ora, menina, julga que ele pensa tanto em si como a
menina pensa nele? E ento ele no tem o Hareton para lhe
fazer companhia? Ningum chora por deixar de ver uma prima que
s viu duas vezes, em duas tardes. O Linton vai perceber o que
se passou e no se preocupar mais com o assunto.
   -- Mas no posso ao menos escrever-lhe um bilhete a
explicar a razo por que no vou? -- perguntou, pondo-se de
p. -- E mandar-lhe s estes livros que prometi
emprestar-lhe? Os livros do Linton no so to bons como os
meus e ele ficou cheio de vontade de os ler quando eu lhe
disse como eram interessantes. Posso, no posso, Ellen?
   -- No, no pode. De maneira nenhuma! disse eu, :,
peremptria. E depois ele ia responder-lhe e nunca mais
acabava. No, Miss Catherine, tm de cortar relaes
completamente.  isso que o seu pai quer e eu zelarei para que
assim seja.
   -- Mas como  que um simples bilhetinho podia... --
recomeou ela, com splicas no olhar.
   -- Silncio! -- atalhei. No vamos voltar a essa histria
dos bilhetes. V, toca a ir para a cama!
   Lanou-me um olhar furioso, to furioso que a princpio nem
lhe dei o habitual beijo de boas-noites; tapei-a e sa do
quarto bastante arreliada. Porm, arrependi-me a meio do
caminho e voltei atrs sem fazer barulho; e que vejo eu? A
minha menina de p junto ao toucador, com uma folha em branco
 sua frente e de lpis na mo, coisas que tentou esconder
muito atrapalhada assim que me ouviu
entrar.
   -- No conte com ningum para lhe levar isso, Catherine --
observei. -- E agora vou apagar a vela.
   Ia colocar o apagador sobre a vela quando levei uma palmada
na mo, acompanhada de um petulante sua velha rabugenta!.
Retirei-me e ela veio a correr fechar a porta  chave, num
dos seus piores ataques de mau gnio.
   A carta foi escrita e feita chegar ao destinatrio por
intermdio de um rapaz da vila que vinha  Granja buscar
leite, mas isso s mais tarde eu descobri. As semanas foram
passando e Cathy recuperou o seu bom-humor, embora mostrasse
cada vez mais tendncia para se refugiar pelos cantos. E,
muitas vezes, quando estava a ler e eu aparecia de surpresa,
tinha um sobressalto e inclinava-se sobre o livro com a
inteno evidente de o esconder; mas no sem que eu detectasse
umas pontinhas de papel a espreitar por entre as folhas.
   Apanhou o tique de vir passear de manh cedo nas imediaes
da cozinha, como se estivesse  espera de alguma coisa, e
havia tambm uma gavetinha do armrio da biblioteca que ela
passava horas a vasculhar, muito entretida, e cuja chave tinha
sempre o cuidado de levar consigo.
   Um dia, quando ela estava a mexer na gaveta, reparei que os
brinquedos e as bugigangas que anteriormente constituam o seu
contedo, haviam sido substitudos por papelinhos dobrados, o
que me despertou a curiosidade e a desconfiana, pelo que
decidi dar uma vista de olhos a to misteriosos tesouros. :,
   Nessa noite, depois de todos j estarem recolhidos,
procurei no meu molho de chaves uma que servisse na fechadura
da dita gaveta; abri-a e despejei para o avental tudo quanto


l encontrei, levando as coisas para o meu quarto para as
examinar mais  vontade.
   Embora j tivesse suspeitas, fiquei mesmo assim
surpreendida ao descobrir que se tratava da j volumosa
correspondncia enviada quase diariamente por Linton
Heathcliff em resposta aos bilhetes que ela lhe mandava. As
primeiras cartas eram breves e envergonhadas, mas iam-se
mostrando gradualmente mais afoitas, at se tornarem em longas
cartas de amor repletas de tolices, como era prprio da idade
do seu autor, mas com alguns toques aqui e ali dados por mo
mais experiente.
   Algumas delas impressionaram-me pela forma singular como
nelas se misturavam o arrebatamento e a sensaboria, abrindo
com manifestaes do mais genuno amor e terminando num estilo
palavroso e afectado, prprio de um colegial dirigindo-se a
uma namorada imaginaria.
   Se faziam as delcias de Cathy, isso no sei, mas c para
mim no passavam de um monte de baboseiras.
Aps ter lido as que achei que devia ler, embrulhei-as num
leno e guardei-as bem guardadas, voltando em seguida a fechar
a gaveta vazia.
   Como era seu hbito, a menina levantou-se muito cedo e foi
para a cozinha: vi-a acercar-se da porta quando chegou um
certo rapaz e, enquanto a criada da vacaria enchia a vasilha,
Cathy meteu qualquer coisa no bolso do casaco do dito
rapazote, tirando de l outra.
   Dei a volta ao quintal e apanhei o rapaz; ele lutou to
desesperadamente para defender o que lhe havia sido confiado
que at entornou o leite quase todo, mas acabei por me
apoderar da epstola e, depois de o ameaar de que lhe sairia
muito caro se no voltasse direito para casa, deixei-me ficar
encostada ao muro a ler a carta de amor de Miss Cathy. Era
mais simples e mais eloquente que a do primo, muito bonita e
muito tonta. Abanei a cabea e fui para casa pensar. Estando o
dia chuvoso como estava, e no podendo ir passear para o
parque, a menina, mal terminou de estudar as lies daquela
manh, foi procurar consolo na gaveta. O pai estava sentado 
mesa a ler e eu pus-me de propsito a consertar :, umas
franjas dos cortinados da janela, para poder seguir todos os
seus movimentos.
   Nunca ave alguma, ao regressar ao ninho devassado que havia
deixado repleto de filhinhos chilreantes, exprimiu maior
desespero, com os seus pios angustiados, do que ela com aquele
simples _Oh! e com a transfigurao que se operou no rosto
alegre que a acompanhava ultimamente. Mr. Linton ergueu os
olhos.
   -- Que foi, minha filha, magoaste-te? -- inquiriu.
   Pelo seu tom de voz e expresso do olhar, Cathy teve a
certeza de que no fora ele quem descobrira o
tesouro.
   -- No, pap -- balbuciou. -- Ellen, Ellen, vem comigo l
acima, no me estou a sentir muito bem.
   Obedeci e acompanhei-a ao quarto.
   -- Oh, Ellen, foste tu, no foste? Foste tu que mas
tiraste! -- disparou, de chofre, deixando-se cair de joelhos
quando ficmos sozinhas no quarto.
   -- Oh, Ellen, devolve-mas e eu no torno mais. No digas
nada ao pap. Ainda no disseste, pois no ? Sei que me portei
muito mal, mas no torno mais, prometo.
   Com o semblante carregado, mandei-a pr-se de p e
disse-lhe zangada:


   -- Sim senhora, Miss Catherine, desta vez a menina foi
longe demais, no lhe parece? Devia ter vergonha! Que lindas
baboseiras a menina l nas horas vagas! At valia a pena
mand-las imprimir! E o que pensa a menina que o senhor vai
dizer quando eu lhas mostrar? No o fiz ainda, mas no julgue
que vou guardar esse seu segredo ridculo. Que vergonha! E
deve ter sido a menina quem comeou a escrever todos estes
disparates; o Linton no se atreveria
a ser o primeiro.
   -- No, no fui! -- volveu Cathy, a soluar. -- Nem me
passava pela cabea que pudesse vir a am-lo, at que...
   -- Vir a am-lo! repeti, articulando as palavras da maneira
mais trocista possvel. Am-lo! Onde j se viu tal disparate.
Ento eu tambm podia dizer que amava o moleiro que vem c
buscar o nosso cereal uma vez por ano. Lindo amor, no haja
dvida! Pois se a menina, das duas vezes que o viu, no chegou
a estar com ele ao todo nem quatro horas! Ora aqui est o
monte de disparates; vou lev-lo para a biblioteca e veremos o
que o seu pai tem a dizer a esse tal amor. :,
   Catherine tentou surripiar-me as suas preciosas epstolas,
mas eu levantei-as no ar, bem acima da cabea, e ela comeou
ento a implorar-me que as queimasse, que lhes fizesse
qualquer coisa menos entreg-las ao pai. Para ser franca, e
perante tamanha criancice, apetecia-me tanto rir como
ralhar-lhe; por fim, acabei por ceder e perguntei:
   -- Se eu concordar em queim-las, promete que no volta a
escrever nem a receber mais cartas, nem mais livros, pois
desconfio que lhos tem mandado; nem mais madeixas de cabelo,
nem anis, nem brinquedos?
   -- Nunca lhe mandei brinquedos! -- disse Catherine toda
ofendida.
   -- Seja l o que for -- repliquei. -- Se no prometer, vou
imediatamente mostrar isto tudo a Mr. Linton.
   -- Prometo, sim, Ellen, eu prometo! -- E chorava, agarrada
ao meu vestido.
   -- Queima-as, por favor!
   Mas quando me viu pegar no atiador para abrir uma cova no
borralho, no suportou o suplcio e implorou que lhe guardasse
uma ou duas cartas.
   -- Uma ou duas, Ellen, para ficar com uma recordao do
Linton!
   Desamarrei o leno e comecei a atir-las uma a uma para a
chama, que recrudesceu, subindo pela chamin.
   -- Deixa-me ficar pelo menos com uma, minha grande peste!
--  implorou Cathy, metendo a mo nas brasas sem se importar
de queimar os dedos, para retirar alguns pedaos de papel
chamuscado.
 -- Muito bem, guardarei ento algumas para mostrar ao seu
pai!  -- disse eu, embrulhando no leno as que restavam e
encaminhando-me para a porta.
   Ela lanou  fogueira os pedaos chamuscados que de l
havia tirado e fez-me sinal para que queimasse o resto. Assim
fiz, deitando-lhe por cima mais uma pazada de carvo. E
enquanto ela, silenciosa e ofendida, se retirava para o
quarto, desci para informar o meu patro de que a indisposio
da menina j tinha passado, mas que me parecera conveniente
que ficasse deitada por mais algum tempo.
   Catherine no quis vir jantar e s apareceu  hora do ch,
muito :, plida e com os olhos vermelhos, mas tentando
disfarar o m ais possvel. Na manh seguinte respondi  carta
de Linton com um bocado de papel onde escrevi: _Peo a Master


Heathcliff o favor de no mandar mais bilhetes a Miss Linton,
pois ela no os receber. E, da em diante, o tal rapaz
passou a vir de bolsos vazios.
CAPTULO XXII
   O Vero estava a chegar ao fim com os primeiros alvores de
Outono. O dia de So Miguel j l ia, mas nesse ano as
colheitas estavam atrasadas e havia searas ainda por
ceifar.
   Mr. Linton costumava ir muitas vezes com a filha assistir 
ceifa, por l se demorando at ao anoitecer, at ao carregar
dos ltimos molhos, e, como a noite chegava fria e hmida, o
meu patro acabou por apanhar uma forte constipao,
persistente e teimosa, que lhe atacou os pulmes, retendo-o em
casa todo o inverno quase ininterruptamente.
   A pobre Cathy, abalada com o seu desaire amoroso, andava
consideravelmente mais triste e melanclica desde o sucedido,
pelo que o pai a aconselhara a ler menos e a fazer mais
exerccio. Vendo-a privada da companhia do pai, achei ser meu
dever substituir a sua ausncia; mas revelei-me bem fraca
substituta, pois se, por um lado, os meus afazeres do
dia-a-dia no me deixavam mais que duas ou trs horas para lhe
fazer companhia, por outro, era bvio que a minha presena lhe
agradava menos que a do pai.
   Foi numa tarde de Outubro, ou talvez dos comeos de
Novembro, uma tarde fria e chuvosa, em que os prados e as
veredas gemiam com a restolhada das folhas mortas e molhadas,
e o cu azul glacial se cobriu subitamente de esguias nuvens
negras, vindas do poente, que pressagiavam borrasca; pedi 
minha menina que desistisse do passeio, pois decerto a chuva
no tardava por a, mas ela no me atendeu. Bem contra minha
vontade, pus o capote pelas Costas e peguei no guarda-chuva
para acompanhar num passeio at ao fundo do parque, como era
seu hbito sempre que se sentia deprimida, o que
invariavelmente acontecia quando o pai piorava; no que ele se
queixasse, mas era fcil de adivinhar pelo seu crescente
mutismo e semblante melanclico. :,
   Cathy caminhava acabrunhada, sem querer saber de
saltos nem correrias, embora o vento gelado a convidasse
a ensaiar uma corrida. Por diversas vezes, olhando-a
dissimuladamente, a vi erguer a mo e pass-la pelo
rosto.
   Olhei em redor  procura de alguma coisa que a pudesse
distrair. De um lado do caminho erguia-se uma barreira de
terra orlada de aveleiras e carvalhos raquticos em instvel
equilbrio, com as razes meio-descobertas: a terra estava
demasiado solta para agarrar os carvalhos, e o vento fizera
vergar alguns quase na horizontal. Durante o Vero, Miss Cathy
adorava trepar a estas rvores e sentar-se nos ramos,
deixando-se ficar a baloiar a vinte ps do cho, enquanto eu,
apesar de achar graa  sua agilidade e alegria de criana,
no me coibia de lhe dar um raspanete sempre que a via
empoleirada, dando-lhe no entanto a entender ao mesmo tempo
que no precisava de descer. E ela l ficava at  hora do
jantar naquele bero embalado pela brisa, a entoar velhas
canes que eu lhe ensinara ou a ver os passarinhos
darem de comer aos filhos e ensinarem-nos a voar, ou
ento, aninhava-se de olhos fechados na ramada, entre o sonho
e a meditao, to feliz que no sei exprimi-lo por palavras.
   -- Olhe, menina! -- exclamei, apontando para uma


reentrncia por debaixo da raiz de uma rvore retorcida.
--Ainda no chegou o Inverno. Estou a ver ali uma flor, a
ltima daquele manto lils de campainhas que em Julho cobria
os socalcos verdejantes. No quer ir l apanh-la, para
mostrar ao seu pai?
   Cathy contemplou demoradamente a florinha solitria que
estremecia no seu esconderijo e, por fim, respondeu:
    -- No, no a vou tirar dali. Tem um ar to triste, no
achas, Ellen?
   -- Pois tem... quase to frgil e definhada como a menina,
com essas suas faces to descoradinhas. D c a mo e vamos
fazer uma corrida. Est to fraquinha que at eu a consigo
acompanhar.
 -- No me apetece -- disse ela, continuando a caminhar
vagarosamente, apenas se detendo aqui e alm a olhar
pensativa ora para o musgo, ora para algum tufo de erva seca,
ora para algum cogumelo garridamente alaranjado que despontava
entre o amontoado de folhas amarelecidas. E, volta no volta,
l levava ela a mo  cara.
   -- Catherine, por que chora a minha lindinha? -- perguntei,
:, aproximando-me dela e enlaando-a. -- No vale a pena
chorar s porque o seu pai est constipado. Devia dar graas a
Deus por no ser coisa pior.
   Ela, ao ouvir estas palavras, no conseguiu reter as
lgrimas e respondeu, com a voz embargada pelos
soluos:
   -- Vai ser muito pior, eu sei -- lamentou-se. -- E que vai
ser de mim quando o pap e tu me deixarem e eu ficar sozinha?
No consigo esquecer as tuas palavras, Ellen, no me saem da
cabea: como toda a minha vida se modificar, como ser triste
o mundo quando tu e o pap morrerem.
   -- Sabe-se l se no  a menina que morre primeiro! --
atalhei. -- No se deve pensar nas coisas ms. Vamos  desejar
que passem ainda muitos e muitos anos at um de ns morrer: o
patro  novo e eu sou forte e ainda no cheguei aos quarenta
e cinco anos. A minha me viveu at aos oitenta, sempre rija
at ao fim. Suponha que Mr. Linton dura at aos sessenta: para
isso ainda faltam mais anos do que os que a menina tem de
idade. Ento no  uma tolice chorar por uma desgraa que s
vai acontecer daqui a mais de vinte anos?
   -- Mas a tia Isabella era mais nova que o pap! --
argumentou, voltando para mim os olhos, esperanada,  procura
de nova conolao.
   -- A tia Isabella no nos tinha, nem a si nem a mim, para
cuidarmos dela -- expliquei. -- No era feliz como o patro
e, por isso, no tinha tantas razes para viver. O que a
menina tem de fazer  cuidar bem do seu pai e alegr-lo
mostrando-se tambm alegre, e evitar dar-lhe desgostos;
preste ateno, Cathy, no lhe vou mentir: o que o poderia
matar era a menina ser rebelde e leviana e alimentar uma
afeio tonta e fantasiosa pelo filho de um homem que ficaria
radiante se visse o seu pai na sepultura, ou deix-lo
perceber que a menina no se conformou com a separao que
ele achou por bem impor-lhe.
   -- A nica coisa com que eu no me conformo  com a doena
do pap -- replicou a minha companheira. -- O resto no se lhe
pode comparar. Ouve bem, Ellen, nunca, nunca mais, enquanto
estiver no meu juzo perfeito, eu farei ou direi alguma coisa
que o magoe. Amo-o mais do que a mim mesma. Sei que assim 
porque rezo todas as noites para que Deus o leve primeiro a
ele, para lhe poupar o sofrimento; prefiro ser eu a sofrer.


Isto prova que o amo mais do que a mim mesma. :,
   -- Bonitas palavras -- volvi eu. -- Mas  preciso que os
actos lhes correspondam. E, quando ele se restabelecer,
lembre-se de que no nos devemos esquecer das promessas feitas
nas horas de aflio.
   Enquanto assim conversvamos, fomo-nos aproximando de um
porto que dava para a estrada. A minha menina, de novo
transbordante de alegria, trepou para cima do muro, sentou-se
l no alto e ps-se a colher as bagas escarlates dos ramos
mais elevados das roseiras bravas que sombreavam a berma do
caminho; dos ramos mais baixos as bagas haviam j
desaparecido, e aos de cima s os pssaros conseguiam chegar;
isto , os pssaros e a minha Cathy, na posio em que se
encontrava. Porm, ao esticar-se mais para as apanhar, deixou
cair o chapu e, como o porto estava fechado  chave,
resolveu saltar para a estrada para o ir apanhar.
Recomendei-lhe que tivesse cuidado para no cair e ela
desapareceu num abrir e fechar de olhos. Contudo, o regresso
revelou-se tarefa bem mais espinhosa: as pedras eram lisas e
cimentadas e os ramos das roseiras e das silvas no
facilitavam a subida. Eu, feita tola, s me apercebi disso
quando a ouvi a rir e a gritar do lado de l.
   -- Ellen, tens de ir buscar a chave, seno tenho de ir de
volta at  casa do caseiro. Por este lado no consigo escalar
o muro.
   -- A menina no saia da -- respondi. -- Tenho aqui o
chaveiro e talvez alguma destas chaves d. Se no der, ento
vou buscar a outra.
   Catherine entretinha-se a danaricar para trs e para a
frente diante do porto, enquanto eu ia experimentando, uma a
uma, todas as chaves grandes; mas cheguei  ltima e nenhuma
abriu. Assim, voltei a recomendar-lhe que no sasse de onde
estava e preparava-me j para ir a casa numa corrida, quando
um som me fez parar. Era o trote de um cavalo.
   Cathy parou de danar e, no minuto imediato, o cavalo parou
tambm.
   -- Quem ? -- perguntei, baixando a voz.
   -- Ai, Ellen, quem me dera que pudesses abrir o porto --
respondeu ela, aflita, falando tambm baixinho.
   -- Ol, Miss Linton! -- bradou uma voz, a do cavaleiro. --
Bons olhos a vejam! No tenha pressa de entrar, pois quero
pedir-lhe uma explicao que decerto no se furtar a dar-me.
   -- Eu no falo consigo, Mr. Heathcliff -- retorquiu
Catherine. O pap diz que o senhor  diablico e que nos
detesta a todos, e a Ellen diz o mesmo. :,
   -- Isso agora no vem ao caso -- vociferou Heathcliff (pois
era dele que se tratava). -- Eu no detesto o meu filho, que
eu saiba, e  por ele que lhe peo um pouco de ateno. Sim,
sim, bem pode corar! No  verdade que h dois ou trs meses
costumava mandar cartinhas de amor ao Linton? Era s para se
divertir, no era? Deviam apanhar os dois uma boa sova,
especialmente a menina, por ser a mais velha e a menos
ajuizada, ao que parece. Tenho todas as suas cartas em meu
poder e, se comear com impertinncias, mando entreg-las ao
seu pai. Presumo que se tenha fartado e atirado o devaneio
para trs das costas, no  assim? Pois fique sabendo que
atirou tambm o Linton para as ruas da amargura. Ele est
seriamente apaixonado por si e, to certo como eu estar vivo,
no tarda a morrer por sua causa; est com o corao
despedaado, no em sentido figurado, mas de uma forma bem
real. E embora o Hareton tenha feito dele o bombo da festa


nestas ltimas seis semanas, e eu tenha tomado medidas mais
drsticas para ver se o fao sair do torpor em que se
encontra, o certo  que piora de dia para dia e estar debaixo
dos torres antes do prximo Vero. A menos que a menina o
cure!
   -- Como pode o senhor mentir to descaradamente  pobre
criana? -- gritei eu do lado de dentro. -- Siga o seu
caminho! No sei como pode inventar tantas aldrabices! Olhe,
Miss Cathy, eu vou  arrombar a fechadura com uma pedra. No
acredite nesse chorrilho de disparates. Julgue a menina por
si mesma se  possvel algum morrer de amor por uma estranha.
   -- No sabia que havia ouvidos  escuta! -- resmungou o
velhaco, vendo-se desmascarado. -- Minha cara Mrs. Dean, gosto
muito de ti, mas desagrada-me esse teu jogo duplo. --
acrescentou em voz alta. --  Como pudeste afirmar que eu
detestava a _pobre criana? E inventar histrias
mirabolantes para a afastares da minha casa? Catherine
Linton... s o nome j me enternece... Minha querida...
estarei ausente durante toda esta semana. V l e ver se
falei ou no verdade. Faa isso por mim, minha querida!
Imagine o seu pai no meu lugar e o Linton no seu, e pense que
ideia faria do seu namorado, se ele se negasse a dar um passo
para a conolar, mesmo depois de o seu prprio pai lho ter
pedido. E por favor no faa a asneira de cair no logro dela.
Juro pela minha salvao que o Linton acabar por morrer e que
ningum a no ser a menina lhe poder
valer!
   A fechadura cedeu finalmente e eu sai para a estrada.
   -- Juro que o Linton est a morrer -- repetiu Heathcliff,
:, fitando-me duramente. -- O desgosto e a desiluso esto a
lev-lo  morte. Se no queres que ela v, vai l tu, Nelly.
S volto daqui a uma semana, e creio que nem mesmo o teu
patro se opor a que ela v visitar o
primo.
   -- Entre, menina! -- disse eu a Cathy, puxando-a pelo
brao, e tendo quase de a obrigar a entrar, pois estava
especada, a olhar perplexa para o seu interlocutor, que
dissimulava toda a sua perfdia num semblante austero e
imperturbvel. Aproximando-se com o cavalo, inclinou-se e
disse:
   -- Devo admitir, Catherine, que tenho muito pouca pacincia
para o Linton, e que o Hareton e o Joseph ainda tm menos.
Tenho de reconhecer que ele no ficar nas melhores mos. E o
Linton precisa tanto de bondade como de amor. Uma palavra de
conforto da sua parte seria o melhor dos remdios. No d
ouvidos aos conselhos perversos de Mrs. Dean, seja generosa e
v visit-lo. Ele sonha consigo dia e noite e no h nada que
o convena de que a menina no o odeia, pois deixou de
escrever e de aparecer.
   Fechei o porto e encostei-lhe um pedregulho, para
substituir a fechadura partida. Abri o guarda-chuva e puxei
Cathy para debaixo dele, que a chuva j caa em grossas pingas
por entre os ramos adejantes, mandando-nos para casa sem
demora.
   A pressa impediu-nos de comentar o encontro com Heathcliff
durante o percurso, mas eu sentia que o coraozinho de
Catherine estava agora carregado com redobrada tristeza. Era
tanta a amargura do seu rosto que nem parecia a mesma -- era
evidente que tinha acreditado piamente em tudo o que ouvira.
   Antes de ns chegarmos, o meu patro tinha-se recolhido no
quarto a descansar. Cathy foi logo ter com o pai para saber


como ele se sentia, mas encontrou-o a dormir. Voltou ento
para baixo e pediu-me para me vir sentar ao p dela na
biblioteca. Tommos o ch juntas e, em seguida, ela
estendeu-se no tapete e pediu-me que ficasse calada, pois
estava muito cansada.
   Peguei num livro e fingi ler; ela, assim que me julgou
absorvida na leitura, recomeou a chorar baixinho, que era
pelos vistos o seu passatempo favorito nos ltimos tempos.
Deixei-a chorar  vontade, mas da a um bocado no me contive
e comecei a fazer troa do que Mr. Heathcliff dissera a
respeito do filho, convencida de que ela concordaria comigo.
Isso sim! No tive artes de contrariar o efeito produzido
pelas palavras dele. E era isso mesmo que ele
queria.
   -- Pode ser que tenhas razo, Ellen -- respondeu Cathy.
--Mas :, no fico sossegada enquanto no souber a verdade.
Tenho de dizer ao Linton que no  por minha culpa que no lhe
escrevo e que os meus sentimentos no mudaram.
   Que podiam ralhos e protestos perante to inocente
credulidade? Nessa noite despedimo-nos amuadas. Mas no dia
seguinte dei por mim a caminho do Alto dos Vendavais,
 ilharga do cavalo da minha voluntariosa menina. No
suportando contemplar o seu desgosto, aquela palidez e aquela
tristeza no olhar, acabara por ceder, na vaga esperana de que
o prprio Linton provasse, pelo modo como nos recebesse, como
era falha de fundamento a histria que o pai dele contara.
CAPTULO XXIII
   A noite chuvosa deu lugar a uma manh de nevoeiro, geadas
e chuviscos e o nosso caminho era atravessado pelos regatos de
gua das chuvas, que escorriam das terras altas. Tinha os ps
completamente encharcados e sentia-me zangada e deprimida,
que era precisamente o humor ideal para tirar o melhor partido
destas tarefas ingratas.
   Entrmos no casaro pela porta da cozinha para nos
certificarmos de que Mr. Heathcliff no estava realmente em
casa, pois no acreditava muito na sua palavra.
   Joseph parecia estar numa manso elsia, sozinho junto a
uma fogueira crepitante; perto dele, em cima da mesa, estava
uma caneca de cerveja e grandes nacos de po de aveia torrado;
e, na boca, o seu cachimbo preto e curto.
   Catherine aproximou-se da lareira para se aquecer.
Perguntei se o patro estava em casa.
   A minha pergunta ficou tanto tempo sem resposta que pensei
que o velho tinha ficado surdo, e repeti-a mais alto.
   -- No! -- resmungou ele, ou melhor, ripostou com a sua voz
nasalada. -- No! E vocemec volte p.r stio donde veio.
   -- Joseph! - gritou uma voz impaciente l de dentro. --
Quantas vezes tenho de te chamar? O lume est apagado,
Joseph! Anda c imediatamente.
   As vigorosas baforadas do cachimbo e um olhar que no
arredava da parede mostravam que ele era surdo a este apelo.
Da governanta e do Hareton nem sinais: ela tinha ido fazer
uns recados, e ele estava possivelmente a trabalhar.
Reconhecemos a voz de Linton e entrmos.
   -- Oh, espero que morras  fome fechado num sto -- disse
o rapaz, confundindo os nossos passos com os do criado
negligente.


   Calou-se, porm, mal percebeu o seu erro. A prima correu
para ele.
   --  a menina, Miss Linton? -- disse, levantando a cabea
do brao do cadeiro onde estava recostado. -- No, no me
beije que me sufoca. Ai meu Deus! O meu pai disse que viria --
continuou, depois de se ter recomposto do abrao de Catherine,
enquanto ela continuava de p, ao lado dele, mostrando-se
contrita. -- No se importa de fechar a porta, por favor?
Deixou-a aberta; e aquelas criaturas *detestveis* nunca mais
trazem carvo para a lareira. Est tanto frio
aqui!
   Remexi as cinzas e fui eu prpria buscar um balde cheio de
carvo, e logo o enfermo se queixou de que estava todo
coberto de poeira; mas como tinha uma tosse irritativa e
parecia febril e doente, no o repreendi pelo seu
mau-humor.
   -- Ento, Linton -- disse Catherine baixinho, quando o viu
menos tenso. -- Ests contente por me ver? H alguma coisa que
eu possa fazer?
   -- Porque no veio h mais tempo? -- perguntou. -- Devia
ter vindo, em vez de escrever. Cansava-me imenso a
escrever-lhe aquelas longas cartas. Teria preferido mil vezes
falar consigo pessoalmente. Agora, no me apetece conversar
nem fazer mais nada. Onde estar a Zillah? Importa-se de ir 
cozinha ver se a encontra? -- E olhou para mim.
   Como no me tinha agradecido pelo outro servio que lhe
prestara e como no estava disposta a andar de um lado para o
outro, respondi:
   -- S l est o Joseph.
   -- Tenho sede protestou, agastado, virando-se para o outro
lado. -- Desde que o meu pai se foi embora, a Zillah passa a
vida a ir a Gimmerton.  uma vergonha! Sou obrigado a vir c
para baixo pois, l em cima, ningum me ouve.
   -- O seu pai  atencioso consigo, Master Heathcliff? --
perguntei, percebendo que Catherine no estava a ser um
modelo de solicitude.
   -- Atencioso? Pelo menos, obriga-os a serem um pouco mais
atenciosos comigo -- exclamou. -- Os patifes! A Miss Linton
sabe que o bruto do Hareton se ri de mim?
Odeio-o... na verdade, odeio-os a todos... so criaturas
detestveis. :,
   Cathy foi  procura da gua; descobriu um jarro no
aparador. encheu um copo e trouxe-lho. Ele pediu-lhe que
misturasse uma colher de vinho da garrafa que estava em cima
da mesa e, depois de ter bebido um pouco, pareceu mais calmo e
disse-lhe que ela era muito simptica.
   -- E ests feliz por me ver? -- perguntou Miss Catherine,
reiterando de novo a pergunta, satisfeita por detectar um
leve esboar de um sorriso.
 -- Estou -- no  costume ouvir uma voz como a sua! --
respondeu ele. -- Mas *tenho andado* muito aborrecido por no
me querer vir visitar -- e o meu pai disse que a culpa era
minha e at me chamou criatura mesquinha, desonesta, sem
prstimo, e disse que a Cathy me desprezava e que, se
estivesse no meu lugar, j seria nesta altura mais dono da
Granja do que o seu pai. Mas a menina no me despreza, pois
no, Miss...
   -- Preferia que me tratasses por tu! -- atalhou a minha
menina. -- Desprezar-te? No! A seguir ao meu pai e  Ellen,
s a pessoa de quem mais gosto. No entanto, no gosto de Mr.
Heathcliff e no me atrevo a voltar c quando ele regressar;


ele vai estar fora muitos dias?
   -- No muitos -- respondeu Linton. -- Mas, desde que abriu
a poca da caa, vai muitas vezes para os brejos e tu podias
vir c passar uma hora ou duas comigo quando ele no est.
Anda! Diz que sim! Acho que contigo no me tornarei
insuportvel; e tu no me provocars e estars sempre pronta a
ajudar-me, no  verdade?
    -- disse Catherine, acariciando-lhe o cabelo longo e
macio -- se conseguisse, ao menos, que o pap me deixasse,
passaria metade do tempo contigo, querido Linton! Quem me dera
que fosses meu irmo.
 -- E assim gostavas tanto do teu pai como de mim? -- observou
ele, mais contente. -- Mas o meu pai diz que gostarias mais de
mim do que do teu pai, se fosses minha mulher. Quem me dera
que fosses!
   -- No, nunca gostarei de ningum como gosto do meu pai --
replicou ela gravemente. -- E as pessoas s vezes detestam as
suas mulheres, mas no os irmos e as irms e, se fosses meu
irmo, ias viver connosco e o meu pai ia gostar tanto de ti
como gosta de mim.
   Linton negou que as pessoas pudessem detestar as suas
mulheres, mas Cathy afirmou que podiam sim senhor e citou o
caso da averso do pai dele em relao  sua tia.
   Tentei fazer calar aquela tagarela, mas em vo, e ela s se
calou depois de contar tudo o que sabia. Master Heathcliff,
irritadssimo, afirmou que tudo aquilo era mentira.
   -- Foi o meu pai que me contou e o meu pai no mente
ripostou Catherine, peremptria
   -- E o meu pai despreza o teu -- gritou Linton. -- E at
lhe chama um idiota chapado.
   -- O teu pai  muito mau -- retrucou Catherine -- e tu no
devias repetir o que ele diz; ele deve ser mesmo muito mau
para a tia Isabella o ter deixado como deixou.
   -- Ela no o deixou contraps o rapaz -- no me
contradigas!
   -- Ai isso  que deixou! -- insistiu a minha menina.
   -- Pois fica sabendo que a tua me odiava o teu pai. Ora
toma!
   -- Oh! -- exclamou Catherine, furiosa demais para lhe dar
troco.
   -- E amava o meu! -- acrescentou ele.
   -- Mentiroso! Detesto-te -- disse ela ofegante, vermelha de
raiva.
   -- Amava! Amava! -- cantarolou Linton, enterrando-se na
poltrona e recostando a cabea para melhor apreciar o
desatino da adversria, que continuava de p, atrs dele.
   -- Esteja calado, Master Heathcliff! -- disse eu. -- Isso
so coisas que o seu pai lhe meteu na cabea, tenho a
certeza.
   -- No, no so, e cale-se -- retorquiu Linton. -- Amava,
sim, Catherine, amava, amava.
   Catherine, descontrolada, empurrou violentamente a
poltrona, fazendo o primo cair sobre um brao, o que lhe
provocou um ataque de tosse to sufocante que logo terminou
com aquele seu ar de triunfo.
   Foi um ataque de tosse to prolongado que at eu fiquei
assustada. Quanto  prima, desatou a chorar, arrependida do
mal que lhe fizera, embora no o admitisse.
   Amparei-o at que a tosse passasse. Depois, ele empurrou-me
e recostou a cabea, sempre calado. Tambm Catherine ps fim


s suas lamentaes, indo sentar-se em frente dele e fixando o
lume com um ar compenetrado.
   -- Como se sente agora, Master Heathcliff? -- inquiri ao
fim de dez minutos.
   -- S queria que *ela* se sentisse como eu me sinto --
respondeu.  -- Criatura cruel e malvada! O Hareton nunca me
tocou, nunca me :, bateu na vida, e logo hoje que eu estava
melhor, e afinal... -- a sua voz esmoreceu.
   -- Eu no te bati -- contraps Catherine, mordendo o lbio
para evitar novo ataque de choro.
   Linton ps-se a suspirar e a gemer como se estivesse em
grande sofrimento, e assim continuou durante um quarto de
hora, aparentemente com o objectivo de afligir a prima pois
sempre que ela deixava escapar um soluo, ele gemia ainda
mais.
   -- Desculpa ter-te magoado, Linton -- disse Catherine
finalmente, no se contendo mais. -- Mas um empurrozinho
daqueles no faz mal a ningum e nunca me passou pela cabea
que pudesse fazer. No te magoei muito, pois no, Linton? No
me deixes ir para casa a pensar que sim! Anda, responde, fala
comigo.
   -- No posso falar contigo -- murmurou -- magoaste-me
imenso e vou ficar acordado toda a noite a tossir. Se tivesses
esta tosse, saberias dar-lhe valor; mas tu vais dormir
regaladamente enquanto eu vou ficar para aqui nesta aflio e
sem ningum ao p de mim. Sempre gostava de saber como era se
tivesses de passar umas noites to pavorosas como as minhas!
-- E comeou a gemer muito alto, num alarde de
autocomiserao.
   -- Uma vez que o menino est habituado a passar noites
horrveis disse eu no ser Miss Catherine quem as tornar
piores; isso aconteceria, mesmo que ela no estivesse aqui.
Mas fique descansado que a menina no voltar a incomod-lo
e, talvez o menino se sinta melhor assim que nos formos
embora.
   -- Tenho mesmo de me ir embora? -- perguntou Catherine
tristemente, inclinada sobre ele. -- Queres que me v embora,
Linton?
   -- Agora j no podes modificar o que est feito --
replicou ele mal-humorado, afastando-a. -- A no ser que o
modifiques para pior, conseguindo irritares-me at eu ficar
com febre.
   -- Ento queres que eu v? -- voltou a perguntar.
   -- Deixa-me em paz -- disse ele -- no suporto ouvir a tua
voz!
   Ela foi-se deixando ficar, resistindo s minhas
insistncias para partirmos, mas como o primo nem dizia nada,
nem para ela olhava, decidiu finalmente vir-se embora, e eu
segui-a.
   Um grito fez-nos retroceder: Linton tinha deslizado da
poltrona para a pedra da lareira e contorcia-se em convulses,
como uma criana birrenta, apostada em irritar e afligir o
outros o mais possvel.
   Percebi logo qual era a sua verdadeira inteno e que, por
isso, :, era intil tentar anim-lo. Mas Miss Catherine assim
no o entendeu e voltou para dentro aterrorizada,
ajoelhando-se e chorando, confortando-o e implorando at que
ele se recomps da falta de ar, mas no da sua determinao em
afligi-la.
   -- Vou deit-lo no banco -- disse eu -- e assim poder
rebolar-se  vontade. No podemos estar aqui a vigi-lo


eternamente. Espero que tenha percebido, Miss Cathy, que *a
menina* em nada o beneficia e que o estado do seu primo no 
ocasionado pelo que ele sente por si. -- Olhe, l est ele
outra vez! Vamos embora, que assim que ele se aperceber de que
no est aqui ningum para aturar os seus disparates,
sossegar!
   Ela colocou-lhe uma almofada debaixo da cabea, e
ofereceu-lhe gua. A gua, rejeitou-a; quanto  almofada,
mexeu-se tanto que mais parecia que lhe tinham dado uma pedra
ou um cepo.
   Ela tentou acomod-lo melhor.
   -- No est bem -- disse ele. -- No  suficientemente
alta!
   Catherine foi buscar outra e colocou-a em cima da primeira.
   -- Agora ficou alto demais -- queixou-se a quezilenta
criatura.
   -- Ento como  que a queres? -- perguntou ela,
desesperada.
   Ele soergueu-se e inclinou-se para ela, que estava
meia-ajoelhada junto ao banco e apoiou-se no seu
ombro.
   -- No, nem pense nisso! -- disse eu. -- Contente-se com as
almofadas, Master Heathcliff! A menina j perdeu tempo demais
consigo e no podemos ficar aqui nem mais cinco minutos.
   -- Podemos, claro que podemos -- replicou Catherine. --
A birra j lhe passou. Ele j percebeu que sou capaz de ficar
muito pior do que ele hoje  noite se pensar que ele piorou
por minha causa, e se assim for, no me atreverei mais a
voltar c. Diz-me se  assim, Linton, pois se te tiver
magoado, no voltarei .
   -- Tens de vir, para tratares de mim -- respondeu ele. -- 
a tua obrigao porque me magoaste, e muito. Tu sabe-lo bem!
Quando entraste, eu no estava to mal como estou agora, pois
no?
   -- Mas ficou pior porque chorou e se enervou.
   -- A culpa no foi minha -- disse Catherine. -- Contudo,
ficaremos amigos. Queres que eu... Gostarias realmente que eu
te viesse visitar de vez em quando?
   -- J te disse que sim! -- respondeu impaciente. --
Senta-te aqui no banco e deixa-me deitar a cabea no teu colo:
era assim que a mam costumava fazer tardes inteiras. Senta-te
e no fales, mas podes cantar uma cantiga, se souberes cantar,
ou ento recitar uma :, balada que seja longa e interessante,
uma daquelas que prometeste ensinar-me, ou uma histria... no
entanto, eu prefiro a balada. Podes comear.
   Catherine recitou uma das maiores baladas de que se
conseguia lembrar. O entretenimento agradou imenso aos dois.
Linton quis ouvir outra, e mais outra, apesar dos meus mais
enrgicos protestos; e assim continuaram at que o relgio
bateu as doze horas e ouvimos o Hareton no ptio, de regresso
para o jantar.
   -- E amanh, Catherine, vens c outra vez? -- perguntou o
jovem Heathcliff, agarrando-lhe no vestido quando ela se
levantou, ainda que contrariada.
 -- No! -- respondi eu -- E depois de amanh tambm no. --
Ela, porm deve ter-lhe dado uma resposta diferente, pois a
testa enrugada do menino desanuviou-se quando ela se inclinou
e lhe segredou qualquer coisa ao ouvido.
   -- A menina no se esquea de que amanh no poder vir --
observei, quando j nos encontrvamos fora de casa. -- No
est a pensar vir, pois no?


   Ela sorriu.
   -- Deixe, que eu c me arranjo! -- continuei. -- Vou mandar
consertar aquela fechadura e, assim, j no poder fugir.
   -- Posso saltar a cerca -- disse, a rir. -- A Granja no 
uma priso, Ellen, e tu no s a minha carcereira. E, alm
disso, tenho quase dezassete anos. Sou uma mulher e tenho a
certeza de que o Linton se restabeleceria muito mais
rapidamente se fosse eu a cuidar dele: sou mais velha e mais
ajuizada e menos infantil, no sou? No tarda nada e ele far
tudo o que lhe mando, no sem alguma manha da minha parte...
Ele  um amor quando se porta bem. Se fosse meu, estragava-o
com mimos, e nunca havamos de discutir, depois de nos
afeioarmos um ao outro, pois no? No gostas dele, Ellen?
   -- Gostar dele? -- exclamei. --  a criatura mais
mal-humorada e quezilenta que eu j vi com aquela idade!
Felizmente no chegar aos vinte anos, como Mr. Heathcliff
previu! Duvido mesmo que chegue  Primavera... E pouca falta
far aos dele quando se for. Foi uma sorte para ns o pai ter
ficado com ele. Quanto mais carinhosamente o tratssemos,
mais enfadonho e egosta se havia de tornar! Ainda bem que
no h hiptese nenhuma de ele vir a ser seu marido, Miss
Catherine!
   A minha companheira ps-se muito sria a escutar todo este
:, meu arrazoado: ouvir falar da morte do primo com tanta
frieza magoou-a profundamente.
   --  mais novo do que eu -- protestou, aps uma prolongada
pausa de reflexo. -- Tem de viver muito mais. Vai viver tanto
como eu. Est to forte agora como estava quando veio para o
Norte, disso tenho eu a certeza! Aquilo  s uma gripe, como a
do pap. Disseste que o pap ia ficar bom; ento, porque  que
ele tambm no h-de ficar?
   -- Bem, bem -- disse eu -- afinal de contas no temos
necessidade de nos preocuparmos; oia, menina, olhe que eu
cumprirei a minha promessa. Se tentar ir ao Alto dos Vendavais
outra vez, sozinha ou comigo, informarei Mr. Linton e, a no
ser que ele de o seu consentimento, a convivncia com o seu
primo no ser reatada.
   -- J foi reatada -- murmurou Cathy, zangada.
   -- Ento, no deve continuar -- afirmei.
   -- Isso  o que veremos! -- foi a sua resposta, desatando a
correr desenfreadamente e deixando-me ficar para trs.
   Chegmos ambas a casa antes da hora de jantar. O meu patro
pensava que tnhamos andado a passear pelo parque e, por isso,
no pediu explicaes sobre a nossa ausncia. Assim que
entrei, apressei-me a ir trocar de sapatos e de meias. Mas a
longa permanncia no Alto ia ter graves consequncias. Na
manh seguinte fiquei de cama e durante trs semanas estive
incapacitada de cumprir as minhas obrigaes -- uma calamidade
jamais sofrida antes e que, graas a Deus, nunca mais se
repetiu.
   A minha menina portou-se como um anjo, vindo tratar de mim
e alegrar a minha solido: o isolamento abateu-me por demais
-- era algo de insuportavelmente fastidioso para uma pessoa
to viva e activa como eu -- mas pouca gente devia ter menos
razes para se queixar do que eu. Mal Catherine saa do quarto
de Mr. Linton, vinha sentar-se  minha cabeceira. Repartia o
seu tempo entre ns dois e no perdia um s minuto com
distraces: negligenciou as refeies. os estudos e as
brincadeiras. Era a enfermeira mais zelosa que eu j vi; devia
ter um corao deveras generoso para ainda lhe sobrar tanto
carinho para me dar depois de todo o amor que dedicava ao


pai.
   Como j disse, os seus dias eram repartidos entre ns: o
patro recolhia-se cedo, e eu geralmente no precisava de nada
depois das seis horas, pelo que ela tinha a noite
livre.
   Coitadinha! Nunca pensei no que ela fazia depois do ch, :,
apesar de, frequentemente, lhe notar um certo rubor nas faces
e uma certa vermilhido nos dedos finos, quando me vinha dar
as boas-noites. E, em vez de pensar numa cavalgada ao frio
atravs dos brejos, atribua culpas ao calor da lareira
biblioteca.
CAPTULO XXIV
   Ao fim de trs semanas, pude enfim sair do quarto e
movimentar-me pela casa. E, na primeira vez que fiquei a p
at  noitinha, pedi a Catherine que me lesse qualquer coisa
porque os meus olhos ainda estavam fracos. O senhor j se
tinha ido deitar e estvamos as duas na biblioteca. Acedeu ao
meu pedido, embora com bastante relutncia, e eu, imaginando
que o meu tipo de livros no lhe agradava, disse-lhe para
escolher o que mais gostasse.
   Escolheu um dos seus favoritos e leu-o ininterruptamente
durante quase uma hora, altura em que comeou a fazer
perguntas.
   -- Ellen, no ests cansada? No ser melhor ires
deitar-te? Vais piorar, se ficares a p at muito tarde,
Ellen.
   -- No, menina, no estou cansada -- respondi.
   Vendo que eu no arredava p, lanou mo de outro
estratagema para mostrar o tdio que aquela ocupao lhe
causava. Comeou a bocejar e, espreguiando-se, disse:
   -- Ellen, estou cansada.
   -- Ento pare de ler e conversemos -- respondi.
   Pior ainda: ficou inquieta e a suspirar, e no parou de
olhar para o relgio at s oito horas, altura em que se
retirou finalmente para o quarto cheia de sono, a julgar pela
sua cara sonolenta e pelas vezes que tinha esfregado os olhos.
   Na noite seguinte parecia ainda mais impaciente e na
terceira disse que tinha dores de cabea e retirou-se.
   Achei o seu procedimento muito estranho e, depois de ter
ficado sozinha alguns minutos, resolvi ir ver se ela estava
melhor e dizer-lhe para se vir estender no sof, em vez de
estar l em cima no escuro.
   No a encontrei em parte alguma e os criados tambm no a
tinham visto. Escutei  porta de Mr. Edgar, mas o quarto
estava silencioso. Voltei para o quarto dela, apaguei a vela e
sentei-me  janela.
   Estava uma bela noite de luar. Uma finssima camada de
flocos de neve cobria o cho, e pensei que talvez ela tivesse
ido passear para o jardim para espairecer. Cheguei mesmo a
detectar um vulto a mover-se lentamente do lado de dentro da
cerca, mas no era ela; quando saiu da sombra, reconheci um
dos moos da cavalaria.
   Ele ficou durante muito tempo a vigiar a estrada, que se
perdia para l dos campos, e depois comeou a correr como se
tivesse avistado alguma coisa, reaparecendo em seguida com o
cavalo de Miss Catherine pela arreata, e ela ao lado dele,
como se tivesse acabado de desmontar.
   O rapaz levou o cavalo para a cavalaria, passando por cima


da relva para no fazer barulho. Cathy entrou em casa pela
janela da varanda da sala de estar e subiu em bicos de ps at
ao quarto, onde eu estava  espera dela.
   Abriu a porta muito devagar, tirou os sapatos cobertos de
neve, desapertou as fitas do chapu, e ia comear a tirar a
capa, sem saber que eu a observava quando, de repente, me
levantei e apareci. A surpresa deixou-a petrificada por
instantes: balbuciou uma explicao desarticulada e no se
mexeu.
   -- Minha querida Miss Catherine -- comecei eu, demasiado
impressionada pela sua recente bondade para ser rspida com
ela. -- Por onde  que andou a passear a uma hora destas? E
por que tentou enganar-me com as suas mentiras? Onde esteve?
Diga l!
   -- No fundo do parque -- gaguejou. -- Eu no menti.
   -- E no foi a mais lado nenhum? -- perguntei.
   -- No -- respondeu baixinho.
   -- Oh, menina! -- exclamei eu, desgostosa. -- Sabe bem que
se tem andado a portar mal ou ento no me teria mentido. Isso
entristece-me. Preferia estar trs meses de cama a ouvi-la
mentir com essa desfaatez.
   Ela avanou para mim e, irrompendo em lgrimas, lanou-se
ao meu pescoo.
   -- Sabes, Ellen, tenho tanto medo de que te zangues.
Promete que no te zangas e conto-te toda a verdade. Detesto
ter de mentir.
   Sentmo-nos nos poiais da janela. Assegurei-lhe que no a
repreenderia, fosse qual fosse o segredo, embora j
suspeitasse de qual era. E ento, ela comeou:
   -- Tenho ido ao Alto dos Vendavais, todos os dias, desde
que adoeceste, excepto trs: uma antes, e duas depois, de
teres sado do teu quarto. Dei ao Michael livros e estampas
para me aparelhar a Minny todas as noites e para que, depois
de eu voltar, a levasse de novo para a cavalaria. No te
esqueas de que tambm no o deves repreender. Chegava ao Alto
por volta das seis e meia e geralmente ficava l at s oito e
meia e depois voltava para casa. No era para me divertir que
l ia: a maior parte das vezes sentia-me mal comigo mesma. S
de vez em quando me sentia feliz, talvez uma vez por semana.
De incio, ainda pensei dar-me ao trabalho de te persuadir a
deixares-me cumprir a promessa que fizera ao Linton, uma vez
que me tinha comprometido a visit-lo no dia seguinte, mas
como adoeceste logo a seguir, no tive a mnima dificuldade e,
enquanto o Michael reparava a fechadura do parque, apoderei-me
da chave e contei-lhe como o meu primo queria que eu o
visitasse, porque era doente e no podia vir  Granja e as
objeces que o meu pai levantava  minha ida at l. Foi
ento que negociei com ele para me arranjar o cavalo. Ele
gosta de ler e est a pensar ir-se embora para casar e, por
isso, ofereceu-se para fazer o que eu quisesse se eu lhe
emprestasse alguns livros da nossa biblioteca. Mas eu preferi
dar-lhe alguns dos meus, o que lhe agradou ainda mais.
   -- Na minha segunda visita, o Linton parecia muito mais
animado e a Zillah, a governanta, limpou a sala, acendeu a
lareira e disse-nos para estarmos  vontade, j que o Joseph
tinha ido a uma reunio religiosa e o Hareton Earnshaw sara
com os ces para ir roubar faises nas nossas moitas, como
soube mais tarde.
   -- Ela trouxe-me ainda um pouco de vinho quente e alguns
pes de gengibre e pareceu-me uma pessoa extremamente afvel.
O Linton sentou-se na cadeiro e eu sentei-me na cadeira de


baloio perto da pedra da
lareira. O que ns rimos e conversmos! Tnhamos tanto para
contar. Fizemos planos para o Vero. No vou repetir o que
planemos, pois acharias ridculo.
   -- Certa vez, porm, quase nos zanga: nos. Ele teimou que a
melhor maneira de passar um dia quente de Vero era numa
encosta coberta de urze, no meio do brejo, a ouvir o zumbido
das abelhas nas flores e o canto das cotovias l no alto,
deitado sob o cu azul :, e o sol resplandecente. Esta era a
sua ideia de felicidade paradisaca. A minha, pelo contrario,
consistia em baloiar-me nas ramadas sussurrantes de uma
rvore, embalada pela brisa, com as nuvens brancas l no alto
correndo velozmente. E eu gosto no s de cotovias, mas tambm
de tordos, melros, milheiros e cucos, chilreando  nossa
volta, com os brejos em pano de fundo, recortados por vales
frios e sombreados, mas orlados de grandes tufos de erva alta,
ondulando ao sabor da brisa, e bosques, e cursos de gua a
cantarolar e o mundo inteiro acordado e rejubilante. Ele
queria que tudo permanecesse num xtase passivo, enquanto eu
queria que tudo brilhasse e bailasse em jubilosa glria.
   -- Disse-lhe que o paraso dele seria para mim uma
semi-morte, e ele retorquiu que o meu seria um desbragamento;
afirmei que o dele me poria a dormir e ele garantiu que no
conseguiria respirar no meu e, a partir da, comeou a ficar
muito rezingo. Por fim, concordmos em experimentar os dois
parasos assim que o tempo o permitisse e, ento, beijmo-nos
e ficmos amigos novamente. Depois, ficmos em silncio
durante uma hora, at que eu reparei naquela sala esplndida,
no cho polido e sem carpetes, e pensei como seria bom brincar
ali se retirssemos a mesa; pedi ento ao Linton que chamasse
a Zillah para nos ajudar e para brincar connosco 
cabra-cega. Ela teria de nos apanhar como tu costumavas fazer,
lembras-te Ellen? Ele no queria, disse que no tinha graa
nenhuma, mas acabou por concordar em jogar comigo  bola.
Encontrmos duas no armrio, no meio de um monte de
brinquedos velhos, pees, arcos, raquetes e penas. Uma tinha
um C. e a outra um H. Eu quis ficar com a que tinha um C.
porque poderia ser um C. de Catherine e o H. poderia ser de
Heathcliff, o nome dele. Mas a dele estava rasgada, deitava
farelo pelo H., pelo que no quis ficar com ela.
   -- Ganhei-lhe quase sempre: ele zangava-se, engasgava-se,
tossia e voltava para a sua cadeira. Contudo, naquela noite
recuperou facilmente a boa disposio. Estava encantado com
duas ou trs canes -- as *tuas* canes, Ellen -- e quando
chegou a hora de me vir embora, pediu e implorou que eu
voltasse l no dia seguinte, o que eu prometi. A Minny e eu
regressmos a casa num pice e passei a noite a sonhar com o
Alto dos Vendavais e com o meu querido e amoroso primo.
   -- No dia seguinte, acordei triste: em parte, porque tu
estavas doente e, em parte, porque gostaria que o meu pai
soubesse e :, aprovasse as minhas visitas; mas depois do ch
estava um luar lindssimo e,  medida que cavalgava, a
tristeza dissipou-se.
   -- Aproxima-se mais uma noite bem passada, pensei eu, mas o
que mais me reconfortava era, acima de tudo, saber que o meu
primo tambm teria uma noite feliz.
   -- Subi a trote pelo jardim e, quando me preparava para
contornar a casa, apareceu o tal Earnshaw, que pegou nas
rdeas do cavalo e me obrigou a entrar pela porta principal.
Afagou o pescoo da Minny, disse que era um excelente animal e
pareceu-me que estava  espera de que eu conversasse com ele.


Mas eu disse-lhe apenas que deixasse o cavalo em paz, seno
ainda lhe dava um coice, ao que ele respondeu, com o seu
sotaque boal:
   -- _No me magoaria muito se desse, ao mesmo tempo que
olhava para as pernas do cavalo.
   -- Eu estava tentada a experimentar; contudo, ele
afastou-se para ir abrir a porta e, enquanto levantava o
ferrolho, olhou para cima, para a inscrio que l estava
gravada, com uma expresso grotesca, misto de rudeza e
orgulho:
   -- _J sei ler, Miss Catherine!.
   -- _ptimo! exclamei. _Mostra l, por favor, a tua
sabedoria.
   -- Ele ento soletrou, arrastando as slabas, o nome
*_Hareton Eanshaw*.
   -- _E os nmeros? perguntei, ao aperceber-me de que tinha
chegado ao fim.
   -- _Ainda no aprendi respondeu.
 -- _Sempre s muito burro! disse eu, rindo-me do seu
fracasso.
   -- O idiota olhou-me fixamente, por entre um esboo de
sorriso e um franzir de sobrolho, como se hesitasse entre
aderir ou no  minha chacota, como se estivesse indeciso, sem
saber se ela provinha de uma certa sem-cerimnia ou do que
realmente era: puro desprezo.
   -- Desfiz-lhe quaisquer dvidas ao recuperar subitamente o
meu ar compenetrado, pedindo-lhe que se fosse embora, j que
eu tinha ido ao Alto para ver o Linton e no a ele.
   -- Corou. Sei-o porque estava uma noite de luar. Depois,
tirou a mo do ferrolho e retirou-se envergonhado, verdadeira
imagem da vaidade mortificada. Acho que se considerava to
instrudo como o Linton s porque conseguia soletrar o seu
prprio nome, e estava deliciosamente desconcertado por eu no
pensar o mesmo. :,
   -- Chega, Miss Catherine -- disse eu, interrompendo-a
-- No a vou repreender, mas no gosto nada da forma como
procedeu. Se se tivesse lembrado de que o Hareton  to seu
primo como Master Linton, ter-se-ia dado conta da
indelicadeza com que o tratou. Pelo menos,  louvvel da parte
dele desejar ser to culto como Linton e, se calhar, no
aprendeu tudo isto s para se exibir; a menina j antes o
devia ter feito sentir-se envergonhado da sua ignorncia,
disso no duvido, e ele s queria ultrapassar essa
desvantagem e agradar-lhe. Zombar da sua tentativa fracassada
foi uma crueldade; se a menina, por acaso, tivesse sido criada
nas mesmas circunstancias, acha que teria mais educao? Ele,
em criana, era to vivo e inteligente como a menina, e
custa-me v-lo agora desprezado, s porque aquele miservel do
Heathcliff o tratou to injustamente.
   -- Bem, Ellen, no te vais pr a chorar, pois no? --
exclamou Catherine, surpreendida com a minha severidade.
-- Mas espera e j vais ver se foi ou no para me agradar que
o Hareton aprendeu o _A_B_C, e se tinha valido a pena ser
civilizada com aquele bruto.
   -- Entrei. O Linton estava deitado no cadeiro e sentou-se
para me cumprimentar.
   -- _Hoje sinto-me muito mal, minha querida Catherine
disse ele, _e, por isso, a conversa fica por tua conta. Anda,
senta-te aqui ao p de mim. Tinha a certeza de que cumpririas
a tua palavra e, antes de te ires embora, vou obrigar-te de
novo a prometer que voltas c amanh.


   -- Eu j sabia que no devia aborrec-lo quando estava mal
disposto, e, por isso, falei baixinho, no fiz perguntas e
evitei irrit-lo fosse com o que fosse. Tinha-lhe levado
alguns dos meus melhores livros e o Linton pediu-me que lhe
lesse um trecho de um deles; estava prestes a comear quando o
Earnshaw abriu a porta de rompante e entrou por ali dentro
como um furaco, depois de ter reflectido no que eu lhe
dissera. Veio direito a ns, agarrou o Linton por um brao e
atirou-o abaixo do cadeiro.
   -- _Vai para o teu quarto! gritou, com a voz embargada
pela fria, e o rosto transfigurado. _E leva-a para l quando
ela te vier visitar. No pensem que me impedem de estar aqui.
Saiam daqui os dois!
   -- Desatou a insultar-nos, sem dar tempo ao Linton de
responder, levando-o  sua frente quase at  cozinha, ao
mesmo tempo :, que me ameaava de punho cerrado ao ver-me ir
atrs deles, como se me quisesse bater. Por um momento tive
medo e deixei cair um livro; ele deu-lhe um pontap e
fechou-nos a porta, deixando-nos do lado de fora da sala.
   -- Ouvimos uma gargalhada perversa vinda da lareira e,
virando-nos, vimos o odioso do Joseph, esfregando as mos
esquelticas, a tremer de frio.
   -- _Eu sabia qu.ele os punha de l p.ra fora!  um rapaz e
pras! Est a portar-se  altura! Sabe to bem como eu quem 
que devia mandar aqui. Ah! Ah! Ah! Chegou-lhes a valer! Ah!
Ah! Ah!
   -- _Para onde vamos? perguntei ao meu primo, ignorando as
zombarias daquele velho atrevido.
   -- O Linton estava branco e trmulo. No estava nada bem,
Ellen! No estava mesmo: o aspecto era pssimo! A sua cara
magra e os seus grandes olhos transbordavam de fria
desvairada e impotente. Agarrou a maaneta da porta e
abanou-a com toda a fora, mas encontrou-a fechada por dentro.
   -- _Se no me deixares entrar, mato-te! Se no me deixares
entrar, mato-te! gritou o Linton. _Com os diabos! Vou-te
matar! Vou-te matar!
   -- O Joseph emitiu mais uma das suas sonoras
gargalhadas.
   -- _Olha,  tal qual o pai! disse ele. _ tal qual o
pai! Temos sempre qualquer coisa de um lado e do outro. No se
preocupe, Hareton, ele no consegue apanh-lo.
   -- Peguei nas mos do Linton e tentei pux-lo dali para
fora, mas ele fez tal gritaria que achei melhor larg-lo. Por
fim, os seus gritos foram abafados por um avassalador ataque
de tosse que o atirou para o cho, a deitar sangue pela
boca.
   -- Corri para o ptio, agoniada de pavor e gritei pela
Zillah o mais alto que pude. Ela ouviu-me logo, pois estava a
ordenhar as vacas num coberto por detrs do celeiro e, vindo a
correr, perguntou-me o que se passava.
   -- Eu no conseguia falar e, por isso, arrastei-a para
dentro de casa e fui  procura do Linton. O Earnshaw tinha
vindo c fora para ver a confuso que provocara e levava agora
o pobrezinho para o andar de cima. A Zillah e eu subimos atrs
deles, mas o Hareton deteve-me quando cheguei ao cimo das
escadas e disse-me que eu no devia entrar, que devia era ir
para casa. Respondi-lhe que ele tinha matado o Linton e que eu
*ia* entrar.
   -- O Joseph fechou a porta  chave e declarou que eu no ia
:, entrar coisssima nenhuma e perguntou-me se eu queria ficar
to doida como o Linton.


   -- Pus-me a chorar e a gritar at a governanta aparecer e
afirmar que ele ficaria bom num instante, mas que no
conseguiria recuperar com todo aquele barulho, levando-me
quase de rastos l para baixo, para a
sala.
   -- Sabes, Ellen, estava capaz de arrancar todos os cabelos
da cabea! Solucei e chorei tanto que os meus olhos incharam e
quase no via nada, e o patife por quem sentes tanta
compaixo, ali  minha frente, dando-se ao luxo de me mandar
calar de vez em quando, negando que a culpa fosse dele.
Finalmente, assustado com as minhas ameaas de contar tudo ao
pap, que o mandaria para a priso para ser enforcado, comeou
a chorar e saiu precipitadamente, para que no
testemunhssemos a sua cobardia.
   -- Contudo, ainda no estava livre dele por completo:
quando, por fim, conseguiram convencer-me a vir-me embora e eu
j me encontrava a umas cem jardas da casa, o Hareton saltou
de repente da sombra, susteve a Minny e agarrou-me.
   -- _Miss Catherine, lamento muito comeou. _Foi uma pena
que...
   -- Dei-lhe com o chicote, pensando talvez que ele me
quisesse matar, mas ele largou-me, soltando um dos seus
horrveis palavres, e eu vim a galope para casa,
desaustinada.
   -- Nessa noite no te dei as boas-noites e, na noite
seguinte, no fui ao Alto dos Vendavais, embora bem o
desejasse; mas estava estranhamente nervosa e, ora receava
ouvir que o Linton estava morto, ora tremia perante a ideia de
me encontrar com o Hareton.
   -- No terceiro dia enchi-me de coragem, ou pelo menos, no
pude suportar mais aquela espera e aquele jogo das escondidas.
Parti s cinco horas, e fui a p, pensando que conseguiria
esgueirar-me at ao quarto do Linton sem ser vista. Todavia,
os ces puseram-se a ladrar mal me pressentiram, denunciando
a minha presena: a Zillah veio ao meu encontro, dizendo que
o menino estava a convalescer bastante bem e levou-me para um
pequeno aposento, muito limpo e atapetado, onde, para minha
grande alegria, vi o Linton deitado num pequeno sof a ler um
dos meus livros. Contudo, durante uma hora inteira no falou
comigo nem olhou para mim, Ellen. Que mau feitio o dele! O que
me deixou ainda mais pasmada foi que, quando realmente abriu a
boca, foi para dizer que a :,culpada de todo aquele
burburinho era eu e que o Hareton estava inocente!
   -- Incapaz de ripostar, a no ser pela violncia,
levantei-me e sa do quarto. Quando ia a sair, ele lanou-me
um dbil _Catherine, pois no esperava que eu reagisse
daquela maneira. Mas eu no voltei para trs e o dia seguinte
foi o segundo dia em que l no fui, sentindo-me quase tentada
a no o visitar nunca mais.
   -- Mas era-me to penoso deitar-me e levantar-me da em
diante sem nunca mais ter notcias dele, que a minha deciso
ficou sem efeito, antes mesmo de ser tomada. Tinha-me parecido
errado fazer toda aquela caminhada, mas agora era impossvel
retroceder. O Michael veio perguntar-me se era preciso selar a
Minny e eu disse-lhe que sim e, enquanto a Minny me levava
atravs dos montes, mais me convencia
de que no estava a fazer mais do que a minha
obrigao.
   -- Como era obrigada a passar pelas janelas da frente para
ir at ao ptio, era intil tentar ocultar a minha
presena.


   -- _O menino est na sala disse a Zillah quando me viu
encaminhar-me para a saleta.
   -- Entrei. O Earnshaw tambm l estava, mas saiu logo. O
Linton estava sentado no cadeiro, meio adormecido.
Aproximei-me da lareira e comecei a falar, muito sria,
tentando fazer parecer que tudo o que eu dizia era
verdade.
   -- _Como no gostas de mim, Linton, e como pensas que
venho c s para te magoar, e insistes que  para isso que c
venho, este ser o nosso ltimo encontro. O melhor  dizermos
adeus um ao outro. E podes dizer a Mr. Heathcliff que no me
queres ver nunca mais e que no precisa de inventar mais
mentiras sobre este  assunto.
   -- _Senta-te e tira o chapu respondeu ele. _s muito
mais feliz do que eu, no deverias ser como eu. O meu pai j
fala at demais dos meus defeitos, j me despreza o suficiente
e, assim,  natural que eu prprio duvide de mim. Chego at a
duvidar se no serei to intil como ele diz e, depois, fico
to irritado e to azedo que detesto toda a gente! No valho
nada; tenho quase sempre mau feitio e sou de m rs. Se
quiseres, podes ir-te embora e ver-te-s livre de muitos
aborrecimentos. Mas faz-me justia, Catherine: acredita que se
eu pudesse ser to doce, to simptico e to bom como tu,
teria todo o gosto em s-lo, mais ainda do que ser saudvel e
feliz. E acredita que a tua amabilidade fez-me gostar de ti
ainda mais do :, que se merecesse o teu amor e, embora no
pudesse nem possa deixar de te mostrar como verdadeiramente
sou, tenho muita pena de ser assim;  algo de que me
arrependerei at morrer.
   Senti que ele dizia a verdade e que devia perdo-lo e que,
mesmo que ele voltasse a discutir no minuto seguinte, deveria
perdo-lo novamente. Reconcilimo-nos e chormos os dois
durante todo o tempo que l estive. No s de tristeza, mas
tambm porque tinha pena de que o Linton tivesse aquela
natureza tortuosa. Ele nunca deixar os seus amigos sossegados
e nem ele prprio ter alguma vez sossego!
   -- Desde aquela noite, passmos a encontrar-nos sempre na
tal saleta, pois o pai dele regressou no dia seguinte. S trs
vezes, salvo erro, estivemos contentes e felizes desde o nosso
primeiro encontro; o resto das minhas visitas foram
fatigantes e conturbadas, ora devido ao seu egosmo e dio,
ora por causa dos seus sofrimentos. Mas uma coisa eu aprendi:
a suportar o seu feitio com quase com to pouco ressentimento
como a sua doena.
   -- Mr. Heathcliff evita-me propositadamente. Quase nunca o
vi. No ltimo domingo, cheguei mais cedo e ouvi-o injuriar o
pobre do Linton de forma cruel, pela maneira como se tinha
portado na noite anterior. No vejo como  que ele pode ter
sabido, a menos que tenha escutado atrs da porta. O Linton
tinha-se portado de forma irreverente; contudo, o problema era
s meu. Interrompi o sermo de Mr. Heathcliff quando entrei e
disse-lhe isso mesmo. Mr. Heathcliff soltou uma gargalhada e
retirou-se, dizendo que se alegrava por eu encarar o assunto
por esse prisma. A partir da, disse ao Linton que deveria
proferir em voz baixa as suas palavras mais azedas.
   -- Pronto, Ellen, agora j sabes tudo e no me podem
impedir de ir ao Alto dos Vendavais, a no ser que queiram
tornar duas pessoas infelizes e, se no contares nada ao
pap, as minhas visitas no perturbaro a tranquilidade de
ningum. No lhe vais contar, pois no? Serias muito m se o
fizesses.


   -- Amanh lhe darei a resposta, Miss Catherine -- disse eu.
--  Isto requer algum estudo pelo que a vou deixar repousar
enquanto reflicto sobre o que me pediu.
   Reflecti de facto, mas em voz alta e na presena do meu
patro, pois fui directamente do quarto dela para o dele e
contei-lhe toda a histria, excepto as conversas de Miss
Catherine com o primo, e tambm no mencionei o
Hareton.
   Mr. Linton ficou talvez mais alarmado e angustiado do que
:, deixou transparecer. Na manh seguinte, Catherine soube
que eu a tinha trado e que as suas visitas secretas iam
acabar.
   Chorou e debateu-se em vo contra a interdio e implorou
ao pai que tivesse piedade do Linton. Tudo o que conseguiu foi
a promessa de que Mr. Linton escreveria ao sobrinho
autorizando-o a vir  Granja sempre que desejasse e
explicando-lhe que no veria nunca mais Miss Catherine no Alto
dos Vendavais. Tivesse ele conhecimento do caracter e do
estado de sade do sobrinho, e talvez tivesse achado
conveniente nem sequer conceder a Catherine essa pequena
consolao.
CAPTULO XXV
   -- Tudo isto aconteceu no Inverno passado, Mr. Lockwood --
disse Mrs. Dean -- h pouco menos de um ano. Nunca pensei
nessa altura que um ano depois estivesse a entreter uma
pessoa estranha  famlia com o relato de todos estes factos!
Porm, no se sabe por quanto tempo o senhor permanecer um
estranho. O senhor  demasiado novo para ficar solteiro e eu
acho que  quase impossvel ver Miss Catherine e no se
apaixonar por ela. O senhor ri-se, mas por que ser que se
mostra sempre to animado e interessado quando falo nela? E
por que me pediu que pendurasse o retrato dela por cima da sua
lareira? E por que...
   -- Pare, minha boa amiga -- pedi. -- Pode ser que eu me
apaixone por ela, mas apaixonar-se- ela por mim? Duvido
demais que isso acontea, para arriscar a minha tranquilidade
caindo em tal tentao. Alm disso, eu no sou daqui.
Perteno ao mundo atribulado da cidade e para os braos dela
devo voltar. Mas continue. E Catherine, cumpriu os desejos do
pai?
   -- Cumpriu, sim senhor -- continuou a governanta. -- O seu
amor pelo pai era ainda o sentimento mais forte que ela
albergava no corao. Mr. Linton falou-lhe com a ternura
prpria de quem est prestes a abandonar o seu tesouro entre
perigos e inimigos, num mundo onde a memria das suas palavras
seria a nica ajuda, o nico guia que ele lhe podia legar.
   Alguns dias mais tarde disse-me:
   -- Quem me dera que o meu sobrinho escrevesse ou nos
visitasse, Ellen. Diz-me sinceramente o que achas dele; achas
que est mudado para melhor ou que ainda pode vir a melhorar 
medida que se faz homem?
   -- Ele  muito dbil respondi. -- E muito dificilmente
chegar  idade adulta, mas uma coisa lhe posso garantir: no
 nada parecido com o pai e, se Miss Catherine tiver a
infelicidade de casar com ele, conseguir control-lo, a no
ser que se mostre extrema e ingenuamente indulgente. Contudo,
Mr. Linton, o senhor ter muito tempo para o conhecer e ver se
ele est ou no  altura da sua filha. Ainda lhe faltam mais


de quatro anos para atingir a maioridade.
Mr. Edgar suspirou e, aproximando-se da janela, olhou na
direco da igreja de Gimmerton. Estava uma tarde de
nevoeiro, mas o sol de Fevereiro brilhava timidamente,
permitindo distinguir os dois abetos do cemitrio e as poucas
e dispersas lpides.
   -- Rezei bastante para que ela me viesse buscar depressa --
disse, como se falasse sozinho. -- E, agora, comeo a
rece-la. Achava que a lembrana da hora em que desci aquela
encosta recm-casado me era menos tolervel do que a
antecipao de que, dentro de alguns meses ou, quem sabe,
talvez apenas semanas, seria levado l para cima e sepultado
na encosta solitria! Ellen, tenho sido to feliz com a minha
Cathy. Nas noites de Inverno e nos dias de Verso ela tem sido
sempre uma esperana viva ao meu lado; mas tambm fui feliz
quando, sozinho, meditava entre as lpides, por baixo da velha
igreja, nas longas noites de Junho, deitado no verde montculo
da sepultura da me, desejando e ansiando pelo momento em que
me juntaria a ela. Que posso fazer pela Cathy? Como hei-de
deix-la? No me importaria que o Linton fosse filho do
Heathcliff nem que ma roubasse, se ao menos a consolasse da
minha perda. No me importaria que o Heathcliff alcanasse os
seus objectivos e conseguisse roubar-me o meu ltimo tesouro.
Mas, se o Linton for um intil, se for apenas um instrumento
nas mos do pai, no posso consentir que fique com a minha
filha! E, embora me custe reprimir uma alegria to espontnea,
devo resignar-me a entristec-la enquanto for vivo e
abandon-la quando morrer. Querida Cathy! Prefiro entreg-la
aos desgnios de Deus e enterr-la antes de mim.
   -- Deixe-a estar como est, entregue  divina Providncia
-- respondi. -- E, se o senhor deixar... que Ele no o
permita... continuarei amiga e conselheira da menina at ao
fim. Miss Catherine  uma boa alma e no creio que enverede
pelo mau caminho de livre vontade. Todo aquele que cumpre a
sua misso  sempre recompensado.
   Estvamos na Primavera e, contudo, o meu amo continuava :,
debilitado, embora tivesse retomado os seus passeios pelo
campo com a filha. Para ela, inexperiente como era, isto era
sinal de grandes melhoras, e, como Mr. Edgar tinha muitas
vezes a cara rosada e os olhos brilhantes, estava certa do seu
restabelecimento.
   No dia do seu dcimo stimo aniversrio, o pai no visitou
o cemitrio. Estava a chover e eu disse-lhe:
   -- Certamente o senhor hoje no vai sair.
   -- No, este ano vou adiar a visita um pouco mais
respondeu.
   Voltou novamente a escrever ao Linton, expressando o desejo
ardente de o ver e, se o doente estivesse bom, no tenho
dvidas de que o pai o teria deixado vir. Ele, porm, como
estava a ser orientado, respondeu  carta dizendo que o pai o
proibia de ir  Granja, mas que s o facto de o tio se ter
lembrado dele o tinha deixado encantado e que ainda tinha
esperana de o ver mais tarde ou mais cedo durante os seus
passeios, para lhe pedir pessoalmente que ele e a prima no
ficassem tanto tempo separados.
   Aquela parte da carta era simples e, provavelmente, tinha
sido escrita por ele. Mr. Heathcliff sabia que o filho tinha
eloquncia suficiente para solicitar a companhia de Miss
Catherine. E continuava:
   _No peo que ela me venha visitar aqui, mas como poderei
v-la se o meu pai me probe de ir a casa dela e o pai dela a


probe de vir  minha? D com ela um passeio a cavalo de vez
em quando nas imediaes do Alto e deixe-nos trocar algumas
palavras na sua presena! No fizemos nada de mal para
merecer esta separao. O tio no est zangado comigo e no
tem razes para no gostar de mim, como j o declarou. Querido
tio! Mande-me uma resposta positiva amanh e deixe-nos
encontrar onde o tio quiser, menos na Granja dos Tordos. Creio
que uma conversa o convenceria de que no tenho o mesmo
caracter do meu pai. Ele costuma dizer que sou mais seu
sobrinho que filho dele e, embora tenha defeitos que me tornam
indigno da Catherine, ela aceitou-os e, para o bem dela, o tio
deveria aceit-los tambm. Perguntou-me como tenho passado de
sade: estou melhor, mas, enquanto viver sem esperana,
confinado  solido ou ao convvio daqueles que nunca
gostaram nem nunca gostaro de mim, como poderei estar alegre
e restabelecido?
   Mr. Edgar, embora tivesse pena do rapaz, no pde
satisfazer o seu desejo, pois nso estava em condies de
acompanhar a filha.
   Mandou dizer que talvez no Vero se pudessem encontrar, e
que, entretanto, gostaria que o sobrinho continuasse a
escrever :, regularmente e prometeu dar-lhe por carta todos os
conselhos e todo o conforto de que fosse capaz, tendo em
considerao a difcil posio do sobrinho na famlia.
Linton concordou e, se no tivesse sido impedido, teria
possivelmente estragado tudo ao encher as cartas de queixas e
lamentos, mas o pai vigiava-o atentamente e, claro, exigiu que
cada linha que o meu patro escrevesse lhe fosse mostrada.
Assim, em vez de descrever os seus sofrimentos e ansiedades,
temas que lhe ocupavam o pensamento, s falava da cruel
obrigao de estar separado da sua amiga e amada, sugerindo
delicadamente que Mr. Linton deveria em breve permitir um
encontro, caso contrrio pensaria que o tio o estava a enganar
com vs promessas.
   Cathy era uma poderosa aliada e, entre os dois, conseguiram
finalmente persuadir o meu patro a consentir que dessem um
passeio a cavalo ou a p, um vez por semana, sob a minha
vigilncia, nos terrenos circundantes da Granja. No ms de
Junho, Mr. Linton estava ainda mais fraco e, embora tivesse
posto de lado todos os anos uma certa percentagem do seu
rendimento para aumentar a fortuna da filha, tinha o desejo
compreensvel de que ela pudesse conservar, ou pelo menos
recuperar brevemente, a casa dos seus antepassados.
Considerava que a nica forma de o conseguir era casando-a com
o herdeiro: ignorava que este ltimo se encontrava numa
situao quase igual  sua; acho, alis, que toda a gente
ignorava isso. Nenhum mdico ia ao Alto dos Vendavais e
ningum visitava Master Heathcliff, para que se pudesse saber
como passava.
   Eu, pela minha parte, comecei a imaginar que os meus
pressentimentos estavam errados e que ele devia estar mesmo
melhor, uma vez que mencionara passeios a cavalo ou a p pelo
brejo, parecendo deveras decidido a perseguir os seus
objectivos.
   Eu no era capaz de imaginar um pai a tratar uma criana
moribunda to tirnica e maldosamente como mais tarde vim a
saber que Mr. Heathcliff fizera, aparentemente s para
satisfazer a sua ambio, redobrando os seus esforos de
intensidade  medida que os seus planos mesquinhos e
calculistas se viam ameaados de derrota pela morte.


CAPTULO XXVI



   J o Vero ia a meio, quando Mr. Edgar cedeu, ainda que com
relutncia, aos pedidos deles, e Miss Catherine e eu fomos dar
o nosso primeiro passeio para nos encontrarmos com o primo.
   Estava um dia enfadonho e carregado; o sol no brilhava,
mas as nuvens que salpicavam o cu no ameaavam chuva.
Tnhamos marcado o encontro junto ao marco de pedra da
encruzilhada. Contudo, ao chegarmos, um pastorinho enviado por
ele disse-nos:
   -- Master Linton est acol, na banda de c do Alto, e fica
muito agradecido se forem ter com ele.
   -- Master Linton ignorou a primeira recomendao do tio
disse eu -- o seu pai disse-nos para no sairmos da Granja e
ns acabmos de sair dela.
   -- No faz mal, viramos os nossos cavalos para este lado
assim que chegarmos ao p dele -- respondeu a minha
companheira -- e damos o passeio em direco a
casa.
   Mas quando o encontramos, a pouco mais de um quarto de
milha da casa dele, descobrimos que no tinha vindo a cavalo e
vimo-nos foradas a desmontar e a deixar os cavalos a pastar.
   Estava deitado sobre a urze,  espera de que nos
aproximssemos e s se levantou quando j estvamos muito
perto dele. Caminhava com tanta dificuldade e estava to
plido que exclamei de imediato:
   -- Master Heathcliff, o menino no est em condies de
passear. Est com muito m cara! -- A menina olhou-o com
tristeza e espanto, e a expresso de alegria que se desenhava
nos seus lbios transformou-se em preocupao e a satisfao
do reencontro deu lugar  pergunta ansiosa: ests pior?
   -- No, estou melhor, muito melhor -- disse ele, ofegante
e :, trmulo, segurando-lhe a mo como se precisasse de
apoio, enquanto os seus grandes olhos azuis a miravam de alto
a baixo; as fundas olheiras tinham transformado o olhar
languido de outros tempos num olhar selvagem e vazio.
   -- Mas tu pioraste! -- insistia a prima -- Pioraste desde a
ltima vez que te vi: ests mais magro e...
   -- Estou cansado -- interrompeu ele, precipitadamente. --
Est muito calor para andar a p; descansemos aqui um
bocadinho. De manh sinto-me muitas vezes mal. O meu pai diz
que  de eu crescer muito depressa.
   Pouco convencida, a menina sentou-se e ele deitou-se a seu
lado.
   -- Isto aqui  parecido com o teu paraso -- disse ela,
tentando simular alguma alegria. -- Lembras-te dos dois dias
que concordmos em passar juntos, no lugar e da forma que
mais nos aprouvesse? Este parece quase o teu lugar; a no ser
pelas nuvens, mas so to vaporosas e suaves que ainda 
melhor que um sol aberto. Na prxima semana, se puderes,
iremos a cavalo at ao parque da Granja e experimentars o meu
paraso.
   O primo parecia no fazer ideia do que a prima estava a
falar e tinha dificuldade evidente em manter uma conversa. O
desinteresse mostrado por todos os temas que ela trazia 
baila e uma igual incapacidade para a distrair eram to
bvios que Cathy no conseguia esconder o seu desapontamento.
Tinha-se operado nele uma transformao completa. A rabugice,


que poderia ter sido sublimada em afecto atravs de muito
carinho, tinha-se tornado numa lnguida apatia. Tinha menos do
temperamento rabugento da criana que se irrita e se arrelia
para depois ser mimada e mais da melancolia do invlido
inveterado que repele qualquer consolo e est sempre pronto a
considerar o riso bem-humorado dos outros como um insulto.
   Catherine, apercebendo-se, tal como eu, de que a nossa
companhia era para ele mais um castigo do que uma beno, no
teve escrpulos em sugerir a nossa partida.
   Esta proposta inesperada tirou Linton da letargia em que se
encontrava e provocou-lhe uma estranha agitao. Lanou um
olhar receoso em direco ao Alto e implorou-lhe que ficasse
pelo menos mais meia hora.
   -- Acho que estarias mais confortvel em casa do que aqui
sentado -- disse Cathy. Hoje no te consigo distrair, nem
contando :, histrias, nem cantando, nem conversando.
Amadureceste mais do que eu nestes seis meses e agora no
gostas das minhas brincadeiras.  claro que se te conseguisse
entreter, de bom grado ficaria.
   -- Fica, para descansares -- sugeriu ele. -- Olha,
Catherine, no penses que estou *muito* doente. E no fales
disto a ningum. Estou assim porque o tempo e o calor que me
pem mole; alm disso fartei-me de andar a p muito antes de
vocs chegarem. Diz ao tio Edgar que vou sobrevivendo, est
bem?
   -- Dir-lhe-ei que foi isso que *tu* disseste, Linton, mas
no sou da mesma opinio observou a minha jovem patroa, sem
entender o porqu da sua pertinaz insistncia no que era
obviamente uma mentira.
   -- Estarei aqui novamente na prxima quinta-feira --
continuou ele, evitando o olhar perplexo da prima. -- E
agradece ao teu pai ter permitido que tu viesses; os meus mais
sinceros agradecimentos, Catherine. E, se por acaso
encontrares o meu pai e ele perguntar por mim, no o deixes
perceber que estive sempre calado e amuado. No te mostres
triste e abatida como ests agora, seno ele fica zangado.
   -- Pouco me importo que ele se zangue -- exclamou Cathy,
supondo-se ela o alvo.
   -- Mas importo-me eu! -- disse o primo, estremecendo. --
*_No* o provoques, Catherine, nem o ponhas contra mim, que
ele  muito severo.
   -- Ai ele  muito severo com o menino? -- perguntei. -- J
se fartou de ser indulgente e revolveu passar do dio
silencioso s aces?
   Linton olhou para mim mas no respondeu. E Cathy, depois de
se ter mantido sentada ao lado do primo durante mais de dez
minutos, durante os quais ele adormeceu encostado ao seu
peito, abrindo apenas a boca para emitir gemidos de exausto
ou dor, comeou a procurar distraces colhendo mirtilos e
dividindo-os comigo. No os oferecia ao primo, pois j sabia
que o ia aborrecer.
   -- J passou meia-hora, Ellen! -- sussurrou por fim ao meu
ouvido. -- No vejo razo para ficarmos aqui mais tempo. Ele
adormeceu e o papa deve achar que so horas de voltarmos.
   -- Mas no podemos deix-lo aqui a dormir respondi. --
Espere at ele acordar, tenha pacincia. A menina estava
desejosa por este momento, mas a sua vontade de ver o pobre
Linton desaparecera bem depressa. :,
   -- Por que  que *ele* me quis ver? -- perguntou Catherine.
--  Gostava mais dele no auge do mau humor do que agora.
Parece que este encontro  uma obrigao que tem de cumprir


com medo de que o pai lhe ralhe. Mas a verdade  que no vou
voltar aqui s para agradar a Mr. Heathcliff, sejam quais
forem as razes que ele tem para obrigar o Linton a
submeter-se a esta penitncia. E, apesar de estar contente por
ver que est melhor, tenho pena de o vir encontrar muito
menos simptico e muito menos afeioado a
mim.
   -- Acha ento que a sade *dele* melhorou? --
perguntei.
   -- Acho -- respondeu. -- Porque ele sempre fez questo de
empolar o sofrimento. Talvez no esteja *muito* melhor, como
me pediu para eu dizer ao papa, mas est melhor.
   -- Nesse ponto no estamos de acordo, Miss Cathy --
sublinhei. -- A mim parece-me muito pior.
   Nessa altura, Linton acordou estremunhado e perguntou se
algum tinha chamado pelo seu nome.
   -- No -- respondeu a prima. -- S se tivesse sido em
sonhos. No consigo perceber como consegues adormecer ao ar
livre e a meio da manh.
   -- Pareceu-me ouvir o meu pai -- disse, respirando com
dificuldade e erguendo o olhar para a encosta sombria. -- Tm
a certeza de que ningum chamou por mim?
   -- A certeza absoluta -- assegurou a prima. S a Ellen e eu
 que falvamos do teu estado de sade. Sentes-te realmente
mais forte do que quando nos separamos no Inverno? Se assim ,
tenho a certeza de que uma coisa no melhorou: a tua
considerao por mim. Mas diz l, ests ou no ests melhor?
    medida que falava, as lgrimas corriam-lhe pelas faces:
   -- Estou melhor, sim!
   E, ainda influenciado pela voz imaginria, ergueu os olhos
para procurar o pai.
   Miss C athy levantou-se.
   -- Por hoje chega. Temos de partir e no vou esconder que
fiquei extremamente desapontada com o nosso encontro, embora
s to diga a ti; e no penses que  por ter medo de Mr.
Heathcliff.
   -- Cala-te -- murmurou o primo. -- Cala-te, por amor de
Deus! Ele vem a. -- E agarrou-se ao brao da menina, tentando
det-la; mas, quando esta o ouviu dizer que o pai vinha a,
libertou-se apressadamente da mo do rapaz e chamou a Minny
que acorreu, obediente como um
co. :,
   -- Estarei aqui outra vez na prxima quinta-feira disse
ela, saltando para a sela. Adeus. Depressa, Ellen!
   E foi assim que o deixmos. Mal se apercebeu da nossa
partida, preocupado como estava com a aproximao do
pai.
   Antes de chegarmos a casa, o descontentamento de Catherine
transformou-se numa sensao confusa e complexa, misto de
piedade e desgosto, salpicada de incertezas e receios sobre a
verdadeira situao de Linton, tanto fsica como familiar. Eu
compartilhava as suas dvidas, embora a tivesse convencido a
no falar nesse assunto, uma vez que teramos um segundo
encontro para as comprovarmos.
   O meu patro pediu-nos que lhe relatssemos o encontro: os
agradecimentos do sobrinho foram-lhe devidamente transmitidos,
Miss Cathy contou o resto sem entrar em grandes detalhes e eu
tambm falei do passeio muito por alto, pois no sabia o que
devia contar e o que devia omitir.
CAPTULO XXVII


   Sete dias se passaram, cada qual marcado pelo acelerado
agravamento do estado de sade de Edgar Linton. A doena que,
durante meses, o fora consumindo lentamente, apossara-se agora
dele com avassaladora rapidez.
   Se dependesse de mim, de bom grado teria iludido Catherine,
mas a sagacidade do seu esprito no a deixava enganar.
Instintivamente, pressentia a terrvel probabilidade que a
pouco e pouco se avolumava em certeza, e nela cismava dia e
noite.
   Quando chegou a quinta-feira, no teve coragem para
mencionar o passeio a cavalo; fui eu a faz-lo e a obter
permisso para a nossa sada; o quarto do pai e a biblioteca,
onde ele passava os breves momentos que lhe era possvel
estar a p, eram agora todo o mundo de Catherine: lamentava
cada momento que no pudesse estar  sua cabeceira ou sentada
junto dele. Andava to plida e abatida, das viglias e do
sofrimento, que o meu patro de bom grado a libertou para o
que pensava ser uma agradvel mudana de cenrio e de
companhia, servindo-lhe de algum conforto a esperana de que
ela no ficaria completamente sozinha aps a sua morte.
   Agarrava-se  ideia (digo-o por vrios comentrios que
deixou escapar) de que o sobrinho aliava  semelhana fsica
que tinha com ele tambm uma semelhana moral; na verdade, as
cartas de Linton pouco ou nada davam a conhecer do seu
carcter arrevesado, e eu, por desculpvel fraqueza, sempre me
abstive de corrigir esse erro, perguntando-me de que serviria
perturbar os seus ltimos momentos com coisas que ele no
tinha: possibilidade nem oportunidade de constatar.
   Adimos a nossa excurso para a parte da tarde; uma
tarde :, dourada de Agosto: o ar das colinas chegava at ns
to cheio de vida que parecia que quem o respirasse, ainda que
moribundo, ganharia novo alento.
O rosto de Catherine condizia com a paisagem -- sombras e sol
alternando-se em rpida sucesso; porm, as sombras
demoravam-se mais que os fugazes raios de sol, e o seu pobre
corao censurava-se at mesmo por se permitir este breve
alheamento dos seus cuidados.
   Avistmos Linton  nossa espera no mesmo lugar que tinha
escolhido da outra vez. A minha menina apeou-se e disse-me
que, como estava disposta a demorar-se muito pouco tempo,
seria melhor que eu ficasse a segurar o cavalo e no
desmontasse; no concordei, pois no me arriscaria a perder de
vista, por um minuto que fosse, quem me fora confiado. De modo
que subimos juntas a encosta coberta de
urzes.
   Desta vez, Master Heathcliff acolheu-nos com grande
animao; no a animao prpria da felicidade ou mesmo da
alegria, mas algo mais parecido com o medo.
   -- J  to tarde! -- censurou-a ele, com a voz
entrecortada, custando-lhe a falar. --  verdade que o teu
pai est muito doente? At pensei que no viesses.
   -- *_Por que* no s sincero? -- exclamou Catherine,
engolindo a sua saudao. -- Por que no dizes de uma vez que
no me queres?  estranho, Linton, que pela segunda vez me
tivesses chamado aqui propositadamente sem outra razo, ao que
parece, que a de nos atormentarmos um ao outro!
   -- Linton estremeceu e lanou-lhe um olhar meio suplicante,
meio envergonhado, mas a prima no estava
com pacincia para tolerar um comportamento to enigmtico.
   -- O meu pai est muito doente -- continuou. -- Por que


razo me fizeste sair do seu lado; por que no me desobrigaste
da minha promessa, quando o teu desejo era que eu no a
cumprisse? V, exijo uma explicao! No estou com cabea para
brincadeiras ou frivolidades, nem hoje estou com disposio
para aturar os teus
caprichos!
   -- Os meus caprichos! -- murmurou -- E quais so eles? Por
amor de Deus, Catherine, no fiques to zangada! Despreza-me
quanto queiras; sou um desgraado, um intil e um cobarde!
Todo o desdm ser pouco. Mas sou demasiado insignificante
para tanta fria -- odeia o meu pai e limita-te a
desprezar-me! :,
   -- S dizes disparates! -- repontou Catherine furiosa. --
Que grande palerma! Vejam s! Treme como se eu fosse
bater-lhe! No precisas de pedir que te desprezem, Linton; 
uma graa que todos te concedero espontaneamente. Desaparece!
Vou mas  voltar para casa.  parvoce arrastar-te para longe
da lareira e fingir... que fingimos ns, afinal? Larga-me o
vestido! Se tivesse pena de ti por chorares e te mostrares to
assustado, deverias recusar semelhante piedade! Ellen, faz-lhe
ver como a sua conduta  vergonhosa. Levanta-te e no desas
ao nvel de um rptil abjecto. Isso no!
   Banhado em lgrimas e com a agonia estampada no rosto,
Linton atirou-se para o cho, sacudido por convulses de
refinado terror.
   -- Oh! -- soluou -- No posso suportar isto por mais
tempo! Catherine, Catherine, eu sou tambm um traidor, e no
me atrevo a revelar-te a minha traio! Mas, se me abandonas,
ele mata-me! *_Minha querida* Catherine, a minha vida est nas
tuas mos... E tu disseste que me amavas... Que mal te poderia
isso fazer? J no te vais embora, pois no? Minha gentil,
minha doce e generosa Catherine! E tu talvez *concordes*... e
ele me deixe morrer contigo!
   Perante to exacerbada angstia, Catherine inclinou-se para
o ajudar a pr-se de p. A velha ternura indulgente
sobreps-se  irritao, deixando-a profundamente alarmada e
comovida.
   -- Concordar com qu? -- quis ela saber. -- Em ficar?
Explica-me o significado desta estranha conversa e ficarei.
Contradizes as tuas prprias palavras e confundes-me!
Acalma-te, s sincero e confessa de uma vez todos os teus
pesares. No serias capaz de me fazer mal, pois no Linton?
Nem deixarias que nenhum inimigo me prejudicasse, se o
pudesses evitar? Acredito que sejas um cobarde perante ti
prprio, mas nunca um cobarde, traidor da tua melhor
amiga.
   -- Mas o meu pai ameaou-me -- balbuciou o rapaz,
entrelaando os dedos magros, -- e eu tenho medo dele. Tenho
medo dele! No me *atrevo* a contar-te!
   -- Pois muito bem! -- volveu Catherine, com desdenhosa
compaixo. -- Guarda o teu segredo, eu no sou cobarde --
salva-te tu. Eu no tenho medo!
   A sua magnanimidade provocou as lgrimas do rapaz; chorava
desenfreadamente, beijando as mos dela, que o amparavam;
porm, no conseguia ganhar coragem para falar.
   Eu tentava descortinar qual seria o mistrio, decidida a
que, se dependesse de mim, Catherine nunca iria sofrer para o
beneficiar a ele ou a quem quer que fosse. Nisto, escutei um
rumor por entre as :, urzes, olhei para cima e deparei com Mr.
Heathcliff, que se aproximava de ns, vindo das b andas do
Alto dos Vendavais. No se dignou sequer olhar para os meus


companheiros, embora estes estivessem demasiado prximos para
que os soluos de Linton passassem despercebidos. Saudando-me
num tom quase caloroso, que no dirigia a mais ningum, e de
cuja sinceridade eu no podia deixar de duvidar, disse:
   -- Que surpresa ver-te to perto de minha casa, Nelly! Como
vo as coisas na Granja? Ora conta l! Corre o rumor -
acrescentou, baixando o tom, -- de que Edgar Linton est 
beira da morte; talvez exagerem o seu mal?
   -- No.  verdade. O meu patro est a morrer --
respondi-lhe. -- Ser uma tragdia para todos ns, mas uma
beno para ele!
   -- Quanto tempo achas que pode durar? -- perguntou.
   -- Francamente, no sei -- repliquei.
   -- Se fao a pergunta -- continuou, olhando para os dois
jovens, imveis sob o seu olhar (_Linton parecia no ousar
mover-se ou levantar a cabea sequer e, por sua causa,
Catherine tambm no podia mexer-se) --  porque este rapaz
parece disposto a contrariar-me e convinha-me que o seu tio
se fosse antes dele. Ento, este palerma tem-se portado sempre
assim? Mas eu j lhe dei uma boa ensinadela por causa das suas
choradeiras. Ele mostra-se geralmente ` animado com Miss
Lineon?
Animado? No senhor, pelo conerrio, est sempre muito abatido
-- respondi. -- Basta olhar para ele para se ver que, em vez
de andar a vaguear pelos montes com a namorada, devia estar na
cama, nas mos de um mdico.
   -- Para l h-de ir, daqui a um dia ou dois -- murmurou
Heathcliff. -- Mas antes... Levanta-te, Linton! Levanta-te!
gritou-lhe. -- No te rojes no cho! Levanta-te imediatamente!
   Linton afundou-se novamente num paroxismo de terror
incontrolvel, causado pelo olhar do pai, creio eu. Nenhuma
outra coisa poderia provocar semelhante humilhao. Fez vrias
tentativas para obedecer, mas a sua pouca resistncia estava
de momento aniquilada e voltou a tombar com um gemido.
   Mr. Heathcliff avanou para ele e ergueu-o, encostando-o a
um montculo relvado.
   -- Agora  que me vou zangar! -- vociferou com contida
ferocidade. -- E se no dominares essa fraqueza de
esprito... *_Maldito* sejas! Levanta-te imediatamente! :,
   -- Eu levanto-me, pap! -- ofegou Linton. -- Mas deixe-me
em paz, seno desmaio! Juro que cumpri as suas ordens.
Catherine, d-me a tua mo.
   -- Apoia-te na minha -- disse-lhe o pai -- e pe-te de p!
Pronto! Apoia-te no brao da tua prima... isso, olha para
*ela*. A menina h-de pensar, Miss Linton, que sou o prprio
Diabo para provocar semblante terror. Seja gentil e
acompanhe-o at casa, sim? Todo ele treme se lhe toco.
   -- Linton, querido! -- sussurrou Catherine. -- Eu no posso
ir contigo at ao Alto dos Vendavais... O pap proibiu-me... O
teu pai no te vai maltratar; de que tens tanto medo?
   -- No posso voltar quela casa... -- explicou o rapaz. --
No *posso* voltar a entrar naquela casa sem ti!
   -- Acaba j com isso... -- gritou-lhe o pai. -- Respeitemos
os escrpulos filiais de Catherine. Nelly, leva-o para casa,
que eu vou, sem demora, seguir o teu conselho e chamar o
mdico.
   -- Pois faz o senhor muito bem -- respondi, -- mas  minha
obrigao ficar com a minha patroa. Cuidar do seu filho no 
tarefa minha.
   -- J sei que s muito teimosa! -- resmungou Heathcliff. --
No me digas que vou ter de dar um belisco no menino e p-lo


a gritar para despertar a tua caridade. Vamos l, heri. Ests
disposto a voltar escoltado por mim?
   Aproximou-se dele outra vez e esboou o gesto de agarrar a
frgil criatura; mas, recuando, Linton agarrou-se  prima e
implorou-lhe que o acompanhasse, com uma impertinncia que
no admitia recusa.
   Por mais que discordasse, eu no podia impedi-la; na
verdade, como poderia ela recusar-se? No conseguamos
descortinar o que o enchia de pavor; mas ele ali estava, e to
impotente que a mais pequena contrariedade parecia capaz de o
levar  loucura.
   Quando chegmos  porta, Catherine entrou e eu fiquei 
espera c fora at que ela amparasse o invlido at uma
cadeira e voltasse a sair, mas Mr. Heathcliff empurrou-me para
dentro, dizendo:
   -- A minha casa no est empestada, Nelly; e hoje sinto-me
muito hospitaleiro; senta-te e deixa-me fechar a porta.
   Fechou a porta e trancou-a logo de seguida. Estremeci.
   -- Vo tomar ch antes de voltarem para casa --
acrescentou. -- Estou sozinho. O Hareton foi levar umas
cabeas de gado aos Lees, e a Zilah e oJoseph saram para
gozar um dia de folga. E, apesar de :, estar acostumado a
ficar sozinho, quando posso, prefiro ter uma companhia
interessante. Miss Linton, sente-se ao lado *dele*. Dou-lhe
aquilo que tenho; no  que o presente valha muito, mas  tudo
o que tenho para lhe oferecer. Estou a falar do Linton. Como
ela me olha fixamente!  estranho o sentimento selvagem que me
despertam todos os que parecem ter medo de mim! Se tivesse
nascido num lugar onde as leis fossem menos severas e os
gostos menos delicados, passaria uma noite bem divertida com a
lenta dissecao daqueles dois.
   Respirou fundo, deu um murro na mesa e praguejou para si
mesmo:
   Que inferno. Como os odeio!
    -- Eu no tenho medo de si! -- exclamou Catherine, que no
pde ouvir a ltima parte do discurso.
   Avanou para ele com os olhos negros faiscando de clera e
resoluo.
   -- D-me essa chave! D-ma j! Nem que estivesses fome,
comeria ou beberia o que quer que fosse nesta casa.
   Mr. Heathcliff segurava a chave com a mo que tinha em cima
da mesa. Ergueu os olhos, algo surpreendido pela ousadia de
Catherine, ou talvez recordado, pela voz e pelo olhar, de quem
ela herdara essa tenacidade.
   Ela, entretanto, agarrou na chave e quase conseguiu
arranc-la aos seus dedos frouxos; mas este gesto trouxe-o de
volta ao presente e ele recuperou a chave de
imediato.
   -- Agora, Catherine Linton -- advertiu ele -- saia da minha
frente ou serei forado a atir-la ao cho, o que deixaria
Mrs. Dean furiosa.
   Sem fazer caso do aviso, Catherine agarrou-lhe outra vez a
mo fechada, tentando alivi-la do seu contedo.
   -- *_Ns vamo-nos* embora! -- repetia, fazendo os mais
denodados esforos para afrouxar aqueles msculos de ferro;
mas, vendo que as unhas no surtiam grande efeito, aplicou-lhe
os dentes ferozmente.
   Mr. Heathcliff lanou-me um olhar que, por momentos, me
impediu de interferir. Catherine estava demasiado atenta  mo
dele para se dar conta da expresso do seu rosto. Subitamente,
ele abriu a mo, libertando o objecto de disputa; porm, antes


que Catherine conseguisse apanh-lo, ele agarrou-a com a mo
livre e, :, puxando-a para cima dos joelhos, deu-lhe com a
outra mo uma srie de bofetadas de um e outro lado da cabea,
das quais uma s seria suficiente para cumprir a ameaa de a
atirar ao cho, no estivesse ela firmemente segura entre as
suas pernas.
   Avancei para ele, furiosa perante violncia to demonaca.
   -- Pare! -- gritei-lhe -- Grande patife!
   Um murro no peito fez-me calar (eu sou gorda e depressa
perco o flego). Com o soco e a raiva, cambaleei entontecida,
com a impresso de que estava prestes a sufocar ou que me ia
rebentar alguma veia.
   A cena acabou em dois minutos. Catherine, j liberta,
apertava as tmporas entre as mos, como se no tivesse a
certeza de ainda possuir as orelhas. Tremia como varas verdes,
a pobrezinha, e apoiou-se na mesa, completamente aturdida.
   -- Como v, sei como castigar as crianas... -- disse o
malvado, inclinando-se para apanhar a chave, que entretanto
cara no cho. -- V ter com o Linton, como lhe ordenei e
chore  vontade! Amanh serei seu pai o -- nico pai que ter
daqui a alguns dias... e, ento, apanhar muito mais. Mas a
menina aguenta, no  nenhuma fracalhota. Ter uma dose
diria, se eu voltar a vislumbrar esse gnio diablico no seu
olhar!
   Em vez de se refugiar junto do primo, Cathy correu para
mim, ajoelhou-se e escondeu as faces ardentes no meu regao,
chorando alto. Linton encolhera-se num canto do banco, calado
como um rato, congratulando-se decerto pelo correctivo ter
sido aplicado a algum que no ele.
   Vendo-nos a todos perturbados, Mr. Heathcliff levantou-se e
fez rapidamente um bule de ch. As chvenas estavam j
dispostas sobre a mesa. Encheu-as e trouxe-me uma.
   -- Toma e lava a as tuas mgoas! -- disse. -- E v se
ajudas essas crianas malvadas, a tua e a minha. O ch no
est envenenado, embora tivesse sido eu a faz-lo. Vou l fora
procurar os vossos cavalos.
   Assim que ele saiu, o nosso primeiro pensamento foi tentar
fugir dali imediatamente. Experimentmos a porta da cozinha,
mas estava trancada por fora. Olhmos para as janelas, mas
eram demasiado estreitas, at mesmo para o corpo esguio de
Cathy.
   -- Master Linton -- gritei, vendo-nos prisioneiras -- o
menino sabe o que o diablico do seu pai pretende, e vai
dizer-nos o que . :,
   Seno, deixo-lhe as orelhas to quentes como ele deixou as
da sua prima.
   -- V, Linton, tens de nos dizer... -- implorou Catherine.
-- Foi por tua causa que aqui vim, e ser uma grande maldade
da tua parte se te recusares a dizer-nos o que se passa.
   -- Tenho sede. D-me um pouco de ch e depois te direi --
exigiu ele. -- Afaste-se, Mrs. Dean. Detesto que se debruce
sobre mim. Catherine, ests a deixar cair as tuas lgrimas
dentro da minha chvena! J no bebo isso. Traz-me
outra!
   Catherine assim fez e enxugou as faces. Enojava-me o
comportamento daquele infeliz a partir do momento em que se
sentiu em segurana. O pavor que manifestara no urzal
desaparecera assim que entrara no Alto dos Vendavais.
Depreendi que fora ameaado com os mais terrveis castigos se
no conseguisse atrair-nos at ali, e agora, conseguido o seu
propsito, os medos haviam desaparecido.


   -- O meu pai quer que nos casemos... -- comeou ele, depois
de beberricar um pouco de ch. -- Mas ele sabe que o teu pai
no consentira que nos casemos j e receia que eu morra antes
se esperarmos. Por isso, vamos casar-nos amanh de manh e,
por isso, tens de passar aqui a noite. Se fizeres o que ele
deseja, voltars para casa de seguida levando-me contigo.
   -- Lev-lo com ela, seu infeliz? -- exclamei. --
*_Casarem-se*? O homem est  doido! Ou toma-nos a todos por
tolos. E o menino imagina que esta menina to linda, saudvel
e bondosa se vai amarrar a um mono moribundo como o menino?
Acredita de verdade que *algum*, e muito menos Miss
Catherine, o querer para marido? O menino merecia era uns
aoites por nos ter atrado aqui com as suas intrujices. E no
me olhe com esse ar apatetado! Sou muito bem capaz de lhe dar
uns bons abanes pela sua traio desprezvel e presuno
imbecil.
   Ainda o sacudi ligeiramente, o que lhe provocou um ataque
de tosse e o fez recorrer aos habituais gemidos e prantos, o
que me valeu um olhar de censura de Catherine.
   -- Ficar aqui toda a noite? No! -- exclamou ela, olhando 
sua volta. -- Ellen, nem que eu tenha de deitar fogo  porta,
eu hei-de sair daqui.
   E teria comeado a cumprir de pronto essa ameaa, se
Linton, alarmado, no se tivesse levantado temendo novamente
pela sua segurana, prendendo-a nos seus braos dbeis e
soluando:
   -- No me queres salvar... no me queres levar para a
Granja? :, Oh, querida Catherine! No podes ir-te embora e
deixar-me aqui. *_Tens* de obedecer ao meu pai, *deves*
obedecer-lhe!
   -- Devo  obedecer ao meu pai -- replicou ela. -- E
poup-lo a esta angstia cruel Toda a noite! Que ir pensar?
J deve estar aflito. Nem que eu tenha de deitar alguma coisa
abaixo ou incendiar a casa para achar uma sada. Est calado!
Tu no corres perigo, mas se me impedires, Linton... Olha que
eu amo o meu pai mais do que te amo a ti!
   O terror mortal que a fria de Mr. Heathcliff nele
despertava restituiu ao rapaz a eloquncia da cobardia.
Catherine estava desnorteada; no obstante, continuava
agarrada  ideia de voltar para casa e tentou, por seu turno,
convencer o primo a dominar o seu pavor egosta.
   Enquanto assim altercavam, reapareceu o nosso
carcereiro.
   -- Os vossos cavalos fugiram -- anunciou. -- Ento, Linton!
A choramingar de novo? Que te fez ela? Acaba l com isso e
vai-te deitar. Dentro de um ms ou dois, meu rapaz, poders
devolver-lhe as tiranias de agora com mos vigorosas. Anseias
pelo amor verdadeiro, nada mais. Ela receber-te-! Agora,
para a cama! A Zillah no est c hoje e ters de te despir
sozinho. Caluda! No quero caramunhas! Assim que estiveres no
teu quarto, no te incomodarei mais e j no precisas de ter
medo. Por sorte, portaste-te menos mal. Agora eu trato do
resto.
   Proferiu estas palavras, segurando a porta para o filho
passar; este saiu, como um cachorro que desconfiasse que o
propsito do dono naquele instante era esborrach-lo.
   A porta foi de novo trancada. Mr. Heathcliff aproximou-se
da lareira, onde ns duas permanecamos em silncio. Catherine
ergueu os olhos, levando instintivamente a mo  cara, como se
aquela proximidade lhe reavivasse a sensao dolorosa.
Qualquer pessoa seria incapaz de se insurgir com severidade


contra aquele gesto infantil, mas ele lanou-lhe um olhar
carrancudo e resmungou:
   -- Com que ento no tem medo de mim? Disfara bem a sua
coragem, pois *parece* perfeitamente aterrorizada!
   -- Agora *tenho* -- retorquiu Catherine -- porque, se eu
continuar aqui, o pap vai ficar aflitssimo; e como posso eu
tolerar a ideia de o afligir quando ele... quando ele... Mr.
Heathcliff, deixe-me voltar para casa! Eu prometo casar me com
o Linton -- o pap assim o deseja e eu tambm, porque o amo.
Por que razo h-de forar-me a fazer algo que eu estou
disposta a fazer de livre vontade? :,
   -- Ele que se atreva a obrig-la! -- gritei eu. -- Ainda
existem leis neste pas, graas a Deus, embora a gente esteja
no fim do mundo. Denunci-lo-ia, mesmo que ele fosse
meu filho. Isto  um crime de que ningum pode ser absolvido!
   -- Basta! -- vociferou o desalmado. -- Estou farto dos teus
estardalhaos! *_Tu* ests proibida de falar. Miss Linton,
agrada-me deveras a ideia de o seu pai ficar aflito; nem vou
dormir com tanta satisfao. No poderia consolidar mais o meu
propsito de a reter em minha casa nas prximas vinte e quatro
horas do que dizendo-me que o seu pai se vai afligir. Quanto
 sua promessa de desposar o Linton, tomarei providncias para
que a cumpra, pois no deixar este lugar sem que o faa.
   -- Pelo menos, deixe a Ellen ir avisar o meu pai de que me
encontro bem! -- implorou Catherine, chorando amargamente. --
Ou, ento, case-me j. Pobre pap! Vai pensar que nos
perdemos, Ellen. Que havemos de
fazer?
   -- No! Vai  pensar que a menina est farta de tratar dele
e se escapou, para se distrair um pouco -- respondeu
Heathcliff. --  No pode negar que entrou em minha casa de
livre vontade, desrespeitando as suas ordens em contrrio. E
 muito natural que na sua idade deseje divertir-se e que se
cansasse de cuidar de um homem doente, sendo esse homem
*apenas* o seu pai. Catherine, os dias mais felizes da vida
dele acabaram quando os seus comearam. Suponho que a deve ter
amaldioado por ter vindo ao mundo. Eu, pelo menos assim fiz.
E h-de amaldio-la quando morrer. Nesse ponto, estou de
acordo com ele. No gosto de si! Por que havia de gostar?
Chore pr.a. Pelo que vejo, ser esse o seu passatempo
favorito a partir de hoje, a menos que o Linton a compense
das suas perdas. O seu previdente progenitor parece
convencido de que ele o far. As suas cartas cheias de
conselhos e palavras de conforto divertiram-me bastante. Na
ltima recomendava ao meu tesouro para cuidar tem do dele; e
que fosse bondoso para com ele quando ele lhe pertencesse.
Cuidadoso e bondoso. Que paternal! Mas o Linton gasta em
proveito prprio todo o seu arsenal de cuidados e bondade.
Sabe ser um perfeito tirano. Torturaria todos os gatos, se
antes lhe arrancassem os dentes e as garras. Pode ter a
certeza de que ter belas histrias da sua *bondade* para
contar ao tio dele, quando voltar para
casa.
   -- Ora assim  que  falar! -- volvi eu. -- Mostre o
carcter do :, seu filho e as semelhanas que tem consigo.
Talvez Miss Cathy pense duas vezes antes de aceitar para
marido semelhante rptil!
   -- Chega de falar das *louvveis* qualidades dele! --
atalhou Heathcliff. -- Ou ela o aceita, ou fica aqui presa
contigo at  morte do teu patro. Posso manter-vos aqui
perfeitamente ocultas. Se duvidas, incentiva-a a faltar  sua


palavra e ters oportunidade de julgares por ti prpria!
   -- No faltarei  minha palavra! -- disse Catherine. --
Casarei com ele agora mesmo, se puder voltar  Granja dos
Tordos em seguida. Mr. Heathcliff, o senhor  um homem cruel,
mas no  nenhum demnio, e decerto no querer, por *mera*
maldade, destruir irremediavelmente toda a minha felicidade.
Se o pap pensar que eu o abandonei de propsito e morrer
antes do meu regresso, como poderei eu continuar a viver? J
sei que de nada serve chorar, mas vou ajoelhar-me aqui e no
me levantarei nem desviarei o olhar do seu rosto sem que os
seus olhos encontrem os meus! No, no se v embora! *_Olhe*
para mim! No ver nos meus olhos nada que o provoque. Eu no
o odeio. Nem estou zangada por me ter batido. Nunca na sua
vida amou
*ningum*, tio? *_Nunca*? Olhe-me uma vez s -- estou to
aflita que no poder deixar de ter pena de mim.
   -- Afaste de mim esses seus dedos de lagartixa e saia da
minha frente se no quer levar um pontap! bradou Heathcliff,
repelindo-a brutalmente. -- Preferia ser abraado por uma
serpente. Como diabo pensou que pudesse bajular-me? Odeio-a!
   Encolheu os ombros, ou melhor, estremeceu todo como se a
pele se lhe arrepiasse de averso, e atirou a cadeira para
trs, enquanto eu me levantei e abri a boca, afivelando um
chorrilho de insultos. Emudeci, contudo, no meio da primeira
frase, com a ameaa de que seria fechada num quarto sozinha se
proferisse mais uma slaba que fosse.
   L fora, a noite principiava a cair. Ouvimos o som de vozes
no porto do jardim. O nosso anfitrio precipitou-se l para
fora. Ele no perdera a serenidade; ns estvamos
completamente desnorteadas. Escutmos uma conversa de alguns
minutos e ele voltou sozinho.
   -- Julguei que fosse o seu primo Hareton. -- observei para
Catherine. -- Quem me dera que ele chegasse! Quem sabe, talvez
tomasse o nosso partido...
   -- Eram trs criados da Granja, mandados  vossa procura.
-- :, disse Heatheliff, ouvindo o meu desabafo. -- Deverias
ter aberto uma janela e gritado; mas podia jurar que a pequena
esta contente por no o teres feito. Estou certo de que se
sente feliz por ser obrigada a ficar.
   Ao sabermos da oportunidade que havamos perdido, demos
largas ao nosso desgosto. Ele deixou-nos chorar  vontade at
s nove horas; depois, ordenou-nos que subssemos pela escada
da cozinha at ao quarto da Zillah. Segredei  minha
companheira que obedecesse; talvez consegussemos fugir pela
janela ou alcanar o sto e sair pela clarabia.
   Contudo, a janela era estreita, como as do piso inferior, e
ao alapo do sto no nos era possvel chegar. De modo que
continuvamos to prisioneiras como dantes.
   Nenhuma de ns se deitou. Catherine sentou-se  janela e
esperou ansiosa pela manh. Em resposta s minhas constantes
splicas de que deveria tentar descansar um pouco, deu apenas
um profundo suspiro.
   Eu sentei-me numa cadeira e a me deixei ficar, balanando
para a frente e para trs e repreendendo-me severamente pelas
muitas transgresses ao meu dever, das quais, como ento
verifiquei, haviam resultado todos os infortnios dos meus
patres. Sei agora que no era assim, mas assim se afigurava 
minha imaginao, naquela noite triste, de tal forma que
cheguei a considerar Mr. Heathcliff menos culpado do que eu.
   Ele apareceu s sete da manh e perguntou se Miss Linton j
se levantara.


   Ela correu para a porta e respondeu:
   -- Sim.
   -- Ento, vamos l! -- ordenou ele, abrindo a porta e
puxando a menina para fora.
   Levantei-me para a acompanhar, mas ele fechou a porta
novamente, no fazendo caso das minhas reclamaes.
   -- S paciente! -- retorquiu-me. -- Daqui a pouco mando-te
o pequeno almoo -- Dei socos na porta e abanei o ferrolho,
furiosa. Catherine perguntou por que me encontrava ainda
presa, ao que ele respondeu que eu ainda teria de esperar mais
umas horas, e afastaram-se.
   Esperei duas ou trs horas; por fim, escutei passos e pude
perceber que no eram os de Mr. Heathcliff. :,
   -- Trouxe-lhe alguma coisa para comer -- disse uma voz --
pote dar a volta ao puxador!
   Obedeci de pronto e deparei-me com Hareton, carregado de
comida para todo o dia.
   -- Tome l acrescentou, colocando-me o tabuleiro nas mos.
   -- Espera um instantinho... -- disse eu.
   -- No! -- esquivou-se ele, retirando-se, insensvel a
todas as splicas com que tentei det-lo.
   E ali fiquei fechada todo aquele dia e toda a noite
seguinte; e ainda outra e mais outra. Cinco noites e quatro
dias ali permaneci, sem ver ningum a no ser o Hareton, que
aparecia todas as manhs. Era um carcereiro exemplar:
taciturno, mudo e surdo a todas as minhas tentativas de
despertar o seu sentido de justia e compaixo.
CAPTULO XXVIII
   Na manh, ou melhor, na tarde do quinto dia, senti passos
diferentes a aproximarem-se, mais leves e mais curtos, e desta
vez a pessoa em questo entrou no quarto. Era Zillah, envolta
no seu xaile vermelho, de touca de seda preta na cabea e um
cabaz enfiado no brao.
   -- Credo, Mrs. Dean! -- exclamou ela. -- Que falatrio vai
a seu respeito em Gimmerton! Eu pensava que a senhora se tinha
afogado no pntano de Blackhorse, e a sua menina tambm, at
o patro me dizer que as tinha encontrado e trazido para aqui!
Decerto conseguiram alcanar alguma ilha, no? E quanto tempo
ficaram nas poas? Foi o meu patro que a salvou, Mrs. Dean?
Mas nem por isso est mais magra... podia ter sido pior, no
?
   -- O teu patro  o pior patife que existe  face da terra!
-- respondi-lhe eu. Mas ele vai pagar pelo que fez. E
escusava bem de inventar essa histria, pois tudo se vir a
saber!
   -- Que quer dizer com isso? -- quis saber Zillah. -- Ele
no inventou nada.  a histria que se conta na aldeia: que a
senhora se perdeu no pntano. Eu, quando cheguei a casa; at
disse a Mr. Earnshaw: Ah, Mr. Hareton, que coisas estranhas
aconteceram enquanto andei por fora. Tenho tanta pena daquela
linda menina, e da Nelly Dean. -- E ele olhou-me espantado e
eu pensei que no soubesse de nada e contei-lhe os rumores que
corriam em Gimmerton. O patro ouviu, sorriu-se e disse:
   -- Se elas estiveram no pntano, j de l saram, Zillah. A
Nelly Dean est, neste preciso momento, no teu quarto. Quando
subires, podes dizer-lhe que saia. Aqui tens a chave. A gua
do pntano deu-lhe a volta ao miolo e ficou a imaginar coisas;
mantive-a aqui fechada at que recuperasse o juzo. Podes


mand-la para a Granja, :, se ela estiver capaz, e leva-lhe um
recado da minha parte: que a menina seguir para l a tempo de
assistir ao funeral do pai.
   -- Mr. Edgar morreu? -- balbuciei, -- Oh, Zillah, Zillah!
   -- No, no. Sente-se, Mrs. Dean. V-se que ainda est
doentinha -- disse ela. Mr. Edgar no morreu. O Dr. Kenneth
pensa que ele pode durar ainda mais um dia; encontrei-o na
estrada e perguntei-lhe.
   Em vez de me sentar, peguei nas minhas coisas e sa pela
porta fora, j que o caminho estava livre.
   Ao entrar na sala, olhei em volta tentando encontrar algum
que me informasse do paradeiro de Catherine.
   O aposento estava inundado de sol e a porta escancarada,
mas no se via vivalma.
   Enquanto hesitava entre sair dali de imediato ou voltar
atrs para procurar a minha menina, a minha ateno foi
atrada por uma tossidela vinda das bandas da lareira.
Aproximei-me. Deitado no banco, Linton, a nica presena na
sala, chupava um pauzinho de rebuado e seguia os meus
movimentos com um olhar aptico.
   -- Onde est Miss Catherine? -- inquiri severamente,
pensando que poderia assust-lo a ponto de obter
dele alguma informao, agora que o apanhava
sozinho.
   Ele continuou a chupar o rebuado, inocentemente.
   -- Foi-se embora? -- insisti eu.
   -- No -- respondeu. -- Est l em cima -- ela no pode ir
para casa; ns no deixamos.
   -- Qual no deixam, seu idiota! -- exclamei. -- Leve-me j
ao quarto dela, ou chego-lhe a roupa ao plo.
   -- O meu pai  que lhe chega a si a roupa ao plo, se
tentar l entrar -- replicou. -- Ele diz que eu no devo ser
brando com a Catherine, pois ela  minha mulher e  vergonhoso
que queira abandonar-me! Ele diz que ela me odeia e que quer
que eu morra, para poder ficar com o meu dinheiro, mas isso
ela no h-de conseguir; e tambm no voltar para casa! Nunca
mais! Pode chorar e adoecer  vontade!
   E prosseguiu a sua ocupao anterior, fechando os olhos,
como se tencionasse dormir.
   -- Master Heathcliff -- tornei eu -- j se esqueceu de toda
a bondade de Catherine para consigo, no Inverno passado,
quando o menino afirmou que a amava? E quando ela trouxe
livros e cantou para si e mais de uma vez enfrentou o vento e
a neve s para o vir :, ver? Chegava a chorar se falhasse uma
nica noite, pois sabia que o menino ficaria desapontado;
nessa altura achava que ela era cem vezes melhor que o menino.
E, agora, acredita nas mentiras que o seu pai lhe conta, mesmo
sabendo que ele vos detesta a ambos? E o menino aliado ao seu
pai contra ela! Bonita gratido a sua, no haja dvida!
   Os cantos da boca de Linton descaram e ele afastou dos
lbios o chupa-chupa.
   -- Acha que Catherine veio ao Alto dos Vendavais porque o
odiava? -- continuei. -- Ora pense pela sua cabecinha! Quanto
ao seu dinheiro, ela nem sabe se o menino alguma vez ter
algum. Disse que ela est doente e, no entanto, deixou-a
sozinha l em cima numa casa estranha! E logo o *menino*, que
sabe o que  sentir-se abandonado! Quando se queixava dos seus
sofrimentos, ela sofria por si, e agora o menino no tem pena
dela! Eu, que sou velha e no passo de uma criada, choro por
ela, como v... e o menino, depois de fingir uma grande
afeio e tendo tantas razes para a adorar, guarda todas as


lgrimas para si e fica a deitado, muito calmo. Ah, o menino
 um egosta sem corao!
   -- No consigo estar ao p dela -- afirmou contrariado.
--Prefiro ficar sozinho. Ela chora tanto que eu no consigo
suportar. E no se cala, nem que eu ameace chamar o meu pai.
Uma vez chamei-o mesmo e ele ameaou estrangul-la se ela no
se calasse, mas ela recomeou no mesmo instante em que ele
saiu do quarto. E chorou e gemeu toda a noite, embora eu lhe
gritasse que no me deixava dormir.
   -- Mr. Heathcliff saiu? -- perguntei, percebendo que a
desprezvel criatura era incapaz de ter d da tortura mental
da prima.
   -- Est no ptio a falar com o Dr. Kenneth que diz que o
tio est a morrer -- respondeu. -- Finalmente! Estou contente,
pois serei eu o dono da Granja depois da morte dele. E
Catherine sempre se referiu a ela como a *sua* casa. Mas no 
dela.  minha! O meu pai diz que tudo o que ela possui  meu,
todos os seus belos livros so meus. Ela at me disse que mos
dava, mais os seus lindos pssaros e a Minny, se eu
conseguisse apanhar a chave do quarto e a deixasse fugir, mas
eu disse-lhe que ela no podia dar-me nada, porque tudo
isso j era meu. Ento, ela chorou e tirou um pequeno medalho
do fio que tinha ao pescoo, dizendo que seria meu: dois
retratos numa moldura dourada; de um; lado a me e do outro o
meu tio, quando eram novos. Isto passou-se ontem; disse-lhe
que eram meus :, tambm e tentei tirar-lhos, mas ela,
despeitada, no me deixou: empurrou-me e magoou-me. Desatei a
gritar, o que a assusta sempre muito, e ela, ao ouvir os
passos do meu pai, quebrou as dobradias do medalho,
partindo-o em dois, e deu me o retrato da me, procurando
esconder o outro. Mas o meu pai perguntou o que se passava e
eu contei-lhe tudo. Ele tirou-me o retrato que eu tinha na mo
e ordenou-lhe que me desse o outro. Ela recusou e ele
bateu-lhe e arrancou-lhe o retrato da corrente, calcando-o em
seguida com o p.
   -- E o menino ficou muito contente de a ver espancada? --
indaguei eu, com o propsito de o incitar a prosseguir.
   -- Fechei os olhos... -- retrucou. --  o que eu fao
quando vejo o meu pai a bater num co ou num cavalo... E com
que fora ele o faz! No entanto, a princpio fiquei contente,
pois ela merecia ser castigada por me castigar a mim; mas
quando o meu pai se foi embora, a Catherine levou-me  janela
e mostrou-me a face cortada pelo lado de dentro, contra os
dentes, e a boca cheia de sangue. Depois, apanhou os bocados
do retrato e foi sentar-se virada para a parede e no voltou a
falar comigo. Por vezes, penso que ela no pode falar com as
dores. No gosto de pensar nisso! Mas ela  muito m por
chorar continuamente; est to plida e desvairada que chego a
ter medo dela!
   -- O menino, se quisesse, podia conseguir a chave, no
podia?  -- quis eu saber.
   -- Pois podia, quando estou l em cima -- retorquiu. -- Mas
agora no posso ir a acima.
   -- Em que quarto est ela? -- inquiri.
   -- Oh -- exclamou -- isso no posso dizer!  segredo.
Ningum sabe. Nem mesmo o Hareton ou a Zillah podem saber.
Bem, j me cansou bastante; v-se embora, v-se embora! -- e,
dizendo isto, escondeu o rosto no brao e fechou os olhos
novamente.
   Achei melhor partir sem me encontrar com Mr. Heathcliff e
ir  Granja buscar ajuda para a minha menina.


   Ao verem-me chegar, os outros criados no cabiam em si de
espanto e alegria. E quando souberam que a menina estava s e
salva, dois ou trs prepararam-se logo para correrem escada
acima e darem a boa nova a Mr. Edgar, mas no deixei: queria
ser eu mesma a faz-lo.
   Como ele tinha mudado neste curto espao de poucos dias!
Jazia na cama, qual imagem da tristeza e resignao, esperando
a morte. :, Parecia ainda to novo! Apesar de j ter trinta e
nove anos, dir-se-ia dez anos mais novo, pelo menos. Estava a
pensar em Catherine, pois ouvi-o balbuciar o seu nome.
Toquei-lhe na mo e sussurrei:
   -- Miss Catherine est a chegar, meu querido senhor! A
menina est viva e de boa sade e estar aqui, se Deus quiser,
ainda esta noite.
   Estremeci ao ver o efeito que esta notcia produziu: o meu
patro soergueu-se, correu os olhos pelo quarto, ansioso, e
voltou a cair para trs, sem sentidos.
   Assim que recuperou o conhecimento, relatei-lhe a nossa
visita forada e posterior deteno no Alto dos Vendavais.
Disse-lhe que Mr. Heathcliff me forara a entrar, o que no
era inteiramente verdade. Falei o menos possvel contra
Linton e no descrevi em pormenor a conduta brutal do pai, j
que a minha inteno era, se possvel, no acrescentar mais
amargura  taa j to cheia do meu patro.
   Ele adivinhava que um dos propsitos do seu inimigo era
garantir ao filho, ou seja, a si prprio, a posse, no s dos
seus bens mveis, mas tambm dos bens de raiz. Mas a razo por
que Mr. Heathcliff no esperava pela sua morte era algo que o
meu patro no compreendia, pois ignorava que tanto ele como o
sobrinho deixariam o mundo quase ao mesmo tempo.
   Contudo, considerou que seria melhor alterar o seu
testamento: em vez de deixar a fortuna de Catherine 
disposio dela, pretendia deix-la ao cuidado de
testamenteiros, para seu usufruto, passando depois para os
seus filhos, caso viesse a ter alguns. Desta forma, a herana
no poderia ir parar s mos de Mr. Heathcliff, caso Linton
morresse.
   Obedecendo s ordens recebidas, mandei um homem buscar o
tabelio e ordenei a mais quatro que se munissem de armas e
fossem, resgatar a menina  sua priso. Tanto um como os
outros se demoraram. O criado que tinha partido sozinho foi o
primeiro a chegar.
   Disse que Mr. Green, o tabelio, no se encontrava em casa
quando ele l chegara e que tivera de esperar duas horas at
ele voltar e que, ao chegar, ele lhe dissera que tinha um
assunto a tratar na vila, mas que passaria pela Granja dos
Tordos antes do amanhecer.
   Os quatro homens voltaram igualmente desacompanhados.
Traziam o recado de que Catherine se encontrava demasiado
doente :, para deixar o quarto e que M,. Heathcliff no lhes
havia permitido v-la.
   Ralhei com os idiotas por acreditarem em semelhante
patranha, que no pode contar ao meu patro. Resolvi ento
que, ao romper da manh, levaria comigo um bando de gente at
ao Alto e tomaramos a casa de assalto, se a prisioneira no
nos fosse entregue de
imediato.
   Jurei e tornei a jurar que o pai *tinha* de ver a filha,
nem que para isso tivssemos de matar aquele demnio  sua
prpria porta, por nos impedir de entrar.
   Felizmente, foi-me poupada a viagem e o incmodo.


   Por volta das trs horas, desci ao piso inferior para ir
buscar um jarro de gua e, ao passar pelo vestbulo, j com o
jarro na mo, ouvi umas pancadas na porta da frente que me
fizeram sobressaltar.
   _Oh! Deve ser o tabelio -- pensei, recompondo-me. --
_S pode ser Mr. Green, e continuei o meu caminho,
tencionando mandar algum abrir a porta; mas as pancadas
continuaram, no muito fortes, mas insistentes. Pousei o jarro
no corrimo e apressei-me a ir eu mesma abri-la.
   L fora brilhava a lua cheia. Afinal, no era o tabelio.
Era a minha querida menina que se atirou ao meu pescoo a
soluar...
   -- Ellen, Ellen! O pap est vivo?
   -- Est, sim! -- afirmei -- Est sim, meu anjo! Deus seja
louvado, a menina est connosco outra vez!
   Ela quis logo correr pela escada acima e ir ao quarto do
pai, mesmo ofegante como estava, mas eu obriguei-a a sentar-se
numa cadeira, fi-la beber um pouco de gua e lavei-lhe o rosto
empalidecido, friccionando-o com o avental para lhe trazer
alguma cor s faces. Depois, disse-lhe que era melhor ir eu
primeiro dizer a Mr. Edgar que ela chegara e implorei-lhe que
se declarasse feliz com Master Heathcliff. Ela olhou-me
espantada, mas logo compreendeu o motivo pelo qual a
aconselhava a mentir, e prometeu-me que
no se queixaria.
   Eu no suportei assistir quele encontro. Esperei do lado
de fora do quarto durante um quarto de hora e s ento entrei,
mal me atrevendo a aproximar-me do leito.
   Mas tudo estava sereno: o desespero de Catherine era to
silencioso como a alegria do pai. Ela amparava-o com aparente
:, serenidade e ele fixava no rosto da filha uns olhos, que
pareciam dilatados pelo xtase.
   E assim morreu em paz, Mr. Lockwood. Morreu feliz. Beijou a
face da filha e murmurou:
   -- Vou reunir-me a ela, e tu, minha querida filha, um dia
te juntars a ns. No disse mais nada, no se mexeu mais;
continuou com aquele olhar extasiado at que,
imperceptivelmente, o seu corao deixou de bater e a sua alma
se elevou. Ningum poderia dizer o momento exacto da sua
morte, pois no houve um s estremecimento que o denunciasse.
   Ou porque tivesse j esgotado todas as lgrimas, ou porque
a dor fosse to intensa que lhe refreava o pranto, Catherine
ali ficou sentada de olhos enxutos at ao romper da aurora; e
no mesmo lugar permaneceu at ao meio-dia, e ali teria ficado,
meditando junto ao leito de morte, se eu no tivesse insistido
para que ela descansasse um pouco.
   Ainda bem que consegui tir-la de l, pois  hora do jantar
apareceu o tabelio, que havia passado primeiro pelo Alto dos
Vendavais, para receber instrues quanto s medidas a tomar.
Tinha-se vendido a Mr. Heathcliff e essa havia sido a causa da
sua demora em acorrer ao chamado do meu patro. Felizmente que
esta preocupao no veio atorment-lo  hora da sua morte,
to feliz estava com a chegada da filha.
   Mr. Green chamou a si a tarefa de dirigir tudo e todos.
Despediu todos os criados, menos eu, e teria usado a
autoridade que lhe fora delegada para ordenar que Edgar Linton
fosse enterrado, no ao lado da mulher, mas sim na capela,
junto da famlia. Havia, porm, o testamento para impedir tal
propsito, bem como os meus protestos veementes contra
qualquer infraco s suas
disposies.


   O funeral foi realizado a pressa e Catherine, agora Mrs.
Linton Heathcliff, teve autorizao para permanecer na Granja
at  sada do fretro.
   Segundo me contou depois, a sua angstia tinha finalmente
compelido Linton a correr o risco de a libertar. Ela tinha
ouvido os homens que eu enviara a discutirem  porta e
adivinhara a resposta de Mr. Heathcliff, o que a deixara
desesperada. Linton, que fora mandado l para cima para a
saleta logo que eu o deixara, ficou to assustado que foi
buscar a chave antes que o seu pai voltasse.
   Teve a astcia de abrir a porta e deix-la encostada,
tornando a :, dar a volta  chave; quando chegou a hora de
deitar, pediu que o deixassem dormir no quarto de Hareton, o
que lhe foi concedido, por essa vez.
   Catherine escapuliu-se do quarto antes do amanhecer. No se
atrevera a tentar abrir as portas com medo de que os ces
dessem o alarme. Percorreu os aposentos desocupados e
experimentou as janelas. Por sorte, pde passar com facilidade
pela janela do antigo quarto da me, descendo pelo abeto que
se encontra encostado  casa e num instante alcanou o jardim.
Quanto ao seu cmplice, acabou por ser castigado pela sua
participao na fuga, apesar das manhas utilizadas.
CAPTULO XXIX
   Na noite seguinte ao funeral, a minha jovem patroa e eu
estvamos sentadas na biblioteca, chorando tristemente a nossa
perda e fazendo conjecturas para um futuro que se apresentava
pouco risonho.
   Tnhamos chegado  concluso de que a melhor coisa que
poderia acontecer a Catherine era ser-lhe concedida permisso
para continuar a residir na Granja, pelo menos enquanto
Linton vivesse; isto, no caso de o pai lhe dar autorizao a
ele para vir viver connosco e, a mim, para continuar como sua
governanta. Esta soluo parecia-me boa demais para depositar
nela grandes esperanas e, no entanto, tinha f que assim
fosse, e comecei at a animar-me com a perspectiva de
conservar o meu lugar e, acima de tudo, de poder continuar a
cuidar da minha querida menina. Assim pensava, quando um dos
criados que havia sido despedido, mas que no partira ainda,
entrou apressado na sala dizendo que aquele demnio do
Heathcliff vinha a atravessar o ptio e perguntava se lhe
deveria fechar a porta na
cara.
   Mesmo que fssemos suficientemente loucas para o fazer, no
teramos tido tempo. Mr. Heathcliff no se deu ao trabalho de
bater ou de se fazer anunciar; era dono e senhor de tudo e
usou esse privilgio para entrar em casa sem dizer palavra.
   O som da voz do criado guiou-o directamente at 
biblioteca. Entrou e, dando-lhe ordem para sair, fechou a
porta.
   Era esta a mesma sala onde ele, h dezoito anos atrs,
entrara como visita; pela janela entrava o mesmo luar e, l
fora, estendia-se a mesma paisagem de Outono. No tnhamos
ainda acendido as velas, mas todo o aposento se distinguia
claramente, mesmo os :, retratos na parede: o
rosto altivo de Mrs. Linton ao lado do do marido, mais afvel.
   Mr. Heathcliff avanou para a lareira. O tempo pouco havia
modificado a sua aparncia. Era o mesmo homem: o rosto escuro,


talvez mais plido e mais sereno agora, o corpo um pouco mais
pesado; e as diferenas ficavam-se por
aqui.
   Ao v-lo, Catherine levantara-se, obedecendo ao impulso de
se escapar.
   -- Espere! -- ordenou ele, prendendo-a pelo brao.
Acabaram-se as fugas! Onde pensa que vai? Vim para a levar
para casa e espero que seja uma filha submissa e no encoraje
o meu filho a mais desobedincias. Quando descobri o papel
dele nesta histria, fiquei sem saber que castigo lhe aplicar
ele  to frgil que um simples belisco  capaz de o matar.
Mas, como poder avaliar pela cara dele, recebeu o que lhe era
devido! Trouxe-o para baixo uma noite, antes de ontem, e
sentei-o numa cadeira... No lhe toquei mais. Mandei sair o
Hareton, para ficarmos a ss na sala. Ao fim de duas horas,
chamei o Joseph para o levar para cima. Desde a, a minha
presena tem um tal poder sobre os seus nervos como se de um
fantasma se tratasse. Acho que me v constantemente, mesmo
que eu no me encontre por perto. O Hareton diz que ele acorda
de noite em sobressalto, a chamar por si para o proteger de
mim. E, goste ou no do seu precioso marido, vai ter de
voltar.  essa a sua obrigao. Transfiro para si todo o meu
interesse nele.
 -- Por que no deixa Miss Catherine ficar aqui? -- implorei.
-- E manda Master Linton para junto dela? J que detesta os
dois, no lhes sentir muito a falta... Eles sero apenas um
tormento dirio para o seu corao desnaturado.
   -- Estou  procura de um inquilino para a Granja --
explicou ele -- e quero os meus filhos junto de mim, para
estar seguro. Alm disso, esta rapariga tem de trabalhar para
ganhar o seu sustento. No vou mant-la no luxo e ociosidade
depois de o Linton morrer. Despache-se e v-se preparar. E no
me faa usar a fora!
   -- Eu vou -- aquiesceu Catherine. -- Linton  tudo quanto
me resta neste mundo a quem amar e, apesar de o senhor ter
feito tudo para o tornar odioso aos meus olhos, e eu odiosa
aos olhos dele, no :, *conseguir* fazer que nos odiemos! E
desafio-o a maltrat-lo na minha presena ou a tentar
assustar-me!
   -- Quanta bazfia p.ra vai! -- retrucou Heathcliff. Mas
no gosto de si o suficiente para o maltratar. Enquanto ele
durar, o privilgio do tormento ser todo seu. No serei eu a
torn-lo odioso a seus olhos; o seu feitio *encantador*
encarregar-se- disso; Depois da sua fuga e das consequncias
que isso lhe trouxe, est to amargo que a aviso desde j para
no esperar agradecimentos pela sua nobre devoo. Ouvi-o
descrever  Zillah um quadro muito agradvel do que lhe faria
se fosse to forte como eu; inclinao no lhe falta, e a
prpria fraqueza lhe aguar o esprito para encontrar um
substituto para a fora.
   -- Eu sei que a natureza dele  ruim -- argumentou
Catherine. Ele  seu filho; mas ainda bem que a minha 
melhor, para lhe poder perdoar. Tenho a certeza de que ele
gosta de mim, o que  razo suficiente para que eu lhe
corresponda. Mr. Heathcliff, o senhor no tem quem o estime e,
por mais infelizes que nos tome, teremos sempre a consolao
de saber que a sua crueldade  apenas resultado da sua imensa
infelicidade! O senhor  muito infeliz, no ? Solitrio como
o demnio e, como ele, invejoso. *_Ningum* gosta de si,
*ningum* o chorar quando morrer! No queria estar na sua
pele!


   Catherine falou com uma espcie de triunfo melanclico.
Parecia estar decidida a adaptar-se ao esprito da sua futura
famlia, disposta a retirar prazer das mgoas dos seus
inimigos.
   -- Acabar por lastimar ser quem ... -- ameaou o sogro,
-- se permanecer a mais um minuto que seja. V, sua bruxa,
traga as suas coisas!
   Ela saiu, emanando arrogncia.
   Na sua ausncia, aproveitei para implorar para mim o lugar
de Zillah no Alto dos Vendavais, propondo troc-lo com o meu,
mas ele no me atendeu e mandou-me estar calada. Ento, pela
primeira vez, permitiu-se correr o olhar por toda a sala at
encontrar os retratos. Depois de examinar o da senhora, disse:
   -- Levarei este comigo para casa. No porque necessite
dele, mas...
   Virou-se bruscamente para o fogo e continuou, com o que, a
falta de melhor descrio, classificarei de sorriso:
   -- Vou contar-te o que fiz ontem! Convenci o coveiro, que
:, estava a tratar da sepultura do Edgar Linton, a remover a
terra de cima do caixo dela, e abri-o. Por um momento, pensei
que ficaria ali para sempre... quando lhe vi o rosto
novamente...  ainda o seu rosto... foi difcil o homem
conseguir arrancar-me daquela contemplao; mas disse-me que
o aspecto se alteraria com o ar e ento eu abri um dos lados
do caixo... e voltei a tap-lo.... no do lado daquele do
Linton, diabos o levem! Quem dera que ele estivesse soldado
num caixo de chumbo... e gratifiquei o coveiro para que
arranque aquela parte do caixo quando eu ali for enterrado, e
faa o mesmo ao meu.  assim que vai ser, e depois, quando o
Linton nos alcanar, no vai saber distinguir-nos.
   -- Isso no se faz, Mr. Heathcliff! -- exclamei. -- No tem
vergonha de andar a perturbar os mortos?
   -- No perturbei ningum, Nelly -- respondeu. -- E trouxe a
mim mesmo alguma paz; e tu, assim, ters mais hipteses de me
manteres debaixo da terra quando chegar a minha vez.
Perturb-la? No! Ela  que me tem perturbado dia e noite ao
longo destes dozoito anos... incessantemente... sem
remorsos... at ontem  noite... mas ontem  noite dormi
tranquilo. Sonhei que dormia o meu ltimo sono ao lado dela,
tambm adormecida, com o corao parado e o rosto frio colado
ao seu.
   -- E se ela se tivesse desfeito em p, ou pior ainda, com
que teria ento sonhado? -- perguntei.
   -- Que me desfazia em p com ela, e que era ainda mais
feliz!  -- retorquiu. -- Pensas que temo essa transformao?
Esperava por essa mudana quando levantei a tampa do caixo,
mas alegra-me que ela s se inicie quando eu a partilhar com
ela. Alm disso, se o seu rosto impassvel no me tivesse
causado uma impresso to forte, dificilmente me teria
libertado daquele estranho sentimento que comeou de forma to
singular. Tu sabes como a sua morte me deixou enlouquecido
para todo o sempre, de uma madrugada a outra, implorando-lhe
que voltasse para mim... invocando o seu esprito... que eu
tenho muita f nas almas do outro mundo; estou convencido de
que, no s podem andar, como de facto andam entre ns!
   -- No dia em que foi sepultada, caiu um nevo.  noite fui
ao cemitrio. Soprava um vento agreste. Tudo era solido. No
:, receava que o paspalho do marido vagueasse por ali at to
tarde, e ningum mais tinha motivos para ali
aparecer.
   -- Sozinho e consciente de que apenas um amontoado de terra


solta nos separava, disse para mim mesmo: T-la-ei nos meus
braos novamente! Se estiver fria, pensarei que  deste vento
norte que me gela; e, se inerte, julg-la-ei adormecida.
   -- Tirei uma p da arrecadao e comecei a retirar a terra
com todas as minhas foras. A p bateu no caixo. Ca de
joelhos e trabalhei com as mos; a madeira principiou a
estalar junto aos parafusos e estava j prestes a alcanar o
meu objectivo, quando me pareceu ouvir um suspiro vindo de
cima, da abertura da cova, como de algum que se inclinava
sobre mim. _Se ao menos conseguisse tirar isto. Murmurei.
_Depois... que deitassem pazadas de terra sobre ns ambos!;
e esforcei-me ainda mais. Ouvi outro suspiro, este perto do
meu ouvido. Quase podia sentir o seu sopro quente deslocando o
ar glido. Eu sabia que no estava ali nenhum ser vivo e, no
entanto, tal como nos apercebemos da proximidade de um corpo
material na escurido, mesmo sem podermos v-lo, senti que a
Cathy estava ali, no sob mim, mas acima da terra.
   -- Do corao fluiu-me um sbito sentimento de alvio, que
se espalhou a todos os meus membros. Renunciei  minha tarefa
angustiante e senti-me imediatamente consolado, infinitamente
consolado. A sua presena estava comigo e comigo ficou
enquanto voltei a encher a sepultura, para me guiar depois at
casa. Podes rir-te, se quiseres, mas tinha a certeza de que a
encontraria l. Estava certo de que ela estava comigo e no
podia deixar de lhe falar.
   -- Ao chegar ao Alto dos Vendavais, corri ansioso para a
porta, mas encontrei-a trancada. Recordo-me de que o maldito
do Earnshaw e a minha mulher no me deixaram entrar.
Lembro-me tambm de ter dado uns valentes pontaps ao
Earnshaw que o deixaram quase morto, e de correr depois pela
escada acima, para o meu quarto, e tambm dela... olhar 
minha volta impaciente... senti-la junto de mim; *quase* podia
v-la e, no entanto *no a via*! Devo ter suado sangue, da
angstia do meu desejo e do fervor das minhas splicas para a
ver s que fosse num relance! Mas nada vi. Ela comportou-se,
como tantas vezes
o fizera em vida, como um demnio para comigo! E, desde ento,
umas vezes mais e outras menos, tenho sido o joguete dessa
tortura insuportvel! Tortura infernal :,
que me pe os nervos to tensos que se no fossem resistentes
como cordas de violino, h muito teriam ficado to frouxos
como os do Linton.
   -- Quando estava na sala com o Hareton, tinha a impresso
de que, se sasse, a encontraria. Quando andava pelo brejo,
que a encontraria a voltar para casa. Quando saa,
apressava-me a regressar, pois ela devia estar algures no Alto
dos Vendavais; disso tinha eu a certeza. E quando ia dormir
para o seu quarto... era de l escorraado... no podia
descansar; pois, no momento em que fechasse os olhos, via-a do
lado de fora da janela, ou a abrir os painis da cama, ou a
entrar no quarto ou at com a cabea delicada pousada na mesma
almofada dos tempos de criana. Mas tinha de abrir os olhos
para ver. Cem vezes os abria e fechava durante a noite... e
sofria sempre a mesma desiluso! Destroava-me
o corao! Por vezes gemia em voz alta e, da, aquele velho
tonto do Joseph se ter convencido de que a minha conscincia
estava possuda pelo demnio.
   -- Agora que a vi, tenho paz... um pouco mais de paz. Foi
uma estranha forma de matar, no aos poucos, mas em fraces
nfimas, iludindo-me com o espectro de uma esperana durante
dezoito anos!


   Mr. Heathcliff fez uma pausa e limpou a fronte. O cabelo
colava-se-lhe  testa, hmido da transpirao; os olhos
estavam fixos nas brasas da lareira; as sobrancelhas
descontradas, mas ligeiramente erguidas nas tmporas, o que
amenizava o aspecto endurecido do seu semblante, mas lhe
conferia uma expresso peculiar e perturbada e a dolorosa
aparncia de quem vive obcecado por alguma coisa. O seu
desabafo fora-me dirigido apenas em parte e, como tal,
mantive-me em silncio, pois no estava a gostar de o ouvir
falar!
   Passados alguns instantes, retomou o exame do retrato;
retirou-o da parede e encostou-o ao sof para melhor poder
contempl-lo. Enquanto assim se ocupava, entrou Catherine
declarando que estava pronta para partir assim que lhe dessem
o cavalo.
   -- Manda entregar isto amanh -- ordenou Heathcliff.
Depois, dirigindo-se a ela, acrescentou -- Pode bem passar sem
o cavalo; a noite est agradvel e no vai precisar de cavalos
no Alto dos Vendavais; para os passeios que ir dar,
chegam-lhe muito bem as pernas. Vamos.
   -- Adeus, Ellen! -- murmurou a minha querida menina. :,
Quando me beijou, os seus lbios estavam frios como gelo. --
Vem visitar-me, Ellen, no te esqueas.
   -- No penses em tal coisa, Ellen Dean! -- disse o seu novo
pai. -- Quando desejar falar contigo, eu prprio c virei. No
quero ningum a meter o nariz em minha casa!
   Fez sinal a Catherine para que o precedesse, e ela,
lanando para trs um olhar que me partiu o corao, obedeceu.
   Fiquei a v-los da janela, a descerem o jardim: Mr.
Heathcliff agarrava-lhe o brao, embora a princpio ela se
esquivasse; mas ele, estugando o passo, f-la entrar na
alameda do parque, e perderam-se por detrs das
rvores.
CAPTULO XXX
   Fui uma vez ao Alto dos Vendavais, mas no mais vi a menina
desde que se foi embora. Quando l fui para saber dela, Joseph
segurou a porta e no me deixou entrar. Disse que Mrs. Linton
tinha que fazer e que o patro no estava em casa. Se no
fosse Zillah ter-me contado alguma coisa, eu no saberia se
estavam vivos ou mortos.
   Pela conversa dela, percebi que achava Catherine muito
arrogante e que no gostava dela. A princpio, a menina
queria que Zillah lhe prestasse uns servios, mas Mr.
Heathcliff ordenou-lhe que tratasse apenas das suas coisas
e deixasse a nora cuidar de si prpria, ao que ela, tacanha e
egosta como , acedeu de pronto. Isto fez Catherine amuar e
pagar-lhe a indiferena com desprezo, inscrevendo, assim, a
minha informante na lista dos seus inimigos, como se lhe
tivesse feito um grande mal.
   Tive uma longa conversa com Zillah h cerca de seis
semanas, pouco antes de o senhor chegar, num dia em que nos
encontramos na charneca e ela me contou o
seguinte:
   -- A primeira coisa que Mrs. Linton fez quando chegou ao


Alto dos Vendavais foi correr escada acima, sem dar sequer as
boas-noites a mim e ao Joseph. Fechou-se no quarto de Linton
e ai ficou at de manh. Depois, quando o patro e Earnshaw
tomavam o pequeno-almoo, ela entrou na sala e perguntou, toda
a tremer, se poderamos chamar o mdico, pois o seu primo
estava muito doente.
   -- _J sabemos disso! resmungou Heathcliff. _Mas a sua
vida no vale um vintm e eu no vou gastar um vintm com
ele.
   -- _Mas eu no sei o que fazer... balbuciou ela _E, se
ningum me ajudar, ele morrer!
   _Sai j daqui! vociferou o meu patro. _E no me maces
com :, mais notcias a seu respeito. Ningum aqui se rala com
o que lhe possa acontecer, se tu te ralas tanto. trata tu
dele, se no, tranca-o no quarto e deixa-o l ficar.
   -- Depois, ela comeou a incomodar-me e eu respondi-lhe que
j tivera a minha cruz com o desgraado. E que cada qual tinha
as suas obrigaes e a dela era cuidar do marido, uma vez que
o patro me ordenara que lhe entregasse essa tarefa.
   -- Como se arranjaram os dois, isso eu no sei. Calculo que
o marido fosse bastante rabugento e gemesse dia e noite, no a
deixando descansar; isso via-se bem pelo seu rosto plido e
pelas olheiras profundas. Por vezes, aparecia na cozinha como
se quisesse pedir ajuda, mas eu no ia desobedecer ao patro,
que eu nunca me atrevi a desobedecer-lhe, Mrs. Dean, e, embora
achasse que estava errado no mandar chamar o Dr. Kenneth,
tambm no era da minha conta dar conselhos ou opinies, e
tambm nunca me quis envolver nesse assunto.
   -- Uma ou duas vezes, depois de nos deitarmos, abri a porta
do meu quarto e vi-a sentada ao cimo das escadas a chorar. Mas
meti-me logo para dentro, com medo de ser obrigada a
intervir. Eu tinha peninha dela, pois decerto que tinha! Mas,
bem v, eu no podia perder o meu lugar.
   -- Finalmente, uma noite ela veio ao meu quarto e fiquei
com os cabelos em p com as suas palavras:
_ Vai dizer a Mr. Heathcliff que o filho est a morrer; desta
vez tenho a certeza. Levanta-te imediatamente e vai avis-lo.
   -- Dito isto, desapareceu. Fiquei um quarto de hora 
escuta; toda eu tremia; no se ouvia nada; a casa estava
silenciosa.
 -- _Enganou-se disse de mim para mim. _Ainda no foi
desta. No vale a pena incomodar o patro. E voltei a pegar
no sono. Mas fui de novo acordada pelo som estridente da
campainha, a nica que ns temos, instalada de propsito no
quarto do Linton, e pelo chamado do meu patro para que fosse
ver o que estava a acontecer e lhes dissesse que no queria
que aquele barulho continuasse.
 -- Dei-lhe ento o recado de Catherine. Praguejou entredentes
e no tardou a sair do quarto com uma vela na mo,
dirigindo-se para o quarto deles. Fui atrs dele. A senhora
estava sentada  cabeceira, com as mos entrelaadas no
regao. O sogro entrou, aproximou a luz da cara do filho,
olhou para ele e tocou-lhe. Depois, virou-se para ela:
   -- _E agora, Catherine perguntou-lhe, como te sentes?.
:,
   -- Ela emudecera.
   -- _Como te sentes, Catherine? insistiu ele.
   -- _Ele est em paz e eu estou livre... volveu ela.
_Deveria sentir-me bem, mas... continuou, com uma amargura
que no podia esconder. _O senhor deixou-me tanto tempo
sozinha a lutar contra a morte, que  apenas morte o que vejo


e sinto! Sinto-me morta!
   -- E bem o parecia! Dei-lhe um pouco de vinho. O Hareton e
o Joseph, que tinham sido acordados pela campainha e pelo som
dos passos, entraram no quarto depois de escutarem a nossa
conversa do lado de fora. O Joseph ficou, creio eu,
indiferente  morte do rapaz; o Hareton parecia um tanto
perturbado, embora estivesse mais ocupado a olhar para a
senhora do que a pensar no primo. Mas o patro ordenou-lhe que
voltasse para a cama, pois no queramos a sua ajuda. Mais
tarde, mandou o Joseph levar o corpo para o seu quarto e
disse-me para voltar para o meu, de maneira que a senhora
ficou sozinha.
    -- De manh, o patro mandou-me ir dizer-lhe que deveria
descer para tomar o pequeno-almoo. Ela tinha-se despido e
parecia preparar-se para dormir; disse-me que estava doente, o
que no estranhei nada. Levei o recado a Mr. Heathcliff e ele
respondeu-me:
   -- _Bem, que se deixe estar at depois do funeral. Vai l
acima de vez em quando ver se ela precisa de alguma coisa; e
assim que a vires melhor, vem dizer-me.
   Segundo Zillah contou, Cathy permaneceu no quarto duas
semanas. A criada ia v-la duas vezes por dia e mostrava
vontade de se tornar sua amiga, mas as suas amabilidades eram
imediatamente repelidas com arrogncia.
   Mr. Heathcliff visitou-a numa nica ocasio para lhe dar a
conhecer o testamento de Linton. Nele, o filho deixava ao pai
todos os seus bens, incluindo os bens mveis da mulher. A
pobre criatura fora ameaada, ou coagida, a assinar aquele
documento na semana em que Cathy estivera ausente, por altura
da morte do pai. Sendo menor, Linton no podia dispor dos seus
bens. No entanto, Mr. Heathcliff reclamou-os e entrou na posse
deles em nome da mulher, e em seu prprio (suponho que
legalmente); fosse como fosse, Catherine, destituda de bens e
amigos, no podia contestar a usurpao.
   -- Ningum a no ser eu -- disse Zillah -- se aproximou do
quarto dela alm dessa vez... e tambm ningum veio perguntar
por ela. A primeira vez que desceu  sala foi num domingo 
tarde. :,
   -- Quando lhe levei o jantar, tinha resmungado que no
suportava mais o frio e eu disse-lhe que o patro ia  Granja
dos Tordos e que eu e Earnshaw no nos opnhamos a que ela
descesse. Assim, logo que escutou o cavalo de Mr. Heathcliff a
afastar-se, apareceu toda vestida de negro e com os caracis
loiros despretensiosamente penteados para trs das orelhas.
   -- O Joseph e eu costumamos ir  capela aos domingos.
(_Como o senhor sabe, explicou Mrs. Dean, a igreja agora no
tem padre e em Gimmerton chamam capela ao templo metodista ou
baptista, no sei muito bem). O Joseph tinha ido para l --
continuou Zillah  -- mas eu achei mais conveniente ficar em
casa. Os jovens devem ser sempre vigiados pelos mais velhos, e
o Hareton com todo o seu acanhamento, no  um modelo de bom
comportamento. Disse-lhe que era provvel que a prima se
juntasse a ns e que, como sempre se acostumara a ver
respeitado o Dia do Senhor, ele deveria deixar em paz as
espingardas e o trabalho enquanto ela ali estivesse.
   -- Ficou ruborizado ao ouvir a notcia e olhou para as suas
prprias mos e roupas. A plvora e o leo de baleia num
instante desapareceram da vista. Percebi que tencionava
fazer-lhe companhia e, pela sua atitude, adivinhei que
gostaria de se mostrar apresentvel. Ri-me como no me
atrevia a rir quando o patro estava presente e ofereci-me


para o ajudar, divertindo-me com a sua atrapalhao. Ele
amuou e comeou a praguejar.
   -- Eu sei que a senhora, Mrs. Dean -- prosseguiu ela, vendo
que eu no ficara muito satisfeita com o seu procedimento --
pensa que a sua querida menina  fina demais para Mr. Hareton,
e no deixa de ter razo, mas eu gostava de lhe acabar com o
orgulho. Afinal, de que lhe valem agora os estudos e as
finuras?  to pobre como a senhora ou como eu, ou ainda mais,
porque ns sempre vamos tendo o nosso p-de-meia.
   Hareton acabou por deixar que Zillah lhe desse uma ajuda e
ela conseguiu, com os seus galanteios, p-lo de bom humor. Por
isso, quando Catherine chegou, o rapaz esqueceu-se dos
insultos anteriores e, segundo contou a governanta, tentou
mostrar-se amvel.
   -- A senhora entrou na sala -- contou ela -- fria como o
gelo e altiva como uma princesa. Levantei-me e ofereci-lhe o
meu lugar no cadeiro. Pois ela torceu o nariz  minha
delicadeza. O Earnshaw tambm se levantou e convidou-a a
sentar-se no banco defronte do lume, dizendo que ela devia
estar enregelada. :,
   -- _Enregelada ando eu h mais de um ms. respondeu ela,
pronunciando cada palavra com desdm.
   -- E, indo ela mesmo buscar uma cadeira, sentou-se afastada
de ns dois.
   -- Depois de se aquecer um pouco, olhou em volta e
descobriu uma srie de livros dentro do armrio. Levantou-se
de pronto para os ir buscar, esticando-se para os alcanar,
mas estavam muito altos.
   -- O primo, depois de observar os seus esforos por alguns
instantes, ganhou finalmente coragem para a ir ajudar; ela
estendeu o vestido e ele encheu-lhe o regao com os primeiros
livros a que deitou a mo.
   -- Aquilo foi um grande progresso para o rapaz; ela nem lhe
agradeceu, mas o Hareton sentiu-se de tal forma agradecido por
ela no ter recusado a sua ajuda, que se aventurou a pr-se
atrs da prima enquanto ela folheava os livros, chegando mesmo
a debruar-se sobre o seu ombro e a apontar para o que mais
lhe chamava a ateno em certas ilustraes. Nem se ofendia
com a maneira insolente como ela afastava a pgina do seu
dedo; contentava-se em recuar um pouco e ficar a contemplar a
prima em vez do
livro.
   -- Ela continuou a ler, ou a procurar alguma coisa para
ler. A pouco e pouco, a ateno do rapaz foi-se concentrando
nos seus espessos caracis acetinados. Na posio em que
estavam, nem ele podia ver o rosto dela, nem ela podia ver o
dele. E ento, talvez no muito consciente do que fazia, mas
mais como uma criana atrada pela chama de uma vela, passou
da contemplao ao toque: estendeu a mo e tocou num caracol,
to delicadamente como se de um passarinho se tratasse. Se o
rapaz lhe tivesse espetado uma faca no pescoo, a senhora no
teria reagido com mais violncia.
   -- _Sai j daqui! Como te atreves a tocar-me? Por que
ests a especado? gritou ela, enfadada. _No te suporto!
Volto j l para cima? se te aproximas de mim!
   -- Master Hareton encolheu-se e, com o ar mais comprometido
deste mundo, foi sentar-se no banco, em silncio. Ela
continuou a folhear os livros por mais meia hora; por fim, o
primo atravessou a sala e
segredou-me:
   -- _Pede-lhe que nos leia alguma coisa, Zillah. J no


posso estar sem fazer nada e gostava... gostava tanto de a
ouvir! Mas no lhe digas que fui eu que te pedi, finge que s
tu que queres.
   -- _Master Hareton gostaria que lesse para ns, minha
senhora :, disse eu logo de seguida. _veria isso como um
grande favor... e ficar-lhe-ia muito agradecido.
   Ela franziu o sobrolho e, erguendo os olhos, respondeu:
   -- _Master Hareton e todos os demais faam-me o favor de
entender que rejeito qualquer simulao de bondade que,
hipocritamente, me possam dirigir! Desprezo-vos a todos e no
tenho nada para vos dizer! Quando era capaz de dar a minha
vida por uma palavra amiga, ou mesmo para ver a cara de um de
vs, todos se afastaram de mim. Mas no me queixo! Vim at c
abaixo porque tenho frio, no para vos distrair ou para
desfrutar da vossa companhia.
   -- _Que foi qu.eu fiz? volveu-lhe o primo. _De qu. que
m.acusa?
   -- _Oh, tu s uma excepo! respondeu-lhe Mrs. Heathcliff
_Nunca dei pela tua falta.
   -- _Mas eu ofereci-me mais de uma vez e pedi a Mr.
Heathcliff que me deixasse cuidar de... argumentou ele,
animando-se com a petulncia da prima.
   -- _Cala-te! Vou l para fora, seja para onde for, s para
no ter de ouvir a tua voz! disse a senhora.
   -- O rapaz resmungou que, por ele, ela podia ir at para o
Inferno e, pegando na espingarda, voltou s suas ocupaes
dominicais.
   -- Falava agora sem peias e ela preferiu voltar para a sua
solido. Mas no quarto devia estar um frio de rachar e, apesar
do seu orgulho, foi obrigada a aceitar a nossa companhia,
cada vez por mais tempo. Mas, da em diante, tudo fiz para que
no voltasse a desdenhar da minha boa vontade, e tornei-me
muito rgida com ela. A senhora no tem entre ns quem a ame
ou estime, e tambm no o merece, pois  mais pequena coisa
que se lhe diga irrita-se e no respeita ningum! Chega a
interromper o patro, atrevendo-se a desafi-lo para que a
castigue. E quanto mais sofre, mais peonhenta se torna.
   A princpio, ao ouvir o relato de Zillah, decidi deixar a
minha situao, procurar uma casinha e levar Catherine para
viver comigo; mas Mr. Heathcliff nunca o permitiria. E, de
momento, no vejo outro remdio seno um novo
casamento de Cathy, plano que est fora do meu alcance
realizar.
   E, assim, terminou a histria de Mrs. Dean. Apesar da
profecia do mdico, as minhas foras esto a voltar
rapidamente e, embora esta seja apenas a segunda semana de
Janeiro, tenciono ir a cavalo :, ao Alto dos Vendavais dentro
de um ou dois dias, para informar o meu senhorio de que
passarei os prximos seis meses em Londres. E, se assim o
entender pode comear a procurar um novo inquino para a Granja
a partir de Outubro.
   De forma nenhuma me seduz a ideia de passar aqui mais outro
Inverno.
CAPTULO XXXI
   O dia, ontem, esteve claro, sereno e glido. Tal como tinha
decidido, fui ao Alto dos Vendavais. A minha governanta
convencera-me a levar um bilhete  sua menina, ao que eu no


me escusei, pois a boa mulher nada de estranho viu no seu
pedido.
   A porta da frente estava aberta, mas a cancela
encontrava-se fechada, tal como na minha ltima visita; bati e
chamei por Earnshaw, que avistei entre os canteiros do
jardim; ele veio abrir o cadeado e entrei. Desta vez,
observei-o com ateno: apesar da sua aparncia boal,  na
verdade um belo rapaz; pena  que tudo faa para tirar o pior
partido possvel dos seus predicados.
   Perguntei se Mr. Heathcliff se encontrava em casa.
Respondeu-me que no, mas que voltaria para jantar. Eram onze
horas. Anunciei a Earnshaw a minha inteno de entrar e
esperar pelo meu senhorio, e ele de imediato abandonou as
ferramentas e me acompanhou, mais no papel de um co de
guarda do que de substituto do dono da casa.
   Entrmos juntos. Catherine estava na sala, ocupada a
arranjar uns legumes para a refeio que se aproximava.
Pareceu-me mais taciturna e menos altaneira que da primeira
vez que a vira. Com o seu j habitual desrespeito pelas mais
elementares regras de boa-educao, mal para mim olhou,
continuando o que estava a fazer sem se dignar responder, nem
ao meu cumprimento de cabea, nem aos meus bons-dias.
   _No me parece to amvel como Mrs. Dean me quis fazer
crer pensei eu. _E realmente uma beldade, mas no  nenhum
anjo.
   Earnshaw disse-lhe com maus modos que levasse as coisas
dela para a cozinha. :,
   Leva-as tu -- repontou ela, empurrando-as para longe assim
que deu a tarefa por terminada. Depois, foi sentar-se num
banco perto da janela, e entreteve-se a recortar figurinhas de
pssaros e de outros animais nas cascas dos nabos que tinha no
regao.
   Aproximei-me dela, fingindo apreciar a vista do jardim e,
disfaradamente e sem que Hareton notasse, deixei-lhe cair no
colo o bilhete que me fora confiado por Mrs. Dean. Ela, porm,
perguntou em voz alta, sacudindo o papel para o cho:
   -- Que  isto?
 -- Uma carta de uma velha amiga sua, a governanta da Granja
-- esclareci, aborrecido por ela ter denunciado o meu gesto
generoso, e receoso de que o bilhete fosse tido como uma
carta minha.
   Depois desta explicao, de bom grado ela teria apanhado o
papel, mas Hareton foi mais lesto. Apanhou-o e guardou-o no
colete, dizendo que Mr. Heathcliff teria de o ver
primeiro.
   Perante isto, Catherine limitou-se a desviar o rosto para o
lado em silncio e, furtivamente, tirou do bolso um lencinho
que levou aos olhos; e o primo, aps breve luta para calar os
seus sentimentos, tirou o bilhete do bolso e deixou-o cair
indelicadamente aos ps de Catherine.
   Ela apanhou-o e leu-o com avidez; depois, fez-me algumas
perguntas acerca dos habitantes e dos animais de estimao da
sua antiga morada. E, espraiando o olhar pelos montes,
murmurou,  guisa de solilquio:
   -- Quem me dera montar na Minny e cavalgar por a abaixo! E
depois subir pelo outro lado. Oh, como estou cansada; sinto-me
*encurralada*, Hareton!
   Apoiou a sua linda cabea no parapeito da janela, com um
meio bocejo, um meio suspiro, e caiu numa espcie de
melanclica abstraco, sem saber, nem querer saber, se ns a
observvamos.


   -- Mrs. Heathcliff -- comecei eu, depois de permanecer
sentado e calado por algum tempo -- a senhora no sabe, mas eu
sou seu amigo. E to ntimo que estou a estranhar que no
queira vir conversar comigo. A minha governanta no se cansa
de falar de si e de lhe tecer os maiores elogios. E sei que
ficar muito desapontada, se eu voltar sem notcias suas alm
de que se limitou a receber o bilhete e no disse
nada.
   Pareceu-me admirada com este discurso e perguntou:
   -- A Ellen gosta do senhor?
   -- Gosta, sim.  muito minha amiga -- respondi, sem
hesitar. :,
   -- Pois ento diga-lhe que gostaria muito de responder 
carta que me mandou, mas que no disponho aqui do necessrio
para escrever, nem sequer de um livro a que possa arrancar uma
folha.
   -- No h livros nesta casa? -- exclamei. -- Como aguenta
viver aqui sem eles, se me permite a pergunta. Eu, mesmo
dispondo de uma vasta biblioteca na Granja, aborreo-me
frequentemente. Se me tirassem os livros, ficaria desesperado!
   -- Quando os tinha, lia-os constantemente -- explicou
Catherine. -- Mas Mr. Heathcliff nunca l, e, por isso,
meteu-se-lhe na cabea destruir os meus livros. H semanas que
no lhes ponho a vista em cima. Uma vez ainda fui procur-los
entre a coleco de livros teolgicos do Joseph, para sua
grande indignao, e outra vez, Hareton, encontrei uns poucos
escondidos no teu quarto... uns em latim, outros em grego,
alguns contos e alguns poemas; tudo velhos amigos que eu
trouxera c para casa. E tu apoderaste-te deles como uma pega
se adona das colheres de prata, pelo simples prazer de roubar!
A ti no te servem de nada; ou ento escondeste-os por
maldade, para no deixares ningum usufruir deles, j que tu
no podes faz-lo. Talvez a tua *inveja* tenha aconselhado Mr.
Heathcliff a despojar-me dos meus tesouros? Mas eu tenho a
maior parte deles escritos na minha memria e impressos no meu
corao e desses no pode ningum privar-me!
   Earnshaw ruborizara-se com as revelaes da prima sobre a
sua reserva literria privada e balbuciou umas quantas
negativas s acusaes sofridas.
   -- Mr. Hareton deseja muito provavelmente aumentar os seus
conhecimentos -- observei eu, vindo em socorro dele. No se
trata de ter inveja, minha senhora, mas sim da *ambio* de
possuir os seus conhecimentos. Estou certo de que ele ser
dentro de poucos anos uma pessoa
instruda!
   -- E, entretanto, quer ver-me a mim afogada em estupidez
-- retorquiu Gatherine. -- Eu bem o oio a tentar soletrar e
a ler sozinho, dando erros uns atrs dos outros! Gostava que
repetisses a balada de Chevy Chase da maneira que a leste
ontem; foi divertidssimo! Eu ouvi-te... e tambm te ouvi
folhear o dicionrio  procura das palavras difceis, e
praguejares por no entenderes as explicaes.
   Como se calcula, o jovem no gostava de ser alvo de chacota
devido  sua ignorncia e aos seus esforos para se instruir,
e eu concordava com ele; ento, recordando o episdio contado
por :, Mrs. Dean acerca da sua primeira tentativa de dissipar
as trevas em que fora criado,
observei:


   -- Se me permite, Mrs. Heathcliff, acho que todos ns
tivemos um dia de comear e todos ns tropemos e vacilmos
no incio. Tivessem os nossos professores rido em vez de nos
ajudarem, e continuaramos ainda hoje a tropear e a vacilar.
   -- Ora! -- respondeu ela -- No  meu desejo limitar a sua
aquisio de conhecimentos... Mas ele no tem o direito de se
apropriar do que me pertence e de torn-lo ridculo aos meus
ouvidos com os seus erros terrveis e aquela pronncia
defeituosa! Esses livros, tanto em prosa como em verso, so
para mim sagrados pela associao de ideias que sugerem, e
detesto v-los devassados e profanados pela boca dele! Alm
disso, ele escolheu, de entre todas, as minhas obras
predilectas, as que mais gosto de reler, como se o fizesse
premeditadamente!
   Por instantes, o peito de Hareton palpitou em silncio;
via-se que lutava contra arreigados sentimentos de humilhao
e raiva, que s a muito custo controlava.
   Com a inteno cavalheiresca de minimizar o seu embarao,
levantei-me e dirigi-me para o limiar da porta, apreciando a
paisagem que da se disfrutava.
   Ele seguiu-me o exemplo e abandonou a sala, para reaparecer
pouco depois, trazendo nas mos meia dzia de volumes que
atirou para o regao de Catherine, dizendo:
   -- Fica com eles! Nunca mais os quero ler, nem falar deles,
nem pensar mais neles!
   -- Agora no os quero! -- volveu ela. -- Lembrar-me-ia de
ti sempre que os abrisse e passaria a odi-los!
   Catherine abriu um volume que j tinha sido, sem dvida,
bastante manuseado e leu um excerto ao jeito hesitante de um
principiante; depois, deu uma gargalhada e empurrou o livro
com repulsa.
   -- Ora escuta -- continuou, provocante, comeando a ler da
mesma maneira uma passagem de uma velha balada.
   O amor-prprio do rapaz no aguentou mais este tormento:
bem o ouvi, e no se pode dizer que tenha discordado de todo
do mtodo, aplicar-lhe um correctivo manual, calando, assim,
aquela lngua viperina. A inolente tudo fizera para ofender
os sentimentos delicados, ainda que incultos, do primo, e um
argumento fsico foi o nico meio ao seu alcance para ajustar
contas e pagar-lhe na mesma moeda a humilhao sofrida. :,
   Em seguida, apanhou os livros e deitou-os para a fogueira.
Pude ver na sua expresso a angstia que esse sacrifcio lhe
causava. Julgo que, ao v-los consumirem-se, recordava o
prazer que outrora lhe haviam proporcionado e que esperara
poder continuar a disfrutar. E adivinhei tambm qual devia ser
a motivao dos seus estudos secretos: toda a vida se
contentara com a faina do dia a dia e as suas diverses
boais, at Catherine se atravessar no seu caminho; a
vergonha de ser escarnecido por ela e a esperana de por ela
ser incentivado foram os seus primeiros estmulos para voos
mais altos. Porm, em vez de lhe evitarem uma coisa e lhe
proporcionarem a outra, os seus esforos de elevao aos olhos
dela tinham produzido o efeito contrrio.
   -- Sim,  s esse benefcio que um bruto como tu pode
extrair deles! -- gritou Catherine, mordendo o lbio ferido e
seguindo o auto-de-f com um olhar indignado.
   -- Acho melhor que te cales! -- ameaou furioso o rapaz,
mas a agitao impediu-o de continuar. Dirigiu-se rapidamente
para a sada, de onde rapidamente me afastei para lhe dar
passagem. Porm, assim que transps o umbral, encontrou-se com
Mr. Heathcliff, que vinha a subir os degraus e o agarrou


pelos ombros, perguntando:
   -- Que tens tu, rapaz?
   -- Nada, nada! -- respondeu Hareton, desenvencilhando-se
dele para ir sofrer sozinho a sua clera e o seu desgosto.
   Mr. Heathcliff seguiu-o com o olhar e suspirou.
   -- Seria estranho que me contradissesse a mim prprio!
--murmurou, sem se dar conta de que eu estava mesmo atrs
dele. Mas quando procuro no rosto dele a imagem do pai,  cada
vez mais o rosto *dela* que l vejo! Como diabo pode ele ser
to parecido? At me custa olhar para ele!
   Pousou os olhos no cho e entrou em casa carrancudo. Havia
nele uma ansiedade e uma inquietao que eu no lhe notara
antes, e parecia at mais afilado. A nora, ao avist-lo da
janela, tratou de se escapar para a cozinha, pelo que me achei
sozinho na sala.
   -- Muito folgo em v-lo de novo c por fora, Mr. Lockwood
-- disse ele, em resposta  minha saudao -- Em parte, por
motivos egostas; no creio que me fosse fcil substituir a
sua falta neste descampado. J vrias vezes me perguntei o
que o ter trazido a estas paragens. :,
  -- Apenas um capricho, suponho eu -- respondi. -- O mesmo
desejo que me impele agora para longe daqui: parto para
Londres na prxima semana e estou aqui para lhe comunicar que
no renovarei o contrato de arrendamento da Granja dos Tordos
para alm dos doze meses inicialmente acordados. No tenciono
continuar a morar l.
   -- Muito me conta! Com que ento, canou-se de viver
exilado do mundo? -- comentou. -- Mas se veio aqui com o
propsito de pedir para ser desobrigado de pagar os meses que
faltam, por no ir ocupar a propriedade, digo-lhe desde j que
perdeu a viagem. Nunca deixo de exigir o que me  devido.
   -- No vim c para pedir coisa nenhuma! -- exclamei, j
bastante irritado. -- Se quiser, fechamos j as nossas
contas; e tirei a carteira do bolso.
   -- No, no -- respondeu friamente. -- Sei que deixa ficar
o suficiente para saldar as suas dvidas, se resolver no
voltar... No tenho assim tanta pressa. Sente-se e jante
connosco; afinal, um hspede que se sabe que no volta pode
ser muito bem recebido... Catherine! Venha pr a mesa. Onde
est, Catherine?
   Catherine reapareceu, transportando um tabuleiro com facas
e garfos.
   -- Hoje janta com o Joseph -- ordenou-lhe Heathcliff a meia
voz. -- E deixe-se ficar na cozinha at ele se ir embora.
Ela obedeceu sem pestanejar s ordens dele; talvez no se
sentisse tentada a transgredi-las. Vivendo, como vive, entre
labregos e misantropos,  bem provvel que no saiba apreciar
a companhia de pessoas de uma outra classe quando a
oportunidade se lhe depara.
   Com Mr. Heathcliff, sinistro e saturnino de um lado, e
Hareton, mudo e quedo do outro, a refeio decorreu sem
alegria e despedi-me assim que pude. Poderia ter sado pelas
traseiras e visto Catherine ainda mais uma vez, para irritar
o velho Joseph, mas Hareton recebera ordens para me trazer o
cavalo para a entrada principal, e o meu anfitrio fez questo
de me acompanhar ele prprio at  porta, pelo que no pude
satisfazer o meu desejo.
   _Como  triste e montona a vida nesta casa! pensava eu,
enquanto cavalgava estrada fora. _Para Mrs. Heathcliff,
seria a realizao de algo ainda mais romntico que um conto
de fadas, se eu e ela nos tivssemos afeioado, como a sua boa


aia desejava, e dali partssemos os dois para a atmosfera
borbulhante da cidade!

CAPTULO XXXII

   1802 -- Em Setembro fui convidado para umas batidas na
propriedade de um amigo meu, situada no Norte, e, durante a
jornada, dei comigo inesperadamente a quinze milhas de
Gimmerton. Estava eu parado numa taberna de estrada, para
refrescar os cavalos, quando passou uma carroa carregada de
aveia verdinha, acabada de ceifar, e o moo de cavalaria que
segurava no balde de onde os cavalos bebiam comentou:
   -- S pode vir das bandas de Gimmerton! Fazem sempre a sega
trs semanas depois de toda a gente.
   -- Gimmerton? -- repeti. A minha estada nesse local j se
esbatera na minha memria como um sonho. Ah! J sei! A que
distncia fica?
   -- Umas catorze milhas, por montes e vales. Muito mau
caminho! -- explicou ele.
   Acometeu-me o sbito desejo de visitar a Granja dos Tordos.
Pouco passava do meio-dia e lembrei-me de que bem poderia
passar a noite debaixo do meu prprio tecto, em vez de
pernoitar numa estalagem. Alm disso, poderia perfeitamente
dispor de um dia para acertar as contas com o meu senhorio,
poupando-me assim o incmodo de ter de voltar quelas
paragens.
   Depois de descansar um pouco, mandei o meu criado
informar-se do caminho para a vila, e, para grande canseira
dos nossos animais, conseguimos cobrir a distncia em pouco
mais de trs horas.
   Deixei o criado em Gimmerton e desci ao vale sozinho. A
igreja de pedra cinzenta dir-se-ia ainda mais cinzenta, e o
cemitrio, j de si to isolado, mais isolado ainda. Na
descida, avistei uma ovelha tosando a erva rala entre as
sepulturas. O tempo estava bom e :, quente -- quente demais
talvez para viajar -- mas o calor no me impediu de apreciar a
paisagem encantadora que se estendia para cima e para baixo.
Se tivesse vindo em Agosto, estou certo de que me teria
sentido tentado a passar um ms no meio de toda aquela
solido. No Inverno nada havia de mais desolador; porm, no
Vero, nada de mais divino que estes vales estreitos, cavados
entre colinas, e o tapete agreste de urze ondeando nas
colinas.
   Cheguei  Granja antes do pr-do-sol e bati  porta, mas, a
julgar pela espiral de fumo azulado que se elevava da chamin
da cozinha, calculei que os moradores estivessem nas
traseiras da casa e no me ouvissem; entrei, por isso, no
ptio: sentada sob o alpendre, uma rapariguinha de nove ou dez
anos fazia malha, e, reclinada sobre os degraus da porta da
cozinha, uma mulher j velha fumava um pensativo cachimbo.
   -- Mrs. Dean est? -- perguntei  mulher.
   -- Mrs. Dean? No! J c no mora. Foi p.ro Alto.
   -- Ento a senhora  a nova governanta?
   -- Sim senhor, sou eu quem toma conta da casa! --
respondeu.
   -- Pois eu sou Mr. Lockwood, o seu patro. Haver algum
quarto pronto onde me possa instalar? Gostaria de passar c a
noite.
   O patro! -- exclamou ela, pasmada. -- Como  que eu ia
adivinhar que o senhor voltava? Por que no mandou dizer que


vinha? No h um s lugar em condies nesta casa; no h, no
senhor!
   Pousou o cachimbo e correu para dentro de casa toda
azafamada, seguida da rapariga. Entrei tambm e logo me
apercebi da veracidade da informao e do quanto a minha vinda
inesperada havia transtornado a pobre mulher.
   Tranquilizei-a: iria primeiro dar um passeio e, entretanto,
bastava que me preparasse um canto na sala onde eu pudesse
cear, e um quarto para dormir. Nada de varridelas nem grandes
limpezas, contentava-me com uma boa fogueira e lenis
lavados.
   Ela parecia desejosa de fazer o seu melhor, embora tivesse
metido o cabo da vassoura na lareira em vez do atiador e
utilizado tambm erradamente outros utenslios. No obstante,
retirei-me confiante na sua boa vontade em me arranjar um
stio onde, na volta, pudesse descansar.
   O Alto dos Vendavais era o destino da excurso a que me
propusera. Ia a sair do ptio quando me ocorreu outra
ideia.
   -- Est tudo a correr bem no Alto? inquiri. :,
   -- Acho que sim. Pelo que sei... -- respondeu ela, saindo
apressada com uma panela cheia de brasas de braado.
   Ainda tentei perguntar por que razo Mrs. Dean tinha
abandonado a Granja, mas era impossvel prender a ateno da
mulher no meio de tanta azfama; de forma que sa e fui
andando devagar, com a incandescncia do crepsculo atrs de
mim e,  minha frente, a limpidez do luar: um esmorecendo, o
outro clareando,  medida que eu transpunha os limites do
parque e subia a ladeira pedregosa que conduz  propriedade de
Mr. Heathcliff.
   Ainda no tinha conseguido avistar a casa e tudo o que
restava da luz do dia era uma claridade difusa em tons de
mbar, que se esfumava a oeste na linha do horizonte; podia,
contudo, enxergar cada pedra do caminho e cada folhinha de
erva, graas  esplndida luminescncia do luar.
   No foi preciso saltar a cancela nem bater: esta cedeu ao
primeiro contacto da mo. _Grandes progressos! pensei para
comigo. E notei ainda um outro, com a ajuda do olfacto: uma
fragrncia de goivos e flores de trepadeira, que inundava o
ar, vinda dos lados do pomar.
   Tanto as portas como as janelas se encontravam abertas, o
que no obstava, segundo o uso nas regies ricas em carvo, a
que um belo fogo rubro iluminasse a lareira. O conforto que se
tira de tal viso compensa largamente o excesso de calor; alm
disso, a sala  to grande que os que l moram tm espao de
sobra para fugirem aos seus efeitos; desta feita, os seus
ocupantes haviam procurado assento perto de uma das janelas.
Antes mesmo de entrar, pude v-los e ouvi-los a falar e, como
tal, deixei-me ficar a observar e a escutar, movido por um
misto de curiosidade e inveja que se intensificava  medida
que o tempo ia passando.
   -- Con-*trrio*! -- disse uma voz metlica e cristalina. --
J  a terceira vez que repito o mesmo, meu grande ignorante.
E olha que no volto a repeti-lo mais vez nenhuma. Ou decoras,
ou puxo-te os cabelos!
   -- Contrrio, pronto -- respondeu outra voz, esta cava,
mas suave. -- E agora d-me um beijo por ter aprendido to
depressa.
   -- No, primeiro tens de ler tudo de novo, correctamente,
sem um nico erro.
   O falante masculino comeou a ler: tratava-se de um jovem


respeitavelmente vestido, sentado a uma mesa e com um livro
diante de si. As suas feies atraentes irradiavam prazer e o
seu olhar :, errava impaciente da pgina para
a mo pequena e branca poisada no seu ombro, que o repreendia
com uma leve palmada na face, se o aluno se mostrava
desatento.
   A dona da mo conservava-se de p, atrs do rapaz; os seus
caracis leves e reluzentes misturavam-se s vezes com os
anis de cabelo castanho quando ela se inclinava para examinar
de perto o trabalho dele. E o rosto... Por sorte ele no podia
ver-lhe o rosto, seno como poderia manter-se atento? Eu, que
o podia ver, mordi o lbio de despeito por ter perdido a
oportunidade de fazer algo mais do que pasmar diante de uma
beleza to impressionante.
   A lio acabou, no sem o aluno ter dado mais alguns erros
de palmatria, mas, mesmo assim, ele reclamou a recompensa e
recebeu pelo menos cinco beijos que, generosamente,
retribuiu. Em seguida, encaminharam-se para a porta e, pela
conversa, percebi que planeavam ir dar um passeio pelo brejo.
Ciente de que seria condenado,
se no pela boca, pelo corao de Hareton, s mais
negras profundezas do Inferno, caso expusesse aos
seus olhos a minha indesejvel presena, dei meia volta, numa
atitude mesquinha e cobarde, e procurei refgio na cozinha.
   Tambm nas traseiras encontrei o caminho desimpedido
e, ao chegar  porta da cozinha, encontrei a minha velha amiga
Nelly Dean, sentada a costurar e a cantarolar uma cano,
interrompida amide por speras palavras de desdm e
intolerncia, vindas l de dentro e proferidas em tom muito
pouco musical.
   -- Antes escutar pragas de manh  noite! -- rezingava o
indivduo que estava na cozinha, em resposta a algum
comentrio de Nelly, que no consegui perceber. --  uma
vergonha qu.eu no possa abrir o Livro Sagrado sem que
vossemec se ponha p.ra a entoar louvores a Satans e a toda
a ruindade do mundo! Vossemec  uma criatura pecadora e ela
 outra que tal. Pobre rapaz, h-de perder-se por causa
d.ambas. Coitado! -- acrescentou com um resmungo. -- Est
enfeitiado, disso tenh.eu a certeza! Oh, Senhor, julg.as Tu,
pois no h lei nem justia entre os nossos governantes!
   -- Pois, pois... ou ento seramos queimadas na fogueira.
no? -- retorquiu a cantadeira. -- Ora esteja l calado e v
lendo a sua Bblia como um bom cristo, e no faa caso de
mim. Esta cantiga chama-se *_As Bodas da Fada Annie* e  to
alegre e to bonita que at faz pular o p.
   Mrs. Dean estava prestes a retomar a cantoria quando me :,
aproximei dela; reconheceu-me no mesmo instante e, pondo-se
de p alvoroada, exclamou:
   -- Ora bons olhos o vejam, Mr. Lockwood! Ento o que o traz
por c? Est tudo fechado na Granja dos Tordos. Devia ter-nos
avisado!
   -- J dei ordens para me prepararem acomodao durante o
pouco tempo que por c ficarei -- respondi. -- Vou-me embora
amanh. Mas conte-me c, Mrs. Dean, como venho encontr-la
aqui?
   -- Logo depois do senhor regressar a Londres, a Zillah
foi-se embora e Mr. Heathcliff mandou-me chamar e disse-me
para ficar aqui at o senhor voltar. Mas faa o favor de
entrar! Vem de Gimmerton?
   -- Venho da Granja -- volvi-lhe. -- E enquanto me preparam
l o quarto, quero arrumar um assunto com o seu patro, pois


to cedo no terei outra oportunidade.
   -- Que assunto? -- inquiriu ela, conduzindo-me  sala. -- O
patro saiu. Eles no devem voltar to cedo.
   --  sobre o arrendamento. -- esclareci.
   -- Ah! Ento  com Mrs. Heathcliff que ter de falar --
observou. -- Ou melhor, comigo. Ela ainda no aprendeu a
tratar dos negcios e sou eu quem tem de o fazer no seu lugar,
pois no h mais ningum para o fazer.
   Olhei-a, surpreendido.
   -- Pelo que vejo, no sabe da morte de Mr. Heathcliff! --
acrescentou.
   -- Mr. Heathcliff morreu? -- exclamei, perplexo. H quanto
tempo?
 -- H cerca de trs meses; sente-se e d-me o seu chapu que
eu  lhe conto tud. Mas... espere... o senhor ainda no comeu
nada, pois no?
   -- No, mas no quero nada, obrigado. Tenho a ceia  minha
espera l na Granja. Sente-se a senhora aqui tambm. No fazia
a mnima ideia de que ele tivesse morrido! Conte-me como tudo
se passou. Disse que no os espera to cedo... referia-se aos
jovens?
   -- Todas as noites ralho com eles por causa destes passeios
tardios, mas no me ligam nenhuma. O senhor vai ao menos
beber um pouco da nossa cerveja. Vai fazer-lhe bem! Est com
um ar muito cansado. :,
   Apressou-se a ir buscar a dita cerveja sem me dar tempo
sequer a recusar, e ouvi Joseph rabujar se no era um
escndalo dar-lhe agora para ter namorados naquela idade
e ainda por cima ir encher a caneca  adega do patro para
lhes dar de beber?! At se sentia envergonhado por ter de
assistir calado a um tal atrevimento.
   Ela no lhe deu troco e voltou da a instantes com uma
caneca de prata a transbordar de espuma, cujo contondo elogiei
com crescente entusiasmo. A seguir, contou-me ento o
desfecho da saga de Heathcliff: um fim bem estranho, como o
fez notar.
   Quinze dias depois de o senhor nos deixar -- disse a Nelly
-- fui chamada ao Alto dos Vendavais. Claro que obedeci com o
maior prazer por causa de Catherine.
   O nosso primeiro encontro entristeceu-me e impressionou-me
muito! Como ela tinha mudado desde a nossa separao! Mr.
Heathcliff no me explicou as razes que o haviam levado a
mudar de ideias acerca da minha vinda para aqui; disse-me
apenas que precisava de mim e que j estava farto de ver
Catherine  frente dele; que eu passasse os dias na saleta e a
conservasse junto de mim; a ele chegava-lhe ser obrigado a
enfrent-la uma ou duas vezes por dia.
   Catherine mostrou-se satisfeita com a situao e, aos
poucos, fui trazendo para c s escondidas livros e outros
objectos que antigamente constituam a sua distraco na
Granja; sentia-me feliz por termos, finalmente, algum
conforto.
   Mas esta iluso no durou muito: Catherine, que a princpio
parecia contente, no tardou a ficar inquieta e irritvel; por
um lado, estava proibida de sair para o jardim, e aborrecia-a
ver-se confinada a um espao to exguo  medida que a
Primavera se aproximava; por outro, a lida da casa obrigava-me
a deix-la sozinha com frequncia, e ela queixava-se de
solido; preferia vir discutir com Joseph para a cozinha a
ficar em paz no seu isolamento.
   Eu no ligava s zaragatas deles. Porm, o Hareton era


muitas vezes obrigado a refugiar-se tambm na cozinha quando o
patro queria ficar sozinho na sala; e, embora a princpio ela
se afastasse ou me viesse ajudar nas minhas ocupaes sempre
que ele entrava, para no ter de falar
com ele, e embora o Hareton andasse sempre o mais mal-humorado
e calado possvel, a atitude dela mudou ao fim de algum tempo,
passando a mostrar-se incapaz de o deixar sossegado. Ralhava
com ele, criticava a sua indolncia e a sua :, estupidez e
dizia que no sabia como ele podia levar semelhante
existncia: como era possvel que pudesse passar uma noite
inteira a olhar para o fogo e a dormitar.
   --  tal qual um co, no achas, Ellen? -- observou uma
vez. -- Ou um cavalo de tiro: faz o que lhe mandam, come o que
lhe do e pe-se a dormir, mais nada! Que vazio e apagado deve
ser o seu esprito! Costumas sonhar, Hareton? E, se sonhas, de
que so feitos os teus sonhos? No tens lngua?
   Fitou-o, mas ele no abriu a boca, nem olhou para ela.
   -- Se calhar neste momento est a sonhar... -- prosseguiu
Catherine. -- Olha, olha, sacudiu-se todo, como faz a Juno.
Pergunta-lhe, Ellen.
   -- Olhe que Mr. Hareton ainda acaba por ir pedir ao patro
que a mande l para cima, se a menina se continuar a portar
desta maneira! adverti-a.  que ele tinha no s sacudido o
corpo, mas tambm cerrado os punhos, como se estivesse tentado
a us-los.
   -- Eu sei por que razo o Harteton nunca abre a boca quando
estou na cozinha -- exclamou ela numa outra ocasio. -- Tem
medo que eu troce dele. Que te parece, Ellen? Um dia comeou a
aprender a ler sozinho e, s por eu me ter rido dele, queimou
os livros e desistiu. No achas que foi uma parvoce?
   -- Ou no ter sido antes uma maldade sua? -- aventei. --
Ora diga l!
 -- Talvez eu tenha sido um pouco mazinha -- condescendeu, --
mas nunca imaginei que ele fosse to tolo. Ouve, Hareton, se
eu te der um livro, aceita-lo desta vez? Vou
experimentar!
   Catherine colocou-lhe na mo o livro que estava a ler.
Hareton atirou-o pelos ares, ameaando entre dentes que, se
ela no o deixasse em paz, lhe torcia o pescoo.
   -- Bem, vou deix-lo aqui -- anunciou -- na gaveta da mesa
da cozinha. E agora vou-me deitar.
   Segredou-me ento que visse se ele tocava no livro e saiu.
O rapaz, no entanto, nem dele se acercou, o que a desiludiu
imeno quando lhe contei na manh seguinte. Percebi que o mau
humor e a constante indolncia de Hareton a penalizavam, pois
a conscincia acusava-a de ter desencorajado a sua vontade de
se aperfeioar. E, de facto, a culpa era toda dela.
   Todavia, teve artes de remediar o mal que fizera: enquanto
eu passava a ferro ou me ocupava de outras tarefas igualmente
estticas :, que no podia fazer na saleta, Catherine ia
buscar um livro de leitura agradvel e punha-se a l-lo em voz
alta para me distrair. Se o Hareton estava presente, ela
interrompia geralmente a leitura numa passagem palpitante e
deixava ficar o livro aberto. Fez isto vrias vezes, mas ele,
teimoso que nem um burro, em vez de morder o isco, ia fumar
para junto de Joseph, especialmente nos dias chuvosos. E ali
ficavam eles, como dois autmatos, um de cada lado da chamin;
o mais velho era, felizmente, demasiado surdo para ouvir os
disparates maldosos de Catherine, como ele lhes chamava, e o
mais novo fingia no lhes dar ateno. Nas noites amenas,
Hareton ia para a caa e Catherine ficava a suspirar e a


bocejar e a insistir comigo para que conversasse com ela;
porm, assim que eu acedia e comeava a falar, corria a
refugiar-se no ptio ou no jardim, ou, como ltimo recurso,
punha-se a chorar e declarava-se farta daquela existncia sem
sentido.
   Mr. Heathcliff, cada vez mais arredio, banira Earnshaw dos
seus aposentos quase por completo, e, devido a um acidente
ocorrido no comeo de Maro, o rapaz foi obrigado a passar
alguns dias enfiado na cozinha: a espingarda rebentara-lhe nas
mos quando ele se encontrava nas colinas e um estilhao
ferira-lhe o brao e ele perdera muito sangue at chegar a
casa. Por conseguinte, viu-se condenado  tranquilidade da
lareira at se recuperar.
   Escusado ser dizer que, para Catherine, isto veio mesmo a
calhar: passou a detestar ainda mais o seu prprio quarto e,
para poder estar comigo na cozinha, obrigava-me a inventar-lhe
ocupaes c em baixo.
   Na segunda-feira de Pscoa, Joseph foi  feira de Gimmerton
com algumas cabeas de gado e eu passei a tarde na cozinha a
engomar; Hareton, sorumbtico como sempre, estava sentado a um
canto da chamin; a minha jovem patroa passou uma boa hora
entretida a desenhar figuras na vidraa com o dedo, por entre
suspiros e ais, sbitos gorjeios e olhares furtivos de tdio
e impacincia que desfechava contra o primo, enquanto este,
impvido, fumava de olhos fixos na fogueira.
   Pedi  menina que no me tirasse a luz, e ela afastou-se da
janela e chegou-se para a lareira. No prestei ateno ao que
fazia, mas a certa altura ouvi-a dizer:
   -- Sabes uma coisa, Hareton, descobri que quero... que at
gosto que sejas meu primo... desde que no passes a vida
zangado comigo, nem te mostres sempre mal-humorado. :,
   O rapaz no respondeu.
 -- Hareton, Hareton! Ests a ouvir-me? -- insistiu ela.
 -- Deixa-me em paz! -- resmungou ele, com aspereza.
 -- D-me c esse cachimbo! -- teimou ela, estendendo a mo
cautelosamente e tirando-lhe o cachimbo da boca.
Antes que Hareton tentasse recuper-lo, j ela o havia partido
e 1anado  fogueira. O rapaz praguejou e foi buscar outro.
   -- Espera! gritou a prima. Tens de me ouvir primeiro, e eu
no consigo falar com essas baforadas de fumo na minha cara.
   -- E se fosses pr. diabo e me deixasses em paz?! --
exclamou ele, furibundo.
   -- No! -- afirmou ela, persistente. -- Francamente j no
sei que fazer para que fales comigo, e tu pareces determinado
a no me entenderes. Quando te chamo estpido, isso no quer
dizer nada, no significa que te despreze. V l, Hareton,
d-me um pouco de ateno. Sou tua prima e deves reconhecer-me
como tal.
   -- No quero nada contigo, nem com o teu maldito orgulho,
nem com as tuas piadas cruis! -- ripostou ele. -- Antes quero
ir direito para o Inferno, de corpo e alma, do que olhar para
ti duas vezes! Sai j de ao p de mim!
   Catherine amuou e voltou a sentar-se no poial da janela,
mordendo o lbio e entoando uma melodia desafinada, para
esconder a sua crescente vontade de chorar.
   -- Devia ser amigo da sua prima, Mr. Hareton -- atalhei eu
--  j que ela se mostra arrependida das suas inolncias.
Seria bom para si. Tornar-se-ia num outro homem, se a tivesse
por companheira.
   -- Companheira? -- exclamou Hareton -- Pois se ela me odeia
e no me acha digno nem de lhe limpar os sapatos! N! Nem para


ser rei eu me sujeitava a ser escarnecido novamente por
procurar a sua amizade.
   -- No sou eu que te odeio, s tu que me odeias a mim! --
choramingou Cathy, sem poder esconder o seu desgosto.
--Detestas-me tanto como Mr. Heathcliff, ou mais ainda.
   -- s uma grande mentirosa! -- principiou Earnshaw -- Ento
por que  que o fiz enfurecer centenas de vezes por tomar o
teu partido? E isso quando tu escarnecias de mim e me
desprezavas e... e se continuas a atazanar-me, vou-me embora e
digo-lhe que foste tu quem me ps fora da
cozinha!
   -- No sabia que tinhas tomado o meu partido admirou-se :,
ela, limpando as lgrimas. Eu fui refilona e ma com todos vs,
mas agora agradeo-te e imploro-te que me perdoes. Que mais
posso fazer?
   Cathy voltou para junto da lareira e estendeu-lhe a mo,
com sinceridade. Ele, porm, carregou ainda mais o cenho e
conservou os punhos teimosamente fechados e o olhar pregado no
cho. Catherine, instintivamente, deve ter adivinhado que
aquele comportamento era ditado mais por casmurrice que por
averso, j que, aps uns segundos de indeciso, se inclinou
para ele e o beijou ternamente na
face.
   A marota penou que eu no vira, e voltou de pronto para
junto da janela com o ar mais recatado deste mundo.
   Abanei a cabea, num gesto de censura, e ela ento
ruborizou-se e sussurrou:
   -- Bem, Ellen, que querias tu que eu fizesse? Ele no me
queria apertar a mo, ele no queria olhar para mim... Eu
tinha de arranjar uma maneira de lhe mostrar que gosto dele e
que quero que sejamos amigos.
   Se o beijo convenceu Hareton, isso no sei; durante alguns
minutos, ele teve o cuidado de no deixar ver a cara e, quando
finalmente a levantou, estava to atrapalhado que no sabia
para onde olhar.
   Catherine, entretanto, ocupara-se a embrulhar esmeradamente
um belssimo livro numa folha de papel branco e, depois de o
amarrar com uma fita e de escrever no embrulho _Para Mr.
Hareton Earnshaw, pediu-me que servisse de embaixadora e
entregasse o presente ao destinatrio.
   -- E diz-lhe que, se o aceitar, lhe ensino a l-lo como
deve ser  -- acrescentou. -- E que, se se recusar, me retiro
para o meu quarto e nunca mais o importuno.
   Levei o livro e repeti o recado, sob o olhar ansioso da
minha jovem patroa. Hareton no estendeu as mos para o
receber e, por isso, coloquei-lhe o embrulho sobre os joelhos.
Verdade seja que tambm no o recusou. Voltei para o meu
trabalho. Catherine apoiara a cabea e os braos em cima da
mesa e assim se deixou ficar at ouvir o ligeiro retolhar do
papel a ser desembrulhado. Levantou-se ento devagarinho e
foi sentar-se ao lado do primo. O rapaz estremeceu, mas o seu
rosto irradiava felicidade, sem quaisquer vestgios de rudeza
ou hostilidade, e sem coragem para dar qualquer :,
resposta ao olhar interrogativo de Catherine e  sua splica
quase sussurrada:
   -- Diz que me perdoas, Hareton! Ficaria to feliz s de
ouvir essa palavra.
   Ele murmurou qualquer coisa inaudvel.
    -- E passas a ser meu amigo? -- acrescentou Catherine,
esperanosa.
   -- No! Ias ter vergonha de mim pela vida fora -- retorquiu


ele.  -- E quanto melhor me conhecesses, mais vergonha terias,
e eu no posso suportar essa ideia.
   -- Ento no queres ser meu amigo? disse ela, com um
sorriso doce como mel, chegando-se mais para o primo.
   No percebi mais nada do que diziam; mas, quando tornei a
olhar, vi dois rostos radiantes inclinados sobre uma pgina do
tal livro, e no tive dvidas de que o tratado de paz tinha
sido assinado por ambas as partes. E, desde esse dia, os
inimigos tornaram-se aliados.
   O volume que folheavam continha belas gravuras e o prazer
de as contemplarem lado a lado manteve-os entretidos at 
chegada de Joseph. O pobre homem ficou horrorizado quando viu
Catherine sentada no mesmo banco de Hareton Earnshaw e, ainda
por cima, com a mo poisada no seu ombro. No conseguia
perceber por que razo o seu favorito suportava aquela
proximidade. A tal ponto ficou desconcertado que, naquela
noite, no fez quaisquer comentrios. A sua emoo apenas foi
trada pelos profundos suspiros que soltou quando, com toda a
solenidade, colocou a sua enorme Bblia em cima da mesa e,
sobre ela, o mao de notas que tirou da carteira, produto das
transaces do dia. Por fim, disse a Hareton para se levantar.
   -- Leve este dinheiro ao patro, menino, e fique por l --
disse. -- Eu c vou p.ro meu quarto; este lugar no nos
convm; temos de ir procurar outro poiso!
   -- Ns tambm temos de ir para outro poiso, Catherine --
disse eu. J acabei de passar a roupa. Vamos embora?
Mas ainda no so oito horas! -- resmungou ela, erguendo-se
de m vontade. --  Hareton, vou deixar este livro aqui em cima
da chamin e amanh trago-te mais.
   -- Os livros que a deixar, atiro-os ao lume ameaou
Joseph.  -- J fica sabendo! :,
   Cathy replicou que, se tal acontecesse faria o mesmo aos
livros dele. Depois sorriu ao passar por Hareton e subiu a
escada a cantarolar. Sou capaz de jurar que nunca se sentira
to feliz debaixo deste tecto; a no ser talvez nas suas
primeiras visitas a Linton.
   A intimidade assim iniciada cresceu rapidamente, embora se
lhe tivessem deparado alguns obstculos: Earnshaw no podia
tornar-se num ser civilizado de um dia para o outro, e a
minha jovem patroa tambm no era nenhuma filsofa, nem nenhum
modelo de pacincia. Mas, uma vez que os desejos de um e de
outro convergiam (um sendo amado e desejando algum para
estimar, e o outro amando e desejando ser estimado),
conseguiram finalmente alcanar os seus
objectivos.
   Como v, Mr. Lockwood, era muito fcil conquistar o corao
de Mrs. Heathcliff. Mas agora estou contente por o senhor no
ter tentado: a coroa de glria de todos os meus desejos ser a
unio daqueles dois. No invejarei ningum no dia do seu
casamento e serei a mulher mais feliz de toda a Inglaterra!
CAPTULO XXXIII
   No dia seguinte a essa segunda-feira, estando Earnshaw
ainda incapaz de se entregar s tarefas habituais, e tendo,
por isso, ficado dentro de casa, depressa compreendi que j
no me era possvel, manter a minha pupila junto de mim como
at aqui.
   Veio para baixo antes de mim e saiu para o quintal, onde


avistara o primo s voltas com um trabalho de pouca
dificuldade. Porm, quando os fui chamar para o pequeno
almoo, vi que ela o convencera a limpar uma vasta rea de
groselheiras e mirtilos, e que estavam os dois muito
entretidos a planear trazer da Granja novas plantas.
   Fiquei aterrada com a devastao levada a cabo naquela
escassa meia-hora; os mirtilos eram as meninas dos olhos de
Joseph e ela tinha resolvido de repente construir ali no meio
um canteiro de flores!
 -- Sim, senhor! -- exclamei. O patro vai saber disto assim
que o Joseph descobrir, e que desculpa vo dar para terem
tomado tais liberdades com o quintal? Vai ser o bom e o
bonito, ora se vai! Muito me admira, Mr. Hareton, que tenha
tido to pouco siso para fazer uma coisa destas a pedido dela!
   -- Esqueci-me de que eram do Joseph desculpou-se --
Earnshaw, muito atrapalhado. -- Mas eu digo-lhe que fui
eu.
   Tomvamos sempre as refeies com Mr. Heathcliff, e eu
substitua a minha jovem patroa a trinchar a carne e a servir
o ch; a minha presena  mesa era, por isso, indispensvel.
Catherine sentava-se geralmente ao meu lado, mas nesse dia
chegou-se mais para junto do Hareton, e percebi que no seria
mais discreta nas suas afeies do que era na sua hostilidade.
   -- Veja l se no d demasiada ateno ao seu primo --
segredei-lhe, quando entramos na sala. -- Isso vai aborrecer
Mr. Heathcliff e p-lo furioso com os dois.
   -- No vou dar -- respondeu.
   Porm, a primeira coisa que fez foi chegar-se para ele e
comear a meter-lhe prmulas em boto nas papas de
aveia.
   Ele nem abriu a boca e mal se atrevia a olhar para ela;
ela, no entanto, continuou a provoc-lo at ele j no poder
conter o riso; olhei-a muito sria, e ela ento virou-se para
o patro, que, via-se pela cara, estava mais preocupado com
outras coisas do que com a presena do Hareton, e ps-se
tambm muito sria por um instante, observando-o com toda a
ateno, posto o que se voltou para o outro lado e recomeou
com os disparates; at que Hareton, sem poder mais, deixou
escapar uma risada.
   Mr. Heathcliff sobressaltou-se; os seus olhos percorreram
num pice os nossos rostos e Catherine enfrentou-o com aquele
seu olhar nervoso e, no obstante, desafiador, que ele tanto
abominava.
   -- Ainda bem que no est ao meu alcance -- exclamou. --
Que bicho lhe mordeu para se pr a olhar para mim dessa
maneira, com esses olhos de diaba? Olhos para baixo! E que eu
no d mais pela sua presena. Julguei que j se tinha curado
dessa sua mania de rir por tudo e por nada!
   -- Fui eu -- murmurou Hareton.
   -- Que dizes? -- perguntou o patro.
   Hareton pausou os olhos no prato e no repetiu a confisso.
   Mr. Heathcliff fitou-o por um instante e, depois,
silenciosamente, voltou ao seu pequeno almoo e  meditao
interrompida.
   Estvamos quase a acabar, e os dois jovens j se tinham
prudentemente afastado, pelo que no era de prever que mais
alguma coisa acontecesse. Eis seno quando, surge Joseph entre
portas, deixando bem patente pelo lbio trmulo e o olhar
colrico que j tinha detectado a afronta cometida contra os
seus preciosos arbustos. Devia ter visto Cathy e o primo no
local antes de l ter ido inspeccion-lo, pois foi assim que


comeou, de queixo a tremer como uma vaca a ruminar, e sem
deixar perceber metade do que dizia:
   -- Quero o meu dinheiro, e vou-m.imbora! Bem m.agradava
morrer onde servi sessent.anos; fazia teno de levar os meus
livros p.ro sto, e todos os meus trastes, e deixar-lhes a
cozinha p.ra eles, p.ra eu ter paz e sossego. Ia custar-me
deixar o meu canto  lareira, mas isso eu .inda fazia! Mas
tirarem-m.o meu jardim, por minha f, isso eu no vou
aguentar! O senhor que aguente se quiser. Isto p.ra :,
mim no serve, e burro velho no aprende lnguas. Antes ir
ganhar o po na estrada de mao na mo!
   -- Calma, idiota! -- interrompeu-o Heathcliff. -- Acaba l
com isso! O que  que te apoquenta? Olha que eu no me meto
nas tuas brigas com a Nelly; por mim, ela at pode atirar-te
para o depsito do carvo, que no me ralo
nada.
   -- No foi a Nelly! -- resmungou Joseph. -- Por ela eu no
m.ia imbora.  m com.s cobras, mas... Graas a Deus!... no
tem fora p.ra roubar a alma a uma pessoa! Nunca teve boniteza
p.ra levar ningum no bico.  essa sua princesa amaldioada,
que enfeitiou o rapaz c.os seus olhos descarados e os seus
modos atrevidos, at que... Ah, que se me parte o corao!...
ele se esqueceu de tudo o qu.eu fiz por ele, de tudo o qu.eu
lhe dei, e zs, deita-m.abaixo um renque inteirinho das
melhores groselheiras do quintal! -- E Joseph continuou por a
fora, dando largas s lamentaes, dilacerado pela atrocidade
cometida e pela ingratido e loucura de Earnshaw.
   -- Acaso o idiota est bbado? -- perguntou Mr. Heathcliff.
-- Hareton,  contigo que ele est ofendido?
   -- S arranquei dois ou trs arbustos admitiu o jovem. --
Mas posso voltar a p-los no lugar.
    -- E arrancaste-os porqu? -- continuou o patro.
   Catherine, avisadamente, meteu-se na conversa.
   -- Queremos plantar l umas flores -- explicou, toda
serigaita. -- A nica culpada sou eu, pois fui eu quem o
mandou fazer isso.
   -- E quem diabo lhe deu autorizao para tocar num s ramo
que fosse deste lugar? -- perguntou-lhe o sogro, estupefacto.
-- E quem te mandou a ti obedecer-lhe?
-- acrescentou, virando-se para Hareton, que no conseguiu
responder. Mas a prima ajudou-o.
   -- O senhor no devia estar a regatear uns palmos de
cho para eu enfeitar, quando me tirou todas as minhas terras!
   -- As suas terras, sua cadela inolente? Pois se nunca teve
nada! -- bradou Heathcliff.
   -- E o meu dinheiro tambm -- prosseguiu ela,
devolvendo-lhe o olhar irado, ao mesmo tempo que
trincava uma cdea de po, o que restava do seu pequeno
almoo.
   -- Silncio! -- exclamou Heathcliff. -- J chega, ponha-se
daqui para fora!
   -- E as terras do Hareton, e o dinheiro dele! -- continuou
a temerria rapariga. -- Agora, eu e o Hareton somos amigos e
vou contar-lhe tudo o que sei de si! :,
   O patro pareceu ficar atordoado por um instante.
Empalideceu e levantou-se, sempre de olhos postos em
Catherine, com um dio mortal no olhar.
   -- Se me bater, o Hareton d cabo de si! -- ameaou ela.
--Por isso,  melhor sentar-se.
   -- Se o Hareton no a levar daqui para fora, mando-o para o
inferno -- bradou Heathcliff. -- Bruxa maldita! Como ousa


vir-lo contra mim? Fora com ela! No ouves? Leva-a para a
cozinha! Olha que eu mato-a, Ellen Dean, se a deixas aparecer
outra vez  minha frente!
   O Hareton tentou convenc-la  socapa a ir-se embora.
   -- Levem-na daqui! -- gritou, ameaadoramente. -- Ou vo
ficar na conversa? -- E, dizendo isto, aproximou-se dela para
executar a sua prpria ordem.
   -- Ele j no lhe obedece mais, seu malvado! -- exclamou
Catherine. -- E no tarda que o odeie tanto como eu!
   -- Calma, calma! -- murmurou o jovem em tom de censura. --
No consinto que fales assim com ele... J chega.
   -- Mas no vais deixar que ele me bata, pois no? -- gritou
ela.
   -- Vamos embora! -- insistiu ele baixinho, mas com firmeza.
   -- Demasiado tarde. Heathcliff j a tinha agarrado.
   -- Agora *tu* vais-te embora! -- disse, virando-se para
Earnshaw. -- Bruxa maldita! Desta vez ela provocou-me quando
no devia e vou faz-la arrepender-se para
sempre!
   Tinha-a presa pelos cabelos com uma mo; Hareton tentou
soltar-lhe os caracis, implorando-lhe que, s por aquela
vez, no a magoasse. Os seus olhos negros faiscavam e parecia
prestes a fazer Catherine em bocados, e eu j me preparava
para me arriscar a vir em seu auxlio, quando, de repente, os
dedos dele afrouxaram, largando-lhe os cabelos e
agarrando-lhe o brao, e os seus olhos se fixaram intensamente
no rosto dela. Em seguida, levou a mo aos olhos, cobrindo-os,
ficando assim por um momento, aparentemente para se
controlar, e, voltando-se de novo para Catherine, disse com
uma calma forada:
   -- Tem de aprender a no me enfurecer, seno ainda um dix a
mato! V com a Ellen e deixe-se estar com ela, ela que a
ature. Quanto ao Hareton Earnshaw, se o apanho a dar-lhe
ouvidos, mando-o ganhar o po onde o conseguir arranjar! O seu
amor far dele um pedinte sem eira nem beira. Nelly, leva-a
daqui, e vs deixai-me em paz. Todos vs!
Deixai-me! :,
   Levei a menina da sala; estava contente demais por ter
escapado para oferecer resistncia; o outro saiu tambm e Mr.
Heathcliff ficou sozinho na sala at  hora do
jantar.
   Eu aconselhara Catherine a jantar no quarto, mas ele, mal
se apercebeu da cadeira vazia, mandou-me ir cham-la. No
falou com nenhum de ns durante o jantar, comeu muito pouco e
saiu logo a seguir, comunicando que no devia voltar antes do
anoitecer.
   Os dois amigos ficaram com a casa por sua conta durante a
ausncia do patro, e foi ento que ouvi Hareton admoestar
severamente a prima quando esta se preparava para lhe contar
o que sabia da conduta do sogro para com o pai
dele.
   Disse-lhe que no queria ouvir nem uma s palavra contra
Heathcliff; se ele era o diabo em pessoa, no se notava;
estaria sempre pronto a defend-lo, e preferia que ela o
insultasse a ele, como costumava fazer, a v-la ofender Mr.
Heathcliff.
   Catherine reagiu violentamente, mas ele arranjou maneira de
a calar, perguntando-lhe se ela tambm gostava que ele
dissesse mal do pai dela. Foi nessa altura que ela compreendeu
que Earnshaw se identificava com Heathcliff e estava ligado a
ele por laos que a razo no conseguiria destruir, por elos


que o hbito forjara e seria agora cruel demais tentar
quebrar.
   A partir desse dia, Catherine teve o cuidado de evitar
tanto queixas como quaisquer outras expresses de antipatia
em relao a Heathcliff, e confessou-me o seu arrependimento
por ter criado aquele atrito entre ele e o Hareton. Estou
mesmo convencida de que da em diante no voltou a dizer a
Hareton uma palavra que fosse contra o seu
opressor.
   Uma vez serenados os nimos, voltaram a ser unha com carne,
mostrando-se mais atarefados que nunca nos seus papis de
aluno e professora. Vim sentar-me ao p deles, depois de
terminar as minhas tarefas, e era to reconfortante ficar a
observ-los, que nem dei pelas horas passarem. Sabe, de certa
forma, era como se os dois fossem meus filhos: h muito que me
orgulhava dela e, agora, tinha a certeza de que tambm ele
seria para mim fonte de grande alegria. A sua natureza
honesta, afvel e inteligente depressa dissipou as nuvens de
ignorncia e degradao em que fora criado, e os elogios
sinceros de Catherine funcionaram como um estmulo. O refinar
do esprito reflectia-se agora na fisionomia, conferindo-lhe
nobreza e vivacidade. Custava a crer que se tratava da mesma
pessoa que eu :, tinha visto no dia em que foi dar com a minha
jovem patroa no Alto dos Vendavais, depois do passeio aos
Crags.
   Enquanto eu assistia, e eles trabalhavam, veio o crepsculo
e, com ele, o patro. Entrando de imprevisto pela porta da
frente, pde colher uma imagem integral de ns trs, mesmo
antes de termos tempo para levantar a cabea e olhar para
ele.
   Bem, pensei eu, cena mais bonita e inofensiva no pode
haver; ser um escndalo ralhar com eles. A chama da vela,
brilhando por cima das duas cabeas, iluminava-lhes os rostos
animados do mais pueril entusiasmo;  que, apesar dos vinte e
trs anos dele e dos dezoito dela, cada um tinha tanta coisa
nova para experimentar e para aprender que no sentiam, nem
davam mostra, do sbrio desencantamento prprio das idades
mais maduras.
   Levantaram os dois os olhos ao mesmo tempo, ao encontro dos
de Mr. Heathcliff; talvez o senhor no tenha reparado que os
olhos deles so precisamente iguais e exactamente como os de
Catherine Earnshaw. Esta Catherine no tem outras parecenas
com ela, excepto a testa alta e um certo arquear das narinas
que, quer ela queira, quer no, lhe d aquele ar altivo. Com
Hareton as semelhanas vo mais longe; bem visveis em
qualquer altura, eram particularmente flagrantes agora, que
os seus sentidos estavam alerta e as suas faculdades mentais
despertas para uma actividade desusada.
   Suponho que esta semelhana ter desarmado Mr. Heathcliff:
dirigiu-se para a chamin visivelmente agitado, mas serenou
mal olhou para o jovem; ou, melhor dizendo, mudou de
expresso, pois a emoo continuava l.
   Arrancou o livro das mos de Hareton, olhou de relance para
a pgina em que ele estava aberto e devolve 1-lho sem
comentrios, limitando-se a fazer sinal a Catherine para se
retirar; o amigo saiu logo a seguir, e eu preparava-me para ir
atrs quando Heathcliff me mandou ficar sentada.
   -- Triste final, no te parece? -- observou, depois de ter
meditado por uns momentos na cena que acabara de presenciar.
-- Um desfecho absurdo para esforos to encarniados? Trago
eu alavancas e picaretas para demolir as duas casas,


treino-me para um trabalho digno de Hrcules, e quando tudo
est pronto e ao meu alcance, descubro que perdi a vontade de
levantar as primeiras telhas! Os velhos inimigos no me
venceram; este  o momento ideal para me vingar nos seus
descendentes e poderia faz-lo; e :, ningum me poderia
impedir. Mas para qu? J no me interessa desferir o golpe,
j no me apetece erguer o brao! Pode at parecer que me
empenhei todo este tempo s para exibir agora este louvvel
rasgo de magnanimidade. Longe de mim tal ideia; apenas perdi a
capacidade de sentir prazer na sua destruio e sou demasiado
preguioso para os destruir sem proveito.
   -- Sabes, Nelly, sinto que uma grande mudana se aproxima,
e eu estou neste momento sob os seus efeitos. Interesso-me to
pouco pelo dia a dia que nem me lembro de comer ou beber.
Esses dois que saram da sala so os nicos objectos que
continuam a possuir para mim uma aparncia real; e essa
aparncia real faz-me sofrer at  agonia. *_Nela* no quero
falar... To pouco pensar. Gostaria sinceramente que fosse
invisvel. A sua presena apenas conjura sensaes
alucinantes. Com *ele*  diferente; no entanto, se pudesse
faz-lo sem parecer estar louco, no mais o veria! Talvez tu
aches que para l caminho -- acrescentou, fazendo um esforo
para sorrir -- se eu tentar descrever as mil associaes
feitas no passado e as ideias que ele gera ou representa...
Mas no repetirs uma palavra do que ouvires. A minha mente
est h tanto tempo fechada em si mesma que  pelo menos
tentador abri-la para algum.
   -- Ainda h cinco minutos o Hareton me pareceu a
personificao da minha juventude e no um ser humano. E isso
provocou em mim sentimentos to variados, que me teria sido
impossvel falar com ele com racionalidade.
   -- Para comear, a sua espantosa semelhana com a Catherine
fez-me associ-lo assustadoramente a ela, embora isso, que tu
certamente julgas ser o que mais me prendeu a imaginao,
fosse realmente o menos importante... Mas o que no associo
eu a ela? O que no ma traz  memria? Se olho para estas
lajes, vejo nelas gravadas as suas feies! Em cada nuvem, em
cada rvore, na escurido da noite, reflectida de dia em cada
objecto, por toda a parte eu vejo a sua imagem! Nos rostos
mais vulgares de homens e de mulheres, at as minhas feies
me enganam com a semelhana. O mundo inteiro  uma terrvel
coleco de testemunhos de que um dia ela realmente existiu e
a perdi para sempre!
   -- Assim, a figura do Hareton era o fantasma do meu amor
imortal, dos meus esforos sobre-humanos para fazer valer os
meus direitos, a minha degradao, o meu orgulho, a minha
felicidade e a minha angstia. Mas  loucura minha revelar-te
agora os meus :, pensamentos; s servir para te mostrar por
que razo, apesar da minha relutncia em ficar sozinho, a sua
companhia no me traz qualquer benefcio, e sim, muito pelo
contrrio, um agravamento do tormento constante em que vivo,
contribuindo em parte para me tornar indiferente perante a
maneira como ele e a prima se relacionam. J no consigo
prestar-lhes ateno.
   -- Mas que quer o senhor dizer com *uma mudana*, Mr.
Heathcliff? -- perguntei, alarmada com a sua atitude, embora
no me parecesse correr o risco de perder o siso ou de se
finar. Em minha opinio, estava at bem forte e saudvel e,
quanto ao siso, desde criana que tinha prazer em se entregar
a pensamentos sombrios e embarcar em estranhas fantasias.
Podia ser que tivesse a monomania de falar do seu dolo


desaparecido, mas em tudo o mais, estava to so de esprito
como eu.
   -- S saberei diz-lo quando acontecer -- respondeu. Por
agora, no passa de uma vaga suspeita.
   -- Mas no se sente mal, pois no? -- inquiri.
    -- No, Nelly, no sinto.
    -- Ento no tem medo de morrer? -- prossegui.
    -- Medo? No! -- retorquiu. -- Nem medo, nem
pressentimento, nem desejo de morrer. Por que havia de ter?
Com a minha constituio fsica e a vida regrada que levo, sem
correr riscos, deveria, e provavelmente *irei*, andar por c
at no me restar um s cabelo preto na cabea... E, no
entanto, no posso continuar assim, a ter de me forar a
respirar, quase a ter de forar o corao a bater!  como
dobrar um pedao de ferro:  s pela fora, e no pela
vontade, que fao as coisas mais simples, e  s  fora que
concebo coisa viva ou morta que no esteja associada a uma
ideia universal... Tenho um nico desejo, e todo o meu ser,
todas as minhas faculdades anseiam por v-lo realizado.
Anseiam por isso h tanto tempo, e com tal determinao, que
estou convicto de que esse desejo se realizar... *e bem
depressa*... pois devora-me a existncia e conome-me na
antecipao do clmax. Sei que os desabafos no me ilibam; mas
podem, pelo menos, explicar algumas das minhas aparentemente
inexplicveis alteraes de humor. Meu Deus! Tem sido dura a
luta. Quem dera que
acabasse!
   Comeou a andar de um lado para o outro, falando sozinho e
resmungando coisas terrveis, at eu prpria me sentir
inclinada a acreditar, como, segundo ele dizia, Joseph
acreditava, que a conscincia lhe tinha transformado o
corao num inferno vivo, perguntando-me ao mesmo tempo como
tudo iria acabar.
   Embora anteriormente st raras vezes tivesse evidenciado
este estado de esprito, quanto mais no fosse pelo aspecto
exterior, no me restavam dvidas de que era este o seu estado
habitual: ele prprio o afirmou, se bem que, pelas atitudes,
ningum de tal se apercebesse. O senhor quando o viu no se
apercebeu, Mr. Lockwood, e na altura a que me refiro ele era
exactamente a mesma pessoa, s talvez um pouco mais dado 
solido e ainda mais lacnico quando tinha companhia.
     CAPTULO XXXIV
   Nos dias que se seguiram quela noite, Mr. Heathcliff
evitou encontrar-se connosco s refeies; no entanto,
recusava-se a excluir abertamente Hareton e Cathy. A averso
que tinha a ceder completamente aos sentimentos levava-o a ser
ele a ausentar-se -- uma s refeio por dia parecia ser para
ele alimento bastante.
   Uma noite, depois de toda a famlia j estar deitada,
ouvi-o descer as escadas e sair pela porta da frente; no o
ouvi regressar e, de manh, verifiquei que ainda estava
ausente.
   Foi no ms de Abril: o tempo estava macio e a temperatura
agradvel, a relva muito verde das chuvas e do sol, e as duas
macieiras ans do muro sul cobertas de flor.
   Depois do pequeno almoo, Catherine insistiu para que eu
fosse buscar uma cadeira e me viesse sentar a fazer renda


debaixo dos abetos ao fundo da casa, e persuadiu Hareton, j
completamente refeito do acidente, a cavar e plantar-lhe um
jardinzinho que, devido s queixas de Joseph, tinha sido
transferido para esse recanto.
   Estava eu refastelada na minha cadeira, a aspirar as
fragrncias primaveris que me envolviam e a contemplar o cu
azul que me cobria, quando a menina, que se tinha afastado at
 cancela  procura de razes de prmula para a cercadura do
canteiro, voltou quase de mos vazias e nos comunicou que Mr.
Heathcliff vinha a chegar.
   -- E falou comigo -- acrescentou, com grande perplexidade.
   -- Que disse ele? -- perguntou Hareton.
   -- Disse que desaparecesse da vista dele o mais depressa
possvel -- respondeu ela. -- Mas estava to diferente que
fiquei parada a olhar para ele.
   -- Diferente como? -- quis saber Hareton.
   -- Sei l... quase alegre... satisfeito... no, no estava
*quase* coisa :, nenhuma... estava era *muito* excitado e
doido de alegria! -- disse ela.
   -- Ento devem ser os passeios nocturnos que o animam tanto
-- comentei, aparentando indiferena, mas sentindo-me na
verdade to estupefacta quanto ela; e ento, desejosa de
confirmar se o que ela dizia era ou no verdade, pois ver o
patro contente no era coisa que acontecesse todos os dias,
arranjei uma desculpa para voltar tara dentro.
   Heathcliff estava  porta, plido e a tremer; no obstante,
tinha de facto nos olhos um brilho de estranho contentamento,
que lhe alterava por completo a
expresso.
   -- Apetece-lhe comer alguma coisa? -- perguntei. -- Deve
estar com fome... L por fora toda a noite.
   Queria ver se descobria por onde tinha andado, mas no
queria perguntar-lhe directamente.
   -- No, no estou com fome -- respondeu, virando a cara
para o lado e tratando-me com desdm, como se adivinhasse que
eu estava a tentar descobrir a origem do seu bom
humor.
   Fiquei perplexa, sem saber se no seria uma boa altura para
lhe fazer algumas advertncias.
   -- No me parece boa ideia andar l por fora em vez de
ficar na cama: no  sensato, sobretudo com esta humidade.
Ainda apanha uma valente constipao, ou as febres... Bem vejo
que se passa alguma coisa!
   -- Nada que eu no possa resolver, e com o maior prazer,
desde que me deixes em paz -- replicou. -- V, entra e no me
incomodes.
   Obedeci e, ao passar por ele, reparei que resfolegava como
um gato.
   --  isso! -- disse com os meus botes. -- Vem por a
doena. No consigo imaginar o que poder ter andado a fazer!
   Nessa mesma tarde, sentou-se  mesa para jantar connosco e
servi-lhe um prato bem cheio, que ele aceitou, como se para
compensar os jejuns anteriores.
   -- No apanhei nem febre, nem constipao, Nelly -- frisou
ele, aludindo  minha conversa dessa manh. --  E estou pronto
para fazer as honras  comida que me ds.
   Pegou na faca e no garfo e preparava-se para comear,
quando o apetite desapareceu subitamente. Pa usou os talheres,
olhou ansioso para a janela, levantou-se e
saiu. :,
   Vimo-lo andar de c para l no quintal, enquanto acabvamos


de comer. Earnshaw disse que ia perguntar-lhe por que razo
no vinha jantar; estava convencido de que o tnhamos ofendido
de alguma maneira.
   -- Ento, ele vem? -- perguntou Catherine quando o primo
voltou para dentro.
   -- No -- respondeu ele. -- Mas no est zangado. Parece
at muito bem disposto; mas mostrou-se impaciente quando
insisti, e mandou-me vir ter contigo. Disse que se admirava
como eu podia estar interessado na companhia de outra pessoa.
   Coloquei o prato dele no guarda-fogo, para o manter quente.
Ao fim de uma ou duas horas, quando j no havia ningum na
sala, Heathcliff regressou, mas no parecia mais calmo: por
baixo das sobrancelhas bem negras exibia ainda a mesma
expresso anti-natural -- sim, era sem dvida anti-natural --
de invulgar contentamento, a mesma lividez, e um meio sorriso
que deixava entrever-lhe os dentes de quando em vez; tremia,
no de frio ou de fraqueza, mas como uma corda esticada em
demasia -- dir-se-ia que era mais uma vibrao que um tremor.
   Vou perguntar-lhe o que se passa, pensei, pois se no for
eu a perguntar... E ento exclamei:
   -- Recebeu boas notcias, Mr. Heathcliff? Parece
invulgarmente bem disposto.
   -- E quem me traria boas notcias? -- respondeu. --  a
fome que me pe bem disposto, e pelos vistos no vou comer
nada.
   -- Tem aqui o seu jantar -- contrapus. -- Por que no h-de
comer?
   -- Agora no me apetece -- retorquiu. -- Vou esperar pela
ceia. E ouve bem, Nelly, de uma vez por todas te peo que
mantenhas o Hareton e a outra longe de mim. No quero que
ningum me incomode. Quero esta sala s para mim.
   -- Existe algum novo motivo para assim os banir? --
inquiri. --  Diga-me por que est assim to esquisito, Mr.
Heathcliff. Onde passou a noite de ontem? No pergunto por
mera curiosidade, mas...
   --  por mera curiosidade que perguntas, sim -- atalhou
ele, dando uma gargalhada. -- Mas vou satisfaz-la. Ontem 
noite, eu estive no limiar do inferno. Hoje, tenho o meu cu 
vista, ao alcance dos olhos; nem uma jarda nos separa! E agora
 melhor ires-te embora... Se no fores intrometida, no
vers nem ouvirs nada que te possa assustar. :,
   Varri a lareira, limpei a mesa e fui-me embora mais
perplexa do que nunca.
   Ele no voltou a sair de casa nessa tarde, e ningum lhe
perturbou a solido at s oito horas, altura em que achei
por bem levar-lhe a ceia e uma vela, mesmo sem ter sido
chamada.
   Fui encontr-lo encostado a uma das portas de tabuinhas,
mas sem estar a olhar l para fora; tinha a cara virada para
dentro, para a penumbra interior. A fogueira estava reduzida a
cinzas e na sala respirava-se um ar morrinhento e abafado,
prprio de uma tarde enevoada e serena, que permitia escutar
no s o murmrio da ribeira de Gimmerton, mas tambm o
gargantear da gua sobre os seixos e o seu chapinhar de
encontro s pedras maiores que no podia cobrir.
   Deixei escapar uma exclamao de desagrado quando vi o lume
apagado, e comecei a fechar as janelas, uma a uma, at chegar
junto dele.
   -- Quer que feche tambm esta? -- perguntei, para o
espevitar, pois nem se mexera.
   A luz da minha vela bateu-lhe em cheio no rosto. Ai, Mr.


Lockwood, nem imagina o susto que aquela viso fugaz me
pregou! Aqueles olhos negros e encovados! Aquele sorriso e
aquela palidez cadavrica! Afigurava-se-me, no Mr.
Heathcliff, mas um demnio; o meu terror foi tal, que a
vela foi de encontro  parede, deixando-nos na
escurido.
   -- Podes fechar, sim -- respondeu no seu tom habitual. --
Sempre s muito desastrada! Que ideia foi essa de virares a
vela na horizontal? V mexe-te, vai buscar outra.
   Sa a correr, atordoada de medo, e disse a Joseph: -- O
patro quer que lhe leve uma vela, e que acenda de novo o lume
-- pois no me atrevia a voltar l dentro.
   Joseph ps algumas brasas na p e l foi. Contudo,
trouxe-as imediatamente de volta, e ainda o tabuleiro da ceia
na outra mo, explicando que Mr. Heathcliff se ia deitar e no
queria comer nada at de manh.
   Ouvimo-lo subir as escadas logo a seguir. Porm, no se
dirigiu para o quarto do costume, pois ouvimo-lo entrar para o
que tinha a cama de painis -- como j disse, a janela desse
quarto  suficientemente larga para algum poder passar -- e
ocorreu-me que :, talvez planeasse outro passeio nocturno e
no quisesse que descobrssemos.
   -- Ser ele um lobisomem... ou um vampiro? -- pensei. J
tinha lido histrias sobre esses horrveis demnios
incarnados. E, depois, pus-me a pensar como o tinha criado
durante a infncia, e como o vira crescer, e como o
acompanhara durante quase toda a vida, e como era absurdo e
disparatado deixar-me dominar agora por aquela sensao de
terror.
   -- Mas donde veio ele, aquela coisa negra que um homem bom
acolheu sob o seu tecto? -- segredou-me a superstio, quando
o sono j me fazia mergulhar na inconscincia. Como se de um
sonho se tratasse, comecei ento a tentar vislumbrar-lhe uma
possvel ascendncia; e, retomando as lucubraes do estado de
viglia, reconstitu-lhe outra vez a existncia, com sombrios
cambiantes, chegando por fim  sua morte e enterramento, do
qual tudo de que me lembro  de estar completamente
desorientada por me caber a incumbncia de ditar uma inscrio
para o seu tmulo, e ter resolvido consultar o coveiro;
porm, como ele no tinha sobrenome, nem lhe conhecamos a
idade, tivemos de nos contentar com uma nica palavra:
_Heathcliff. Esta parte acabou por se confirmar, pois foi de
facto o que tivemos de fazer. Se for ao cemitrio, ver que na
sua pedra tumular apenas isso est inscrito, e tambm a data
da
morte.
   A madrugada restituiu-me o bom seno. Levantei-me e
fui at ao quintal assim que raiaram os primeiros alvores,
para ver se havia pegadas por baixo da janela. Mas no havia.
   -- Deixou-se ficar em casa -- pensei -- e hoje j estar
bom!
   Fiz o pequeno-almoo para toda a gente, como de costume,
mas disse ao Hareton e  Catherine que aproveitassem para
tomar o deles antes do patro descer, pois hoje devia ficar na
cama at tarde. Eles, porm, preferiram comer l fora, 
sombra das rvores, e foi l que lhes preparei uma
mesinha.
   Quando voltei para dentro, encontrei Mr. Heathcliff c em
baixo. Conversava com Joseph sobre assuntos da lavoura:
dava-lhe instrues precisas e minuciosas, mas falava muito
depressa e virava constantemente a cabea para os lados, com a


mesma expresso excitada da vspera, mas ainda mais acentuada.
   Quando Joseph saiu da sala, o patro foi sentar-se no lugar
que habitualmente preferia, e eu coloquei  sua frente uma
malga de :, caf. Puxou-a mais para si, apoiou os cotovelos 
mesa e ps-se a examinar a parede oposta: parecia confinar-se
a uma determinada zona, percorrendo-a para cima e para baixo
com olhos inquietos e faiscantes, e era tal a sua concentrao
que suspendeu a respirao durante meio minuto.
   -- V l -- exclamei, encostando-lhe um pedao de po  mo
-- coma isto e beba o caf enquanto est quente. J est feito
h quase uma hora.
   No tinha dado pela minha presena e, no entanto, sorria.
Preferia v-lo ranger os dentes a v-lo sorrir daquela
maneira.
   -- Mr. Heathcliff! Patro! -- gritei. -- Por amor de Deus,
no olhe dessa maneira, como se estivesse a ter alguma viso
do outro mundo.
   -- Por amor de Deus, no grites tanto -- ripostou ele. --
Olha ali para aquele lado e diz-me se estamos ss.
   -- Claro! -- foi a minha resposta. -- Claro que estamos!
   Contudo, fiz involuntariamente o que ele mandou, como se
no tivesse a certeza.
   Entretanto, ele afastou com a mo parte das coisas do
pequeno almoo, abriu uma clareira na mesa e chegou-se para a
frente, para poder olhar mais  vontade.
   A certa altura percebi que no estava a olhar para a
parede, pois quando o fixava s a ele, parecia mesmo que
estava a olhar para qualquer coisa que no estaria a mais de
duas jardas de distancia e que, fosse l o que fosse,
aparentemente lhe transmitia prazer e dor, ou, pelo menos,
assim o dava a entender a sua expresso angustiada e, ao mesmo
tempo, extasiada.
   O objecto imaginado no se mantinha fixo: os olhos dele
perseguiam-no numa incansvel vigilncia e nunca se desviavam
do alvo, nem mesmo quando falava
comigo.
   Em vo lhe lembrei que ia j longo o seu jejum; mas se, em
resposta aos meus rogos, o seu brao avanava para alguma
coisa, se a sua mo se estendia para um pedao de po, logo os
seus dedos se crispavam antes de o agarrar, quedar do-se na
mesa, esquecidos do seu propsito.
   Deixei-me estar sentada, qual modelo de pacincia, tentando
atrair-lhe a ateno e pr cobro s suas crescentes
especulaes, at que, a certa altura, ele se irritou e se
levantou da mesa, perguntando-me por que razo no o deixava
comer em paz, e :, acrescentando que, da prxima vez, no
precisava de esperar, bastava pousar as coisas e ir-me
embora.
   E, com estas palavras, saiu de casa, desceu lentamente o
carreiro do quintal e transps a cancela, desaparecendo em
seguida.
   As horas arrastaram-se, ansiosas. A noite chegou. S muito
tarde me retirei para o meu quarto e, quando o fiz, no
consegui adormecer. Ele voltou j passava da meia-noite,
e, em vez de se ir deitar, trancou-se na sala l de baixo.
Ouvia-o, sem saber o que fazer. Finalmente, vesti-me e desci
as escadas. J no aguentava ficar ali deitada, a torturar a
imaginao com temores ociosos.
   Distinguia os passos de Mr. Heathcliff, incessantes, para
c a para l, e, de vez em quando, o silncio era cortado por
um suspiro fundo, melhor dizendo, um gemido. Murmurava tambm


palavras soltas; a nica que eu conseguia perceber era o nome
de Catherine, acompanhado de alguns eptetos arrebatados de
dor ou de paixo, ditos como se a destinatria estivesse
presente: em voz baixa e ardente, e arrancados das profundezas
da alma.
   Faltava-me a coragem para entrar na sala; no entanto, tinha
de o tirar daquele delrio e, por isso, comecei s voltas com
o lume da cozinha, remexendo as brasas e apanhando as cinzas.
O meu estratagema atraiu-o mais depressa do que pensava; no
tardou a abrir a porta, dizendo:
   -- Nelly, vem c... J  manh? Traz uma luz.
    -- Esto a bater as quatro horas -- respondi. -- Quer uma
luz para levar para cima? Podia ter acendido uma vela aqui no
lume.
   -- No, no quero ir para cima -- disse ele. -- Vem
acender-me uma fogueira e arruma tudo o que tiveres de arrumar
aqui na sala.
   Primeiro tenho de assoprar as brasas, para as espevitar, e
s depois posso deitar mais carvo -- repliquei, puxando uma
cadeira e pegando no fole.
   -- Assim que o dia romper mando chamar Mr. Green -- disse.
-- Quero consult-lo sobre umas questes legais, enquanto
ainda tenho cabea e calma para tratar dessas coisas. Ainda
no fiz o testamento, nem decidi como dispor dos meus bens.
S queria poder varr-los da face da
terra!
   -- No fale numa coisa dessas, Mr. Heathcliff -- atalhei.
--  Deixe o testamento em paz por agora... Ainda tem muito
tempo para se arrepender das suas muitas injustias! Nunca
esperei v-lo sofrer dos nervos e olhe em que lindo estado os
tem agora, e quase exclusivamente por sua culpa. A maneira
como passou estes trs dias chegava para deitar abaixo um
Tit. Coma qualquer coisa e v descansar. Basta ver-se ao
espelho, para perceber como est precisado das duas coisas.
Est com as faces chupadas que nem um esfomeado, e esses
olhos raiados de sangue ainda ficam cegos de to pouco
dormirem.
 -- No tenho culpa de no conseguir comer nem descansar --
retorquiu. -- Asseguro-te que no  de propsito, e f-lo-ei
assim que puder.  o mesmo que pedires a um homem que se
debate nas ondas que se ponha a descansar a duas jardas da
praia! Primeiro tenho de chegar, e s ento posso descansar.
Pensando melhor, deixa l Mr. Green; quanto a arrepender-me
das minhas injustias, como no cometi nenhuma, no me
arrependo de nada. Sou feliz at demais e, no entanto, no o
sou o suficiente. A felicidade que me salva a alma mata-me o
corpo, mas no se satisfaz a si
prpria.
   -- Feliz, patro, o senhor? -- exclamei. Estranha
felicidade a sua! Havia de me ouvir sem se zangar, e eu era
capaz de lhe dar alguns conselhos que fariam do senhor um
homem ainda mais feliz.
   -- Ah, sim? Ento d-mos l.
   -- Como sabe, Mr. Heathcliff -- comecei eu, -- desde os
treze anos que o senhor tem levado uma vida egosta e pag.
Provavelmente, quase nem abriu uma Bblia durante todo este
tempo. Deve, por isso, ter-se esquecido dos ensinamentos que
l vm e pode no ter tempo agora para os procurar. Que mal
faria mandar buscar algum... um padre de qualquer religio,
no importa qual, que lhos explicasse e lhe mostrasse como
errou e se afastou desses preceitos, e como lhe vai ser


difcil entrar no cu, se no se operar em si uma mudana
antes de morrer?
   -- Estou mais agradecido que zangado, Nelly -- disse ele,
--  pois vieste lembrar-me a maneira como desejo ser
enterrado: quero ser levado de noite para o cemitrio; tu e o
Hareton, se quiserem, podem acompanhar-me. E verifiquem
sobretudo se o coveiro segue as minhas instrues quanto aos
dois caixes! No preciso de padre nem de oraes  beira da
sepultura. Ouve bem o que te digo: estou quase a entrar no
*meu* cu; o cu dos outros, no o cobio, nem tem para mim
qualquer valor!
   -- E se o senhor persistir neste jejum obstinado, e morrer
por causa disso, e eles se recusarem a enterr-lo no cemitrio
da igreja? -- argumentei, chocada com tanta indiferena
perante Deus. --  No ia gostar disso, pois no?
   -- Eles no faro uma coisa dessa, -- contraps. -- Mas, se
:, fizerem, tens de me levar para l em segredo; e, se no o
fizeres, irei provar-te, na prtica, que os mortos no
desaparecem de vez!
   Assim que comeou a ouvir movimento dentro de casa,
retirou-se para o seu quarto e eu respirei de alvio. 
tarde, porm, enquanto Joseph e Hareton andavam nos seus
afazeres, veio ter comigo  cozinha e pediu-me com o olhar
tresloucado que me fosse sentar com ele na sala -- precisava
de companhia.
   Recusei, dizendo-lhe sem rodeios que as suas palavras e os
seus modos estranhos me assustavam, e no tinha vontade nem
coragem de ficar sozinha com ele.
 -- Se calhar achas que sou algum demnio, no? disse,
soltando uma gargalhada sinistra. Algo de demasiado terrvel
para habitar uma casa decente?
   E, em seguida, virando-se para Catherine, que tambm l
estava e que se tinha escondido atrs de mim ao v-lo entrar,
acrescentou, com um sorriso sarcstico:
   -- Quer vir comigo, minha linda? No lhe fao mal nenhum.
Ah, no quer? Para si sou ainda pior que o diabo. Pois bem,
*h uma* que no foge da minha companhia! Meu Deus, como ela 
persistente! Oh, maldio! Tudo isto  indizivelmente mais do
que a carne e o sangue podem suportar, mesmo tratando-se de
mim.
   No procurou a companhia de mais ningum.  noitinha
voltou para o quarto e, durante toda a noite e at alta
madrugada, ouvimo-lo gemer e falar sozinho. O Hareton queria
entrar a todo o custo, mas aconselhei-o a ir chamar primeiro o
Dr. Kenneth.
   Quando o mdico chegou, bati  porta e tentei abri-la, mas
verifiquei que estava fechada  chave, e Mr. Heathcliff
mandou-nos a todos para o diabo: sentia-se melhor e queria
ficar sozinho. Assim sendo, o mdico foi-se embora.
   No dia seguinte a tarde chegou chuvosa -- na verdade,
choveu torrencialmente at raiar nova alvorada e quando, de
manh, fiz como de costume a minha ronda  volta da casa,
reparei que a janela do quarto do patro estava aberta e com
as portas a bater, deixando entrar a chuva livremente.
   -- No  possvel que ele esteja deitado -- pensei. -- Com
esta chuva j estava todo encharcado! Das duas, uma: ou j se
levantou, ou j saiu. Mas, em vez de estar com conjecturas, o
melhor  encher-me de coragem e ir l
ver!
   Assim que consegui entrar, com a ajuda de uma outra chave,
precipitei-me para os painis de madeira, pois o quarto estava


:, vazio; corri-os para o lado e espreitei: Mr. Heathcliff
jazia de costas. Estremeci ao ver os seus olhos, to fixos e
to terrveis. Parecia sorrir tambm.
   Nem queria acreditar que estivesse morto, mas tinha a cara
e o pescoo lavados de chuva; os lenis e cobertores j
pingavam para o cho e ele estava perfeitamente imvel. As
portas de tabuinhas batiam com fora e tinham-lhe trilhado a
mo, que repousava no peitoril; mas do golpe no escorria
sangue e, quando lhe toquei, todas as dvidas se dissiparam
-- estava morto e j rgido!
   Tranquei a janela, afastei-lhe da testa os longos cabelos
negros e tentei fechar-lhe os olhos, para fazer desaparecer,
se possvel, aquele olhar medonho e esgazeado, exultante e
quase vivo, antes que mais algum pudesse v-lo. Mas os olhos
resistiam, como se zombassem dos meus esforos, e zombeteiros
eram tambm os lbios entreabertos e os dentes brancos,
afiados! Possuda de outro ataque de cobardia, gritei por
Joseph, que l veio a arrastar os ps e a fazer grande
alarido, mas que se recusou terminantemente a tocar no
cadver.
   -- O diabo levou-lh.a alma -- bradava ele, -- e tanto se me
d como se me deu que lhe leve tambm o corpo! Ena p! Mas que
mau qu.ele parece, a rir-s.assim da morte! -- e o herege do
velho ps-se a arremedar o morto. Cheguei a pensar que se ia
pr aos pinotes  roda da cama; mas logo recuperou a
compostura e, caindo de joelhos, ergueu as mos para os cus e
deu graas ao Senhor por ter devolvido ao dono legtimo e 
justa linhagem o que por direito lhes pertencia.
   Sentia-me abalada com o nefasto acontecimento, e a minha
memria recuou inevitavelmente ao passado com uma espcie de
opressiva tristeza. Mas era o pobre do Hareton, o mais
prejudicado de todos, o que mais sofria. Permanaceu junto do
corpo toda a noite, num desespero sentido, chorando,
acariciando e beijando o rosto que todos os outros nem se
atreviam a olhar; a carpi-lo com aquela dor profunda que
extravasa naturalmente de um corao generoso, embora duro
como o ao.
   O Dr. Kenneth, perplexo, no sabia a que maleita atribuir a
morte do patro. Omiti o facto de ele no ter comido nada
durante quatro dias, receando que isso pudesse trazer mais
complicaes, e, alis, estou convencida de que no o fez de
propsito -- isso fora a consequncia da sua estranha doena,
e no a causa.
   -- Enterrmo-lo, para escndalo de toda a vizinhana,
exactamente :, como era seu desejo: o cortejo fnebre
resumiu-se a Earashaw, eu prpria, o coveiro e seis homens
para carregarem o caixo.
   Os seis homens foram-se embora assim que o meteram na cova,
mas ns ficmos a ver cobri-lo de terra. O Hareton, lavado em
lgrimas, arrancou um punhado de ervas e espalhou-as sobre o
montculo de terra, que agora est to macio e verde como as
sepulturas vizinhas, e espero que o seu morador durma to
profundamente como os destas. Mas as gentes da regio, se
lhes perguntasse, jurariam sobre a Bblia que ele *anda por
a. H quem diga que o encontrou junto  igreja, e no meio dos
brejos, e at dentro desta casa -- fantasias, dir o senhor, e
digo eu. No entanto, aquele velho ali sentado  lareira
garante que, desde a morte de Heathcliff, os v a ele e a ela
 janela do quarto nas noites de tempestade, e h cerca de um
ms, aconteceu-me uma coisa muito estranha.
   Ia eu a caminho da Granja um dia  tarde -- por sinal, uma


tarde muito carregada, a ameaar trovoada -- e ao chegar 
encruzilhada do Alto, encontrei um garotinho com uma ovelha e
dois cordeiros a correr  frente dele; ao v-lo a chorar
tanto, julguei que os animais fossem rebeldes e no se
deixassem guiar.
   -- Que tens tu, menino? -- perguntei.
   -- Est ali o Heathcliff com uma mulher; acol, naquele
monte -- balbuciou. -- Tenho medo de passar.
   Eu c no vi nada. Porm, nem ele nem as ovelhas arredavam
p dali, e mandei-os ir por um caminho mais abaixo.
   Enquanto atravessava sozinho o descampado, o garoto deve
ter criado ele mesmo os fantasmas, de tanto cismar nos
disparates que ouvira contar aos pais e aos amigos. Seja como
for, o certo  que agora no me agrada nada andar sozinha 
noite l por fora, nem ficar sozinha nesta casa soturna. Que
hei-de eu fazer? Quem me dera que eles se resolvam a deix-la
e se mudem para a Granja!
   -- Vo ento morar na Granja? -- disse eu.
   -- Vo sim -- respondeu Mrs. Dean. -- Assim que se casarem,
o que ser no dia de Ano Novo.
   -- E quem fica a viver aqui?
   -- Ora essa! O Joseph, para tratar da casa; e talvez um
criadito para lhe fazer companhia. Ficam na cozinha e o resto
da casa vai ser fechado.
   -- Para gudio dos fantasmas que acharem por bem vir
habit-la -- comentei.
   -- No, Mr. Lockwood -- disse Nelly, abanando a cabea.
-- Creio que os mortos esto em paz, mas no  bom falar deles
com leviandade.
   Nessa altura, ouvimos os gonzos da cancela do quintal --
era o parzinho que chegava do passeio.
   -- *_Estes* no tm medo de nada -- disse por entre dentes,
observando-os da janela. -- Juntos, seriam capazes de
desbaratar satans e todas as suas legies.
   Ao v-los parar, quando chegaram aos degraus, para olharem
para a lua ainda mais uma vez, ou melhor, para olharem um para
o outro  luz do luar, senti um impulso irresistvel de lhes
escapar outra vez; assim, meti uma gratificao na mo de Mrs.
Dean e, ignorando os seus reparos quanto  minha m-educao,
desapareci pela porta da cozinha no preciso momento em que
eles abriam a porta da sala, e teria dado razo a Joseph
quanto  conduta leviana da colega, se ele, felizmente, no me
tivesse reconhecido como um cavalheiro respeitvel, ao ouvir
o som mavioso da moeda que lhe tiniu aos ps.
   O meu regresso a casa foi demorado, devido ao desvio que
fiz pela igreja. Ao olhar para as paredes, verifiquei que sete
meses haviam bastado para a degradao avanar: muitas eram as
janelas que ostentavam negros buracos onde faltavam vidraas;
aqui e alm havia telhas fora do alinhamento que no tardariam
a ser arrancadas pelas intempries do Outono.
   Procurei, e no tardei a encontrar, as trs lpides na
encosta que desce para o brejo: a do meio, cinzenta e meio
coberta pela urze; a de Edgar Linton, por enquanto s debruada
de ervas e musgo; a de Heathcliff, ainda nua.
Por ali me demorei, sob um cu propcio, observando as
borboletas que esvoaavam entre as urzes e as campainhas do
monte, ouvindo a brisa suave que de mansinho agitava a relva,
perguntando-me como seria possvel algum imaginar que r
1acabras deambulaes perturbassem o sono dos que ali
repousavam na terra tranquila.


